terça-feira, 9 de setembro de 2008

Lá como cá

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por Filipe Coutinho

A CPI das Escutas Clandestinas agora tem um versão no Senado. A desconhecida Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso reuniu-se nesta terça-feira 9 para repetir os mais recentes depoimentos da Comissão instaurada na Câmara dos Deputados. Foram ouvidos o diretor-geral afastado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Paulo Lacerda; o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Armando Felix; e o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa.

Durante a parte pública da sessão, os três disseram exatamente o que foi dito na CPI. O general Felix, por exemplo, até leu o mesmo depoimento da semana passada. Na primeira aparição pública após o afastamento do comando da Abin, Paulo Lacerda negou que a agência tenha feito grampos. “Direi quantas vezes for preciso que não participei nem tomei conhecimento de qualquer irregularidade na Abin”, disse.

No mesmo sentido, o diretor-geral da Polícia Federal defendeu os procedimentos da Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta. “Precisamos desmontar o mito que fazemos escutas indiscriminadas. Não buscamos a tecnologia para fazer espionagens, é para produzir provas”, disse Luiz Fernando Corrêa.

Na prática, a diferença entre a CPI e a Comissão Mista de Inteligência é a participação dos senadores na comissão mista. Isso significa discursos ainda mais eufóricos contra a paranóia dos grampos telefônicos. A depender da vontade do líder tucano Arthur Virgílio (AM), o clima de crise está apenas começando. “Os grampos são mais graves que o mensalão, mais graves que os aloprados, mais graves que tudo”, disse.

Em resposta, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) ironizou o discurso de Virgílio. “Se o senador Arthur Virgílio quer que todas as hipóteses sejam averiguadas, por hipótese é possível que alguém viesse a se ‘auto-gravar”, disse Suplicy. Arthur Virgílio não se deu por satisfeito. Após as negativas de Lacerda, o líder tucano perguntou se o ministro Jobim teria então mentido ao afirmar que a agência tem equipamentos para realizar grampos. Lacerda sugeriu que a pergunta fosse feita ao ministro. O líder do PSDB no Senado se deu por ofendido. “Não me trate como se eu estivesse no pau-de-arara”, reclamou Virgílio.

Assim como na CPI das Escutas, a Comissão Mista de Inteligência pretende ouvir o ministro da Defesa Nelson Jobim, que disse ter provas de que a Abin tem equipamentos para realizar escutas. Na sessão desta terça-feira, a comissão convocou o ex-agente do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), Francisco Ambrósio do Nascimento. Segundo matéria publicada pela revista Istoé no domingo 7, Ambrósio é o suposto autor da gravação de conversa entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

A Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso é composta pelos líderes da maioria e minoria da Câmara e Senado, além dos presidentes das comissões de Relações Exteriores das duas casas.

Fonte: Carta Capital

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