por Luiz Carlos Azenha
ELDORET - QUÊNIA - "Culturalmente e intelectualmente, a elite de todos os partidos continua a competir por favores do Ocidente, cujos líderes e pensadores agem como um grupo de referência, originadores dos conceitos, modelos, paradigmas e tribunal final de apelações".
Assim termina o livro "Descolonização e independência no Quênia - 1940-93", que trata da história recente deste país. Eu não pude confirmar a informação que li em outro livro, segundo a qual os quenianos são vistos com desconfiança pelos vizinhos por serem notadamente pró-ocidentais.
De qualquer forma, pela TV do hotel assisti a alguns minutos da sessão do Parlamento do Quênia e fiquei assustado: parecia uma sessão da câmara dos lordes britânicos, a não ser pela cor da pele dos deputados. Os sessenta anos de presença britânica no país resultaram numa elite que imita descaradamente os modos dos colonizadores, inclusive no sotaque e no modo de vestir "proper", terno e gravata mesmo sob calor de cinqüenta graus.
Minha falta de informação sobre a África se revelou mais uma vez na viagem pelo interior do país. Não, aqui eles não morrem de fome. Pelo contrário: os mercados estão lotados de alimentos colhidos nas pequenas propriedades. Quase todo mundo aqui tem uma pequena propriedade e algumas cabeças de gado.
O país todo parece viver na informalidade. As feiras são gigantes e nela se vende de tudo: de sapatos a ternos, de ovos a gado. Nas bancas de camisetas fazem sucesso Che Guevara e Bob Marley. É curioso que nenhum dos líderes da independência africana seja celebrado pela população mas não parece difícil explicar o motivo.
"Not yet uhuru", escreveu um político do Quênia mesmo depois da independência: "Liberdade, ainda não". Ele queria dizer que se livrar dos britânicos não seria o passo definitivo na luta política dos africanos.
Não se pode menosprezar as conquistas dos africanos. Há cinqüenta anos os negros daqui não podiam morar nas cidades de seu próprio país, nem freqüentar os hotéis que eram exclusivos dos brancos. Como disse um funcionário público queniano, se houvesse Justiça a rainha Elizabeth teria respondido por crimes contra a Humanidade pelo gulag implantado pelos britânicos no Quênia.
Porém, a independência ainda não trouxe os resultados esperados para a grande maioria da população, especialmente quando se trata de emprego, saúde e educação. Não há fórmulas mágicas e os quenianos terão de encontrar seu próprio caminho. Pessoalmente, acho que está faltando um Lula africano - ou um Hugo Chávez - capaz de formular um projeto de desenvolvimento que seja autônomo em relação ao FMI e aos "sábios" ocidentais.
Fonte: Vi o Mundo



























































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