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segunda-feira, 5 de maio de 2008

O pão e o circo

Por Adriana Facina

A cuíca chora
Pois há roubo na balança
Quando o povo entra na dança
Chora mais do que criança

O pandeiro gargalha
Com o fogo de palha
Que o vento balança
E o povo inocente
Sambando nem sente
O vazio na pança
Fica lá no terreiro
Pois para o herdeiro
Ele fez poupança
E a cuíca chora
Pois há roubo na balança

O surdo se espalha
Marcando metralha
E nem dá confiança
Pro povo espremido
Que é sempre ferido
Com a ponta da lança
Depois da debanda
Alguém ainda manda
Ele pagar fiança
E a cuíca chora
Pois há roubo na balança

A viola vadia
Tem a filosofia
Que o moço não alcança
E o povo enganado
Não está conformado
Mas tem confiança
De ver um milagre
Sair do vinagre
É a sua esperança
E a cuíca chora
Pois há roubo na balança

(letra de Quando o povo entra na dança,
de Beto Sem Braço e Carlito Cavalcanti)


A atual conjuntura está marcada por uma crise econômica já em curso, cuja face mais perversa é a alta do preço dos alimentos. Em grande medida, essa elevação geral dos preços dos gêneros alimentícios é causada por especulação financeira, já que os alimentos como feijão, milho, trigo, entre outros, tornaram-se commodities negociadas em bolsas e permeadas pela lógica da financeirização da economia. O fato de nenhum ser humano conseguir sobreviver sem alimentos não interfere nesse processo, o que demonstra que, para a economia de mercado, o lucro precede sempre a vida.

Edward Palmer Thompson, historiador marxista britânico e um dos mais importantes pensadores da segunda metade do século XX, realizou uma série de estudos sobre revoltas populares que caracterizaram o processo de constituição do capitalismo na Inglaterra, país que foi pioneiro na consolidação da economia de mercado. Os motins do pão, por exemplo, se desenrolavam como uma negociação entre a plebe sublevada e os comerciantes do pão a partir de valores em conflito. De um lado, com base na idéia de que o lucro e o direito à propriedade privada não poderiam prevalecer sobre a vida humana, os revoltosos exigiam um preço justo para o pão, principal alimento popular na época (e de certo modo ainda hoje), delineando o que Thompson designava uma economia moral. De outro, os defensores do direito irrestrito de lucrar como motor do progresso econômico, ainda que isso custasse a fome do povo. Era a economia de mercado despontando como novidade histórica.

Outro estudioso desse mesmo processo de implementação do capitalismo, o antropólogo austríaco Karl Polanyi, afirma que a constituição da economia de mercado é um processo tão violento que exige uma transformação radical na sociedade, no sentido de torná-la uma sociedade de mercado, na qual mesmo a terra e o trabalho humano são transmutados em mercadorias. A grande transformação coloca sob ameaça a existência da vida humana, pois condena a maior parte da humanidade a depender do mercado para obter seu sustento básico, e também a própria natureza, mercantilizada e utilizada de modo predatório em nome do desenvolvimento econômico.

Na sua atual fase, o capitalismo acentuou esse processo ao colocar a produção de alimentos sob a batuta do agronegócio. Os princípios do agronegócio são incompatíveis com a produção em larga escala de alimentos baratos. Primeiramente, porque essas grandes empresas são pautadas por uma lógica intricada cujo objetivo é sobrevalorizar os preços das mercadorias produzidas, envolvendo, por exemplo, a utilização de transgênicos e agrotóxicos massiçamente. Segundo, em todo o mundo, mesmo nos EUA, o agronegócio depende de largos subsídios estatais e protecionismos, sustentados com dinheiro provenientes dos impostos pagos pela população. Terceiro, o impacto ambiental é muito superior ao da agricultura familiar, fazendo com que as previsões a longo prazo apontem para um esgotamento desse modelo e, conseqüentemente para uma busca pelo lucro imediato e predatório. Por fim, como conseqüência disso, o uso da terra vai se destinar à produção que dê mais retorno imediato, e que no presente momento são os grãos que em boa parte vão se destinar ao consumo animal (na forma de ração) e, sobretudo, os agrocombustíveis.

No mundo real, isso se reflete nos preços dos alimentos nos mercados, em gente comendo menos e numa catastrófica fome mundial já anunciada pela ONU. Significativamente, o maior aumento foi o do preço do pão. Motivos para motins como os descritos por Thompson na Inglaterra do século XVIII não faltam, já que, sob a perspectiva de uma economia moral, podemos dizer que nos encontramos diante de um grave crime contra a vida humana.

Talvez por isso mesmo, em meio a tudo isso, um relativo silêncio midiático sobre a crise, assunto colocado meio que de escanteio para dar lugar a um grande circo armado em torno da morte da menina Isabela. Na capa da Veja, a condenação sem mais na manchete em letras garrafais: Foram Eles. A população revoltada, clamando por uma justiça que não encontra em sua própria e cotidiana vida, dando contornos de classe ao caso em afirmações como: “se eles fossem pobres já estariam presos”. Pedras, gritos, grafites, quanta energia de inconformismo direcionada ao escabroso assassinato que traz à tona tabus da nossa sociedade como o infanticídio, enquanto crianças são assassinadas de modo violento pelo estado nas favelas e periferias, ou mesmo condenadas a um futuro sem esperança, o que não deixa de ser um assassinato, lento, mas não menos violento.

Num filme francês chamado O Ódio, que trata da situação da juventude dos multiétnicos e explosivos subúrbios parisienses, um dos personagens conta uma história interessante. Ele fala de um homem que salta do alto de um prédio e, antes de chegar ao inevitável encontro fatal com o solo, durante a queda, a cada andar repete para si mesmo: “até aqui está tudo bem”. Em tempos de barriga vazia, onde falta o pão, o circo providenciado pela mídia permite o extravasamento da revolta, do sentimento de injustiça, ao mesmo tempo em que, suavizando a relevância e a gravidade da crise, nos autoriza a dizer que, até aqui, vai tudo bem.

Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

Fonte: Fazendo Media


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EVIDÊNCIAS E CONSEQÜÊNCIAS DO 11/9 NOS EUA

EVIDÊNCIAS E CONSEQÜÊNCIAS DO 11/9 NOS EUA

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

"Evidências do Real" (Susan Willis) - Boitempo EditorialSusan Willis

Boitempo Editorial

128 páginas

R$ 32,00

Muito já foi publicado a respeito do significado e das conseqüências do ataque de 11 setembro de 2001 às torres gêmeas, em Nova York. Desde Noam Chomsky até os mais diversos colunistas de jornais e revistas do mundo inteiro, todos abordaram as dimensões políticas e militares do episódio. Assim como também analisaram as perspectivas das relações internacionais e até investigaram o trauma psicológico que se abateu sobre o povo estadunidense. Mas até a publicação de “Evidências do Real” (Boitempo) ninguém havia trazido para primeiro plano o impacto cultural daquele acontecimento, pelo menos não com a maestria de Susan Willis.

Em 127 páginas ela disseca as evidências daquele 11/9 na realidade subjetiva do povo estadunidense. Para tanto, observa desde o papel central exercido pelos meios de comunicação de massa ao uso de bandeirinhas dos EUA como demonstração de apoio ao governo Bush.

O livro é dividido em seis capítulos, além da introdução. Na abertura, é a máxima de Mao Tsé Tung quem indica o teor da obra: “O ensinamento de Mao está correto: em sua forma mais radical, uma revolução possui caráter cultural”, assinala o escritor Slavoj Zizek.

Se o líder comunista chinês versava sobre a luta contra o capitalismo, a professora Susan Willis desloca a centralidade da cultura e nos ensina que o peso subjetivo do 11 de setembro foi manipulado com exímia habilidade pelos neoconservadores de Washington. Em lugar de uma revolução anti-capitalista, tivemos um aprofundamento do capitalismo. Ao invés da revolução cultural preconizada por Mao, o que se viu foi uma involução cultural que sabotou qualquer possibilidade de resistência organizada em solo estadunidense. O país foi atacado em seu interior – territorial e mental.

Daí o feliz trocadilho do segundo capítulo, intitulado “Antraz are US”. Isto é: “Antraz somos nós” ou “Antraz são os EUA”. A autora mostra como o pânico do pó branco foi muito maior do que a real ameaça, enquanto ameaças reais não são vistas como tal. “Nem todos nós recebemos uma ameaça de antraz pelo correio, mas colhemos diariamente os frutos da combustão do carvão sob a forma de chuva ácida e gases provenientes do efeito estufa. O veneno também é um fato da vida industrial, vai dos solventes petroquímicos que absorvemos através da pele até o chumbo que inalamos e ingerimos. Substâncias tóxicas industriais contaminam o ar, a água e o solo”, afirma.

Claro está que numa sociedade pautada pelo espetáculo, tudo o que escapa ao circo parece não existir enquanto objeto merecedor de atenção. Como escreveu Guy Debord no livro “A sociedade do espetáculo”, vivemos tempos em que a própria mercadoria é espetacularizada tão visceralmente que sua utilidade vem sendo progressivamente substituída pelo fetichismo. O prazer se realiza no consumo e não no usufruto do objeto adquirido. “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: o mundo que se vê é o seu mundo” (página 30).

Um dos casos estudados por Susan Willis é o dos atiradores, que também causaram pânico na população, em grande parte devido à irresponsabilidade dos meios de comunicação de massa, para alegria dos que lucram com o desespero alheio. “O atirador sinaliza o avanço militar sobre a vida cotidiana e a transformação de nossas cidades em campos de batalha”, interpreta a professora. Aqui se encaixa com perfeição uma declaração de Bush durante o início do segundo genocídio ianque no Iraque: “I’m a war president”.

O presidente da guerra, isto posto pelo próprio em meio a risadas, é a chave para a compreensão do retrocesso cultural a que foram submetidos os Estados Unidos. Enquanto soldados destruíam parques arqueológicos e obras de arte datadas de milhares de anos, o imbecil chantageava a França com a mudança do nome das batatas fritas. “Se não se juntarem a nós, as ‘french fries’ vão passar a se chamar ‘freedom fries’”. A cultura da arrogância, da mediocridade, do “manda quem pode, obedece quem tem juízo” encontrou campo fértil nos EUA pós-11/9. Nunca tantos idiotas prosperaram tanto em tão pouco tempo.

No penúltimo capítulo, intitulado “O maior show da Terra”, a autora retoma a crítica à mídia de massa, que cuida de anestesiar pela imposição do terror. “Três anos após os ataques o sentimento de medo é estimulado pelos meios de comunicação, nos quais abundam o sensacionalismo, as mensagens dúbias e uma quantidade considerável do que poderíamos considerar evidentes mentiras (...) A CIA, o FBI e a NSA constituem uma babel de desinformação”. A proposta desse sistema é muito clara, inclusive com relação às válvulas de escape – até elas mantidas sob o controle da espiral do lucro acima da vida: “Como terapia contra o estresse, vamos às compras. Contra a ansiedade, comemos”.

Susan Willis passa a analisar o impacto do Ato Patriota, conjunto de leis aprovado apenas 45 dias após os ataques de 11 de setembro, que aumenta a regulamentação, o controle e a fiscalização das atividades cotidianas dos cidadãos norte-americanos, exacerbando o poder de policiamento do governo. Vale ressaltar a observação do cineasta Michael Moore, em seu documentário Fahrenheit 11/9: a maioria dos parlamentares que votaram pela aprovação do Ato Patriota não leu seu texto.

Não chega a surpreender que uma cultura ancorada na espetacularização imediatista produza políticos desta monta. Mas sempre assusta saber que sua ignorância causará impactos em todos os cantos do mundo, sobretudo quando se trata de aprovar bilhões de dólares para a maior máquina de matar da História, também conhecida como Exército dos EUA. E talvez seja este o grande mérito de Willis em “Evidências do Real”: retirar a cultura de seu suposto campo subjetivo e apresentá-la como algo palpável, tangível e, portanto, passível de ser utilizada como ferramenta para transformação da realidade.

Fonte: Fazendo Media


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