quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Os mumuilas de Angola e o polêmico programa do Jô - fonte: site do Azenha(http://viomundo.globo.com)


Os mumuilas de Angola e o polêmico programa do Jô






A foto acima é de Marco Duarte e foi publicada no site fotográfico Olhares. Segundo Marco, essa etnia de Angola usa o barro das lagoas para tratar a pele.

Os mumuilas são um grupo nômade, sobre os quais muito pouco se sabe mesmo no país africano. Existem pouquíssimas referências a eles na literatura.

Em "Teologia e Cultura Africana no Contexto Sócio-Político de Angola", o autor José Quipongo dá uma breve descrição, curiosamente com o mesmo viés usado pelo escritor Ruy Moraes e Castro, que deu entrevista a respeito dos mumuilas no programa do Jô Soares:

"A mulher mumuila, cuja estética natural do seu busto se apresenta parcialmente nua, é um real deslumbre e encanto para os olhos dos visitantes daquela zona sul de Angola", diz Quipongo.

Este é o livro que levou Ruy a ser entrevistado no programa. Segundo a resenha do livro, ele conta histórias que viveu como taxista no Brasil mas, principalmente, do período em que viajou por Angola, entre 1935 e 1975. Na entrevista, Ruy descreveu hábitos e ritos sexuais ligados aos mumuilas.

Algumas pessoas se divertiram com a entrevista, outras se sentiram ofendidas. No site OVERMUNDO, que não tem qualquer parentesco com este, Mailsa Carla Passos e Aldo Medeiros registraram um protesto:

"Há anos temos trabalhado nos campos da educação e da cultura para que a sociedade brasileira se torne mais justa e mais tolerante com relação às diferenças de crença, de práticas, de modos de ser e de estar no mundo. Então talvez principalmente por isso tenha-nos chocado a entrevista veiculada no “Programa do Jô” com o senhor Ruy Morais e Castro, que se diz escritor (cada um se diz o que bem entende e acredita quem quer), na última quinta-feira, dia 18 de outubro de 2007, na Rede Globo de Televisão. No referido programa, comandado pelo humorista e homem de mídia Jô Soares, convidado e anfitrião comentavam de maneira desrespeitosa e grotesca as práticas culturais de mulheres de tribos angolanas.

O festival de baboseiras e preconceitos, que não vale a pena repetir aqui, fere absurdamente o povo e as mulheres angolanas – e conseqüentemente boa parte das mulheres negras brasileiras – sobretudo através da exposição irresponsável de imagens como se fossem aberrações. O senhor Jô Soares e sua equipe deveriam se informar melhor sobre a história pessoal de seus entrevistados e o conteúdo que supostamente têm a oferecer. Em sua ignorância o senhor Morais e Castro chega a afirmar durante a entrevista – entre outras coisas – que certa região de Angola situa-se perto “da fronteira com a África do Sul”. (!) Ficamos nos perguntando no que aquele conjunto de impropérios, preconceitos, comentários jocosos e degradantes, absolutamente descontextualizados, vem contribuir para um projeto de sociedade mais justa, mais tolerante, mais equânime – projeto com o qual nos identificamos e para o qual temos trabalhado em nossas áreas de atuação profissional e de militância política.

A cena dantesca de dois homens “bem-sucedidos” e com acesso a uma rede de televisão com o poder da Globo (não só no Brasil, mas também em Portugal e em Angola) fere gravemente tanto a nossa constituição quanto o projeto – construído a duras penas – de uma sociedade brasileira aberta à compreensão e ao respeito pelos diversos grupos culturais que a compõem, suas práticas e sua história.

A nosso ver, isto é o que torna a humanidade o que ela é: rica, porque diversa. É impossível silenciar diante desta manifestação torpe de racismo e etnocentrismo. Esperamos como cidadãos e cidadãs uma retratação dos protagonistas deste circo dos horrores, para que possamos continuar nosso trabalho diário junto a jovens, educadores e crianças e reafirmar que o tempo de desqualificar o que não compreendemos e de tratar o diverso como animalesco já passou."



De fato, o mapa mostra que Angola não faz fronteira com a África do Sul, conforme afirmou no programa o escritor Ruy Moraes de Castro.

Dos mumuila, sabe-se que são nômades, pastores de gado e despertam grande interesse de evangelizadores que pretendem convertê-los ao cristianismo. É de uma igreja a estimativa de que existam 500 mil mumuilas em Angola, numa população total de 12 milhões de habitantes. Vivem especialmente no sul, nas províncias de Huíla e Namibe.

Pode-se criticar o tom da entrevista, a oportunidade de discutir as vaginas de uma população em rede nacional de TV, mas não sei se um erro de geografia seria o suficiente para exigir de um entrevistado um pedido de desculpas. Porém, se erros factuais foram cometidos, é importante que se saiba o que é ficção e o que é realidade.

De cara, acho que houve um grande erro na apresentação descontextualizada do assunto. Assim Jô Soares anunciou a entrevista: "Antes de falar do táxi, vamos falar da vida sexual angolana...existe uma relação entre os penteados e as vaginas?" Resposta: "As mulheres de Angola, através do seu penteado, contam a sua vida sexual". Não lhes parece um pouco amplo demais?

E uma das primeiras frases do entrevistado foi a seguinte: "Como o negro começa o relacionamento sexual com garotas com 6, 7 anos, eles gostam de sentir as mulheres apertadas".

É um despropósito essa generalização. Não sei se vale ou não especificamente para os mumuilas, mas sei que não vale para 99,99% dos negros do mundo. Dado que recebi várias mensagens a respeito do assunto, o que me proponho a fazer, com a ajuda de quem quiser ajudar, é confrontar o que foi dito na entrevista com a realidade dos fatos - independentemente de considerar o tema próprio ou impróprio da maneira como foi abordado na televisão.

Quem quiser ver a entrevista completa, voltou ao YouTube.

Aqui, um pequeno trecho com legendas em inglês.

Abaixo, foto de mumuilas publicada na internet por Morgado Viana, José Luis Santos e Victor Carrilho, num site dedicado a retratar os povos de Angola.

A foto abaixo é de um site de Namibe, em Angola, e veio acompanhada do seguinte comentário sobre os mumuilas:

"Raramente se vêm elementos desta tribo na cidade, muito esporadicamente se vêm, a vender ervas para chás, mostram muita inocência e timidez. É uma tribo que tem sido vítima de algum afastamento e discriminação por parte da sociedade angolana devido aos seus costumes muito particulares, um deles é o habito de tomar banho com leite e esterco de vaca…"

Publicado em 23 de novembro de 2007


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Um comentário:

angolana (mumuila) disse...

este sr é um anormal, no tempo que ele viveu em angola o país ainda nao era livre, era uma colonia de portugal e ele nada sabe sobre os mumuilas, so falou mentiras