segunda-feira, 8 de setembro de 2008

OBAMA E A BLACKWATER

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Desde que iniciou sua campanha à presidência dos EUA, o candidato democrata tem assegurado que dará fim à intervenção militar norte-americana no Iraque. Caso seja eleito Obama encontrará sérias resistências das empresas que dependem da ocupação daquele país para ter lucro. Dentre as quais se destaca o exército mercenário Blackwater:

"Em retrospecto, se tomarmos distância das diversas histórias menores ocorridas no Iraque em 2005, veremos, numa perspectiva mais ampla, que o país tornava-se com rapidez o epicentro global da guerra privatizada. Uma profusão de grupos fortemente armados, de variadas tendências e agendas, vagava pelo Iraque. Além dos esquadrões da morte apoiados pelos Estados Unidos, agindo com certa pretensão de legitimidade dentro do sistema instalado pelos americanos em Bagdá, havia as milícias privadas antiocupação de diversos líderes xiitas, como Muqtada al-Sadr, os movimentos de resistência de facções sunitas, constituídos em grande parte por ex-oficiais e soldados, e as milícias apoiadas pela Al Qaeda. O governo Bush adotou a política de denunciar certas milícias. 'Num Iraque livre, ex-membros de milícias devem transferir sua lealdade ao governo e aprender a atuar sob o império da lei', declarou Bush. Contudo, no topo da pirâmide das milícias estavam os mercenários oficiais importados, que Washigton levara a Bagdá - as empresas militares privadas, setor liderado pela Blackwater. Embora exigisse o desmantelamento de algumas milícias iraquianas, os Estados Unidos permitiam abertamente que seus próprios mercenários pró-ocupação agissem acima da lei." (Blackwater, Jeremy Scahill, Companhia das Letras, 2008 página 345/346)

Há um século política externa norte-americana tem oscilado entre o isolacionismo e o intervencionismo militar. Até a vergonhosa derrota no sudoeste asiático a construção ou sustentação de regimes pró-americanos vinha sendo feita com tropas regulares dos EUA (Coréia, Vietnã). Após a tragédia do Vietnã, a Casa Branca passou a usar as Forças Armadas regulares no exterior de maneira mais seletiva e sempre com apoio internacional (Panamá, Somália, Kosovo e I Guerra do Golfo).

Nesta nova fase, para satisfazer suas demandas militares quando não podiam usar tropas regulares os ocupantes da Casa Branca começaram a fomentar e financiar guerrilhas de direita. A versão norte-americana de "guerra irregular moderna" (para maiores detalhes sobre o assunto consulte A GUERRA IRREGULAR MODERNA, Friedrich August von der Heydte, Bibliex, 1990) consiste na organização e apoio financeiro a paramilitares, grupos de extermínio, esquadrões da morte. Estas milícias são compostas por pessoas do país que os EUA tentam controlar e os agentes da CIA e militares norte-americanos realizam apenas as tarefas de supervisão, treinamento e consultoria.

O modo de operação da "guerra irregular moderna made in USA" foi amplamente empregado e refinado durante o governo Reagan (El Salvador, Nicarágua). Tem sido aplicado no Iraque há alguns anos, e se intensificou após a nomeação de John Negroponte para embaixador dos EUA naquele país. Segundo Jeremy Scahill isto não ocorreu por mera coincidência. Foi o próprio Negroponte que estruturou a guerra suja norte-americana em El Salvador, onde atuou como "diplomata" (um eufemismo para "senhor da guerra") nos anos 1980.

A criação da Blackwater é conseqüência e sintoma da incapacidade dos EUA de se assumir como império - muito embora tenha práticas e, de certa forma, ambições imperialistas. A contratação e crescimento desta companhia mercenária nos anos Bush indicam que a tendência de privatização dos conflitos norte-americanos pode se consolidar.

Caso realmente pretenda modificar de maneira radical a política externa norte-americana, Obama encontrará na administração da Blackwater e congêneres inimigos mortais. Os contratos destas companhias com o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa dos EUA são bilionários e seus donos certamente querem manter ou aumentar seus lucros.

Mas nem tudo está perdido. Eleito Obama certamente contará com apoio de alguns setores das Forças Armadas regulares dos EUA para colocar em prática sua diretriz de campanha. Ainda existem nos EUA militares que são contra o uso indiscriminado da força e de mercenários como instrumento de política externa.

Com ou sem a utilização de exércitos mercenários a campanha norte-americana no Iraque parece estar condenada ao fracasso. Não poderia ser outro o resultado de tão funesto empreendimento, pois "...as nações se desenvolvem a partir de forças e necessidades internas; nações não podem ser manufaturadas por instituições externas com padrões e práticas estrangeiras, impostas por estrangeiros a um povo ou território." (Bevin Alexander, A GUERRA DO FUTURO, Bibliex, 1995)

É realmente uma pena que os atuais ocupantes da Casa Branca não tenham dado a devida atenção às palavras quase proféticas do historiador militar norte-americano citado:

"Mesmo que os Estados Unidos ocupem um país cujos dirigentes sejam uma ofensa aos governantes norte-americanos e imponham um novo governo, não poderão garantir transformações que levem esse país a uma democracia. As condições que produziram uma estrutura não-democrática reaparecerão, a menos que as forças norte-americanas permaneçam como um exército de ocupação. Em casos como esse, correm o risco de gerar outra guerra tipo Vietnã contra um invasor estrangeiro. Uma intervenção norte-americana para forçar outro povo a ser mais parecido com os norte-americanos pode produzir um alívio temporário, mas não mudanças fundamentais." (A GUERRA DO FUTURO, Bibliex, 1995, página 202).

Quando escreveu sua obra, Alexander constatou que "...o romance norte-americano com a 'construção de nações' está enfraquecendo e tomara que desapareça. Os Estados Unidos fracassaram na formação de uma nação viável no Vietnã do Sul apesar dos enormes gastos e sacrifícios. Quando a administração Clinton disse que construir uma nação era a meta na Somália em 1993, houve protestos em todos os segmentos da sociedade.”

Durante os oito anos que George W. Bush ocupou a Casa Branca o sonho de construir um novo Iraque, sem Saddam Hussein e mais dócil aos EUA, se transformou num verdadeiro pesadelo militar e financeiro. Obama parece pretender dar um fim a este fantasmagórico episódio. Fica uma dúvida. O mal será cortado pela raiz ou, no futuro, um novo presidente republicano contratará a Blackwater para atuar noutro continente?

Fonte: Revista Criação

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