quarta-feira, 23 de julho de 2008

Guimarães Rosa, o Sertanejo

___________________________________________________________________


foto de Guimarães Rosa

"Você precisa estar aberto para o texto artístico, seja ele de literatura, Guimarães Rosa ou não, seja ele escultura, música, teatro ou cinema. Eu discordo totalmente de que um autor escreva para um público culto ou ilustrado, um autor deve escrever para todo tipo de público", defende a professora da Unicamp e especialista na obra do autor, Suzi Frankl Sperber

por Juliano Domingues

Radiogência NP

O escritor João Guimarães Rosa dedicou quase toda a sua vida para relatar a vida dos excluídos. Figuras como jagunços, malandros, prostitutas, loucos, crianças, pobres, e principalmente o sertanejo do estado de Minas Gerais, fazem parte de suas obras.

No dia 27 de junho foi comemorado o centenário do nascimento daquele que pode ser considerado um dos maiores escritores e pesquisador brasileiro. De acordo com a professora da Universidade de Campinas (Unicamp) e especialista na obra do autor, Suzi Frankl Sperber, “Guimarães Rosa foi simplesmente um autor fascinante. Aquilo que ele escreveu é belo, a pessoa pode entender ou não entender, mas se ela for lendo e, sobretudo, se ela o fizer em voz alta, ela ficará comovida”.

Em entrevista à Radioagência NP, Suzi fala que o autor trouxe muitos acréscimos para a literatura brasileira, mas defende que não é preciso ser um especialista para ler Guimarães.

Radioagência NP: Qual a importância de Guimarães Rosa para a literatura brasileira e qual o acréscimo que ela traz para a mesma?

Suzi F. Sperber: Guimarães Rosa aproveitou elementos profundos daquilo que é o brasileiro, e não o brasileiro culto, mas o inculto. O brasileiro inculto tem uma série de características muito especiais e pouco conhecidas. E ele percebeu que esse ser comum, simples, conhecido como caipira, também pensa. Sim, que ele pensa muito e pensa principalmente na vida, nos valores e caminhos da existência. Os caipiras dele não são seres bobos, ou “jecas-tatus”. Eles são seres profundos.

Por que essa paixão de Guimarães Rosa pelo caipira de Minas Gerais?

Porque ele mesmo se inclui enquanto brasileiro nascido no interior. As linhas de força que ele percebeu nesses seres do interior, eram linhas de força que estavam nele também. Ele foi estudar e aquilo que ele coloca na obra, seja nos contos ou nos romances, tem que vir com essas duas vertentes fortes. Eles podem até ser simples, mas são simples de uma força e beleza própria .

Você lia Guimarães Rosa para os seus filhos pequenos. Por que você fez isso?

Porque eu achava que eles entenderiam. O adulto cristaliza o seu conhecimento de língua e se torna intransigente, enquanto que a criança está aberta para a linguagem, e, portanto, não estranha neologismo, nem arcaísmos, porque tudo é novo para ela. Para a criança usar a palavra poética é tão complicado quanto eu usar a palavra paralelepípedo, por exemplo. A criança está aberta para o texto, e é por isso que qualquer leitor, independente de sua formação, poderá ler Guimarães Rosa.

Então você discorda das pessoas que dizem que é preciso preparo para ler o autor?

Discordo totalmente. As leituras que você tiver feito anteriormente não vão te ajudar a compreender Rosa. Você precisa estar aberto para o texto artístico, seja ele de literatura, Guimarães Rosa ou não, seja ele escultura, música, teatro ou cinema. Eu discordo totalmente de que um autor escreva para um público culto ou ilustrado, um autor deve escrever para todo tipo de público.

Você acha que é preciso um incentivo para que as pessoas leiam mais autores como Guimarães ou Machado de Assis? Porque o brasileiro hoje lê mais, mas o que você vê são pessoas lendo os best seller´s de livraria que acrescentam muito pouco para quem lê.

Eu acredito que as pessoas não devam ser desqualificas pelo o que lêem. Por que veja que da maneira como você fala, eu pensaria algo como “diz-me o que lê que eu dir-te-ei quem és” e não é assim. Eu posso gostar de autores muito diferentes, desde porcaria até coisas muito boas, e posso ter momentos em que eu preciso da porcaria, assim como eu posso ter momentos em que eu preciso da coisa muito boa. Eu acho que todos têm o direito e essa possibilidade e não devem ser desqualificados pelo o que lêem. O que deve ser proporcionado é educação, oportunidades de conhecimento e é preciso que algum dia o mundo reconheça que a língua portuguesa é uma língua de literatura.

Fonte: Agência Brasil de Fato


Share/Save/Bookmark

Nenhum comentário: