domingo, 5 de julho de 2009

As direitas e a América Latina

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Nesta altura, é néscio não admitir que uma crise política de proporções está chegando na América Latina, que tenta emergir como uma região com voz própria e onde as respectivas burguesias conservadoras e liberais são os motores dos novos ânimos golpistas. Nunca subestimem o poder dos grandes meios de comunicação. Nem o reagrupamento das direitas latinoamericanas nem seus estilos sanguinários, nem a cegueira de sua ira. A análise é de Sandra Russo, colunista do jornal Página 12.

Álvaro Vargas Llosa está dizendo claramente o que até há pouco se evitava dizer: que o grande perigo, agora, para a América Latina não são os golpes de Estado clássicos, mas os presidentes que ainda que assumam constitucionalmente, uma vez chegados ao governo querem perpetuar-se no poder.

Penso em Chávez, naturalmente. Há pouco Álvaro Vargas Llosa esteve na Venezuela e houve muito tumulto midiático em função de sua suposta detenção no aeroporto. Não houve tal detenção, e a demora tampouco foi tanta (duas horas ele, e uma e vinte e cinco minutos seu pai) para ser chamada de “retenção”. Contudo, os grandes meios da América Latina trataram esses dois episódios (os Vargas Llosa iam a um colóquio “democrata” antichavista, o pólo do pensamento que inspirou há oito anos um golpe de Estado que tiveram de desandar) como se realmente tivessem sido detidos ou ao menos retidos.

Nos grandes meios, os jornalistas seguem chamando aos Vargas Llosa “democratas”. E ao antichavismo também. Visto que estão contra uma “tirania” ou uma “ditadura”, a explicação é que os que defendem a democracia são eles.

Bem: Vargas Llosa está dizendo claramente algo que há que se pôr em consideração com maior amplitude e menor obsessão: os presidentes eleitos democraticamente (Chávez, Correa, Evo; Kirchner ia se somar ao grupo, mas o repentino e virulento antikirchnerismo acaba de derrotar o kirchnerismo nas urnas) que apresentam não só um governo, mas um processo, devem ser derrotados, posto que só a idéia de reformar as respectivas constituições para permitir, mesmo num sistema eleitoral transparente, sua eventual continuidade, é elevada por seus ideólogos ao nível de “novos golpes de estado”.

Nesta altura, é néscio não admitir que uma crise política de proporções está chegando na América Latina, que tenta emergir como uma região com voz própria e onde as respectivas burguesias conservadoras e liberais são os motores dos novos ânimos golpistas. Nos grandes meios, inclusive alguns jornalistas que insistem em se definir como de “centroesquerda”, não falam sobre essas questões e nem falarão, porque o poder discursivo já lhes aplainou as análises: aqui ninguém é “golpista”, os que chamam de climas “destituintes” são idiotas pagos pelo governo. “Centroesquerda”, cabe esclarecer, é uma palavra com a qual se define também e sem que ninguém se assombre ao Acordo Cívico, que tem a Carrió como líder, ainda que pareça que também perderá essa liderança para Cobos. No caso, dá no mesmo. Quero dizer: todas as categorias que conhecemos já não nos dizem nada. Os significados mudaram.

Está um pouco difícil escrever isto. Melhor admiti-lo: isto aqui está sendo escrito com medo.

Nunca subestimem o poder dos grandes meios de comunicação. Nem o reagrupamento das direitas latinoamericanas nem seus estilos sanguinários, nem a cegueira de sua ira. Eu gostaria de saber o que pensam dos direitos humanos os candidatos eleitos. Esse não parece ser um tema que importe aos jornalistas da grande imprensa.

Não creio nas corporações e muito menos na corporação midiática. Há colegas neles que respeito, e outros que desprezo. Sou igualmente correspondida, ainda que a muitos jornalistas com quem compartilho uma leitura da realidade que não coincide com a dos grandes meios nenhuma mídia privada dará trabalho. A liberdade de imprensa há muito que não existe. Os jornalistas dos grandes meios são livres toda vez que replicam suas linhas editoriais. Nenhum deles interpelará Macri ou a De Narváez sobre os julgamentos pendentes dos repressores. Sobretudo todos os que se apregoam como de “centroesquerda” evitarão pôr em evidência suas próprias contradições.

Mas voltemos a Vargas Llosa. Que sempre tem sido o mais recalcitrante da direita. O que disse o mais jovem é que “os povos” estão habilitados a derrocar os governos democráticos se estes se não limitam à alternância do sistema, e lideram processos relegitimados pelo voto popular.

Restam perguntas, muitas perguntas válidas e interessantes neste continente historicamente aprisionado. A democracia por que tanto temos lutado corre riscos, agora sobretudo o de representar um valor ético, quando o que oculta é a reação do poder a outro avanço das “massas”, as “turbas”, as “hordas”. Por liderar a “uma turba” foi que derrocaram Manuel Zelaya. Esse golpe em três dias deixou de ser “tão” golpe para os grandes meios. Há muitas boas reportagens na CNN, firme junto à posição de Obama, que não é Bush e agora se nota. Porém, no Todo Noticias, Juan Miceli primeiro falou de um “golpe que havia que ser condenado”e se indignou ao ver um militar falar desde um tribunal, e no dia seguinte já disse que “Zelaya tampouco. No final das contas terminava seu mandato em janeiro”.

São necessários limites. Andaríveis. Saber qual é a avenida pela qual transitamos os que, realmente, desde muitas posições ideológicas ou políticas, acreditamos que o voto é soberano, e aceitamos triunfos e derrotas como parte das regras do sistema. Há outros, e são muitos, que acreditam em interesses superiores a esse voto. E nunca é a liberdade, esse interesse. Nunca é o bem da nação. Nunca é a democracia. Não se defende a democracia atentando contra o voto popular. E é bom dizê-lo agora e deixar escrito. Agora que o voto popular premiou a Macri e a Narváez. Esse voto adverso também é soberano. Mas seguirá sendo, ganhe quem ganhe. Se há que haver acordo, esse é um bom ponto.

Publicado no Pagina12, em 4 de julho de 2009

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

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