segunda-feira, 10 de março de 2008

Comprem, americanos, comprem - Por Márcia Pinheiro

Quem diria. O templo do consumo global está avesso às compras. O presidente dos Estados Unidos, George W.Bush, praticamente vem implorando para os cidadãos voltarem a bater pernas nas lojas. Quem já esteve em Nova York ou Miami sabe do que estou falando. Mesmo os mais indiferentes a novidades ficam seduzidos pelas vitrines, até ao ponto de irritação: “Para que eu preciso de mais uma máquina fotográfica, que daqui a um mês estará defasada tecnologicamente?”.

A situação está feia.

O Departamento de Trabalho dos Estados Unidos informou, na sexta-feira 7, que no mês de fevereiro foram fechados 63 mil de postos de trabalho. Foi a maior redução de vagas desde março de 2003. Não há dúvidas. O país com o maior Produto Interno Bruto do mundo está em recessão. No mesmo dia, o Federal Reserve informou que aumentará para 50 bilhões de dólares o valor de cada empréstimo emergencial que faz às instituições financeiras em dificuldades. A idéia é os bancos repassarem os empréstimos à população, para ressuscitar a economia. O efeito é duvidoso.

Coloque-se no lugar de um cidadão americano classe média. Imagine que você tenha financiado, há dois anos, um apartamento de 500 mil dólares. Hoje, ele talvez valha metade disso. E a sua dívida está lá, do mesmo tamanho. Mesmo você que venda o imóvel, sairá no prejuízo. É um beco sem saída.

Se tiver economias, pode ter embarcado em fundos que abrigavam as garantias de tais hipotecas, com a anuência do Fed e das agências de classificação de riscos. Pode ter perdido tudo.

Enquanto isso, a Câmara dos Representantes dos EUA interroga executivos de bancos que ganharam milhões de dólares em bônus, enquanto a farra ainda não havia sido desnudada. O mercado precisa ou não de mais regulação?

Dica econômico cultural

Meados da década de 20. Houve um boom imobiliário especulativo na Flórida. Pântanos eram vendidos a centenas de quilômetros das praias de temperaturas amenas o ano todo. Com direito a toda fantasia publicitária de que o mar estava ali na esquina. A ganância e a ilusão de enriquecer da maneira mais fácil e rápida possível foram os ingredientes da crise do final da década. O que aconteceu na região sul dos EUA é apenas um aperitivo. O Colapso da Bolsa, de John Kenneth Galbraith, conta tudo sobre o crash de 1929. O economista é o mais perfeito tradutor da máxima de que grana e racionalidade não costumam andar de mãos dadas. A edição brasileira, da Pioneira, ainda é encontrada em sebos on-line.

Na batida da semana

O até agora “descolado da crise Brasil” vai ter o que comemorar. Na terça-feira, será divulgado o IPCA (índice parâmetro para o sistema de metas de inflação) de fevereiro. De acordo com economistas do mercado, deve cair cerca de 0,1 ponto porcentual, para 0,45%. Na quarta-feira, vem o PIB de 2007. Cresceu entre 5,3% (para os mais pessimistas) e 5,6% (a turma da alegria).

Poderia ser melhor? Claro. Mas é quase um milagre ter conseguido contornar a política monetária do Banco Central, que voltou a consagrar a taxa básica brasileira como a mais alta do mundo. A explicação para o topo do pódio estará na Ata do Copom, a ser divulgada na quinta-feira 13, que detalha por que o juro foi mantido estável, em 11,25%, na reunião da semana passada.

A sexta encerra a semana com as vendas do comércio varejista nativo, que também cresceram perto de 9% em janeiro, na comparação com o mesmo mês de 2007. É o crédito, amigo.

Nos Estados Unidos, dois dados chamarão a atenção. Na quinta, saem as vendas no varejo e na sexta, a inflação ao consumidor. Toda a cautela é pouca, porque os preços lá sobem, mesmo com o consumidor quietinho em casa, sem direito a delivery.

Por Márcia Pinheiro - Editora de economia de CartaCapital, Márcia Pinheiro fala às segundas sobre economia e mercado
fonte: Carta Capital
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