quarta-feira, 14 de maio de 2008

Thiago de Mello: "Humildade vencerá a arrogância"

por Claudio Leal - Fonte: Terra Magazine

"Estou muito comovido", confessa o poeta Thiago de Mello, filho do Amazonas, ao saber do pedido de demissão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Por telefone, o ex-exilado político e um dos maiores poetas do Brasil fala a Terra Magazine de sua indignação.

- Marina é a figura mais luminosa do governo deste País. Primeiro, pela sua coerência com seus princípios, com seus valores éticos e com seu profundo amor à floresta da qual ela é filha.

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A ministra entregou nesta terça sua carta de demissão ao presidente Lula. Em suas palavras, o poeta mantém intacto o antigo compromisso com a floresta amazônica (reafirmado no retorno do exílio), desta vez temperado por críticas ao governo - sem faltar com a poesia.

- Marina é a mesma adolescente que se deitava no chão pra impedir, em Xapuri (AC), a passagem dos tratores que iam derrubar as árvores sob as quais ela nasceu. Atravessou as lutas com Chico Mendes, atravessou o Senado, para defender a luta pela preservação da floresta. Ela compreendeu o alto sentido da luta dos que vivem na floresta e da floresta. No instante em que o aquecimento da terra ameaça - a ciência mostrou com a verdade que lhe é própria, a ciência não brinca -, ela se ergue com a mesma dignidade e firmeza.

Nascido em Barreirinha (AM), autor de Narciso cego, Faz escuro, mas eu canto, Mormaço na floresta e Amazonas: Pátria da água, entre outros livros, Thiago de Mello lamenta o pedido de demissão. E se recorda do último encontro com a ministra.

- Lembro da firmeza com que ela engrandeceu a Conferência Nacional do Meio Ambiente. Falo agora da floresta, mas estava lá, em Brasília. Ela iluminou a consciência de cerca de duas mil pessoas que estavam no salão, inspirando coragem, dignidade e respeito.

Para o poeta, as hostilidades da Casa Civil contra Marina são conhecidas. Com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), cresceram as pressões pela concessão de licenças ambientais para obras de infra-estrutura. A falta de apoio a medidas contra o desmatamento teria motivado novas rusgas. Na carta de desligamento, ela defendeu "a reconstrução da sustentação política para a agenda ambiental." Amigo da ministra, Thiago critica a postura do governo:

- Os que conduzem a proa deste barco não abrigavam, bem na intimidade deste barco, nem no convés de frente, as virtudes defendidas por Marina Silva. É verdadeira a hostilidade da Casa Civil com a nossa companheira! Não foram poucas as vezes que Marina desceu do Planalto fortalecida, mas amargada com a falta de apoio solidário com uma causa como a nossa! A causa da Amazônia, o maior manancial ecológico do mundo.

Antes de desligar o telefone, Thiago de Mello deixa uma mensagem, quiçá desafio. Cita um texto de Marina a ele enviado pouco antes da crise no Meio Ambiente.

- Vou lhe dizer, vou lhe revelar. O que sobrava nela, faltava em membros do governo. Mas muitos estavam solidários. Ela me mandou, há pouco, cinco ou seis linhas, não muito. E me disse: "Thiago, o que mais precisamos é coragem, prudência e humildade". A causa de Marina é a minha. A humildade vencerá a arrogância. A utopia triunfará sobre o Apocalipse.


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