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A degeneração da qualidade de vida nas grandes cidades, a aquisição cultural de que a preservação do ambiente depende de cada um de nós e o aumento na renda de certos estratos sociais têm feito, segundo o colunista Rui Daher, "ressurgir um sentimento, até então adormecido, de reaproximação com a natureza", diz.Jardinagem e agronegócio
por Rui Daher*
No processo de evolução da espécie humana, hábitos ancestrais contados em milhares de anos deixaram marcas importantes em nossa conduta atual. Principalmente, no que diz respeito à alimentação e às condições ambientais.
A necessidade pós Era Glacial de estocar alimentos para os duros períodos de inverno ou para as incertezas da escassez, em parte, explica o caminho torturante de pessoas indecisas entre o prazer das guloseimas ofertadas pela sociedade de consumo e a prodigalidade inquisitória das clínicas e publicações para emagrecimento.
Creio que o mesmo acontece com a pulsão de autoconservação de quem vive no meio urbano ao aproximar-se da natureza, seja passando temporadas em áreas rurais ou fazendo verdes suas habitações citadinas.
E por que não? Assim, tanto agricultores de fim de semana como jardineiros de apartamento conhecerão melhor as práticas agrícolas e constatarão que os cuidados que devemos dar às plantas das floreiras na sacada são os mesmos a oferecer às árvores de nossas florestas.
Alguma dúvida? Coloque material inflamável na floreira e acenda um fósforo. "Miss Desmatamento e seus Caiados", por certo, sabem disso.
Embora inexistam dados estatísticos confiáveis, sabe-se que nos últimos anos tem sido crescente a prática da pequena agricultura e da jardinagem no Brasil.
A degeneração da qualidade de vida nas grandes cidades, a aquisição cultural de que a preservação do ambiente depende de cada um de nós, o grande destaque na mídia, e o aumento na renda de certos estratos sociais, têm feito ressurgir um sentimento, até então adormecido, de reaproximação com a natureza.
É o que se observa não apenas na expressão do mercado nacional de flores e plantas ornamentais, como exposto na última coluna, mas também na multiplicação dos pontos de vendas dedicados ao setor e na diversidade dos insumos e utilidades que se prestam à sua prática.
Claro que ainda estamos longe do estágio de países mais desenvolvidos ou culturalmente orientados para cultivos domésticos. Um desempenho que nos EUA, União Europeia e Japão, deve amenizar os remorsos provocados pelo estágio de destruição ambiental a que chegaram.
Nos EUA, segundo a empresa de pesquisa e marketing Garden Media Group, entre 2002 e 2006, as vendas do segmento do-it-yourself para jardinagem se aproximaram de US$ 40 bilhões por ano, em 90 milhões de domicílios, cada um com gasto médio anual acima de 400 dólares. Mercado que, no Reino Unido, vem crescendo a uma taxa anual de 9%.
Nesses países, algumas empresas tratam de oferecer, claro que a preços bem salgados, robôs cortadores de grama, o que, no mínimo, suprime um bom atributo da atividade: o exercício físico.
Aqui, ainda que a massa de negócios não atinja requintes e valores como esses, há uma intensa proliferação de feiras, eventos, exposições e publicações dedicadas aos plantios domésticos. Empresas prestadoras de serviços de paisagismo e profissionais especializados na tarefa de embelezar e manter jardins são cada vez mais requisitados.
O segmento da agricultura doméstica, de forma errada, poucas vezes é enquadrado no agronegócio. Pode faltar-lhe massa muscular, mas não cinzenta.
Muito importante num país com graves deficiências na área da educação, o surgimento de projetos comunitários, que usam o trabalho em jardins, hortas e pomares como formas ao mesmo tempo lúdicas e educacionais, por certo, contribuem para garantir um futuro melhor para as próximas gerações.
E aí, meus caros, já é mais do que agronegócio.
(*) Agradeço as informações de Roberto Makoto Shimizu
Fonte: Terra Magazine
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