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segunda-feira, 5 de maio de 2008

EVIDÊNCIAS E CONSEQÜÊNCIAS DO 11/9 NOS EUA

EVIDÊNCIAS E CONSEQÜÊNCIAS DO 11/9 NOS EUA

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

"Evidências do Real" (Susan Willis) - Boitempo EditorialSusan Willis

Boitempo Editorial

128 páginas

R$ 32,00

Muito já foi publicado a respeito do significado e das conseqüências do ataque de 11 setembro de 2001 às torres gêmeas, em Nova York. Desde Noam Chomsky até os mais diversos colunistas de jornais e revistas do mundo inteiro, todos abordaram as dimensões políticas e militares do episódio. Assim como também analisaram as perspectivas das relações internacionais e até investigaram o trauma psicológico que se abateu sobre o povo estadunidense. Mas até a publicação de “Evidências do Real” (Boitempo) ninguém havia trazido para primeiro plano o impacto cultural daquele acontecimento, pelo menos não com a maestria de Susan Willis.

Em 127 páginas ela disseca as evidências daquele 11/9 na realidade subjetiva do povo estadunidense. Para tanto, observa desde o papel central exercido pelos meios de comunicação de massa ao uso de bandeirinhas dos EUA como demonstração de apoio ao governo Bush.

O livro é dividido em seis capítulos, além da introdução. Na abertura, é a máxima de Mao Tsé Tung quem indica o teor da obra: “O ensinamento de Mao está correto: em sua forma mais radical, uma revolução possui caráter cultural”, assinala o escritor Slavoj Zizek.

Se o líder comunista chinês versava sobre a luta contra o capitalismo, a professora Susan Willis desloca a centralidade da cultura e nos ensina que o peso subjetivo do 11 de setembro foi manipulado com exímia habilidade pelos neoconservadores de Washington. Em lugar de uma revolução anti-capitalista, tivemos um aprofundamento do capitalismo. Ao invés da revolução cultural preconizada por Mao, o que se viu foi uma involução cultural que sabotou qualquer possibilidade de resistência organizada em solo estadunidense. O país foi atacado em seu interior – territorial e mental.

Daí o feliz trocadilho do segundo capítulo, intitulado “Antraz are US”. Isto é: “Antraz somos nós” ou “Antraz são os EUA”. A autora mostra como o pânico do pó branco foi muito maior do que a real ameaça, enquanto ameaças reais não são vistas como tal. “Nem todos nós recebemos uma ameaça de antraz pelo correio, mas colhemos diariamente os frutos da combustão do carvão sob a forma de chuva ácida e gases provenientes do efeito estufa. O veneno também é um fato da vida industrial, vai dos solventes petroquímicos que absorvemos através da pele até o chumbo que inalamos e ingerimos. Substâncias tóxicas industriais contaminam o ar, a água e o solo”, afirma.

Claro está que numa sociedade pautada pelo espetáculo, tudo o que escapa ao circo parece não existir enquanto objeto merecedor de atenção. Como escreveu Guy Debord no livro “A sociedade do espetáculo”, vivemos tempos em que a própria mercadoria é espetacularizada tão visceralmente que sua utilidade vem sendo progressivamente substituída pelo fetichismo. O prazer se realiza no consumo e não no usufruto do objeto adquirido. “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: o mundo que se vê é o seu mundo” (página 30).

Um dos casos estudados por Susan Willis é o dos atiradores, que também causaram pânico na população, em grande parte devido à irresponsabilidade dos meios de comunicação de massa, para alegria dos que lucram com o desespero alheio. “O atirador sinaliza o avanço militar sobre a vida cotidiana e a transformação de nossas cidades em campos de batalha”, interpreta a professora. Aqui se encaixa com perfeição uma declaração de Bush durante o início do segundo genocídio ianque no Iraque: “I’m a war president”.

O presidente da guerra, isto posto pelo próprio em meio a risadas, é a chave para a compreensão do retrocesso cultural a que foram submetidos os Estados Unidos. Enquanto soldados destruíam parques arqueológicos e obras de arte datadas de milhares de anos, o imbecil chantageava a França com a mudança do nome das batatas fritas. “Se não se juntarem a nós, as ‘french fries’ vão passar a se chamar ‘freedom fries’”. A cultura da arrogância, da mediocridade, do “manda quem pode, obedece quem tem juízo” encontrou campo fértil nos EUA pós-11/9. Nunca tantos idiotas prosperaram tanto em tão pouco tempo.

No penúltimo capítulo, intitulado “O maior show da Terra”, a autora retoma a crítica à mídia de massa, que cuida de anestesiar pela imposição do terror. “Três anos após os ataques o sentimento de medo é estimulado pelos meios de comunicação, nos quais abundam o sensacionalismo, as mensagens dúbias e uma quantidade considerável do que poderíamos considerar evidentes mentiras (...) A CIA, o FBI e a NSA constituem uma babel de desinformação”. A proposta desse sistema é muito clara, inclusive com relação às válvulas de escape – até elas mantidas sob o controle da espiral do lucro acima da vida: “Como terapia contra o estresse, vamos às compras. Contra a ansiedade, comemos”.

Susan Willis passa a analisar o impacto do Ato Patriota, conjunto de leis aprovado apenas 45 dias após os ataques de 11 de setembro, que aumenta a regulamentação, o controle e a fiscalização das atividades cotidianas dos cidadãos norte-americanos, exacerbando o poder de policiamento do governo. Vale ressaltar a observação do cineasta Michael Moore, em seu documentário Fahrenheit 11/9: a maioria dos parlamentares que votaram pela aprovação do Ato Patriota não leu seu texto.

Não chega a surpreender que uma cultura ancorada na espetacularização imediatista produza políticos desta monta. Mas sempre assusta saber que sua ignorância causará impactos em todos os cantos do mundo, sobretudo quando se trata de aprovar bilhões de dólares para a maior máquina de matar da História, também conhecida como Exército dos EUA. E talvez seja este o grande mérito de Willis em “Evidências do Real”: retirar a cultura de seu suposto campo subjetivo e apresentá-la como algo palpável, tangível e, portanto, passível de ser utilizada como ferramenta para transformação da realidade.

Fonte: Fazendo Media


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terça-feira, 29 de abril de 2008

Uma montanha de abutres

Por Emiliano José

O que pretende a mídia com essa cobertura do caso da menina morta? Para quem não é refém desse tipo de espetáculo provoca náuseas. É o eterno retorno. É sempre assim: trata-se de pegar um caso, aquele que cai como uma luva para as pretensões midiáticas, e envolver, capturar o pacato cidadão, a pacata cidadã. E o País, como no final das novelas, pára: só discute aquele assunto. A vítima, em duplo significado, é a menina morta – Isabella Nardoni. Durante esses dias todos ela foi esquartejada pela imprensa – apareceu sob todos os ângulos, como sob todos os ângulos apareceu o casal assassino. Sim, porque a mídia já decidiu, para além de investigações, que o casal a matou.

E o casal pode até ter matado. Mas, que direito tem a mídia de pré-julgar, como o faz rotineiramente? Não teria. Mas se julga no direito de fazê-lo e nada acontece. Ela pode, pode tudo. Ou ao menos pensa e age dessa maneira. Poderíamos, quem sabe, recorrer a Theodor Adorno com sua densa análise sobre a indústria cultural – tudo transformado em mercadoria, inclusive as emoções, os sentimentos, que são construídos e reconstruídos permanentemente pela mídia. Nem o inconsciente, tão presente num tipo de cobertura como essa, pode ser pensado individualmente. Ele é suscitado constantemente, chamado a cada minuto pela mídia, e se manifesta das mais variadas maneiras – o chamado inconsciente coletivo. O que é raiva da multidão? É uma raiva natural? Ou, de alguma forma, essa raiva é chamada à cena?

Poderíamos, também, falar na sociedade do espetáculo, e aí recorreríamos a Guy Debord. Que é tudo isso senão um impressionante espetáculo, que busca no terreno do sórdido, dos sentimentos mais obscuros da alma humana, a sua matéria-prima, usada à saciedade? E a partir do acontecimento, parece que tudo agora coloca-se à disposição da cena, da montagem do espetáculo, da lógica da mídia, sempre pronta, preparada para o espetacular. Todos os atores são colocados em cena, para além de suas vontades, sem que consigam perceber que se preparam constantemente para a cena. A vítima, porque nada pode fazer para impedir a utilização. Os réus – é, a mídia já os decidiu nesse lugar – são atores privilegiados e ocupam espaço no fantástico show global da vida, sem que talvez sequer percebam estarem sendo utilizados para esse espetáculo.

A polícia e o Ministério Público entram no jogo. É visível como tudo muda quanto os microfones são colocados à frente da fonte, das autoridades. Todos se submetem, se orientam de acordo com lógica do espetáculo. Tudo está situado de acordo com as câmeras, com as luzes que ofuscam e condicionam. E a população também. Uma parte dela envolve-se diretamente: vai à porta da delegacia, apedreja, quer sangue, condena os que a mídia decretou como assassinos. Quer linchar. A mídia sabe que estimula esse procedimento. Não é inocente. Outra parte da população opina – para as câmeras, para os repórteres que aparecem daqui e dali, de todo lugar que se tem pra partir. Claro que essa opinião foi construída previamente, foi pacientemente tecida pelos conceitos embutidos na notícia, se é que se pode qualificar de notícia uma cobertura com essa característica. Ou a chamada notícia é isso mesmo? Há lágrimas na multidão, há rostos encolerizados, há desejo de violência. A mídia não pergunta sobre as conseqüências de sua atividade, reitere-se. Ela vende o que lhe interessa.

Foi, na história bíblica, Jesus quem clamou “Pai, eles não sabem o que fazem”, não foi? Creio que foi. Esse clamor não pode partir da mídia. Ela sabe o que faz. Sabe que está mexendo com sentimentos profundos, ancestrais. Está lidando com a vida e a morte. Com a violência que vem do íntimo de uma sociedade envolvida pela banalidade do mal – e agora visitamos Hannah Arendt. Com a violência contra as crianças. Que importa? O que interessa é aquela criança morta – branca, de classe média. “Que pauta!” – gritará logo o chefe de reportagem. “Vamos colocar todo o reportariado em cima da menina morta”. “Vamos fungar no cangote deles!” “E seguiremos até quando sobrar fôlego, e quanto mais demorar para chegar a conclusões mais definitivas, tanto melhor”.

Não, a mídia não tem perguntas sobre o entorno social. Parece, dada a natureza hiperbólica da cobertura sobre a menina morta, que não há outras meninas mortas, e há aos montes, infelizmente. Todo dia. Sem exceção. Meninas e meninos são maltratados, não são cuidados como deveriam pela sociedade, não são cuidados devidamente por suas famílias. Até porque as famílias assim descuidadas estão doentes – aqui no sentido mais amplo, social, psicológico.

É o pai que maltrata a filha, que bate. É o pai que estupra continuamente a filha ou o filho. É o pai que mata. É a mãe que abandona ou que bate ou que mata. Não há nenhum exagero no que digo, infelizmente. O que há é uma subestimação estatística de tudo isso. Uma tentativa da sociedade de considerar esse quadro de violência como algo confinado a quatro paredes, onde a lei não entra. A banalidade do mal. Ainda bem que temos o Estatuto da Criança e do Adolescente, que se constitui numa das legislações mais avançadas relativas à proteção integral à criança e ao adolescente. Lamentavelmente, no entanto, apesar dos avanços, ainda falta muito para que seja cumprido com o devido rigor.

Se os conceitos de indústria cultural ou de sociedade do espetáculo ou de banalidade do mal não nos bastam para entender a cobertura da menina morta, vamos ao cinema. Assistir, então, ao A Montanha dos Sete Abutres, fantástico filme de Billy Wilder. Ali se compreenderá o que é a mídia – não importa a morte de milhares de pessoas, importa o drama, a morte de uma. Charles Tatum, jornalista – o protagonista, vivido por Kirk Douglas, num impecável desempenho – leva essa compreensão às últimas conseqüências, praticamente deixando morrer, com suas táticas de postergação do salvamento, o sujeito preso no buraco de uma caverna. Quem assistir a esse filme, feito há quase 60 anos – exatamente em 1951 –, verá o quanto a imprensa continua a mesma.

Com algumas mudanças, que a roda gira. Afinal, nada será como antes. A mídia hoje está muito mais sofisticada, não só pelos meios, mas por suas mudanças conceituais. Não há mais lugar para crises de arrependimento, como aquela que acomete Tatum depois da morte do homem preso na caverna. Havia espaço para a reflexão ético-moral, nem que a posteriori. Havia, na culpa de Tatum, a idéia de um sentido de missão na mídia.

Hoje tudo se justifica em nome da absoluta mercantilização da notícia. A ética vale para referir-se a políticos, aos outros. O inferno são os outros, para a mídia. Ela é, sempre, o implacável justiceiro, não submetido a regras democráticas e, portanto, incapaz de aceitar que cometa erros. Hoje ela não deixa sequer que os mortos descansem em paz.


Por Emiliano José
Fonte: Revista Carta Capital
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