Obama e Hillary, personagens em busca de um autor
Luiz Gonzaga Belluzzo
Barack Obama e Hillary Clinton disputam cabeça a cabeça a indicação da candidatura democrata à presidência dos Estados Unidos. Um e outro ainda devem um programa que faça sentido para a fração não fundamentalista e laica do povo americano. Fartos das estripulias mal-sucedidas dos neo-conservadores, os liberais andam à cata de um personagem digno da autoria de Franklin Delano Roosevelt.
Tempos atrás escrevi na CartaCapital: na gramática política norte-americana, os liberais, na boa tradição do excepcionalismo yankee, são adversários do liberalismo econômico e amigos das liberdades civis e da democracia política. Adeptos da intervenção do Estado na economia, assim como os progressistas, não trepidam em apontar os riscos do capitalismo entregue a si mesmo, ou seja, aos excessos e às insuficiências do mercado desregulado. Os excessos do capitalismo foram gestados ao longo das últimas décadas. Estão, agora, a estrebuchar na agonia da destruição de renda e de riqueza. A deflagração da crise financeira que ora atormenta a vida dos americanos da classe média para baixo não é um acidente de percurso, mas o resultado previsível da aliança entre a inventividade gananciosa dos mercados financeiros e o descaso das autoridades encarregadas de vigiar os gênios bagunceiros.
Na contracapa dos excessos, agravaram-se as desigualdades inscritas na sintaxe da sociedade de classes. Críticos das forças plutocráticas que se concentram no Grand Old Party, o Partido Republicano, os liberais acusam os conservadores de transformar o Estado num instrumento autoritário de enriquecimento e de dominação dos grandes grupos privados. Mais recentemente, eles incluíram em seu cardápio de indignações cívicas o papel desempenhado pela grande mídia na interdição do debate público e, dizem eles, na falsificação dos princípios que guiaram os Founding Fathers na constituição da democracia americana. Al Gore, em seu livro "Assalto à Razão", já traduzido para o português, entra de sola na monopolização do Legislativo e do Executivo pelos endinheirados e repudia com veemência a "espetacularização" da política promovida pelos meios de comunicação.
A mídia conservadora e seus ideólogos sugerem que os liberais são tíbios com os inimigos externos e, internamente, intrometidos na vida econômica dos cidadãos livres. Uma falsificação histórica: Kennedy e Johnson comandaram a escalada militar no Vietnã e Clinton não trepidou em dar curso às intervenções humanitárias que se seguiram ao colapso da União Soviética.
Quase sempre as razões do Império convivem com políticas progressistas no âmbito doméstico. É possível que Obama ou Hillary baixem o tom da belicosidade estridente de Bush Filho e tratem de buscar mais consenso e negociação do que conflito com parceiros e inimigos. Não é provável, no entanto, que as boas intenções superem as forças que movem o Poder Americano no momento em que a América Profunda imagina estar ameaçada.
Gente mais velha, como eu, há de se lembrar das contradições do governo de Lindon Johnson. Ele lutou e perdeu a batalha da Grande Sociedade, o programa social mais ambicioso do pós-guerra. Venceu a disputa com o ultra-reacionário George Wallace pelos direitos civis e políticos dos negros. Na política externa, foi apanhado na armadilha da guerra do Vietnã e deixou suas impressões digitais no golpe de 1964 no Brasil.
Ainda assim, são respeitáveis as credenciais progressistas dos liberais americanos. Foram outorgadas pelo sucesso das políticas sociais e econômicas do New Deal sob a liderança de Franklin Delano Roosevelt. Na convenção do Partido Democrata, em 1936, às vésperas da primeira reeleição - ele ainda seria eleito mais duas vezes - Roosevelt pronunciou um discurso que hoje seria considerado populista e demagógico pela direita global. Ele dizia que a moderna civilização depois de demolir as velhas dinastias, erigiu novas. "Novos impérios foram construídos a partir do controle das forças materiais. Mediante o novo uso das corporações, dos bancos e da riqueza financeira, da nova maquinaria da indústria e da agricultura, do trabalho e do capital - nada disso sonhado pelos fundadores da pátria - a estrutura da vida moderna foi totalmente convertida ao serviço da nova realeza. Não havia lugar nos seios da nova nobreza para abrigar os milhares de pequenos negócios e comerciantes que desejavam fazer um uso sadio do sistema americano de livre iniciativa e busca do lucro".
Roosevelt atacou os "príncipes privilegiados" das novas dinastias econômicas. "Sedentas de poder elas se lançaram ao controle do governo. Criaram um novo despotismo envolvido nas roupagens da legalidade. Mercenários a seu serviço trataram de submeter o povo, seu trabalho e sua propriedade". Aqui é preciso acompanhar a avaliação de Frederico Mazzuchelli, em seu trabalho recente, "Os Anos de Chumbo". Ele diz, com razão, que Roosevelt foi um reformador. Em momento algum acenou com a possibilidade da derrubada dos pilares da ordem capitalista. "Seus enfrentamentos com o Big Business foram estabelecidos de maneira precisa e só ocorriam quando setores do mundo empresarial procuravam boicotar as iniciativas sociais do New Deal ou miná-lo politicamente". Nesses momentos, sim, Roosevelt erguia sua voz e dramatizava sua retórica, ou tomava medidas que se chocavam com o ideário conservador.
Paul Krugman, em seu magnífico livro "A Consciência de um Liberal" apelidou o período que vai dos anos 30 ao início da década de 50 de "A Grande Compressão". Krugman fala da rápida "compressão" das desigualdades de renda. A "grande compressão" envolveu não só o crescimento mais rápido dos rendimentos das categorias sociais situadas (ou sitiadas?) na base da pirâmide, como decorreu também do "empobrecimento" das camadas superiores. Esses dois movimentos foram sustentados por três forças, na opinião de Krugman: de baixo para cima, a sindicalização incentivada por Roosevelt impulsionou a elevação dos salários reais e, ao mesmo tempo, o Social Security Act de 1935 passou a proteger os mais débeis "dos sérios problemas criados pela insegurança econômica na sociedade industrial"; de cima para baixo, a brutal elevação da carga tributária e o caráter progressivo dos impostos surrupiaram a renda dos mais ricos; finalmente, a baixa intensidade da concorrência externa permitiu às empresas americanas abiscoitar os lucros proporcionados pela sustentação da demanda interna.
A arquitetura capitalista desenhada nos anos 30 sobreviveu no pós-guerra e, durante um bom tempo, ensejou a convivência entre estabilidade monetária, crescimento rápido e ampliação do consumo dos assalariados e dos direitos sociais.
O sonho durou trinta anos e, no clima da Guerra Fria, as classes trabalhadoras gozaram de uma prosperidade sem precedentes. Até meados dos anos 70, é bom relembrar, o crescimento econômico foi acompanhado do aumento dos salários reais, da redução das diferenças entre os rendimentos do capital e do trabalho e de uma maior igualdade dentro da escala de salários.
fonte: Terra Magazine



























































Um comentário:
A sigla pela qual é conhecido o Partido Republicano, GOP, significa Grand Old Party e não Great Old Party como diz o autor. Uma pequena correção em um descuido. :)
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