domingo, 3 de maio de 2009

Com novas medidas urbanas, mercado imobiliário reinará absoluto nas cidades

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por Valéria Nader*

O caráter parcial, excludente e antidemocrático constitui-se em um modo conhecido na condução de nossa economia, política e sociedade - setores em que a proeminência desse modo tem sido bastante explorada pelos estudiosos mais críticos. Mas, nesse início de 2009, ele tem adquirido um sentido especial, diante de uma profusão de barbaridades no tratamento de nossas cidades.

Sim, de nossas cidades, o único espaço territorial concreto, aquele que a população enxerga, pisa, no qual tem a possibilidade real de perceber o que ocorre e de intervir em função de suas aspirações coletivas. No entanto, não é bem assim que acontece: a percepção e capacidade de intervenção das pessoas passam por variados filtros e bloqueios, obviamente associados aos poderosos interesses sempre em jogo em nosso país.

Em um ano de crise econômica internacional, e também nacional, agora já evidentes, tem ressaltado com maior destaque, entre as medidas anti-crise, o tão propagandeado plano habitacional do governo. Não raro esse plano vem sendo associado à realização de uma política habitacional e urbana da qual o país de longa data carece. Detendo-se, no entanto, um pouco mais nesse plano e, especialmente, em tantas e novas medidas que estão sendo tomadas no tocante à questão urbana neste ano, salta aos olhos aquele mesmo caráter extremadamente parcial, excludente e antidemocrático.

Pacote habitacional?

Vamos aos fatos. E, como primeiro exemplo, comecemos pelo de maior visibilidade: vem aí o citado novo plano habitacional do governo. Seriam necessárias muitas linhas para traçar aqui uma visão crítica mais elaborada desse plano, o que não é o objetivo. Mas pode-se apelar para a lógica imperante no país e para a percepção de estudiosos e leitores que buscam olhar a realidade com maior profundidade para trazer à superfície pelo menos um dos seus pontos mais obscuros.

O Estatuto da Cidade, que passou a existir a partir de 2001 – e, portanto, somente 13 anos após a determinação de regulamentação no uso da terra urbana pela Constituição de 1988 -, visa dar ao município os instrumentos políticos para enfrentar as dificuldades de acesso à terra pela população de baixa renda, combatendo a especulação imobiliária. Dentre estes instrumentos estão, por exemplo, o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) progressivo e as ZEIS (Zona Especial de Interesse Social). Ocorre que os municípios ainda não conseguiram nem mesmo aplicar o Estatuto da Cidade. Não resolveram, destarte, a questão da função social da terra. Como conseqüência inelutável, a tão ansiada execução do novo plano habitacional tenderá novamente a concentrar a população mais pobre nas periferias, longe das áreas centrais e de sua infra-estrutura urbana, onerando o orçamento público e gerando novos problemas de urbanização.

Ademais, estamos diante de um plano de proporções inéditas. Se levado a cabo conforme o planejado, atingirá uma produção de larguíssima escala. A despeito, portanto, da ênfase oficial de que se trata de um plano cujo objetivo maior é a população de baixa renda - que realmente nunca teve acesso aos benefícios que estão sendo projetados -, será praticamente impossível evitar o protagonismo que deverá assumir o mercado imobiliário, o que terá impacto generalizado nas cidades.

Para uma visão mais aprofundada deste plano, o leitor pode acessar a entrevista que o urbanista e professor da FAU-USP João Whitaker concedeu recentemente ao Correio, sob o título Pacote Habitacional fracassará se não enfrentar questão da posse da terra.

Mas vamos além. Se o conhecimento das eventuais deficiências desse plano ainda é, de alguma forma, acessível ao público em geral, até pela própria notoriedade que ele alcança na grande mídia, o mesmo não se pode dizer de outras providências e medidas que vêm sendo tomadas na área urbana.

As novas taxas de ‘revitalização urbana’

Permanecendo ainda na esfera federal, algum leitor já ouviu, por exemplo, falar da Care? Obviamente que alguns devem saber do que se trata, mas, muito provavelmente, uma minoria. O que não dizer da população em geral, aquela que nem mesmo tem possibilidade de acesso à informação?

Por sugestão da Associação Comercial do Rio de Janeiro, trata-se de uma nova contribuição, a ser proposta ao Congresso pelo governo através de emenda à Constituição. A finalidade declarada seria custear a revitalização econômica de áreas urbanas centrais inquestionavelmente degradadas. Curiosa, no entanto, para dizer o mínimo, é a forma pela qual a contribuição será posta em ação: as prefeituras só poderiam instituir o tributo a pedido dos contribuintes que vão pagá-lo, quais sejam, os donos de imóveis não-residenciais interessados em bancar a revitalização de determinada área da cidade. Caberia exclusivamente a uma entidade sem fins lucrativos a ser criada, as chamadas Opres, Organizações privadas de revitalização econômica, propor às prefeituras a criação das áreas de revitalização econômica.

A idéia tem como justificativa o velho argumento fiscalista, da insuficiência de recursos públicos. Estaria, ademais, inspirada em experiências bem sucedidas em cidades do Canadá e Estados Unidos, segundo ressaltado por alguns dos maiores veículos de comunicação, como pretensa forma de conferir legitimidade a esta nova taxa.

Em um país que procede a tantas ‘apropriações indébitas’, especialmente na mimetização de padrões de consumo do primeiro mundo para as suas ‘ilhas de prosperidade’ locais, a arquiteta e urbanista Mariana Fix, autora do livro São Paulo Cidade Global: Fundamentos financeiros de uma miragem (para saber mais sobre o livro clique aqui), coloca essa contribuição em um lugar mais adequado. Para a urbanista, os Business Improvement Districts (BIDs) norte-americanos são um dos modelos que inspiram a criação dessas contribuições. O sistema surgiu nos Estados Unidos e permite aos empresários e proprietários, em determinados distritos, se organizarem para cobrar de si mesmos taxas para manutenção e melhoria de áreas públicas - o que acaba por ser um modo de assumirem o controle sobre elas, segundo a socióloga Sharon Zukin, professora da City University of New York, citada por Fix. E de experiências localizadas para resolverem carências específicas, os BIDs podem se generalizar como uma forma de gestão da cidade, com alto grau de controle privado sobre os espaços públicos.

Em uma total inversão de papéis, é, portanto, a própria redução de serviços públicos nessas regiões que passa a ser utilizada como justificativa para a implantação de formas empresariais de gestão, levando os governos locais a se alinharem com promotores imobiliários, e a assumirem uma gestão de tipo empresarial das cidades.

Kassab e as concessões urbanísticas

É a partir dessa mesma lógica perversa que devem ser tomadas e entendidas as novas iniciativas do prefeito Gilberto Kassab na maior cidade do país. Manchete do caderno Cotidiano da Folha de São Paulo de 19 de abril, "Lei emperra revitalização e ocupação na região central", não deixa dúvidas quanto aos poderosos interesses que já se articulam em torno do novo cartão de visita do prefeito em seu segundo mandato: a revitalização do centro, em substituição à Cidade Limpa do primeiro mandato. A sub-manchete deixa menos dúvidas ainda quanto aos grandes interessados: "Mercado reclama de excesso de exigências para liberar novos prédios residenciais".

Tudo começa por um processo de revisão altamente questionável do Plano Diretor da cidade - comprometendo, ao que parece, vastos setores de direitos sociais, como educação, saúde, assistência social, cultura, esportes, lazer etc., além de alterar de modo excludente a organização e crescimento dos bairros, onde algumas áreas deixariam de fazer parte das ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social), especialmente na região central da cidade. Mudanças que não contam sequer com uma discussão mínima com a sociedade, desrespeitando inclusive as próprias condições impostas pelo Estatuto da Cidade e pelo Plano Diretor anterior, de 2002, que previam a revisão apenas para 2012.

É na esteira deste processo que a Câmara dos vereadores de São Paulo já aprovou, no final de março, o projeto que autoriza a "terceirização" de áreas degradadas. Trata-se de uma concessão urbanística, que permite que a prefeitura transfira para a iniciativa privada, mediante licitação, o poder de realizar grandes intervenções em áreas decretadas como de interesse público, inclusive desapropriações, em nome do próprio poder público. O texto aprovado já inclui até mesmo a primeira região que sofrerá este tipo de intervenção, a Nova Luz, conhecida como Cracolândia.

A iniciativa foi saudada pela grande imprensa e pelo marketing oficial como bastante promissora, já que finalmente estaria rompendo com a inércia de tantos anos de falta de atitudes desse teor, prometendo não somente revitalizar áreas degradadas, mas dinamizar as economias locais e gerar empregos. Já se especula inclusive sobre o espraiamento do modelo para outras áreas como Mooca, Vila Leopoldina, Pirituba. Não é, no entanto, assim que pensam, mais uma vez, algumas das populações afetadas, como comerciantes tradicionais da rua Santa Ifigênia, que muito provavelmente deverão deixar seus locais de trabalho por pressões do setor imobiliário, e também vários dos estudiosos da questão urbana.

O urbanista João Whitaker faz crítica contundente à iniciativa, que vê como inconstitucional, por atender aos interesses de lucratividade de corporações privadas em detrimento do interesse social. E mais do que seu caráter inconstitucional, o urbanista ressalta uma escancarada e escandalosa escalada na priorização dos interesses privados relativamente às famosas Operações Urbanas, previstas no Plano Diretor de 2002.

Através destas operações, é permitida a construção de edifícios com área maior do que o limite originalmente estabelecido pela lei, desde que se pague por isso à prefeitura – e com o dinheiro arrecadado devendo ser destinado a melhorias urbanas na própria área. Elas já implicam, portanto, na submissão do planejamento urbano aos interesses do mercado. O que dizer então do novo mecanismo de "Concessão Urbanística", onde simplesmente se transfere ao mercado imobiliário a prerrogativa de desapropriar terrenos nas áreas em que pretenda investir? Para Whitaker, a resposta é simples: "na prática, a prefeitura está não só abdicando de sua prerrogativa de planejar a cidade, como está repassando tal função a grupos privados cujo interesse – o lucro – evidentemente está longe de ser público".

A conseqüência inexorável não poderá ser outra: um mercado imobiliário reinando absoluto na cidade. E mais: com muitas regalias aos escritórios internacionais de arquitetura, que deverão fazer "a ponte" com as "grandes incorporadoras locais dispostas a investir na região". Sob a alegação de "valorização de um bom produto" - segundo as próprias palavras do diretor de Desenvolvimento e Intervenção Urbana da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Rubens Chamas, divulgadas pelo jornal Estado de S. Paulo no dia 23 de abril -, justifica-se a venda de trechos da cidade de São Paulo.

Uma perversa lógica econômica

O avassalador mergulho do Brasil no neoliberalismo, especialmente a partir da década de 90, teve obviamente suas conseqüências no tratamento de nossas cidades pelo poder público. O acirramento das medidas ‘terceirizadoras’, trazendo o setor privado para o centro das iniciativas, sob a falsa perspectiva de parceria inovadora e construtiva, está aí para comprovar.

No final de 2002, em artigo para o Correio da Cidadania na coluna Cidade Aberta (para ler o artigo, clique aqui), a urbanista Mariana Fix já alertava para o predomínio do sentimento de incapacidade do Estado em dar conta dos crescentes problemas urbanos em função da falta de recursos, o que estaria na origem das concessões urbanísticas. Fix fez aí o importante alerta de que "mais do que uma praça ou uma escultura, a ‘sociedade civil’ assume o protagonismo da produção e controle do espaço público. Surgem associações – ditas da ‘sociedade civil’ as essencialmente compostas por setores empresariais, especialmente bancos ou construtoras – com propostas que vão da instalação de um sistema privado de vigilância, até a abertura de bulevares, passando pela coleta seletiva do lixo, enterramento da fiação e retirada dos postes, alargamento das calçadas. Essas associações legitimam-se ao oferecer, às vezes de modo palpável, melhorias nos seus bairros – milagre da cidade de primeiro mundo em país de terceiro. Mesmo quando o controle que exercem, do desenho urbano à segurança privada, objetiva a exclusão e a segregação".

Neste sentido, enquanto tudo se faz passar como se as empresas prescindissem do Estado, o que ocorre na prática é que os investimentos privados são quase sempre irrelevantes perto dos recursos públicos investidos nas regiões sob intervenção, direcionando-os ademais para as regiões privilegiadas. "Pequenas iniciativas, acompanhadas de um bom marketing, criam a impressão de que as empresas assumem os custos, escamoteando o fato de que essas ações estão quase sempre associadas a grandes investimentos do Estado em infra-estrutura", enfatiza Fix.

Este recorrente apelo à abordagem fiscalista, justificando a participação da iniciativa privada em função da insuficiência orçamentária do governo, vem sendo paulatinamente posto em descrédito. Alertas dos estudiosos, bem como de movimentos como o Fórum Centro Vivo, em São Paulo, dentre muitos outros, ajudam na conscientização de que a centralidade do argumento da falta de recursos vem apenas acobertar um estabelecimento de prioridades altamente excludente das classes desfavorecidos.

Em um país em que as mazelas sociais são tão pronunciadas, sendo especialmente evidenciadas nas diversas localidades, não parece mesmo fácil, no entanto, fugir aos discursos ‘embelezadores’ e ‘salvacionistas’ e às saídas estéreis a que eles conduzem. Houve uma certa ‘esperança’, nos idos de 2002, de romper com esse ciclo pernóstico que enreda as nossas cidades. Criou-se o Ministério da Cidades, regulamentou-se também o Estatuto das Cidades, abrindo-se novas e promissoras idéias para tratar a questão urbana. Porém, temos uma persistente lógica econômica a nos presidir, que é o real nascedouro de tantos descaminhos e contradições, com suas respectivas conseqüências nocivas e hoje tão evidentes nas cidades, no campo, no meio ambiente.

Sem romper com esta lógica, para o que somente a pressão da sociedade poderá apresentar alguma saída atualmente, as nossas cidades continuarão sendo vitrines e palcos privilegiados na apresentação da degringolada social, ambiental e urbana.

*Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

Fonte: Correio da Cidadania

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Augusto Boal - entrevista para a Revista Fórum em 02/08

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Brazilian director and Workers' Party (PT) activist Augusto Boal smiles during a demonstration of Forum Theatre in Calcutta, India, Sunday, Oct. 22, 2006. Groups from different parts of India and various other countries participated in the event, which was organised by Jana Sanskriti, the first forum theatre group in the country. "Forum Theatre" or the "Theatre of the Oppressed" established in the early 1970s by Boal is a participatory theater that fosters democratic and cooperative forms of interaction among participants.

A gente aprende ensinando

Por Renato Rovai e Maurício Ayer [Fevereiro de 2008]

No próximo 16 de março, o teatrólogo Augusto Boal completa 77 anos, mas não há nada no seu discurso e no seu jeito de pensar o mundo que indique que ele não seja um jovem. Até na aparência, Boal engana bem. Mas há algo que denúncia sua longa trajetória, as histórias. As muitas vividas no universo da arte e da militância política desde meados da década de 50.
Ele conta, nesta entrevista realizada em seu apartamento, que fica de frente para o Arpoador, no Rio de Janeiro, casos vividos na sua trajetória com o Teatro Arena, o Centro de Cultura Popular (CPC) e o Teatro do Oprimido, além de revelar memórias vividas com pessoas como Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, Chico Buarque, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Sartre, entre outros.
No Brasil, isso não é tão reconhecido, mas Boal é considerado mundialmente como um dos teatrólogos mais importantes de sua época. No jornal inglês The Guardian, já se escreveu que “Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislavski”. A frase é verdadeira. O seu Teatro do Oprimido é muito mais revolucionário do que qualquer peça escrita com contéudo contestatório. Até porque não é algo pronto, é uma técnica oferecida a grupos de todas as partes do mundo que queiram dizer algo. Hoje está disseminado em aproximadamente 70 países. Não surpreende, portanto, que Boal seja indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Seria um merecido reconhecimento. Afinal, o que Boal faz em 50 anos de carreira e de militância político-cultural é lutar pela paz e pela humanidade.

Fórum – Como foi ter sido indicado para a disputa do Prêmio Nobel da Paz?
Augusto Boal –
Nunca um brasileiro ganhou um Nobel, então não tenho a menor expectativa de ser o primeiro. De qualquer maneira, coisas interessantes têm acontecido nesses dias e isso tem sido bom. Por exemplo, em Angola, onde a gente tem um trabalho com um grupo de Teatro do Oprimido, ele não podia ser chamado assim, porque diziam que o país havia lutado 30 anos contra a opressão e que agora não havia mais opressão. Lá se chamava Teatro Fórum. Mas agora, com essa história do Nobel, nosso trabalho passou a ser mais badalado e já pode ser “do Oprimido”.
A mesma coisa aconteceu na Suécia, eles tinham um grupo que se chamava Federação Sueca de Teatro Fórum e agora mudaram para Federação Sueca de Teatro do Oprimido (risos). O que essa nossa indicação acabou revelando é que o Teatro do Oprimido é hoje um movimento mundial. Ela está em uns 70 países, só no nosso website estão cadastrados mais de 50 e em cinco continentes, mas a gente sabe de outros lugares onde já há grupos que não foram oficializados.

Fórum – Como nasceu e se internacionalizou o Teatro do Oprimido? Isso tem a ver com o fato de o senhor ter ido para o exílio?
Boal –
A primeira forma do Teatro do Oprimido começou em São Paulo, no Teatro Arena. Estava o Celso Frateschi, que hoje é o presidente da Funarte [Fundação Nacional de Artes], a Dulce Muniz, a Ideli Del Velchio.... Eram sete ou oito alunos em um curso de interpretação, onde participavam a Cecília, minha mulher, e a Ideli Guariba, que depois foi morta pela ditadura. Quando acabou o curso, em 1970, os alunos sugeriram continuar, e então propus que fizéssemos uma coisa chamada de Teatro Jornal, porque a gente era muito perseguido pela polícia etc.
A nossa idéia era ensinar as pessoas a fazer teatro para que elas mesmas divulgassem as idéias que queriam transmitir. Chegamos a levar esse trabalho do Teatro Jornal para a França, para um festival de teatro experimental. Mas em 1971 fui preso e aí fui para a Argentina.
Fora do Brasil começaram a aparecer as formas novas a partir das novas realidades. O Teatro Invisível surgiu porque eu não queria ser preso e tinha que me esconder em cena. E com o Teatro Invisível isso é possível. O Teatro Imagem surgiu por conta de a gente ter que travar um diálogo com os indígenas que falavam espanhol e eu não conseguia me comunicar bem com eles, então aprimoramos a técnica de trabalhar o teatro a partir de imagens, mais do que palavras. Trabalhava com o Teatro Imagem no México, na Colômbia, na Venezuela, no Peru. E depois, quando toda a América Latina, ou quase toda, passou a ter governos ditatoriais, fui para Portugal e de lá comecei a trabalhar mais na Europa, Estados Unidos e Canadá. Então ia para os lugares por conta das ditaduras e disseminava o Teatro do Oprimido aqui e ali. Hoje a gente calcula que haja mais de 300 grupos no mundo inteiro, bem mais, muito mais. É assim, a ditadura fez um mal enorme ao Brasil, mas a gente também respondeu. A gente, digo, muita gente, tanto no Brasil como lá fora.

Fórum – É errado dizer que o Teatro do Oprimido é uma manifestação do método Paulo Freire no teatro?
Boal –
Na verdade, só trabalhei com o Paulo Freire uma vez, e foi nos Estados Unidos. Lá existe uma realização que se chama Pedagogy and Theatre of the Oppressed Conference que todo ano se reúne numa cidade diferente. Naquele ano, um ano antes de ele morrer, em 1996, foi que nós trabalhamos juntos... A gente se via muito no exílio, depois da Anistia [em 1979] passou a se ver em muitos eventos aqui no Brasil, mas trabalhar juntos só naquela ocasião. Tem uma história curiosa que vivi com o Paulo Freire quando recebi a música “Meu Caro Amigo” do Chico Buarque. A gente estava almoçando juntos, Paulo Freire, a primeira mulher dele, a Elza, e o grupo deles que estava indo para a África. Antes de ir para a África, passaram por Lisboa e foram almoçar lá em casa. Estava também o Darcy Ribeiro, e minha mãe chegou a Portugal naquele dia e, na frente deles, me deu a fitinha com a música “Meu Caro Amigo”. Entregou o envelope com a fita dizendo que era uma carta do Chico. E nós todos ouvimos juntos pela primeira vez. Era uma carta para mim do Chico Buarque com o Francis (Hime) no piano. Eu tinha escrito umas duas ou três cartas para o Chico e ele não tinha me respondido. Então quando minha mãe me entregou o envelope dizendo que era uma carta do Chico e vi que era uma fita cassete achei muito engraçado...
Voltando ao Paulo Freire, éramos muito amigos, mas nunca havíamos trabalhado juntos, até esse dia no Nebrasca, quando a gente sentou na mesma mesa e respondeu às mesmas perguntas. Mas existem muitas semelhanças entre o nosso trabalho, como também existem diferenças.

Fórum – Mas o nome Teatro do Oprimido não tem relação direta com a Pedagogia do Oprimido?
Boal –
Sim, isso foi uma homenagem que fiz a ele. Porque três ou quatro anos antes o Paulo Freire tinha escrito a Pedagogia do Oprimido e eu havia adorado o título, pensei em colocar o nome do meu livro de A Poética do Oprimido. Mas o meu editor, que era argentino – porque era 1974 e ainda estava exilado –, argumentou que não podia ser esse título porque os livreiros diziam que não sabiam onde iriam colocar, em que estante. Se colocavam na estante de poesia ou de teatro... (risos)
Foi o Daniel Diniz, o editor, quem sugeriu Teatro do Oprimido. Em um primeiro momento, achei até estranho, mas aceitei. Queria era ver o livro pronto e pensei “seja o título que for”. Agora, essa nossa relação não quer dizer que o Teatro do Oprimido tenha sido originado a partir da Pedagogia do Oprimido. Às vezes têm gente que pergunta se somos freireanos, outros se somos brechtianos... Mas nós também temos influência de Shakespeare, Molière e uma contra-influência de Aristóteles. Tem até influência daqueles de quem a gente é contra, isso também nos formou. Entendo, até, que as pessoas quando fazem a história dos movimentos às vezes precisam fazer uma simplificação, mas é importante ressaltar que o nosso trabalho e o do Freire têm uma identidade grande. Um contribuiu para o outro, mas não que um tenha gerado o outro. Eu tenho uma admiração imensa pelo Paulo Freire, pelo método dele, pelas suas idéias, pela combatividade, lucidez, sensibilidade, humanismo.

Fórum – Conte-nos melhor essa história da carta-música do Chico, “Meu Caro Amigo”.
Boal –
Acho que ele tentou escrever uma carta mesmo e viu que era mais fácil escrever a música (risos). Como a música é do Francis Hime, fico imaginando que o Francis tinha enviado a música e ficava cobrando uma letra do Chico. Um dia o Francis chegou na casa dele pedindo a letra e como naquele momento o Chico estava tentando escrever a carta para mim, ele resolveu aproveitar e resolver as duas coisas de uma única vez... (risos) Mas ficou uma linda homenagem.

Fórum – Retomando a história do Teatro do Oprimido, qual a relação que ele tem com o Arena?
Boal –
Foi a partir desse núcleo do Arena que pela primeira vez a gente não fez um produto acabado, mas decidiu fazer os meios de produção para que outras pessoas pudessem realizar seus trabalhos. Essa passagem do “nós somos os artistas” para “vocês passarão a ser os artistas” é que é o início do Teatro do Oprimido. Foi quando a gente decidiu construir e ensinar uma técnica do fazer e isso foi ali em 1970. Eu situaria a origem dessa idéia naquele momento, mas depois nasceu o Teatro Invisível na Argentina; o Teatro Fórum, no Peru; e a coisa foi se desenvolvendo, mas já veio de uma continuidade de pensamento. Posso até dizer que no meu caso esse processo teve início em 1956 quando a gente fez Ratos e Homens, que foi a minha estréia profissional e a estréia do Guarnieri e do Milton Gonçalves. E que também teve o Vianinha, que já tinha feito outros trabalhos. Isso já faz mais de meio século.

Fórum – Eles Não Usam Black Tie é logo na seqüência.
Boal –
Em 1958, foi o Zé Renato quem dirigiu. Comecei a dirigir, mas a gente resolveu que deveria passar para ele porque eu estava fazendo outras coisas ao mesmo tempo e não dava para conciliar. Depois veio Chapetuda Futebol Clube, que era do Vianinha, e essa eu dirigi; Flavio Migliaccio, Pintado de Alegre, e, na seqüência, o Benedito Ruy Barbosa, esse da TV Globo, fez A Fogo Frio. Nessa peça, como o elenco do Arena estava no Rio, convidei o elenco do Oficina para realizar o espetáculo e veio o Zé Celso [Martinez Côrrea]. Dirigi a peça e ele foi o meu assistente.
O que quero dizer é que todo aquele começo já era uma preocupação com o espectador como cidadão. Não que a gente não gostasse das peças que o TBC fazia, mas considerava o que eles faziam algo muito alienado, com um jeito europeu de fazer teatro. E a gente queria uma maneira brasileira, mais nacionalista. Daí, aconteceu a formação do CPC, que também foi inspirado no movimento MCP [Movimento de Cultura Popular], do Recife, do qual o Paulo Freire era um dos principais articuladores. Foi lá, aliás, que a gente se encontrou pela primeira vez, deve ter sido em 1961. Levávamos peças e o Paulo começava o processo dele de alfabetização. Acho, se não me engano, que em 1969, ele publicou o livro Pedagogia do Oprimido (N.R: na verdade o livro foi lançado em 1970). Eu não me lembro bem. Mas em 1961 ele já estava trabalhando com o tema lá em Pernambuco.

Fórum – Sua geração não foi muito influenciada pelo getulismo e mesmo por aquele discurso de Heitor Villa-Lobos, de uma cultura nacional?
Boal –
Não, acho que a nossa geração foi influenciada pelo que aconteceu no período Juscelino, daí acho que sim. Como o governo dele foi de 1956 a 1961 e nós, eu, Guarnieri, Vianinha, começamos como profissionais em 1956, acabamos recebendo uma influência daquele período de desenvolvimento econômico. É do período do Juscelino o Teatro Novo, o Cinema Novo, a Bossa Nova, o Campeonato Mundial de Futebol, o Campeonato Mundial de Basquete, a Maria Esther Bueno e o Éder Jofre. Era um momento em que em toda parte havia campeões.
O país viveu um desenvolvimento enorme naqueles anos. Foi um desenvolvimento econômico burguês, mas foi grande. Do ponto de vista capitalista, o Brasil dava certo, pois os ricos ganhavam cada vez mais dinheiro e os pobres tinham emprego. Para se ter uma idéia, sou engenheiro químico, me formei aqui em 1952, na antiga Escola Nacional de Química, que ficava lá na praia Vermelha (no Rio de Janeiro). Depois fui para os Estados Unidos fazer um curso e voltei em 1955. Quando cheguei, meu irmão já tinha conseguido três empregos para mim na Petrobras. E me disse “você tem que escolher”. E eu respondi que não queria nenhum, porque o que eu queria era fazer teatro. Mas para quem quisesse trabalhar em qualquer coisa tinha emprego. Foi um grande desenvolvimento, mas nos padrões capitalistas, que não dava segurança nenhuma para a maioria das pessoas. Mas durou até o governo Jango [João Goulart], só mudou depois do golpe de 1964.

Fórum – Mudando um pouco de assunto, em que momento o senhor percebeu que deveria teorizar a respeito daquilo que produzia? No campo da produção artística, há, em geral, a divisão do teórico e do prático e você atua nos dois lados.
Boal –
Tudo que eu faço, vou para o computador e escrevo, acho fundamental tornar o que fazemos teoria. Acho também que só aprende quem ensina. Porque quando você recebe a informação, ela produz um clarão neuronal no seu cérebro e a informação fica lá, mas quando você precisa explicar aquilo, você ativa uma série de redes neuronais e aquilo se fixa por mais tempo. A idéia de teorizar para mim sempre foi importante, mesmo quando eu estava preso fazia isso.
Fórum – Como foi a sua prisão?
Boal – Na verdade, dei uma sorte imensa, se é que se tem sorte quando se é preso. Ela aconteceu entre dois festivais, vinha do festival de Buenos Aires com o Arena Conta Zumbi, que tinha feito um sucesso imenso, aí voltei para ir pra Nancy, na França, e nesse meio tempo eles me pegaram. Então o Jack Lang, que era o presidente do festival de Nancy, mandou cartas para todo mundo que ia participar do festival e pediu para que eles enviassem cartas e telegramas para o governo brasileiro protestando contra sua atitude.
Inclusive uma das acusações que havia contra mim era a de que eu havia levado um artigo que saiu no jornal do [filósofo Jean-Paul] Sartre e era contra a ditadura. E então o Jack Lang também pediu ao Sartre que escrevesse uma carta protestando contra a minha prisão. E ele escreveu. Mas só que escreveu assim, que não foi absolutamente Augusto Boal que trouxe o artigo que nós publicamos contra a sangrenta ditadura brasileira... (risos) Eu ainda não falava francês direito nessa época, mas já entendia, aí o juiz pegou a carta, leu e falou para mim “mas até preso você está estimulando a subversão?”. Mas no fim ajudou, porque o nome Sartre naquela época era uma coisa extraordinária. Ele tinha escrito o Furacão Sobre Cuba, o livro que tinha sido um furor aqui no Brasil e já era muito conhecido. O Sartre, a Simone de Beauvoir...

Fórum – Hoje o seu trabalho tem grande inserção na África, não é?
Boal –
Nós diretamente trabalhamos com Moçambique, Guiné-Bissau e Angola, mas a gente sabe que o trabalho já é realizado em muitos outros países. A gente sabe que eles fazem, mas, digamos, não têm assim uma periodicidade. Em alguns a gente até já foi, como na África do Sul.

Fórum – Como se estabelecem esses diálogos com os diferentes grupos de Teatro do Oprimido espalhado em quase 70 países?
Boal –
Como o Teatro do Oprimido não é um receituário, não tem um esquema, é um processo, ele se adapta às várias culturas. Na Índia, por exemplo, temos um DVD que mostra uma ação com 12 mil praticantes desfilando pelas ruas de Calcutá, que se reuniram numa praça. Era tanta gente que não coube na praça, e eles foram lá para ouvir discurso. Eu falei, o organizador de lá falou, mas era só isso, só fala. Lá, eles fazem um movimento extraordinário. Os indianos têm um jeito de fazer as coisas ficarem bonitas, até no jeito de andar são melódicos. Na África, é tudo ritmo. Na Índia, é tudo melodia. Em cada lugar é de um jeito, só tem a estrutura que é teatral, senão deixa de ser teatro. O principal é ser ético e sincero. Na verdade, são eles que criam os diálogos, as improvisações, a imagem, a gente quer que eles façam tudo, nunca corrige nada, às vezes alertamos que talvez fazendo de um jeito não dê muito certo. Mas eles podem aceitar ou não as sugestões.

Fórum – E teve uma grande virada para que isso viesse a ser desse jeito?
Boal –
Para mim, teve sim, foi uma vez que a gente estava no Nordeste, acho que era em Pernambuco, e estávamos trabalhando para camponeses e fazíamos uma peça para eles fingindo que éramos camponeses em cena. A gente se vestia, passava até um creme escuro para parecer que éramos queimados do sol, porque os atores eram todos branquinhos de São Paulo. E a peça terminava com um canto que dizia algo como “temos que verter o nosso sangue para libertar a nossa terra”, e a gente com fuzis cenográficos, coloridos e dizendo isso.
Depois do espetáculo, chegou um camponês dizendo que tinha gostado muito, admirado o espetáculo e que, como a gente pensava igual a eles, nos disse para ir almoçar, porque a gente tinha feito a apresentação pela manhã, e que à tarde a gente se encontrava com os fuzis e para enfrentar um dos coronéis do local (risos). Eu disse “me desculpe, mas acho que houve uma mal entendido, os fuzis não disparam, eles não são de verdade, são fuzis cenográficos”. Ele respondeu “pô, mas vocês fazem um fuzil que não dispara?”. Mas não desistiu e disse “tudo bem, o fuzil é falso, mas vocês são de verdade, então venham com a gente que nós vamos conseguir fuzil para todo mundo”.
Aí foi complicado, lembro que ainda tentei argumentar e disse que a gente era verdadeiro, mas verdadeiros artistas e não verdadeiros camponeses. E ele respondeu “quer dizer que então quando os verdadeiros artistas dizem vamos verter o nosso sangue para libertar a nossa terra, vocês estão falando do nosso sangue de camponeses, não do sangue de vocês de artistas?”. Ali decidi que nunca mais faria uma peça onde diria o que camponeses, negros, mulheres ou quem quer que fosse tivessem que fazer. E comecei a pensar em descobrir algo que os ajude sem que fosse algo imposto. E o Teatro do Oprimido não impõe nada. Ele oferece. Ele é um método para aqueles que querem ajudar. Não é um Jesus Cristo, não ressuscita lázaros, mas se a pessoa quiser fazer algo, pode ajudar. Não dá consciência, mas ajuda a pessoa a aumentar a sua consciência. Naquela época a gente falava muito de conscientizar as massas. Isso não existe. Elas é que podem se conscientizar por si mesmas.

Fonte: Revista Fórum

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Robert Fisk, sobre o Iraque: Os chefões sonegarão a verdade

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Até o último dia no Iraque, os chefões sonegarão a verdade

Robert Fisk, 2/5/2009, The Independent, UK


"Reconhecemos", diz a carta, "que a violência custou a vida de muitos milhares de civis iraqueanos nos últimos cinco anos, seja o terrorismo seja a violência sectária. A perda de vidas humanas é trágica e o Governo sempre comprometeu-se com evitar baixas entre os civis. Os insurgentes e os terroristas não têm, lamento dizer, os mesmos escrúpulos."

Esse parágrafo saiu do "Grupo de Operações no Iraque, Comando das Operações" do Ministério da Defesa inglês, em documento assinado com letras que podem ser "SM" ou "SW" ou, quem sabe, "SWe". Estranhamente (mas compreensivelmente) não há qualquer nome legível, datilografado sob o rabisco que ocupa o lugar da assinatura do autor.

Que seja obviamente documento anônimo nem chega a surpreender, dado que não há qualquer referência aos civis massacrados na e pela operação de invasão e ocupação do Iraque por forças anglo-norte-americanas. Eu não faria nenhuma questão de parecer pessoalmente associado a esse tipo de mentira à moda Blair. O que é espantoso é que esse documento obsceno foi escrito em 2009.

Tenho de esclarecer desde já que devo esse documento revelador (que, de fato, tem data: 20 de janeiro) a um leitor nada anônimo do Independent, Tom Geddes, que supôs que me interessaria a "avareza com que o ministério da Defesa trata a verdade". Achei, sim, interessantíssima.

Estamos todos, agora, em plena era da verdade à moda Brown, quando afinal os ingleses arriaram a bandeira em Basra, ou estamos na era de "quase-certeza", do balanço de toda a catástrofe do Iraque. É hora, portanto, de lembrar os homens que nos arrastaram à guerra sob pretexto inventado. Minha opinião é que – como as pretensões de mudança, de Obama – tudo é falso, também o balanço. OK. Logo saberemos.

Mr. Geddes, leitor do Independent é bibliotecário aposentado, que trabalhou durante 21 anos na Biblioteca Britânica, chefe do setor de coleções germânicas, e é tradutor do sueco. Assim aconteceu que partilhamos a mesma paixão pelo trabalho da poeta sueco-finlandesa Edith Sodergrund.

Geddes escreveu ao Ministério da Defesa porque, aos 64 anos, ele, como eu (estou com 62), ficou impressionado quando leu que John Hutton, secretário de Defesa da Inglaterra, chamara de "cretinos" os que ridicularizam os soldados ingleses que estão voltando à Inglaterra (Sunday Times, Londres, 26/10/2008).

"Parece-me que o protesto popular não visa a denegrir a bravura individual e o espírito de sacrifício dos soldados", Geddes escreveu a Hutton dia 28 de outubro (os leitores perceberão que a resposta do ministério da Defesa, assinada por "SM", "SW" ou "SWe" demorou três meses!) – "[mas] é comentário político genérico que visa a protestar contra a ilegalidade e a amoralidade das recentes operações militares inglesas."

Não acho que a expressão tenha sido assim tão inocente. Mas a conclusão de Geddes – "a menos que seu ministério ou o governo inglês possam explicar e justificar a participação dos ingleses nessa guerra, não esperem que a população inglesa os apoie" – é impecável.

Tampouco se pode apoiar a resposta assinada por "SM". Eis outro parágrafo daquela carta execrável. "É importante lembrar que nossa decisão de tomar ação (sic) no Iraque foi resultado de Saddam Hussein ter-se recusado a colaborar com os inspetores oficiais da ONU (...). O ex-primeiro ministro expressou profunda lástima por alguma informação, dada com boa fé, relativa à existência de armas de destruição em massa no Iraque, que posteriormente se verificou ser incorreta."

Essa mentira deixou-me sem ar, sufocando. Saddam Hussein jamais "recusou-se a cooperar" com os inspetores de armas da ONU. O problema todo foi que – para grande susto de Blair e Bush –, o horrendo Saddam cooperou com os inspetores. Assim, a equipe de inspetores, coordenada por Hans Blix, chegou a um passo de descobrir que as "armas de destruição em massa" não existiam. Foi quando os norte-americanos obrigaram Blix e sua equipe a sair do Iraque, para que EUA e Blair pudessem encenar sua invasão ilegal e sem motivo. Eu vi o avião de Blix, estacionado no aeroporto de Baghdad, dois dias antes do ataque.

Observem-se as palavras enviesadas. Blair não deu qualquer informação "com boa fé", como diz "SM". Blair sabia – e o ministério da Defesa sabia (e suponho que "SM" também saiba) – que era mentira. Tampouco eram informações "incorretas", como escreveu "SM".

A carta, outra vez: "Podemos assegurar-lhe que o Governo não se teria envolvido em ação militar, se não estivesse convencido de que o envolvimento era justificado e legal. O ex-Advogado Geral, Lord Goldsmith, confirmou, dia 17/3/2003, a legalidade de empregar-se força militar contra o Iraque, por efeito combinado das Resoluções 678, 687 e 1.441 do Conselho de Segurança da ONU."

Tom Geddes responde, ultrajado: "O senhor deve saber que a decisão de invadir o Iraque jamais foi nem justificada nem legal. O parecer do Advogado Geral já foi descrito como "viciado". Suspeito que o Ministério da Defesa, hoje, já saiba disso." Eu também suspeito.

A carta-resposta que Tom Geddes recebeu é "resposta-padrão", e provavelmente está sendo enviada a todos os ingleses que escrevam cartas de protesto ao ministério da Defesa inglês. A frase "milhões de iraqueanos vivem hoje livres da opressão de Saddam e controlam seu próprio destino" é pura 'Relações Públicas', dentre outros motivos porque não diz que quase um milhão de iraqueanos já não controlam o próprio destino desde 2003 porque estão mortos. Morreram por causa da invasão.

Há uma frasezinha adorável, ao final da carta assinada por "SM", na qual ele (ou talvez seja ela) diz que "nossos bravos soldados e soldadas (...) estão preparando o aeroporto de Basra para transferi-lo ao controle iraqueano..." Sim, estão, é claro que estão. Porque – desde que foram forçados a retirar-se da cidade de Basra – o aeroporto de Basra é o único quilômetro quadrado do Iraque que ainda está ocupado por ingleses.

A carta termina com a sublime esperança de "SM" de que "essa carta contribua para dirimir suas dúvidas". Quanto a isso, só posso repetir o que escreveu Tom Geddes: "Agradeço a longa resposta, chocado com o conteúdo."

Também fiquei chocado. Sem dúvida, quando o governo Brown – ou o governo Cameron – completar o balanço de sua guerra ilegal, "SM" voltará à cena como testemunha ou, no mínimo, como porta-voz. Então, suponho que o "Grupo de Operações no Iraque" já terá sido extinto ou, então, talvez tenha sido convertido, por transmigração de corpos, em "Grupo de Operações no Afeganistão", com seu correspondente arquivo de mentiras históricas. Espero que, então, ainda haja um bibliotecário aposentado que ponha os pingos nos iis.

O artigo original, em inglês, pode ser lido aqui.

Fonte: Vi o Mundo

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Lave as mãos. Não faz mal

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Gripe Suína: Não cultive o pânico

por ELISABETH ROSENTHAL, no New York Times, em 02/05/2009


Lave suas mãos.

Eu sei que parece bobagem, mas é muito mais eficaz para prevenir a gripe do que ter uma dose de Tamiflu no armário do banheiro. Aceite a sugestão desta médica, mãe e repórter que cobriu a SARS assim como a gripe aviária, onde elas foram mais virulentas.

Em 2003, quando a SARS se espalhava pela Ásia, eu trabalhava em Beijing. Muitas famílias fugiram. A escola das minhas crianças -- a Escola Internacional de Beijing -- foi uma das poucas da cidade a ficar aberta, embora a classe de minha filha tenha caído de 25 para menos de 10 alunos.

Para as crianças que ficaram, a escola instituiu políticas estritas -- aquelas que as escolas promovem o tempo todo mas nunca cobram. Para os pais, a primeira era: Não mande seu filho doente à escola. Para os estudantes, era: Lave as mãos frequentemente durante todo o dia -- antes das refeições, depois do recreio.

Ninguém pegou SARS. Mas mais que isso, os vírus de estômago e as gripes comuns, que são um problema em escolas primárias de todo mundo, também desapareceram.

Se lavar as mãos é a primeira lição da epidemia de SARS a ser aplicada na gripe suína, as outras são: Máscaras, símbolos de proteção, raramente são úteis. E aproveite para ficar fora de casa; é onde você NÃO vai pegar a gripe.

Odeio ver imagens de pessoas no México andando de bicicleta ou caminhando nas ruas de máscaras. As doenças infecciosas não são transmitidas bem ao ar livre e sob o sol. Como médica e repórter, minha regra principal é entrevistar pessoas com infecções respiratórias -- da gripe comum à tuberculose ou gripe aviária -- em espaços abertos. Isso às vezes significa o saguão aberto de um hospital. Sim, evite multidões em espaços fechados de lugares onde possa haver perigo.

Também evite tocar coisas que muita gente toca -- maçanetas e escadas rolantes, por exemplo -- e em seguida tocar o nariz ou a boca. Tendo trabalhado em uma sala de cirurgia, já me acostumei a evitar isso.

Máscaras são para quando você não pode evitar espaços fechados em uma epidemia séria -- quando, por exemplo, você precisa viajar em um ônibus ou no metrô lotado. Em 2003 eu tinha uma máscara em minha bolsa enquanto viajava por cidades fortemente afetadas na Ásia, mas só usei raramente. Quando transmite uma doença infecciosa pelo ar, um paciente geralmente espirra ou tosse. No auge da SARS na China, se um passageiro por perto exibia sintomas, eu procurava outro lugar no metrô ou no avião.

Posso dizer da minha experiência em Beijing que ter uma cidade inteira de mascarados é devastador para o tecido social. É difícil ter uma conversação através de uma máscara -- não dá para ver os sorrisos ou a decepção. Uma boa máscara, usada com propriedade, é desconfortável e dificulta a respiração. E vestir uma máscara em volta do pescoço é mais um amuleto contra a doença que uma forma cientificamente válida de proteção.

Num ano normal nos Estados Unidos, milhares de pessoas morrem de complicações de gripe. A morte de um bebê no Texas ou as 200 pessoas que sucumbiram no México são casos trágicos, mas não preocupantes numericamente. Podem sugerir até que esse tipo de gripe suína é bem leve. Não temos idéia de quantas pessoas pegaram essa gripe e tiveram sintomas leves -- presumivelmente um grande número -- e passaram batido pelo sistema público de saúde. Mais informação é necessária para descobrir.

O que explica porque autoridades de saúde estão investigando os casos e seguindo a epidemia para saber qual o seu destino. É a melhor forma de evitar algo pior e ajudar a sociedade a se preparar. Mas assistí-los fazendo seu trabalho deveria nos dar segurança, não causar pânico.

Mesmo com a SARS, que teve uma alta taxa de mortalidade (1.000 pessoas morreram de cerca de 8 mil infectados) você pode argumentar que as consequências mais profundas foram econômicas. Gente em pânico cancelou reuniões e viagens em toda a região até meses depois, devastando as economias locais.

Falta de informação, assim como excesso, pode ser perigoso.

Em 2003, a China criou pânico ao tentar encobrir a epidemia de SARS, negando que ela tivesse atingido Beijing. O vácuo de boas informações levou a rumores selvagens. O perigo estava em todo lugar e em nenhum lugar. Pessoas deixaram a cidade por meses e ficaram distantes por não se saber se o risco era grande ou pequeno. Eu me lembro de vilas no campo implantando programas para descobrir a SARS. Moradores paravam o seu automóvel e enfiavam o termômetro na boca ou atrás da orelha para descobrir se você estava infectado.

Uma grande forma de espalhar o que quer que houvesse de doença.

Com a gripe suína, ainda bem, estamos no modo de divulgação total. Temos estatísticas a cada minuto. Mas as pessoas devem entender exatamente a informação que recebem. Pandemias em potencial rendem grandes manchetes; cientistas trabalhando duro, não. Pessoas vestindo máscaras dão grandes fotografias, mas a escola de Queens onde os alunos vão voltar às aulas, não.

Como médica, estudante de saúde pública e mesmo como jornalista, eu tremo quando ouço referência ao vírus suíno, ou H1N1, como "vírus mortal". As provas até agora não sugerem que seja mais mortal que o vírus da gripe comum. E há essa sentença que tenho lido frequentemente: "A Organização Mundial da Saúde não declarou uma pandemia, ainda". A sentença seria normal -- retratando a informação existente sem presumir o que virá -- se não incluísse o "ainda" final.

Fonte: Vi o Mundo

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São Paulo: Tirando os pobres do centro

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Prefeitura cria centro-dia e fecha albergues

ONG critica mudança do foco do atendimento ao morador de rua e diz ser uma política ‘higienista’

por Diego Zanchetta e
Vitor Hugo Brandalise, no Jornal da Tarde

O atendimento ao morador de rua mudou na capital. Albergues tradicionais do centro, onde transitavam todos os dias parte dos 10,7 mil desabrigados da cidade, foram fechados. O acolhimento ocorrerá agora principalmente em três “centros de convivência” diurnos. Esses locais - 1 em Santa Cecília e 2 no Parque D.Pedro II - são a maior aposta da secretária da Assistência Social e vice-prefeita, Alda Marco Antonio, 64 anos. “Estão ocorrendo mudanças e elas vão continuar. Se em seis meses esse novo modelo não tiver resultados, pensamos em outro”, afirma a secretária, criticada por entidades que classificam sua política de “higienista”.

As mudanças nesses primeiros quatro meses já causam polêmica entre entidades envolvidas há duas décadas na assistência à população de rua. Alda admitiu, por exemplo, que não gosta de ver moradores de rua “comendo em chãos duros”. Ela disse que as entidades que distribuem sopas e alimentos no centro serão convidadas a fazer o trabalho dentro dos centros de convivência. “O primeiro será inaugurado na Santa Cecília, logo após o prefeito voltar de viagem da Ásia (dia 21 de maio). Dentro dessas tendas, quero que a comida seja servida com os moradores sentados numa mesa, assistindo à televisão e conversando com nossos educadores, e não na calçada de uma rua escura.”

Nos centros, os moradores vão poder passar o dia recebendo atendimento psicológico, médico e social. “Queremos oferecer mais que o banho do albergue. A ideia é que o morador que se recusava a ir para o abrigo seja atraído para o centro”, disse Alda.

Esses locais, porém, não terão dormitório. Segundo o governo, os moradores de rua terão a opção de serem removidos para outros albergues, de bairros como Vila Alpina e São Miguel Paulista, na zona leste, ao fim do dia. “Se ele (morador) quiser encostar e dormir no centro de convivência, não terá problema”, afirma Alda.

A secretária também discorda do atendimento das Kombis, que transportavam os moradores de rua do centro para albergues. O serviço era realizado por 40 veículos, por meio de um convênio com a organização não-governamental (ONG) Santa Lúcia que não foi renovado. “Era comum o morador de rua chamá-los, em vez de andar cinco quarteirões até o albergue. Então, tenho dúvidas sobre a eficácia do atendimento que era feito por esses veículos.”

Para entidades, Alda quer afastar os desabrigados do centro. Em março, foi fechado o principal abrigo da região central, o São Francisco (no Glicério), com capacidade para 720 pessoas. Antes, o Centro de Acolhida Jacareí, na Bela Vista, já havia sido fechado, em julho. E as entidades também reclamam do atraso nos repasses do governo. “Não houve extinção de lugares”, argumenta a secretária.

Alda foi o elo da gestão Kassab para a aliança com o PMDB, principal partido de sustentação à reeleição do prefeito. A parte paulista da sigla, capitaneada pelo ex-governador Orestes Quércia, já adiantou que apoiará José Serra (PSDB) na eleição presidencial.

Fonte: Vi o Mundo

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Boal está vivo!

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Augusto Boal é o criador do Teatro do Oprimido

Boal está vivo!

Boal detestava a mediocridade, o servilismo e o silêncio dos que fingem que não vêem o que se passa. Era um homem direto e franco, sem jamais perder a ternura dos bons. Certamente, depois de morto, será ainda mais reconhecido, na nossa trágica tradição de valorizar mais os mortos do que os vivos.

Canalhas de todo o mundo não fiquem alegres. Boal está vivo! Vocês que torturaram o seu corpo, que infamaram seu trabalho, jamais venceram ou vencerão. Podem causar danos, adiar projetos, mas não conseguirão impedir que exista espaço para gente talentosa e com forte postura ética. Pobres de vocês, que jamais serão conhecidos pela honestidade e pela solidariedade com os demais membros da espécie humana.

É verdade que ele se foi, que não mais o veremos no plano físico, entretanto, ele jamais morrerá no coração de todos os oprimidos da face da Terra. Os seus 78 anos bem vividos foram suficientes para ele dizer a que veio e deixar um legado imortal de um brasileiro, carioca, suburbano, revolucionário e doce como goiabada.

Vocês que nunca o compreenderam e nem fizeram questão de melhor conhecê-lo, não sabem o que perderam. Pessoas como ele não existem em cada esquina. Simples, profundo e companheiro de todos que possuem o espírito livre e a consciência no lugar. Boal jamais foi arrogante como vocês. Nunca disse que sabia mais do que ninguém. Não precisava de marketing pessoal e nem de tietagem comercial.

Sua presença bastava e se impunha por si só, em tudo o que fazia no Brasil e no exterior. Deixou uma legião de admiradores e formou gerações de pessoas interessadas em contribuir para a construção de sociedades mais justas. Sua fama correu mundo, bem como o respeito pelo seu trabalho. Nada pedia pelo que fazia. Recebeu até poucas homenagens, considerando a grandeza de sua intervenção no mundo da vida.

Certamente, depois de morto, será ainda mais reconhecido, na nossa trágica tradição de valorizar mais os mortos do que os vivos. Não importa. Ele era o próprio teatro, e ele continuará a usar suas peças e, sobretudo, seu método e seus infindáveis ensinamentos. Estes retiravam material da alegria de estar vivo e de olhos abertos. É verdade, Boal detestava a mediocridade, o servilismo e o silêncio dos que fingem que não vêem o que se passa. Era um homem direto e franco, sem jamais perder a ternura dos bons.

*Luís Carlos Lopes é professor.

Fonte: Carta Maior

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Carta do MST a Augusto Boal

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Carta do MST a Augusto Boal

"O teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador, e o MST um companheiro. Nos solidarizamos com a família nesse momento difícil, e com todos e todas praticantes de Teatro do Oprimido no mundo", diz carta do Movimento dos Sem Terra em homenagem a Augusto Boal. "Aprendemos contigo que podemos nos divertir e aprender ao mesmo tempo, que podemos fazer política enquanto fazemos teatro, e fazer teatro enquanto fazemos política. Poucos artistas souberam evitar o poder sedutor dos monopólios da mídia, mesmo quando passaram por dificuldades financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se vendeu, não se calou".

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) divulgou a seguinte carta escrita em homenagem a Augusto Boal, falecido neste sábado, 2 de maio:

Companheiro Boal,

A ti sempre estimaremos por nos ter ensinado que só aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política, tua solidariedade com a classe trabalhadora é mais que exemplo para nós, companheiro, é uma obra didática, como tantas que escreveu. Aprendemos contigo que os bons combatentes se forjam na luta.

Quando ingressou no coletivo do Teatro de Arena, soube dar expressão combativa ao anseio daqueles que queriam dar a ver o Brasil popular, o povo brasileiro. Sem temor, nacionalizou obras universais, formou dramaturgos e atores, e escreveu algumas das peças mais críticas de nosso teatro, como Revolução na América do Sul (1961). Colaborou com a criação e expansão pelo Brasil dos Centros Populares de Cultura (CPC), e as ações do Movimento de Cultura Popular (MCP), em Pernambuco.

Mostrou para a classe trabalhadora que o teatro pode ser uma arma revolucionária a serviço da emancipação humana.

Aprendeu, no contato direto com os combatentes das Ligas Camponesas, que só o teatro não faz revolução,. Quantas vezes contou nos teus livros e em nossos encontros de teu aprendizado com Virgílio, o líder camponês que te fez observar que na luta de classes todos tem que correr o mesmo risco.

Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta.

Na ditadura, foi preso, torturado e exilado. No contra-ataque, desenvolveu o Teatro do Oprimido, com diversas táticas de combate e educação por meio do teatro, que hoje fazemos uso em nossas escolas do campo, em nossos acampamentos e assentamentos, e no trabalho de formação política que desenvolvemos com as comunidades de periferia urbana.

Poucas pessoas no Brasil atravessaram décadas a fio sem mudar de posição política, sem abrandar o discurso, sem fazer concessões, sem jogar na lata de lixo da história a experiência revolucionária que se forjou no teatro brasileiro até seu esmagamento pela burguesia nacional e os militares, com o golpe militar de 1964.

Aprendemos contigo que podemos nos divertir e aprender ao mesmo tempo, que podemos fazer política enquanto fazemos teatro, e fazer teatro enquanto fazemos política.

Poucos artistas souberam evitar o poder sedutor dos monopólios da mídia, mesmo quando passaram por dificuldades financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se vendeu, não se calou.

Aprendemos contigo que um revolucionário deve lutar contra todas, absolutamente todas as formas de opressão. Contemporâneo de Che Guevara, soube como ninguém multiplicar o legado de que é preciso se indignar contra todo tipo de injustiça.

Poucos atacaram com tanta radicalidade as criminosas leis de incentivo fiscal para o financiamento da cultura brasileira. Você, companheiro, não se deixou seduzir pelos privilégios dos artistas renomados. Nos ensinou a mirar nos alvos certeiros.

Incansável, meio século depois de teus primeiros combates, propôs ao MST a formação de multiplicadores teatrais em nosso meio. Em 2001 criamos contigo, e com os demais companheiros e companheiras do Centro do Teatro do Oprimido, a Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré. Você que na década de 1960 aprendeu com Virgílio que não basta o teatro dizer ao povo o que fazer, soube transferir os meios de produção da linguagem teatral para que nós, camponeses, façamos nosso próprio teatro, e por meio dele discutir nossos problemas e formular estratégias coletivas para a transformação social.

Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras. No que depender de nós, tua vida e tua luta não será esquecida e transformada em mercadoria.

O teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador, e o MST um companheiro. Nos solidarizamos com a família nesse momento difícil, e com todos e todas praticantes de Teatro do Oprimido no mundo.

Dos companheiros e companheiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

02 de maio de 2009

Fonte: Carta Maior

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sábado, 2 de maio de 2009

Do conceito de relevância

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No dia histórico, da extração do primeiro barril de petróleo do pré-sal, manchetes dos principais jornais:

Estadão

Folha

Globo

Fonte: Luis Nassif Online

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O Serra, calado, é um poeta! O vídeo do espírito do porco

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Serra falando sobre a gripe suína:

http://www.youtube.com/watch?v=_z97MhLvWsI

Fonte: Luis Nassif Online

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Um outro tipo de vírus, pra infectar seu computador. Ele se aproveita da nossa curiosidade mórbida.

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Sugestão de spam para a primeira página da Folha de domingo.

Já que a Folha gosta de reproduzir spam em sua primeira página aos domingos, eis aqui minha sugestão.


Recebi esta mensagem, que tenta se aproveitar da curiosidade mórbida de algumas pessoas e dessa verdadeira pandemia de informação suína da mídia porcorativa mundial que tenta nos paralisar com alguns espirros, mexicanos mascarados, declaração de Serra de que é só não chegar perto dos porquinhos para não se emporcalhar, e menos de 20 mortes confirmadas pela tal gripe que nos vai matar a todos, se não agora, pelo menos um dia.

Repare que o criador do spam simula enviar matéria do G1 (portal de notícias das Organizações Globo), via Globo.com.

Então, Folha? É de PIG para PIG, sobre pigs. Para quem já publicou uma ficha falsa da ministra Dilma, recebida via e-mail espalhado pela rede por grupos que assumidamente defendem a ditadura de 1964, conforme mostrei aqui em Folha assume que fez reporcagem sobre Dilma com material de um spam.

Pelo menos não difama ninguém, como aconteceu no caso da Dilma (aliás, ministra, que tal processar a Folha para testarmos como está o país sem a Lei de Imprensa?), e o único vírus transmitido é o da desinformação – matéria-prima da Folha da ditabranda.

Fonte: Blog do Mello

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Faculdade de Gilmar Mendes, reprovada pela OAB, conseguiu registro no pistolão

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por Antônio Mello, no seu blog

A Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Diamantino, que tem como um dos sócios fundadores Gilmar Mendes e é gerida pela União de Ensino Superior de Diamantino (Uned), levou pau da OAB, em agosto de 2000, quando foi criada. Não atendia a vários critérios da Ordem, inclusive o do número de habitantes na cidade. Diamantino tinha na época 15159 habitantes e a OAB estabelecia um mínimo de 100 mil.

Só que em 2000, o Brasil era governado por FHC e o advogado-geral da União era o próprio Gilmar Mendes. Então, o ministro da Educação da época, o tucano Paulo Renato (recém-empossado secretário do presidente eleito pela mídia e governador de SP, José Serra, secretário de Educação do estado) nem ligou para as recomendações e, “em agosto de 2001, o MEC expediu portaria autorizando o curso”.

Detalhe: “A decisão da OAB tinha peso nas decisões do Ministério da Educação até o governo de Fernando Henrique”.

Leia reportagem completa de Maurício Dias, na cada vez mais indispensável Carta Capital.

Ministro Gilmar, isso é jeitinho.






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pra rir!

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A origem do aporcalipse


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fonte: Vi o Mundo

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O "pertencimento" em São Paulo

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02/05/2009 - 17h40
Virada Cultural é a volta ao centro de SP

da Folha Online

A Virada Cultural é muito mais do que apenas espetáculo, diz Gilberto Dimenstein, colunista da Folha. "O centro da capital paulista foi abandonado por vários anos e continua com vários problemas", diz o jornalista. Para ele, o evento significa uma "volta ao centro".

"É a volta a uma história, a uma identidade em que você desenvolve um senso de pertencimento. A sociedade conectada pela cultura, pela educação, pela convivência, ou seja, o prazer de conviver, que é tão difícil na nossa cidade amedrontada com a violência."

Fonte: Vi o Mundo

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CDC: Uma gripe normal

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Gripe mexicana pode ser branda, diz agência dos EUA


Por
Maggie Fox

WASHINGTON (Reuters) - O surto de gripe no México pode não ser tão grave quanto pareceu inicialmente, já que muitos casos brandos podem ter passado despercebidos, disseram autoridades sanitárias dos EUA na sexta-feira.

O que se viu do vírus em sua expansão global sugere que ele se parece com uma gripe normal, de acordo com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC).

Os especialistas ainda estão tentando avaliar melhor o surto do vírus H1N1, e a Organização Mundial da Saúde mantém o seu nível de alerta contra pandemias no grau 5 (de uma escala até 6).

O México, país mais afetado, teve até 176 mortes por causa da nova doença. Outros países confirmaram contaminações, em geral de pacientes que estiveram no México e tiveram uma doença branda, que dispensava internação.

A única morte fora do México foi a de um bebê mexicano em visita ao Texas. De cinco crianças no México confirmadamente com o vírus, nenhuma morreu.

Os especialistas tentam entender por que os casos fora do México parecem mais brandos, e um relatório de sexta-feira do CDC sugere uma explicação simples -- o México teria muitos casos, a maioria brandos, e só os mais graves teriam sido notados.

"O espectro clínico da doença viral de origem suína 'influenza' A (H1N1) ainda não está muito bem caracterizada no México. Entretanto, as evidências sugerem que (...) a transmissão é disseminada e que a doença (em sua forma) menos severa é comum", disse o relatório especial, assinado conjuntamente pelo CDC, pelo Ministério da Saúde do México e por outros órgãos.

O mesmo seria válido para os EUA, segundo país com mais casos confirmados (141, sendo 5 com hospitalizações).

A médica Anne Schuchat, do CDC, disse que a nova cepa é praticamente tão contagiosa quanto a da gripe comum, mas com uma incidência de 25 a 30 por cento da população. "Ela se espalha facilmente de pessoa para pessoa", disse ela a jornalistas.

Análises genéticas de vários países mostram que o vírus não sofreu mutação, o que indica que o vírus em circulação no México não seria mais agressivo do que em outros países, segundo o CDC.

Começam a surgir questionamentos sobre eventuais exageros da Organização Mundial da Saúde e do CDC sobre a gripe, mas Schuchat disse que é cedo para especulações, pois o quadro ainda não se consolidou.

Fonte: Vi o Mundo

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Sabesp - São Paulo: O esgoto no rio

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Morador paga, mas esgoto vai para o rio

Desconfiados, moradores da zona leste fizeram o teste e descobriram que não há tratamento

por Naiana Oscar

Moradores do bairro Jardim Nélia, na zona leste, descobriram que pagam por um serviço público que não têm. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) cobra pela coleta e tratamento de esgoto e despeja tudo no Córrego Itaim. Revoltados com o valor das contas que chegam todo mês, os moradores resolveram testar o serviço para cobrar uma solução.

Despejaram tinta branca no vaso sanitário de uma das residências do bairro e, depois da descarga, correram para o rio. “Para nossa surpresa, a água começou a ficar branca”, disse o presidente da Associação de Moradores do Jardim Nélia, Joãoberto da Silva Neto. “É um absurdo a gente pagar para poluir nosso próprio bairro.”

O comerciante Antônio Cândido Rodrigues, de 55 anos, mora na Rua Antônio Vieira de Lima bem perto do córrego Itaim. Ele se instalou ali com a família há 30 anos, quando ainda se pescava no córrego. “Fomos nós mesmos que poluímos o rio. E por isso acho certo pagar, mas com a garantia que vamos ter o benefício”, disse com a conta de água e esgoto na mão. Em janeiro, ele pagou R$ 99 pelos dois serviços.

A própria Sabesp admite que o esgoto é coletado e jogado no córrego. Em nota, a assessoria de imprensa da companhia informou “ainda não existe um coletor-tronco neste trecho”. Com o coletor, seria possível levar o esgoto para a estação de tratamento.

A despoluição do córrego Itaim está prevista no programa Córrego Limpo, uma ação conjunta da Prefeitura e do governo do Estado para melhorar a qualidade das águas na capital. Segundo a Sabesp, estão previstos R$ 9,3 milhões para as obras do córrego, numa área de 9,4 km². No ano passado, a companhia diz ter instalado 5 quilômetros da rede coletora e que a obra só será concluída em julho de 2010.

Na primeira fase do programa Córrego Limpo, entre março de 2007 e março deste ano, 28 córregos foram despoluídos e a previsão é de que outros 58 sejam recuperados até o segundo semestre de 2010, com um total de R$ 440 milhões. “Ao mesmo tempo que investe, a Sabesp agrava a situação. Basta saber que nem 20% do esgoto coletado passa por um tratamento”, disse o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental. Cerqueira aponta a necessidade de revisão da cobrança do serviço feita pela companhia. “Para ela ter direito a esse pagamento, tem que fazer coleta, transporte e tratamento.”

Em novembro, o JT mostrou que a Sabesp despeja esgoto in natura em 6.670 pontos de rios e córregos da Região Metropolitana.

Fonte: Vi o Mundo/Jornal da Tarde

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Eduardo Galeano: a linguagem, as coisas e seus nomes

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por Eduardo Galeano

Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública. O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado. O imperialismo se chama globalização. As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões. O oportunismo se chama pragmatismo. A traição se chama realismo. Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões;

O oportunismo se chama pragmatismo;

A traição se chama realismo;

Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;

A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;

O direito do patrão de despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral;

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;
em lugar de ditadura militar, se diz processo.

As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos;

O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de
enriquecimento ilícito;

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;

Em vez de cego, se diz deficiente visual;

Um negro é um homem de cor;

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou AIDS;

Mal súbito significa infarto;

Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;

Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais;

Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;

Chama-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob proteção militar;

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;

Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas.

(Do livro De pernas pro ar, editora L&PM)

Fonte: Carta Maior

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sexta-feira, 1 de maio de 2009

O julgamento de De Sanctis

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Por Janice Ascari

Durante todo o dia de hoje e TRF da 3ª Região dedicou-se a julgar dois pedidos de abertura de processo administrativo disciplinar contra o Juiz Federal Fausto Martin De Sanctis.

O primeiro, rejeitado por 11 a 4, referia-se ao caso MSI-Corinthians e foi aberto pelo corregedor com base em notícia do site Consultor Jurídico. Um réu impetrou HC no STF pq seu advogado não acompanhou o interrogatório de outros co-réus. A defesa arrolou testemunhas no exterior e as cartas rogatórias para 6 (seis) países, para ouvir testemunhas, e que estavam sendo cumpridas.
Alegou-se desobediência pq a liminar proferida pelo Ministro Celso de Mello determinou a suspensão do processo, o que foi acolhido pelo juízo, mas os pedidos de cooperação que já estavam tramitando no exterior não foram suspensos.

Votaram pela não abertura do processo disciplinar os Des. Fed. Ramza Tartuce, Newton de Lucca, Fábio Prieto, Cecília Marcondes, Therezinha Cazerta, Mairan Maia, Márci Moraes, Baptista Pereira, Diva Malerbi e Marli Ferreira (Presidente). Os votos vencidos foram: André Nabarrete (relator e Corregedor), Roberto Haddad, Nery Jr e Peixoto Jr.

O segundo, rejeitado por 8 a 6, tratava das ordens de prisão expedidas eplo Juiz Fausto em desfavor do banqueiro Daniel Valente Dantas e que teriam supostamente desobedecido liminares concedidas pelo Min. Gilmar Mendes. A fundamentação básica para a rejeição foi a atipicidade da conduta, tratando-se de mero caso de interpretação por parte do magistrado. Entendeu o Tribunal não ter ocorrido nenhum abuso de autoridade nas decisões proferidas, havendo somente exercício legítimo da atividade jurisdicional, conforme sua livre e imparcial convicção, passível, enquanto tal, aos meios de impugnação previstos em lei - recursos, mas jamais de ação disciplinar.

Votaram pelo arquivamento do procedimento: Ramza Tartuce, Newton de Lucca, Fábio Prieto, Cecília Marcondes, Therezinha Cazerta, Mairan Maia, Diva Malerbi e Marli Ferreira (Presidente). Os votos vencidos foram: André Nabarrete (relator e Corregedor), Roberto Haddad, Nery Jr, Peixoto Jr, Márcio Moraes e Salette Nascimento.

A defesa do Juiz Fausto foi realizada, com muita concisão, brilhantismo e competência, pelo advogado Pierpaolo Cruz Bottini e bancada pela AJUFE, cujo Presidente e Diretoria compareceram em peso, ao lado de vários juízes federais, que lá permaneceram o tempo todo em apoio ao magistrado.

O TRF-3 honrou a toga e prestigiou a independência da magistratura, sobretudo a de primeiro grau, com votos equilibrados mas contundentes como os de Ramza Tartuce, Fábio Prieto, Therezinha Cazerta, Diva Malerbi e Marli Ferreira, que entraram para a história do Judiciário brasileiro.

Fonte: Luis Nassif

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Gripe do Agronegócio: 'suspeito número um é o sistema de produção'

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Alejandro Nadal é economista. Professor investigador do Centro de Estudios Econômicos e do “El Colegio de México”, colabora regularmente con o jornal mexicano de esquerda La Jornada. Muitos de seus artígos foram reproduzidos em sites como www.rebelion.org ou www.sinpermiso.info. Nadal é, além disso, membro do conselho editorial de Investigação Econômica, una excelente revista de ciências sociais dirigida pelo economista mexicano Ignacio Perrotini.



O economista Nadal

Leia a seguir a entrevista realizado por Salvador López Arnal, para o Rebelión, com o economista Alejandro Nadal.

De que estamos tratando quando se fala de gripe suína?

A chamada febre ou influenza suína é provocada por uma variação de um vírus que é endêmico em porcos. A influenza suína é rara em humanos, mas o vírus pode sufrer mutações e afetar humanos. É isso o que aconteceu neste caso.

Como pode ter havido a mutação do vírus, ao que parece, muito rapidamente e afetar a espécie humana?

O suspeito número um é o sistema de produção industrial de porcos, onde o confinamento permite o intercâmbio maciço de vírus, o que facilita o surgimento de novas cepas e variantes, algumas das quais podem ser um tipo patógeno de influenza, que pode afetar os seres humanos. As pocilgas são bem conhecidas por serem uma das melhores fontes de geração de variantes desses vírus.

Até agora, salvo o caso de um bebê que morreu no Texas, EUA, em 28 de abril, todos as mortes aconteceram no México e entre pessoas jovens. Por que?

É uma pergunta ainda sem resposta. Ainda não se tem conhecimento do motivo. Uma hipótese é que o vírus, em suas primeiras etapas, pode ser mais mortífero e, à medida que avança o processo de sua transmissão, diminui a virulência ou força destruidora. Entretanto, no caso do vírus A (H1N1), que acomete o México, a virulência não diminuiu (o vírus não teve mutação para gêneros menos malignos). Os médicos e laboratórios, todavia, não t~em respostas.

Qual é a situação em seu país, neste momento?

Fala-se de mais de dois mil casos de infecção com um quadro clínico similar ao do vírus A (H1N1). Cerca de 150 pessoas morreram, o que situa o nível de mortalidade em níveis comparativos a epidemias muito graves, embora não seja prudente ainda fazer comparações com estes níveis estatísticos.

Neste momento a Cidade do México, um aglomerado urbano de uns 20 milhões de habitantes, ela se encontra paralizada. As escolas, desde primárias até as universitárias, estão fechadas até o dia 6 de maio. Os restaurantes também estão fechados, até o mesmo dia. Muitas empresas diminuiram o ritmo de atividade. Em escala nacional, o sistema educacional está paralizado também até 6 de maio. As autoridades fazem esforços para conter o contágio e nos próximos dias saberemos se estas medidas obtiveram êxito. O certo é que, no momento, existem sérias dúvidas sobre a validade das ações governamentais.

O impacto econômica desta epidemia é forte. A grande divisão de serviços é muito importante na composição do PIB. Serviços de turismo e hotelaria são muito importantes e fortes geradores de emprego. O impacto da epidemia atinge em cheio, em primeiro lugar, estes setores. Além disso, o setor de turismo sentirá também o impacto, provavelmente durante muitos meses, como costuma acontecer nestes casos. O déficit crônico da balança comercial vai recrudescer. Além disso, é muito provável que as exportações de carne de porco e de frango sofram por causa desta epidemia, embora ainda não existam evidências de que a doença se transmita diretamente pelo consumo de carne de porco. Finalmente, a arrecadação de impostos se verá abalada de modo significativo, sobretudo o Imposto de Valor Agregado, que é, como sabemos, um imposto relativo a consumo. Enfim, tudo isso vem contribuir para a piora da situação, já comprometida pela crise do capitalismo, cujas previsões davam uma queda de 4,5% do PIB mexicano para o ano de 2009. Pessoalmente, dado o peso do setor de serviços, acredito que devemos ao menos somar outro ponto percentual de perda a essa estimativa, isto é, o PIB mexicano cairá ao redor de 5,5% este ano. É uma estimativa grosseira, pois resta verificar se esta situação será demasiado prolongada.

O que está acontecendo significa que a pecuária intensiva, industrializada, é um caldo de cultivo para agentes infecciosos? Não estamos tratando os animais, seres vivos, como se fossem seres inanimados, sem dor nem sofrimento?

A produção industrial em grande escala de gado em estábulos, de porcos e aves em ''granjas'' gicantescas, que são verdadeiras fábricas de carne, é uma das aberrações da produção capitalista nestes últimos cinquenta anos. Sim, efetivamente, é um caldo de cultivo de agentes patológicos. Facilita sua rápida evolução e promove o surgimento de novas cepas de grande virulência. É bem sabido pelso epidemiologistas o fato de que os vírus que causam a morte de seu hospedeiro mantêm um equilíbrio entre virulência e velocidade de transmissão. No caso dos criadouros industriais de porcos e aves, a recolocação cada vez mais rápido dos animais gera pressões (evolutivas) que desembocam no surgimento de cepas mais daninhas e de altas velocidades de transmissão. O fato é bem conhecido na literatura especializada. Mas as autoridades, tanto nacionais como internacionais (incluíndo aí a OMS, no que compete a FAO), sempre toleraram ou solaparam estas condições de produção de alimentos de carne.

Uma médica, cientista e pesquisadora do mexicano Hospital da Raça, que prefere permanecer no anonimato, apontou que os primeiros casos de pessoas afetadas foram detectados em princípios de março, mas que não foi feito nenhum tipo de alerta nem foi feito nenhum estudo a respeito. Aconteceram várias mortes por pneumonia, afirmou a médica, que não foram devidamente estudadas. ''Ao privilegiar a medicina privada, não se deu atenção nem fundos em investigação, infraestrutura e fornecimento de medicamentos à medicina pública, e o que estamos vivendo hoje são as consequências disso'', disse a médica.

O México não tinha elementos para levar a cabo uma análise para detectar a doença? É acertada essa análise em sua opinião?

É correta. E eu diria que a crítica da médica é até pequena. Nos últimos vinte anos o investimento em educação ficou estagnado, à medida que os governos privilegiaram o pagamento de rendimentos financeiros, ao invés de investir nos setores prioritários de desenvolvimento (Saúde, alimentação, moradia, educação, ciência e tecnologia). Um dos melhores exemplos disso é o de quatro anos atrás, quando o governo de Fox queria desmantelar o principal centro de pesquisas florestais, pecuárias e agrícolas do México. Nosso país conta com 11 mil quilômetros de litoral e o setor pesqueiro é muito importante, mas são muito poucos os centros de pesquisa sobre pesca e não existe um sistema em escala nacional de monitoração para o manejo racional do pescado. Voltando ao caso da Influenza, é exraordinário que neste país o governo pretenda abrir de modo rápido e ilegal o campo aos transgênicos, mas não se conta sequer com laboratórios para determinar com certeza quando alguém está contaminado com o vírus A (H1N1).

Luis de Sebastián, um economista de destaque da cidade espanhola de Barcelona, observou em um artigo recente publicado na revista Cinco Días que ''os mexicanos pobres sofrem uma epidemia gripal de nova ordem, sobre uma crise econômica e uma pobreza endêmica... O mundo não pode sobreviver à base de pequenas ilhas de ricos em meio a um mar de pobres''. Por que fala de mexicanos pobres? Não podem ser afetados também os mexicanos mais ou menos ricos?

Todos podem ser afetados.

Como deveriam agir as autoridades sanitárias em seu país? que deve fazer a população?

As autoridades sanitárias devem proporcionar a informação fidedigna do que está acontecendo. Devem realizar as pesquisas que qualquer epidemiologista conduziria e revelaria. No momento, não sabemos entretanto se as autoridades estudaram os pacientes infectados por este vírus para definir a forma de contágio, etc. As autoridades mexicanas sempre têm um comportamente defensivo: o responsável pelos Direitos Humanos nega casos de tortura. O do Meio Ambiente rechaça que haja contaminação, o da Saúde assinala que tudo está sob controle. É um quadro típico do burocratismo mexicano.

Que papel deveria ter a OMS diante da situação?

A OMS deveria deixar de dar sustentação aos grande interesses da indústria farmacêutica e da indústria agro-alimentar. Existe aí muita coisa a fazer para prevenir desastres futuros que farão essas epidemias e pandemias parecerem brincadeira de criança. Não se pode esquecer o papel da OMS e da FAO na manutenção da globalização neoliberal, um modelo econômico falido, cujas falhas em matéria de saúde pública e meio ambiente são notórias.

Podemos tirar alguma lição do que está acontecendo?

Há duas lições muito importantes. Primeiro, as fábricas de carnes (os gigantescos ''feedlots'' de bovinos nos Estados Unidos, as granjas de porcos e aves) são recintos em que a lógica da rentabilidade do capital se mistura com a dinâmica evolutica da natureza. O resultado é uma mistura explosiva. A rentabilidade requer grandes escalas de produção, crescimento rápido dos animais (induzido artificialmente por meio de hormônios) e forte rotação do capital. A dinâmica evolutiva não perdoa e aproveita essas características nos processos produtivos de carne em escala industrial. Desse caldeirão vão surgir sempre novos vírus patógenos. A OMS e os epidemiologistas do mundo sabem disso.

A segunda tem a ver com o tema da biossegurança, esta epidemia é uma mostra clara de que os sistemas de biossegurança no México, e muito provavelmente em muitos países, não estão preparados, nem de longe, para enfrentar contingências. Ainda assim, o governo mexicano insiste em seu afã de liberar cultivos transgênicos em escala comercial. Chama a atenção, em especial, o caso do milho. Esse cultivo tem seu centro de origem no México e uma lei federal (que vela pelos interesses das grandes corporações transnacionais) inclusive estabelece a obrigatoriedade de um regime de proteção especial para o milho. Entretanto, violando essa lei e a opinião inclusive do Instituto Nacional de Ecologia, o governo mexicano se presta à liberação comercial do milho no campo mexicano. Não há condições de biossegurança no México, esta é a lição mais clara da epidemia atual.

Rebelión (em espanhol): www.rebelion.org

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O fim dos donos da opinião

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por Luis Nassif - Coluna Econômica - 01/05/2009

Desde a campanha das diretas, tinha-se uma estrutura relativamente estável regulando a opinião pública, cujo epicentro era a chamada grande mídia - quatro ou cinco jornais do Rio e São Paulo, algumas revistas semanais e o jornalismo da TV Globo.

A partir desses centros, a informação se espraiava para os rádios, para a mídia regional e para veículos menores.

Nesse período, crises econômicas ou de credibilidade restringiram ainda mais esse núcleo. Jornal do Brasil e IstoÉ perderam sua dimensão política, estreitando ainda mais o mercado.

Por outro lado, houve avanço considerável da mídia regional, que em muitos casos recuperou valores do jornalismo - como a grande reportagem - deixados de lado pela mídia central.

A implosão final se deu com a Internet e as diversas formas de manifestação de pensamento - de comunidades de leitores de Blogs até as chamadas redes sociais. Em que isso muda a política?

O primeiro ponto é que limita gradativamente o uso da informação para jogadas políticas. A campanha do impeachment de Fernando Collor, por exemplo - independentemente dos erros e acertos de seu governo - foi eivada de manipulações primárias de informação.

Hoje em dia, esses absurdos tendem a ser cada vez mais coibidos pela própria expansão da Internet. Vide o caso da Folha, que divulgou uma suposta ficha no DEOPS da Ministra Dilma Rousseff - imputando-lhe assaltos e terrorismo. A ficha era falsa, não tinha sido obtida no DEOPS - como afirmara o jornal -, mas através de um desses spams que circulam na Net. O jornal errou, resistiu em admitir o erro mas acabou desmascarado por uma rede de blogs e uma corrente de emails.

Essa transparência obrigará os jornais, a partir de agora, a serem cada vez mais exigentes com a qualidade da informação. Mas não apenas isso.

A sociedade brasileira, hoje em dia, é composta por uma enorme quantidade de grupos de interesse, com um perfil de país avançado. Tem-se grupos em torno de temas como qualidade, gestão, saúde, políticas sociais, educação, inovação, políticas industriais, automobilismo etc.

Na Internet, esses grupos formam alianças em torno de temas específicos, mas não há um alinhamento automático.

Por exemplo, no ano passado resolvi enfrentar a revista Veja usando a Internet (http://luis.nassif.googlepages.com/). Em pouco tempo, mais de 800 blogs estavam reproduzindo a série - sem que houvesse qualquer convocação. Se colocar a palavra Veja no Google, os dois primeiros links são da própria revista, o terceiro, da minha série.

Terminada a batalha, vai cada qual para o seu lado, juntando-se com uma formação ou outra dependendo do tema tratado. No caso da Satiagraha, por exemplo, houve um apoio maciço dos Internautas ao juiz, ao delegado e ao procurador - em qualquer site que se passasse.

Esse modelo mostra que, daqui para frente, cada vez mais as ideias terão que ser discutidas, as informações checadas e questionadas, os grupos aprenderão a conviver entre si, a respeitar as ideias contrárias.

Enfim, o país começa a caminhar, finalmente, para uma ampliação histórica do conceito de democracia.

Fonte: Luis Nassif Online

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Os dossiês do Supremo

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por Luis Nassif

Como diz o manual de jornalismo da BBC, a notícia tem que explicar a quem interessa. Vamos a essas denúncias contra o MInistro Carlos Alberto Direito - de solicitar pequenas mordomias a parentes - e comparar com a atuação de Gilmar Mendes, que tem merecido apoio irrestrito da maioria do Supremo.

Na gestão Gilmar Mendes, o Supremo se transformou em uma fábrica de dossiês, começando com o factóide das escutas ambientais. Mas qual o jogo por trás desse dossiê?

Para efeito de comparação, primeiro confira o histórico de Gilmar:

1. Valeu-se do prestígio conseguido com o cargo de presidente do STF para fazer lobby para atração de empresas para sua cidade, Diamantino.

2. É um dos três sócios do IDP. É ululante que seu poder, como presidente do STF - ou mesmo como Ministro do Supremo - atrai contratos para o Instituto. O que leva um Instituto com atuação superespecífica a colocar propaganda nacional na revista Veja? Ou ter a TV Globo como um de seus clientes? Ou mesmo levar personalidades para dar aulas inaugurais ou ministrar cursos? O que impede uma parte interessada em agradar o Ministro de contratar os serviços do Instituto e beneficiar Mendes de forma indireta? Não o estou acusando dessa prática. Mas é evidente que abre margem a suspeitas. E essa ação público-privada jamais foi questionado por seus pares, menos ainda pelo escrupuloso decano Celso de Mello.

3. Empunhou duas bandeiras relevantes - a fiscalização do Poder Judiciário (no âmbito do CNJ) e o respeito aos direitos individuais (no âmbito do STF) - e desmoralizou-as, transformou-as em álibi para toda sorte de abusos, de acusações generalizadas, de manifestações políticas em favor exclusivamente dos poderosos, transformando o Supremo em um poder suspeito perante parcelas majoritárias da opinião pública.

4. Participou direta ou indiretamente de duas fraudes: o tal grampo e a tal escuta ambiental. O depoimento à CPI, de Aílton Carvalho de Queiroz, Chefe da Seção de Operações Especiais da Secretaria de Segurança do Supremo, comprovou que a montagem do factóide, o vazamento do relatório sigiloso - e inconsistente - à Veja, foi tramado no próprio gabinete da presidência do STF. E isso dias depois de Mendes almoçar na Editora Abril.

5. Montou um sistema de inteligência no Supremo, cujas atividades jamais foram explicadas e cujo principal contratado era diretamente ligado a Hugo Chicarone, o homem que tentou corromper o Policial Federal. O consultor foi demitido, depois do escândalo, mas jamais foi cobrado do Gilmar uma explicação sequer para essa ação nebulosa de montar um serviço de inteligência próprio, com pessoas desse quilate.

6. Os elogios - sem ressalvas - que recebeu do decano do STF, Ministro Celso de Mello, representam uma página vergonhosa na história do Supremo. Mello parte de um princípio correto - a de que a Justiça não deve ceder ao clamor das ruas - para um exercício amplo de insensibilidade em relação à opinião pública e defesa de um corporativismo responsável. O discurso de Celso de Mello não representou a coragem individual de um magistrado perante o clamor da rua, mas a falta de coragem do magistrado perante o corporativismo de seu Tribunal.

Depois de tudo isso, aparece esse dossiê denunciando outro Ministro por mordomias. Seria interessante nossos especialistas em política do Supremo trazer luzes para esse jogo.

Fonte: Luis Nassif Online

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Condoleezza Rice autorizou tortura pela CIA e pode ser processada.

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torturas autorizadas.

Rice e Bush: torturas autorizadas.


por Wálter Fanganiello Maierovitch

Em maio de 2002, os 007 da Cia prenderam Abu Zubayad, dado como elo com a Al Qaeda.

Para a CIA, Zubayad tinha informações concretas sobre ataque iminente aos EUA. Um ataque de grande proporção, em termos de vítimas e dados materiais.

À época, os norte-americanos temiam novos atentados, semelhantes ao consumado em 11 de setembro de 2001. E o então presidente W.Bush difundia informes, estes a “alavancar” o temor e o pânico entre os cidadãos.

Ainda no mês de maio de 2002, Condoleezza Rice, - então responsável pela segurança nacional-, reuniu-se com a direção da CIA. Era para analisar o pedido dessa agência de inteligência para Zubayad ser submetido a interrogatório com emprego de tortura. Ou seja, uso da desumana técnica conhecida por “waterboarding”.

Parêntese aberto.

O “waterbording é uma simulação de afogamento. O interrogando é acorrentado numa maca inclinável. Fica com os olhos hermeticamente vendados e a cabeça é reclinada, na posição de mergulho. Dois panos são usados para tapar a boca e o nariz A simular o ingresso da cabeça num recipiente com água, os torturadores inundam a região da boca e nariz com água saída de mangueira de grosso calibre, a dar a impressão de mergulho.

Essa técnica, “waterboarding”, acarreta no torturado um aumento de dióxido de carbono no sangue e compromete a respiração. O interrogando imagina estar sendo afogado.

Parêntese fechado.

No início de junho de 2002 e sem solicitar, –como era obrigatório–, um parecer jurídico do Departamento de Justiça sobre a legitimidade do emprego do “waterboarding” (parecer à luz da Constituição, da lei ordinária e das Convenções da ONU subscritas pelos EUA), a secretária Condoleezza Rice deu sinal verde para a CIA.

Para se ter idéia, Abu Zubaydah foi submetido a 83 sessões de interrogatórios com emprego da técnica do “waterboarding”.

No último outono da presidência de W.Bush, a então secretária de estado Rice foi convocada pelo senado. Respondeu várias perguntas. Sobre uma específica, referente a emprego de “waterbording” em interrogatório de terroristas, Rice desviou intecionalmente o foco. Afirmou ter participado de reuniões onde foram discutidos pedidos da Cia sobre uso do “waterbording”. A seguir, arrematou: “ não tenho mais lembrança sobre particularidades discutidas a respeito do tema”.

Conforme se sabe, um documento reservado será encaminhado a Justiça. Ele foi preparado pelo Senado através da Senate Inteligence Commitee. O documento revela haver Rice autorizado, em 2002, interrogatórios com emprego de “waterbording”, em Zubaydah.

O documento mostra, ainda, que em 2003 a CIA enviou relatório secreto onde detalhava a maneira pela qual procedia interrogatórios com emprego da técnica do “waterbording”. Esse relatório acabou discutido em reunião com a presença de Rice, do vice-presidente Dick Cheney e do secretário de estado Colin Powel. Nenhum dos presentes à reunião manifestou oposição ao que estava sendo realizado, ou melhor, nenhum se indignou, condenou ou proibiu as torturas.

Apenas em 2005, diante de inimaginável parecer técnico-jurídico e de memorandos interpretativos, o “waterbording” não foi considerado tortura.

Conclui-se, com “caradurismo” incrível, que retirados os panos do nariz e da boca do interrogado, o alívio é imediato. Assim, não ocorreria tortura que implicaria “em ameaça de morte iminente e dano mental prolongado”.

O que está claro é ter Rice dado, em 2002, sinal verde à CIA sem amparo em parecer ou memorando, que só surgiram em 2005.

PANO RÁPIDO. Na semana passada, o presidente Barack Obama ordenou a publicação dos arquivos da CIA sobre interrogatórios de acusados de terrorismo, de matriz fundamentalista islâmica. Para surpresa geral, Obama decidiu não mandar processar criminalmente os 007 da CIA responsáveis pelos brutais e animalescos atos de tortura.

Obama passou a ser acusado, pela oposição republicana, de ter quebrado o sigilo de operações secretas e, com isso, causado riscos à segurança interna.

No caso Rice, a semana que se inicia promete abrir uma nova discussão. A então secretária Rice concedeu, –sem contar com poderes para tanto–, autorização para torturar pessoa certa, Abu Zubaydah. Mais, sonegou informação ao Senado, de fato do seu inteiro conhecimento.

Pelo jeito, Rice está sob risco de processo criminal e já maculou o seu currículo ao autorizar uma forma desumana de interrogatório. Na verdade, trata-se de uma co-responsável por tortura.

Fonte: Blog Sem Fronteiras - por Wálter Fanganiello Maierovitch

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Roche e Glaxo fazem fortuna

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do New York TimesLink

A secretaria de Saúde e Serviços Humanos, Kathleen Sebelius, disse que os Estados Unidos comprarão 13 milhões de doses de remédio contra a gripe. Os Estados Unidos começaram a enviar 400 mil doses para o México. O governo americano tem um estoque de 50 milhões de doses antivirais e os estoques estaduais incluem outras 23 milhões de doses. Tanto o Tamiflu, da Roche AG, conhecido genericamente como oeltamivir, e o Relenza, da GlaxoSmithKline, conhecido genericamente como zanamivir, funcionam contra o novo vírus.

Fonte: Vi o Mundo

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