sábado, 6 de dezembro de 2008

Grande Depressão: as artes flertam com a esquerda nos EUA

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A cultura americana foi profundamente influenciada pela Grande Depressão e pelas políticas culturais do governo Roosevelt (1932-1945). Programas de estímulo às artes criaram trabalho para artistas, escritores, músicos, fotógrafos, documentaristas e atores, que retrataram os muitos aspectos daqueles tempos difíceis.

Por Flávia Cesarino Costa, no Valor Econômico



"Mãe Migrante": uma imagem-símbolo

O Federal Writer's Project empregou escritores. O Federal Music Project deu trabalho para milhares de músicos. O Federal Arts Project permitiu que pintores e escultores não apenas produzissem obras de arte, como também trabalhassem em oficinas e aulas de história da arte. Grupos de teatro adulto e infantil, marioneteiros, artistas de circo e de programas de rádio, dança e variedades sobreviveram por anos com essa ajuda.

Boa parte da arte no período da Grande Depressão não podia deixar de refletir problemas como a pobreza rural, a fome e as distâncias sociais. Muitos artistas acabaram politizando o seu trabalho e inclinando-se para o protesto social em defesa de idéias de esquerda. Foi o período em que o sindicalismo teve mais força no país, com a ocorrência de greves importantes.

A fotografia que se tornou um dos mais conhecidos símbolos da época, Mãe Migrante, integra uma série de seis que Dorothea Lange fez em 1936 num dia chuvoso na cidade de Nipomo, na Califórnia. Era a conclusão de um trabalho de documentação em fazendas que empregavam migrantes que ela fazia para promover os programas federais de ajuda rural da FSA (Farm Security Administration).

Outros fotógrafos, como John Collier, Jr., Jack Delano, Walker Evans, Russell Lee, Carl Mydans, Gordon Parks, Arthur Rothstein, Ben Shahn, John Vachon e Marion Post Wolcott produziram um conjunto importante de fotografias, largamente usadas em folhetos do governo, jornais, revistas e livros.

As fotos de Walker Evans revelam comentários irônicos sobre a exploração do trabalhador e o racismo. Outras capturam imagens de automóveis novos e velhos, vazios ou ocupados, como um artefato crucial na vida americana. Valorizando uma simplicidade estática e meditativa, a luz difusa de suas imagens evita efeitos artificiais de enquadramento ou de gesto.

Uma das poucas fotógrafas não patrocinadas pelo governo foi Margaret Bourke-White, que documentava o interior de casas pobres, áreas de classe média e cartazes publicitários com slogans otimistas. Diferentemente de Evans, White enfatizava o poder retórico e artificialista da câmera.

Estilo “americano”

A produção pictórica sobre a Grande Depressão foi dominada pelo que se chamou de "pintura da cena americana", expressão que engloba o regionalismo rural de artistas como Thomas Hart Benton, John Steuart Curry, Grant Wood, Joe Jones, Philip Evergood, e o realismo social urbano e politizado de muralistas como David Siqueros, Diego Rivera, Conrad Albrizio e pintores como Edward Hopper, William Gropper, Mabel Dwight, Harry Sternberg, Bem Shanhn, Reginald Marsh, e Hugo Gellert.

Apesar da grande diversidade de estilos, eram comuns a todos um apelo naturalista e claramente antimoderno, e a procura de um estilo especificamente americano, que estivesse o mais longe possível do abstracionismo europeu. Hopper mostrou as ruas entristecidas das cidades americanas, e Reginald Marsh pintou as zonas mais pobres de Nova York.

Para Grant Wood, ser regionalista era simplesmente pintar o que se via em volta. No detalhe de suas paisagens, promovia o ideal pastoral das pequenas comunidades rurais habitadas por fazendeiros independentes e trabalhadores através de uma forte idealização. Curry, diferentemente, opta por representar famílias sobrevivendo aos desastres naturais e à falência das propriedades rurais.

As pinturas de Benton, mais explícitas ainda, mostram assuntos mais fortes, como o racismo, a sexualidade e os conflitos entre cidadãos e governo. Benton e Curry revelam mais ação, movimento, excitação e muitas vezes desespero.

Os anos 1930 viram o crescimento massivo do público de cinema e de rádio. A música contribuiu fortemente para unificar a sociedade americana. A nova música popular da América, o jazz, tinha raízes negras. Ainda que a indústria do entretenimento também tivesse suas regras discriminatórias, não deixava de oferecer oportunidade às ambições dos músicos negros.

Blues, jazz, swing e big band, além dos musicais, eram os estilos mais populares. No jazz, música do século 20, já eram ativos Louis Armstrong e Duke Ellington. As big bands e o swing usavam o jazz em sua formação e tinham como executantes mais conhecidos o clarinetista Benny Goodman e o maestro Glenn Miller. Canções populares, como Brother, Can You Spare a Dime? (Harburg/Gorney, 1931) e Life is Just a Bowl of Cherries (Brown/Henderson) nasceram de raízes folk .

A Depressão produziu cantores folk que falavam do sofrido homem comum da América profunda. Woody Guthrie foi o mais importante deles. Talvez a imagem mais associada ao músico seja a do "Dust Bowl Refugee" (refugiado do "Dust Bowl", área das planícies centrais, formada principalmente por partes de Kansas, Colorado, Oklahoma, Texas e Novo México, que na década de 1930 sofreu um intenso processo de desertificação, provocando o êxodo de trabalhadores rurais em direção à Califórnia).

Na canção, Guthrie se põe na pele de migrantes como os "okies" do livro As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Ao se tornar comunista, usou mais ainda o potencial mítico de suas composições para defender causas dos trabalhadores.

Boom no cinema

No momento em que o desemprego em massa atingia recordes, Hollywood entrava numa era de prosperidade. O cinema sonoro começou a atrair um público numeroso. As pessoas queriam esquecer-se das tristezas embarcando em histórias românticas ou em enredos policiais. Entre 60 e 80 milhões de americanos iam ao cinema pelo menos uma vez por semana.

Havia as coreografias sofisticadas de Busby Berkeley, como em Gold Diggers of 1933, e os musicais com Fred Astaire e Ginger Rogers. O público buscava tanto o otimismo de Mr. Deeds Goes to Town (1936) e outros filmes de Frank Capra, quanto sagas como Gone with the Wind (...E o Vento Levou).

Havia ainda as histórias de gangsters, como os vividos por Edward G. Robinson e James Cagney. Os Irmãos Marx faziam rir. Novos atores despontavam: Humphrey Bogart, Spencer Tracy, Bette Davis, Katharine Hepburn, Shirley Temple.

Hollywood conseguiu manter-se, como indústria, pela necessidade de diversão do público, pelo menos até 1933, quando a audiência começou a cair por causa do desemprego em massa, para entrar em recuperação somente no final da década.

Fonte: Portal Vermelho

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