Editorial do jornal mexicano La Jornada em 15/09/2008
Depois de ter se submetido a um referendo revogatório e tê-lo superado com êxito, no início do mês passado, o governo boliviano, encabeçado por Evo Morales, enfrenta agora um golpe subversivo no qual confluem as oligarquias regionais do país e o governo dos Estados Unidos, o qual pretende derrotar a autoridade nacional democraticamente eleita e ratificada nas urnas em agosto. A confrontação entre o governo popular de Evo Morales e a oposição direitista, cujas principais caras visíveis são os governadores de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca, começou com um conjunto de reivindicações autonomistas, passou em meses recentes a saques, bloqueios de rodovias, tomadas violentas de aeroportos e edifícios governamentais e atentados contra gasodutos. A participação da embaixada estadunidense em La Paz nesses atos de desestabilização era tão evidente que Morales declarou persona non grata o embaixador Philip Golderg. Na quinta-feira passada, nas proximidades de Cobija, capital de Pando, uns 26 camponeses que participavam de uma assembléia de apoio ao governo de La Paz foram massacrados e o chefe do Executivo atribuiu o crime a pistoleiros peruanos e brasileiros que haviam atuado com a conivência do governador local, pelo que ordenou o estado de sítio neste departamento, onde enfrentamentos entre partidários do governo e opositores deixaram um saldo de trinta mortos. Com esse pano de fundo, ambas partes iniciaram ontem uma rodada de negociações e os bloqueios de rodovias foram temporariamente suspensos. É pouco provável, no entanto, que se consiga desativar na mesa de negociações o que, disfarçado por falsos regionalismos e reivindicações fiscais dos governadores rebeldes, constitui, na realidade, um plano para derrubar por meio da força o governo de La Paz. Deve considerar-se que os oligarcas bolivianos não estão dispostos a permitir a permanência no cargo de um presidente de origem indígena que empreendeu ações que afetam os interesses dos poderosos e que tentam reduzir a pavorosa desigualdade que afeta ao país sul-americano. De sua parte, Washington encontrou na Bolívia o parceiro mais débil do trio de governos andinos que lhe são adversos -- Venezuela e Equador, além da Bolívia -- e parece concentrar seus esforços em desestabilizar o governo de Evo Morales como primeiro passo para fazer mais contra as autoridades de Caracas e Quito. De fato, na Bolívia atual, as provocações violentas e criminais, as pressões para gerar desabastecimento, a agitação das classes médias para jogá-las contra o governo e a campanha de desinformação em curso têm todas as características dos processos subversivos desenhados por Washington para depor governos que considera adversos, como fez em 1954 contra a presidência de Jacobo Arbenz e em 1973 contra o governo popular encabeçado por Salvador Allende. A nação sul-americana vive, em suma, uma regressão aos tempos do golpismo vulgar que muitos consideravam superado neste continente. Em tal circunstância, o apoio ativo e inequívoco às autoridades de La Paz constitui um dever elementar de todos os governos latinoamericanos. Cabe esperar que essa consideração oriente a participação dos mandatários que se reúnem hoje no encontro convocado pelo Chile para analisar a crise boliviana, na qual participam, além de Evo Morales e de Michelle Bachelete, os presidentes Cristina Kirchner, Luiz Inácio Lula da Silva, Álvaro Uribe, Rafael Correa, Fernando Lugo, Tabaré Vázquez e Hugo Chávez. Fonte: Vi o Mundo ::



























































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