por Idelber Avelar
Sabe aquele jogo de futebol que você está perdendo por 1 x 0 e o zagueiro é expulso? Você faz a substituição para recompor a defesa ou parte para atacar o adversário com a zaga capenga mesmo? Seguindo a tradição do Nosso Guia, que tem a metáfora futebolística para explicar tudo, poderíamos dizer que essa é a situação do Partido Republicano nesta eleição americana. Com um presidente que tem uma das taxas de aprovação mais baixas da história e um candidato que até alguns meses atrás não era exatamente adorado pela base ultra-reacionária que foi chave nas eleições de 2000 e 2004, o Partido Republicano se viu numa encruzilhada: energizar a base direitista ou conquistar os votos dos independentes, que em geral favorecem políticas mais moderadas?
A escolha da até então desconhecida fundamentalista, criacionista e ex-secessionista Sarah Palin, do Alaska, para a Vice-Presidência, foi uma tentativa de matar esses dois coelhos com uma cajadada só. A mulher está à direita de Médici e, sendo uma fundamentalista religiosa, mobiliza a base evangélica do Partido Republicano, que andaria em cacos de vidro por ela. O cálculo foi que, sendo mulher, capturaria uma parcela dos votos de mulheres independentes ou democratas que simpatizavam com a candidatura Hillary. Nada indica que este cálculo tem funcionado, como já prevíamos, aliás. Os números da Gallup mostram que, desde a escolha de Palin, McCain aumentou, é verdade, o seu apoio entre mulheres republicanas, de 85% para 90%. O problema é que para cada eleitor que chegou, um independente pulou para o lado de Obama. Desde a escolha de Palin, McCain perdeu votos entre as mulheres independentes e democratas.
Para piorar a situação, os escândalos foram se sucedendo: Palin, candidata a Vice-Presidente numa chapa que tem como slogan “country first”, teve laços com o Partido Independentista do Alaska, organização secessionista cujo fundador discursa sobre a “maldita” bandeira americana. Apareceu sua perseguição a um policial do Alaska que estava envolvido em divórcio litigioso com sua irmã e a posterior demissão do chefe que se recusava a dispensar o policial. Ontem, o "Trooper-Gate" piorou para ela, com a revelação de emails enviados da sua conta pessoal. Na seqüência, o retrato de “reformista” e “outsider” da governadora foi perdendo credibilidade, quando saíram as notícias de que ela dirigiu um Grupo 527 de Ted Stevens, Senador do Alaska em desgraça por corrupção. Finalmente, a grande bandeira da governadora, ter sido contra a ponte para lugar nenhum (projeto que custaria a bagatela de $398 milhões), revelou-se uma mentira, já que ela foi durante muito tempo uma das defensoras da tal ponte e fez campanha em 2006 em cima do tema.
Mas nada disso importa, claro, porque a adorável Bristol Palin, de 17 anos, está grávida. Há que se dizer que essa gravidez indesejada é um retrato da hipocrisia da direita religiosa, que continua esbravejando contra a educação sexual nas escolas e insistindo no mantra da “abstinência” como solução, para logo assistir aos seus próprios adolescentes apresentarem o exemplo de que isso não funciona. Mas o interessante no episódio da gravidez da moça é que a campanha de McCain viu aí a possibilidade de armar o teatro da indignação moral com a revelação da história e assim desviar a atenção de todos os outros escândalos. Foi a própria campanha de McCain quem revelou a gravidez. Logo depois, passaram às expressões de indignação contra a “exploração pessoal” da vida de Palin. Ninguém da campanha de Obama teceu qualquer consideração sobre a moça. Obama logo deu uma declaração de que não falaria disso e que convidava todos os seus apoiadores a não usarem o episódio. Mesmo os blogs liberais mais importantes – que Obama evidentemente não controla – não insistiram no assunto. Mas durante todo o dia, só se ouvia, da campanha de McCain, a retórica da indignação moral ante a adolescente supostamente massacrada. Pode até ser que cole, posto que vi gente inteligente caindo igual patinho na versão propagada pela campanha de McCain.
No discurso de Sarah Palin ontem à noite na convenção, ficou claro qual será a estratégia: tentar mobilizar raivosamente a base com ataques pessoais a Obama (esqueceu-se, claro, de que menos de três semanas atrás, ela dava entusiasmadas declarações sobre Obama). É a estratégia que funcionou nas duas últimas eleições. Os números, a demografia, o contexto e acima de tudo o candidato democrata hoje são bem diferentes. Mas se alguém esperava que McCain fosse tentar manter a fama de “moderado”, pode tirar o cavalo da chuva. Vão fazer a mesma campanha sangrenta imortalizada por Karl Rove. Resta saber se vai funcionar com os independentes. Os últimos números da Gallup e da Rassmussen -- e eu sempre enfatizo que pesquisas nacionais, em eleições americanas, significam pouco -- mostram que Obama quebrou a barreira dos 50%.
PS: Não resisti e roubei a foto do Sergio Leo.
PS 2: Convido todos os jornalistas da Veja, da Globo e congêneres, com o seu papo de que o Brasil vive um "estado policial", a irem a Minneapolis tentar filmar os protestos pacíficos que foram convocados durante a convenção republicana: centenas de presos, jornalistas independentes jogados na cadeia por cobrir o evento e, pasmem, prisões preventivas em domicílio. Mas é o Brasil que vive um "estado policial", afinal de contas, a Veja tem uma fonte anônima que garante que alguém ouviu Gilmar Mendes falar ao telefone.
Fonte: O Biscoito Fino e a Massa
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