quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Cabo Anselmo, o novo herói da direita

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NINGUÉM MAIS DUVIDA DE QUE O CABO ANSELMO FOSSE SEMPRE AGENTE DUPLO


por Celso Lungaretti
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Anselmo disse a Octávio Ribeiro que se entregou ao Dops; depois, inventou que foi preso e torturado

A pretensão do Cabo Anselmo de ser anistiado como vítima da ditadura de 1964/85, embora reconheça ter-lhe prestado serviços sanguinários de 1971 em diante, não deverá resistir ao testemunho gravado de Cecil Borer, ex-diretor do Dops da Guanabara.

Dois anos antes de morrer, Borer (1913-2003) declarou à reportagem da Folha de S. Paulo que José Anselmo dos Santos não só atuava como colaborador do seu departamento no momento do golpe de Estado, como prestava o mesmo serviço ao Cenimar e à CIA.

Tal gravação deverá determinar a recusa do pedido de Anselmo, foi o que avaliaram cidadãos cuja opinião tem muito peso na área de defesa dos direitos humanos e, certamente, deve coincidir com a de membros da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, à qual cabe elaborar um parecer sobre o caso.

Assim, para o secretário especial dos Direitos Humanos da Presidência da República Paulo Vannuchi a nova evidência "derruba a pretensão" de Anselmo.

Vannuchi admite que existia a possibilidade de a Comissão ser obrigada a anistiar o ex-marinheiro, decidindo com base "técnica e jurídica" e tendo de colocar em segundo plano sua "repulsa política e ética".

Agora, não mais: "O depoimento [de Borer] dá o fundamento [que faltava] à Comissão de Anistia, porque a decisão seria difícil"

A avaliação de Vannuchi coincide com a da presidente do Grupo Tortura Nunca Mais no Rio de Janeiro, Cecília Coimbra, que declarou: "O Cabo Anselmo não passou a colaborar após a prisão. Ele já era infiltrado. Não tem direito a nenhuma anistia".

E também com a da a atual diretora e ex-presidente do GTNM em São Paulo, Rose Nogueira, para quem "está mais do que claro que ele já era infiltrado antes de 1964".

A decisão final caberá ao ministro da Justiça Tarso Genro, que pode acatar o entendimento da Comissão ou tomar decisão diferente, conforme sua convicção.

No entanto, a praxe é o ministro prestigiar o parecer, salvo quando surge um fato novo de muita relevância no período de alguns meses que transcorre entre a análise do caso no colegiado e a assinatura da portaria ministerial.

E Anselmo não deve esperar nenhuma condescendência por parte de Genro, que no início do mês passado já antecipava existirem índicios de sua atuação como "agente infiltrado dos golpistas" no pré-1964, o que o desqualificaria como perseguido político:

"Não cabe a aplicação da Lei da Anistia a pessoas que deliberadamente atuaram como agente do Estado, seja para desestabilizar um regime legal, como era o governo João Goulart, seja depois, numa estrutura paralela".

Ironicamente, o ministro acrescentou que, na hipótese de indeferimento do seu pedido de anistia, Anselmo poderia entrar com ação ordinária contra a União, requerendo indenização por haver atuado na repressão política sem reconhecimento do Estado "pela prestação desse regime".

ANSELMO VENDIA INFORMAÇÕES DO DOPS PARA AS MULTINACIONAIS

Mas, estará mesmo Anselmo precisando desesperadamente de recursos, conforme alega? Aí tudo que temos são suposições, pois ele, com as opções que fez, escolheu viver como um incógnito no seu próprio país.

Ele próprio admite, p. ex., que recebia remuneração dos órgãos de repressão política quando os ajudava a destruírem a Vanguarda Popular Revolucionária e prenderem/executarem seus militantes.

Uma revelação interessante acaba de surgir no site do Luiz Nassif, sobre o que o sinistro personagem andou fazendo depois de dizimados os grupos guerrilheiros, conforme relato do veterano jornalista Antonio Carlos Fon:

"Cabo Anselmo frequentava o Dops de São Paulo, onde tinha um sócio, o delegado Josecyr Cuoco, com quem mantinha uma agência privada de informações que, com agentes infiltrados no movimento sindical e acesso aos relatórios dos alcaguetes do Dops, vendia informações para as multinacionais, especialmente do setor automobilístico, na época muito assustadas com o novo sindicalismo que nascia no ABC".

Segundo Fon, a espetaculosa entrevista que Anselmo concedeu em 1984 ao Octávio Ribeiro (Pena Branca), para publicação na IstoÉ, foi articulada pelo delegado Cuoco, com a ajuda do Cenimar, exatamente para evitar que a revista expusesse as atividades da tal agência privada de informações.

Em 1999, Anselmo falou também ao Percival de Souza, que fez outra reportagem igualmente extensa. As matérias-de-capa da IstoÉ e da Época foram expandidas para livros por Octávio Ribeiro e Percival de Souza. Seguramente Anselmo terá recebido uma boa grana nessas ocasiões.

Finalmente, em suas andanças recentes, o ex-marinheiro tem sido sempre escoltado pelo delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º distrito de São Paulo.

Estavam juntos quando a rede Globo levou ao ar o Linha Direta com o Cabo Anselmo, há dois anos.

Juntos foram recentemente cumprir os requisitos para Anselmo reaver sua identidade.

E juntos se apresentaram no Canal Livre de domingo passado, quando os adesivos anticomunistas e golpistas do jipe do delegado causaram tal perplexidade nos profissionais da rede Bandeirantes que até no ar esse assunto foi levantado.

Quem é, afinal, o tutor de Anselmo?

De janeiro de 1970 a 1977, Augusto trabalhou sob as ordens diretas do terrível delegado Sérgio Paranhos Fleury no Dops/SP, quando era conhecido como Carlinhos Metralha, por andar amiúde com uma metralhadora pendurada no ombro.

Recentemente apontado ao Ministério Público Federal como torturador por Ivan Seixas, diretor do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo, Carlinhos Metralha até hoje dá declarações deste tipo:

"Esses caras do governo [Lula] são todos sanguinários. Tudo comunista bandido e covarde. Estou à disposição dos militares na hora em que eles precisarem de novo".

Enfim, tudo leva a crer que Anselmo jamais tenha saído da órbita dos órgãos de segurança e das estruturas montadas por antigos torturadores. Não por acaso, tem o apoio incondicional dos sites de extrema-direita, como o Alerta Total, do Jorge Serrão.

Daí as consistentes suspeitas de que sua insistência em ser anistiado não se deva a precariedade material, mas seja, tão-somente, uma nova provocação, desta vez para desmoralizar a atuação da Comissão de Anistia e do próprio Ministério da Justiça.

Caso em que o tiro terá saído pela culatra, pois agora ninguém mais duvida de que ele haja sido um agente duplo ao longo de toda sua infame trajetória.

*Jornalista, escritor e ex-preso político, Celso Lungaretti era companheiro de militância e amigo de José Raimundo da Costa, o Moisés, que foi preso numa armadilha do cabo Anselmo, levado para a Casa da Morte de Petrópolis (RJ), torturado e executado. Mantém os blogues Náufrago da Utopia e Celso Lungaretti - O Rebate

Fonte: Vi o Mundo

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