
Antes do mensalão, o banqueiro [Daniel Dantas] celebrizara-se como mago das privatizações da era FHC. É dono de segredos insondáveis.
Em 2004, julgando-se perseguido, o dono do Opportunity cogitou abrir o bico. Chegou mesmo a sondar jornalistas dispostos a ouvi-lo. Na última hora, recuou.
Viu-se assediado por prioridades mais urgentes. A bisbilhotagem que encomendara à Kroll acomodara a Polícia Federal nos seus calcanhares.
Privou-se o país de revelações só franqueadas a pessoas que privam da intimidade dos corredores do Opportunity. Gente como Ney Figueiredo.
Ex-consultor da Febraban, da Fiesp e da CNI, Ney Figueiredo fora contratado, quatro anos atrás, para polir a imagem de Daniel Dantas.
Em dezembro de 2004, recém-desembarcado da missão, que se revelou inatingível, Figueiredo lançou o livro "Diálogos com o Poder".
Dedica um capítulo à venda das telefônicas: "(...) O problema das privatizações no Brasil passa pelo financiamento das campanhas eleitorais, tendo como subproduto as malsinadas sobras de campanha e o pedágio do intermediário (...)".
Figueiredo reproduz no livro uma pergunta que Daniel Dantas confidenciara a políticos de sua confiança:
"O que aconteceu com o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira, levando-se em conta a história que circula nos bastidores sobre os famosos US$ 30 milhões que teriam sobrado na operação da Telemar?"
Ricardo Sérgio é aquele personagem que, acomodado numa diretoria do Banco do Brasil, emergira dos célebres grampos do BNDES como o operador que agiu "no limite da irresponsabilidade".
Ney Figueiredo anota em seu livro uma obviedade: a grande fonte das tesourarias eleitorais é o setor público. "Nesse sentido", escreve, "cabe perguntar...:
“...Onde foram parar os US$ 200 milhões que a Itália Telecom, como sócia da Brasil Telecom [à época controlada por Daniel Dantas], teria pago a mais pela Cia. Riograndense de Telecomunicações (CRT)?"
Os indícios de sobrepreço na operação de venda da CRT constam também de uma carta explosiva. Redigiu-a o publicitário Mauro Salles.
Contratado por Daniel Dantas para mediar a alienação da companhia telefônica gaúcha, Mauro Salles agendou um encontro do banqueiro com o tucano Pimenta da Veiga, à época ministro das Comunicações de FHC.
Amigo de FHC, Mauro Salles endereçaria ao então presidente da República uma incômoda carta. A certa altura, o publicitário escreveu o seguinte:
"Meu caro presidente, (...) estive com o ministro Pimenta da Veiga (Comunicações), junto com Daniel Dantas (...). O objetivo do encontro era a busca de sintonia (...), visando equacionar os problemas que cercam a compra da CRT".
Mauro Salles foi ao ponto: "Fiquei surpreso quando o ministro afirmou que a nossa interpretação dos posicionamentos do presidente [da República] estavam equivocadas".
Era julho de 2000. Corriam pelos subterrâneos, nas palavras de Mauro Salles, "interpretações maliciosas". Buscava-se “implicar o presidente em uma armação inconcebível."
Insinuava-se que FHC estaria de acordo com o ágio embutido no valor da CRT. Salles arrematou a carta com um apelo ao presidente:
"Preciso de uma palavra sua para dissipar as dúvidas levantadas pelo ministro Pimenta (...). Desculpe o desabafo. E não me deixe sozinho nesta luta em que estou (...) procurando defender (...) o próprio interesse nacional".
Não se sabe se Mauro Salles obteve de FHC “palavra” capaz de “dissipar as dúvidas”. Além da carta, o publicitário contratado por Daniel Dantas produziu um dossiê.
O papelório embrulha a transação da CRT numa bruma de suspeição. Sobre a operação, Daniel Dantas diz, em privado, coisas que se nega a repetir em público.
O Nero da Antigüidade responsabilizou os cristãos pelo incêndio que consumiu Roma. Daniel Dantas, o Nero pós-moderno, traz na ponta da língua uma penca “culpados”.
Até aqui, o "Senhor Encrenca" vem conseguindo administrar o próprio silêncio. Resta saber se, levado à fogueira que ajudou a acender, aceitará queimar sozinho.
Fonte: Diário Gauche



























































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