sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O golpe em Honduras e as bases na Colômbia

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Por Frida Modak*

Da mesma maneira, já é evidente que as sete bases militares em que os Estados Unidos se instalarão na Colômbia não têm por objeto combater o narcotráfico ou a insurgência.

Essas não são afirmações com antolhos.

Os Estados Unidos têm uma base militar em Honduras que hoje se chama Soto-Cano, mas que foi conhecida como Palmerola, quando foi criada para combater o governo sandinista.

Dessa base saiam os mercenários "contras" recrutados, adestrados e aparelhados pelos Estados Unidos.

O então presidente estadunidense, Ronald Reagan, batizou aqueles elementos terroristas como "combatentes da liberdade" e os financiou de maneiras muito diversas. Quando o Congresso estadunidense se negou a conceder mais fundos para os mercenários, o financiamento saiu do narcotráfico.

Isso foi admitido e justificado pelo então subsecretário para assuntos latino-americanos Elliot Abrams, que sustentou que dada a atitude do Congresso de seu país, os contras tinham que buscar meios de subsistência.

Vale a pena recordá-lo quando o presidente colombiano, Álvaro Uribe, diz que, com as bases estadunidenses em seu país, busca combater o narcotráfico e erradicar a guerrilha.

Voltemos agora a Honduras.

Empresários e um embaixador no golpe

Na noite do sábado 27 de junho, véspera da consulta cidadã, um assessor do presidente Zelaya sinalizou para mim numa conversa telefônica que se sabia dos chamados do departamento de Estado à Embaixada estadunidense em Honduras e aos até então conspiradores, advertindo-os para "nada de golpes". Isso sugeria que se iniciaria uma ação contra o Governo de Zelaya na segunda-feira 29, quando se houvera produzido o que eles consideravam um delito.

Mas o setor empresarial, que era parte do complô, estimou que não havia que esperar porque a votação a favor da quarta urna seria copiosa e não a poderiam ignorar.

Em Honduras, os empresários chegaram a um acordo com o alto comando das forças armadas, a quem entregaram 30 milhões de lempiras, equivalentes a US$ 1,5 milhão, segundo uma carta em circulação elaborada por oficiais de media graduação.

Em esferas do governo do presidente Zelaya se estimava que votariam a favor da consulta entre 1.200.000 e 1.500.000 pessoas.

O país tem um padrão eleitoral de 4.700.000 inscritos, dos quais 1.300.000 radicados nos Estados Unidos.

Calcula-se que a média de eleitores efetivos pode ser de 2.100.000, portanto, os votos a favor da consulta poderiam alcançar a maioria absoluta.

Tal evidência não podia ser desconhecida e daí surge a decisão dos empresários, entre os quais se contam ex-Presidentes da República, de acelerar suas ações.

Enquanto ao embaixador estadunidense Hugo Llorens, sua participação foi ativa antes e depois do golpe de Estado.

Assim o declarou publicamente faz uns oito dias o candidato presidencial do Partido Democrata Cristão, Felicito Ávila, coletividade que soe atuar de acordo com os setores que tomaram o governo.

Ávila afirmou que o embaixador ia às reuniões conspirativas e a respectiva crônica foi publicada na imprensa hondurenha, que majoritariamente pertence ao setor golpista, como uma advertência a Washington sobre tudo o que poderiam contar.

Se unimos o assinalado a respeito da base estadunidense de Soto-Cano (ex-Palmerola), com os antecedentes do golpe de Estado e a atuação do embaixador Llorens, e o vinculamos com as bases militares que Washington projeta instalar na Colômbia, teremos os alinhamentos de um projeto que com justificada razão alarma os países sul-americanos.

As sete bases

O governo colombiano quer convencer a opinião pública internacional, não só a latino-americana, de que seu convênio com os Estados Unidos não significa instalar bases militares estadunidenses em seu território.

Segundo Uribe, só lhes permitirá ocupar um pedacinho de sete bases colombianas para que aí desenvolvam suas atividades.

Insiste em que os vão receber como achegados para que contribuam no combate aonarcotráfico, mas não se refere aos sete bilhões de dólares recebidos de Washington pelo Governo através do Plano Colômbia.

A essa altura já é um fato indiscutível que esse plano não diminuiu em nada o narcotráfico e a corrupção.

Numerosas figuras políticas do partido do presidente Uribe estão detidas e processadas por seus vínculos com o negócio das drogas.

Também está claro que os paramilitares só aparentemente se desmobilizaram, mas se sabe que voltarão a se reagrupar com outro nome.

O objetivo das bases é outro muito diferente do declarado pelas autoridades colombianas e norte-americanas.

Quando estavam instalados no Panamá, os militares estadunidenses tinham na base Howard um centro de controle não só da América Latina, mas também para monitorar outros continentes, pois ali dispunham de diversos equipamentos de espionagem de alcance internacional.

Os tratados Torrijos-Carter sobre o canal os obrigaram a sair do território panamenho e encontraram acolhida na localidade equatoriana de Manta, onde o depois derrocado presidente Yamil Mahuad permitiu-lhes estabelecer-se em seu território.

O atual presidente equatoriano, Rafael Correa, postulou em sua campanha que não renovaria essa autorização e obrigou-os a desmantelar a base de Manta.

Agora se vão a sete pontos da Colômbia com o pretexto de combater o narcotráfico, no que obviamente ninguém acredita, como tampouco é digerível que só utilizarão escritoriozinhos nas bases colombianas para apoiar o Plano Colômbia.

As autoridades das localidades em que vão se instalar tampouco estão muito à vontade, porque consideram que a presença dos soldados estadunidenses atrai prostituição e corrupção, como já aconteceu nos lugares onde estão há tempos.

Aos países sul-americanos tampouco lhes agrada o assunto porque representa uma ameaça e não o ocultaram.

A União das Nações Sul-americanas, UNASUR, acordou em sua recente reunião no Equador tratar o assunto diretamente com os Estados Unidos no mês de setembro, quando se inicia o período de sessões da Assembleia Geral da ONU e, previamente, se reunirão na Argentina para analisar o tema.

Ao mesmo tempo, UNASUR reiterou seu apoio a Zelaya e reclamou sua restituição na presidência de Honduras, no que também discrepam de Washington.

O presidente estadunidense, Barack Obama, reagiu com desagrado ante as críticas por não tomar medidas enérgicas contra os golpistas hondurenhos.

Segundo Obama, "há uma certa hipocrisia" por parte dos que exigem atuar com clareza em Honduras e os acusou de ser os mesmos que chamam Washington de intervencionista.

Os que criticam essa postura de Obama respondem que a hipocrisia não está aí, mas no papel do embaixador Llorens no golpe, no adestramento dado pelo Pentágono às forças armadas hondurenhas e no "lobby" que defende os golpistas no Congresso estadunidense.

Também há abundante informação sobre o envio de dinheiro proveniente do narcotráfico e de instituições estadunidenses que é entregue na Colômbia a opositores de governos democraticamente eleitos na região.

Em ouras palavras, a hipocrisia consiste em continuar ajudando o golpismo com uma pretensa não intervenção.

*Frida Modak é jornalista chilena radicada no México e colaboradora de Prensa Latina.

Fonte: Agência de Notícias Nova Colômbia

Com informações do Vermelho.

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