Susan Sontag (1933-2004), resquiescat in pace
Quando a pop art ainda engatinhava em reconhecimento crítico, ela
introduziu o mundo ao termo *camp* [link] . Quando a
histeria anti-comunista ainda sustentava a popularidade da guerra do
Vietnã, ela *chamou a estudantada e foi prá rua*
[link] . Ainda no mesmo 1966-67,
enquanto correntes ilustres do pensamento contemporâneo, como a
hermenêutica ou o estruturalismo, debatiam a natureza da interpretação,
ela escreveu *Against Interpretation*
[link] e liberou toda
uma geração de críticos que viriam depois. Quando as conversas sobre a
fotografia ainda se rastejavam no tema da ´realidade´, ela escreveu *On
Photography* [link] e fez disso
o estudo de uma arte. Quando os EUA chegavam, atrasados como de costume,
a pensadores do quilate de *Walter Benjamin*
[link] e *Roland Barthes*
[link] , ela explicou à gringada
porque eles eram fundamentais. Quando a doença a agarrou, ela reagiu com
literatura. Entendeu como ninguém *a ideologia que se formou em torno da
AIDS* [link] . Já com
identidade mundialmente reconhecida como ensaísta, escreveu *uma linda
história de amor*
[link] .
Um dia depois do 11/09, teve a coragem de destoar do coro dos
etnocêntricos que acham que o próprio luto é sempre mais importante e
especial que o luto alheio, e declarou na *New Yorker*
[link] , ´*covardes os terroristas não eram*´ e ´*ataque
contra a civilização não, ataque contra a única superpotência*´. Quando
Bush tinha 90% de popularidade, ela foi das poucas que levantou a voz
contra a invasão do Afganistão. Aturou o ódio da corja.
Judia, jamais deixou de protestar contra o genocídio anti-palestino nos
territórios ocupados. Mesmo assim recebeu o Jerusalem Book Award de
2001. Adorava o Brasil e *conhecia profundamente Machado de Assis*
[link] .
Veio várias vezes e sempre permaneceu alheia ao ti-ti-ti. Dava o recado
e pronto. Susan Sontag tinha, de sobra, a característica que eu mais
admiro num intelectual: estar pronto para defender uma posição
*radicalmente minoritária*.
A última vez que a vi, nas escadarias da *Columbia University*
[link] , ela surpreendeu de novo, e ao invés do
discurso anti-Bush que todos esperávamos, ofereceu um protesto em defesa
dos prisioneiros políticos de Cuba e uma alfinetada em García Márquez,
por defender alguns presos políticos* pero no otros*. Concluindo *meu
livro sobre a violência*
[link] ,
encontrei o *maravilhoso texto de Susan Sontag sobre a dor dos outros*
[link] . Corajosa e contundente
como sempre. Ela era incrivelmente sexy e muito, muito andrógina.
No dia em que ela morreu, Gerald Thomas escreveu *um lindo obituário
recordando seus encontros com ela*
[link] .
Um dia depois de sua morte, *o maior jornal do Brasil*
[link] publicou um *insulto* do Sr. Nélson
Ascher, que abusou do direito de *cuspir* na memória de uma pensadora
que ele não leu (e se leu deve ler de novo, enquanto se dedica,
esperamos, a traduzir poesia e não falar de coisas que não conhece). Não
vou nem linkar a palhaçada do Sr. Ascher. Achem se quiserem. Hoje eu
faço luto por Susan Sontag e nenhum insulto jornalístico vai
perturbá-lo. Rest in peace, Susan.
por Idelber Avelar - fonte: O Biscoito Fino e a Massa



























































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