segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Está na rede

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A Rede TV afirma que sempre vai defender "a liberdade de expressão e o não cerceamento do jornalismo de informar os telespectadores". Gostaria de saber onde há informação numa entrevista realizada com um seqüestrador em pleno ato criminoso.

Não há palavras para descrever. Só vendo. Quem puder entre no
Youtube e assista a algo inacreditável. A conversa do produtor do
programa "A Tarde é Sua", apresentado por Sonia Abrão, na Rede TV, com
Lindemberg Alves, em plena ação de sequestro da menina Eloá. Por mais
que o fato já tenha sido comentado, qualquer descrição do que
aconteceu fica muito longe da realidade. Trata-se da visão trágica dos
limites a que chega a dignidade humana. E aqui não falo do
sequestrador e sim de quem o entrevista, dos seus chefes e patrões.
Eles mentem, usurpam funções especializadas pretendendo-se
negociadores, violam o Estatuto da Criança e do Adolescente e intervêm
indevidamente numa ação do Estado, representado naquele momento pelas forças policiais.

A espetacularização da notícia na TV não é novidade, com
conseqüências trágicas em alguns casos. Escola Base e Bar Bodega são
apenas os exemplos mais conhecidos. E o caso Isabela Nardoni, o mais
recente. Mas nunca a televisão havia ultrapassado o limite da
informação (ainda que distorcida ou sensacionalista) passando à
intervenção. No caso Eloá, a TV mudou o rumo dos acontecimentos ao
bloquear as negociações telefônicas da polícia com o seqüestrador e
interferir no seu humor. No vídeo ele chega a dizer para o
entrevistador: "não me deixa nervoso não" que responde do alto do seu
conhecimento psicológico pedindo calma.

Que direito tem uma empresa comercial de intervir num processo da
alçada exclusiva do Estado? Espero que essa pergunta seja respondida
na ação proposta pelo Ministério Público Federal contra a Rede TV.
Cabe ao Judiciário decidir se houve abuso ou não. Nesse sentido, para
embasar melhor o processo seria muito importante que entidades como o
Conselho Federal de Psicologia, a Federação Nacional dos Jornalistas,
a Associação Brasileira de Imprensa e a Ordem dos Advogados do Brasil
oferecessem pareceres sobre o caso. Afinal produtores e apresentadores
de televisão transformaram-se, nesse caso, publicamente em psicólogos,
advogados e jornalistas sem escrúpulos.

Claro que a Rede TV já está tratando a possibilidade da ação como
"uma forma velada de censura". Ao que a procuradora Adriana Fernandes,
autora do pedido, respondeu com propriedade dizendo que a liberdade de
expressão não é absoluta e que, neste caso, deveria ter sido
respeitado o fato de uma menor estar envolvida. É sempre assim, e não
é só a Rede TV que faz isso. Basta qualquer setor da sociedade exigir
um pouco mais de responsabilidade de um concessionário de TV que a
resposta é sempre a mesma. Infelizmente a combinação cronológica entre
o fim da ditadura militar e a ascensão do neoliberalismo pelo mundo
deixaram a população brasileira refém do fantasma da censura e da
fantasia do mercado como regulador supremo. É através desse casamento
que a TV deita e rola. Tudo que a incomoda é censura e o limite
admitido é dado apenas pelos índices de audiência. Como se eles
refletissem algum tipo de escolha democrática e não fossem mera sanção
do mercado, no dizer preciso de Pierre Bourdieu.

A Rede TV também afirma que sempre vai defender "a liberdade de
expressão e o não cerceamento do jornalismo de informar os
telespectadores". Gostaria de saber onde há informação numa entrevista
realizada com um seqüestrador em pleno ato criminoso. Pode-se afirmar
que até a Constituição Federal foi afrontada. Lá está dito que "a
produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão
a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas". Em
nenhum momento está prevista a intervenção da concessionária num
crime, como fez a Rede TV.

Ressalte-se que essa emissora é reincidente. No final de 2005 foi
obrigada, judicialmente, a retirar do ar um programa que violava os
Direitos Humanos e, durante um mês, colocar no mesmo horário produções
elaboradas por organizações sociais. Fato inédito na história da TV
brasileira, tornado possível graças à articulação da sociedade e o
acolhimento da demanda pelo Ministério Público. Em vista do trágico
desfecho, o caso atual é ainda mais grave. E não ficou restrito à Rede
TV. Record e Globo a seguiram.

Uma outra referência pode ser utilizada, talvez, para auxiliar na
instrução da ação judicial caso ela ocorra. São alguns trechos das
normas editoriais da BBC. Dizem elas que "em casos de seqüestros
devemos estar cientes de que qualquer informação pode ser vista ou
ouvida pelos responsáveis pelo ataque. Devemos avaliar as questões
éticas envolvidas em conceder uma vitrina a seqüestradores,
especialmente se eles fazem contato direto". Reparem que a preocupação
é com o contato que o seqüestrador possa fazer com a emissora. Nem
passa pela cabeça dos jornalistas britânicos a possibilidade da
emissora fazer contato com o seqüestrador como aconteceu por aqui.

E mais: "devemos permanecer no controle editorial da cobertura dos
eventos e não entrevistar um responsável por um ataque ao vivo;
instalar um delay (pequeno atraso na veiculação de sons e imagens em
relação ao tempo real) quando transmitimos ao vivo material de
coberturas delicadas, por exemplo, um cerco a escola ou seqüestro de
avião. Isto é especialmente importante quando o desenlace é
imprevisível e podemos registrar material perturbador, impróprio para
transmitir sem uma reflexão cuidadosa". Em Santo André, nós todos
corremos o risco de ver um assassinato ao vivo.

E para finalizar, diz a BBC que "quando cobrimos seqüestros devemos
ouvir a orientação da polícia e de outras autoridades sobre qualquer
coisa que, se divulgada, possa exacerbar a situação". Parece que estão
falando conosco, não?

*Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade Cásper Líbero. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).

Fonte: Agência Carta Maior

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