quinta-feira, 10 de julho de 2008

A crise mal mostrou a cara

da Redação CartaCapital

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) divulgou, na segunda-feira 30, o seu famoso relatório anual. De acordo com o documento, o planeta vive a maior turbulência desde a Segunda Guerra Mundial e há risco relevante de ter um longo período de estagflação, ou seja, inflação combinada com desaceleração econômica. O BIS alerta para a necessidade de os países emergentes elevarem o juro, para interromper o processo de “exportação” de inflação para o restante do mundo. Explicita também o risco embutido no preço do petróleo, que teima em buscar a cotação de 150 dólares o barril.

O BIS deixa claro ainda o dilema dos bancos centrais dos países desenvolvidos: elevar o juro, para conter a inflação, ou baixá-lo, para evitar a recessão. Na quinta 3, o Banco Central Europeu (BCE) saiu do muro. Aumentou a taxa básica em 0,25 ponto porcentual, para 4,25% ao ano. O presidente da instituição, Jean-Claude Trichet, optou por combater o dragão da inflação, depois de deixar o custo do dinheiro inalterado por um ano.

Já o Federal Reserve não dá sinais de que voltará tão cedo a praticar uma política monetária menos frouxa, com juro em 2% ao ano. Mesmo porque o mercado de trabalho anda bambo. Em junho, houve perda de 62 mil vagas. “Foram seis meses consecutivos de queda do emprego, a evidência mais forte de que a economia americana está em recessão, cuja profundidade e duração ainda não é possível dimensionar”, analisa Peter Morici, professor da Universidade de Maryland.

“A crise bancária, a alta dos preços do petróleo e o enorme déficit comercial dos EUA com a China levam os empresários a realocar a produção para a Ásia e evitar o tsunami americano”, diz. O banco Goldman Sachs espera que a taxa de desemprego nos EUA atinja 6,4% ao fim de 2009, ante os atuais 5,5%. É claro que cidadãos sem renda tendem a cortar gastos e têm sido expulsos do mercado de crédito.

A crise bancária aprofunda-se porque os empréstimos emergenciais dos bancos centrais para as instituições financeiras servem apenas para cobrir perdas com títulos podres, os filhotes da crise hipotecária americana. Não contemplam, portanto, a exposição dos bancos nos mercados futuros, lembra Maryse Farhi, do Instituto de Economia da Unicamp. As autoridades responsáveis fazem o que podem para mostrar algum controle sobre os negócios.

Na quinta-feira 26, a Commodity Futures Trading Comission (CFTC) baixou medida para se revestir de poderes emergenciais. Isso permitiria, em tese, coibir operações extremamente especulativas, a distorcer os preços das commodities, sobretudo o petróleo. Tal atitude foi tomada apenas quatro vezes pela CFTC.

O mercado mostrou ceticismo à iniciativa. “Se a CFTC simplesmente quis deixar os investidores em pânico, foi um bom início”, diz Steve Brise, da Insider Capital, um dos maiores especialistas mundiais em contratos futuros. “Se houver choques de baixa de preços, os altistas ficarão enjaulados. Já estive nessa posição e não é nada divertido”, afirma.

Também Maryse é cética, porque a principal questão reside na desvalorização do dólar. E, para ela, dificilmente o Fed elevará o juro, para valorizar a moeda americana, por causa da situação complicadíssima do sistema bancário. “Os balanços ainda não estão limpos”, afirma a economista. “Como não dá para subir o juro, todos estão tentando segurar as expectativas no grito”, afirma.

Fonte: Carta Capital
Share/Save/Bookmark

Nenhum comentário: