quinta-feira, 10 de julho de 2008

A maldita polícia carioca


Enquanto escrevo estas linhas, sinto aquela mistura de estupefação e revolta que, no peito dos cariocas, parece não parar nunca de crescer. No Rio, a sensação da população é de que a qualquer momento um bandido ou um policial pode te pegar.

Nestes últimos anos, meus colegas de redação da Carta Maior tiveram a oportunidade de observar e sugerir a correção de um ou outro “excesso de paixão” cometido em meus artigos de opinião, fato que certamente já me livrou de possíveis processos movidos pelos objetos de meus “elogios”. Escrevo animado pela indignação social e pela convicção política e, às vezes, deixo passar um adjetivo mais contundente ou pesado que, depois, acabo achando melhor que não seja mesmo publicado. Mas, desta vez, peço licença à chefia da redação para usar em meu artigo o título acima e poder proclamar a maldição que paira sobre a polícia, sobretudo a Polícia Militar, no Rio de Janeiro.

Quais criaturas, senão seres malditos, podem ter uma atuação tão desastrosa no seio de uma coletividade? Qual setor da sociedade carioca, hoje, causa tanto estrago quanto nossa PM? Sim, existem os traficantes e bandidos, é claro, mas até as pedras (de crack) da rua sabem que o tráfico somente prospera sob a indiferença, a conivência ou até mesmo a proteção da polícia corrupta. Todo carioca que não é ruim da cabeça ou doente do pé sabe que o “Comando Azul” é sócio de um leque de negócios que vai da exploração da prostituição ao transporte coletivo pirata, da venda de produtos contrabandeados à instalação e cobrança ilegal de tevê a cabo, da venda de segurança privada aos comerciantes à criação de milícias e esquadrões da morte.

Mas não quero repetir aquilo que todos os que vivem no Rio de Janeiro já sabem, e sim relatar alguns fatos recentes que falam por eles mesmos:

1) No início da noite do último domingo (6), a advogada Alessandra Amorim Soares, acompanhada pelos dois filhos, passava de carro por uma das principais ruas da Tijuca (Zona Norte) quando foi ultrapassada por um automóvel em fuga. Ao perceber que uma viatura da PM perseguia o veículo, ela encostou seu carro para dar passagem aos policiais.

Inexplicavelmente, no entanto, ao vê-la parar, dois policias abriram fogo contra seu carro, disparando 16 vezes e atingindo com três tiros (um deles na nuca) o menino João Roberto Amorim, que faria quatro anos no fim do mês, mas morreu e foi enterrado nesta terça-feira (8) no Rio. Os policiais alegam que Alessandra se colocou em meio à troca de tiros com os bandidos em fuga, mas as câmeras de rua da Prefeitura mostram claramente que os PMs pararam a viatura e desceram para executar, sem chance de defesa ou argumentação, quem estivesse dentro do carro. Por sorte, a outra criança (um bebê de nove meses) e sua mãe foram atingidos apenas por estilhaços.

2) Segundo depoimentos de moradores da Favela do Muquiço, no bairro de Guadalupe (Zona Norte), várias viaturas da PM entraram na comunidade durante uma operação policial realizada no dia 28 de junho. Ao perceber a aproximação de uma delas, um homem, que portava um rádio-transmissor, correu em direção a um beco. Sem sair do carro, segundo as testemunhas, os policiais abriram fogo a esmo na direção do homem em fuga, atingindo na cabeça o menino Ramon Fernandes Domingues, de seis anos, que estava na porta de casa com seu pai. Após uma agonia de dois dias, que incluiu três hospitais e uma intervenção cirúrgica, o menino morreu. Os policiais alegam que o disparo que matou Ramon partiu dos traficantes, mas o laudo técnico realizado pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli concluiu que o tiro partiu do local onde se encontrava a PM.

3) Por volta das quatro da madrugada do dia 14 de junho, a engenheira Patrícia Amieiro, de 24 anos, desapareceu após sofrer um suposto acidente no qual o seu carro despencou no Canal de Marapendi, na Barra da Tijuca (Zona Oeste). Dois policiais militares que faziam ronda no local se apresentaram como testemunhas oculares do acidente, e disseram não ter encontrado Patrícia dentro do automóvel, sugerindo que ela pudesse ter sido arrastada pelas águas. O trabalho dos peritos do Centro Tecnológico do Exército, no entanto, encontrou dentro do carro da engenheira marcas de impacto e fragmentos de pelo menos três projéteis de calibres diferentes. Além disso, o vidro dianteiro do carro havia sido quebrado por uma pedra, possivelmente para ocultar marcas deixadas pelos disparos.

Mais tarde, as investigações comprovaram que não apenas uma, mas três viaturas da PM estavam no local na hora do acidente (uma delas pertencente ao batalhão de um outro bairro!). Com a perícia feita nas três viaturas, foram encontradas marcas de sangue recente, que está sendo analisado. Na segunda-feira (7), uma testemunha afirmou que Patrícia (que, segundo familiares, naquele dia estava sem seus documentos de motorista) foi alvejada pelos policiais ao não parar numa blitz (não autorizada pelo comando) que havia sido montada pelas três viaturas da PM. Somente então, ela teria perdido o controle do carro e despencado no canal. Até agora, o corpo da jovem ainda não foi encontrado.

4) Também no dia 28 de junho, quando já ia alta a madrugada, dois grupos de jovens entraram em conflito na saída de uma boate que é o templo dos playboys brigões em Ipanema (Zona Sul), num dos endereços mais caros do Rio. No meio da pancadaria, um policial militar que trabalhava como segurança particular de um dos brigões (filho da procuradora que atuou no processo contra Fernandinho Beira-Mar) sacou sua arma e atirou três vezes. Duas para o alto, e uma no peito do estudante e atleta de remo Daniel Duque, que tinha 18 anos e morreu poucos momentos depois no hospital. O policial alega que atirou em legítima defesa, mas testemunhas afirmam que ele não deu chance de reação a Daniel. Segundo a perícia, o disparo foi efetuado a menos de três metros de distância do rapaz.

Na função de jornalista, eu poderia escrever aqui páginas e páginas sobre os problemas de segurança pública no Rio de Janeiro, poderia escrever como são ridículos e revoltantes os repetidos pedidos de desculpas feitos pelo governador Sérgio Cabral Filho e pelo secretário José Mariano Beltrame. Mas, me limito a, como cidadão, registrar esses quatro fatos recentes que mostram a maldição de nossa PM, que é um bando solto nas ruas, capaz de tirar a vida de ricos, remediados e pobres, sem distinção, embora os últimos tombem em muito maior número. Enquanto escrevo estas linhas, sinto aquela mistura de estupefação e revolta que, no peito dos cariocas, parece não parar nunca de crescer. No Rio, a sensação da população é de que a qualquer momento um bandido ou um policial pode te pegar.

Uma hora depois da execução do menino João Roberto, eu, que também moro na Tijuca, passei pela mesma rua da tragédia, sem imaginar o que havia acontecido. Vinha no carro com familiares, entre eles meu filho (que também tem três anos e fará quatro, com a graça de Deus, uma semana antes do dia em que João Roberto faria aniversário). Jovem botafoguense, ele vinha feliz do Engenhão, onde nosso time acabara de derrotar o Grêmio. A mesma felicidade, segundo Alessandra Soares, sentia seu filho João, que voltava da festa de um amiguinho antes de ser assassinado. Como pode a vida mudar tanto de uma hora pra outra? Como podem agir dessa forma covarde e despreparada policiais que deveriam proteger a população e, sobretudo, os seus indivíduos mais frágeis? Não dá para deixar de imaginar que essa desgraça poderia ter acontecido comigo. Poderia ter acontecido com qualquer um. Me dói de pensar no sofrimento desse pai e dessa mãe. Maldita polícia carioca!

Maurício Thuswohl é jornalista.

Fonte: Agência Carta Maior


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