SÃO PAULO - Um pequeno trecho do discurso que a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, fez na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, no dia 9 de outubro, permite compreender a agenda do governo Bush em seus últimos meses de poder:
"Para fortalecer nossa comunidade panamericana, estamos transformando nossas relações com grandes poderes regionais - com o Brasil e o México e Chile e Colômbia. Estamos identificando interesses comuns que fortaleçam essas democracias como líderes em nossa região e no sistema internacional."
O poder de Condoleezza em um governo que se esvai não deve ser superdimensionado. A OEA não apita nada. Porém, é preciso reconhecer que, dentro do governo Bush, ela faz parte do grupo "liberal", que enfrenta os "falcões" que se reúnem em torno do vice-presidente Dick Cheney.
A política externa que Condoleezza determinar agora provavelmente sofrerá mudanças de grau se os prognósticos se confirmarem e Hillary Clinton se eleger presidente americana. Hillary vem fazendo um discurso "centrista", bastante próximo das posições da secretária de Estado.
Notem que ela escolheu quatro "parceiros" preferenciais na América Latina. Todos eles preservam os interesses essenciais dos Estados Unidos. O discurso diz mais pelo que ela não falou: não citou a Argentina e a Venezuela, por exemplo.
Está claro que a política americana, de um lado, é fazer acordos comerciais individuais com países da região dentro dos termos ditados por Washington.
Na Costa Rica, o acordo comercial com os Estados Unidos foi aprovado em referendo popular por pequena margem, 51 a 48%. Acordos com o Peru, o Panamá e a Colômbia agora dependem de aprovação do Congresso americano.
Acordos com o México e o Chile já existem. O acordo com o Brasil pode se dar na área dos biocombustíveis, já que a ALCA está morta.
Dentro do Mercosul, os americanos fizeram a opcão preferencial óbvia, pelo Brasil, mas dentro da estratégia de longo prazo do Departamento de Estado, de "dividir para governar". O que Rice quis dizer é que Venezuela, Argentina, Equador e Bolívia não são "confiáveis" como democracias. Por quê?
A Venezuela e a Bolívia por motivos óbvios; o Equador porque não pretende renovar a presença de tropas americanas na base militar de Manta quando o acordo vencer, em 2009; e a Argentina porque Kirchner atropelou e venceu os organismos internacionais na renegociação da dívida externa.
Rice não citou a Venezuela no discurso. Mas disse: "As exceções a essa regra [democracia e livre comércio] podem ser barulhentas, mas estão em direção oposta à do Hemisfério em geral."
Ela deixou claro quem os Estados Unidos apóiam: "Há alguns na região hoje que querem cavar em direção a um futuro autoritário, com economias estatizadas. Na verdade, esse é um projeto do passado com uma longa história de aprofundar a pobreza e a miséria. A verdadeira revolução nas Américas hoje está sendo liderada por líderes democráticos responsáveis, como Bachelet e Lula, Vazquez e Uribe, Garcia e Torrijos, Calderon e Saca".
Saca é Antonio Saca, presidente de El Salvador e um dos favoritos de Washington.
Publicado originalmente em 2007 e reeditado em 9 de março de 2008fonte: Vi o Mundo



























































Nenhum comentário:
Postar um comentário