Mostrando postagens com marcador Emiliano José. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Emiliano José. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de maio de 2008

O professor e a Casa Grande


Por Emiliano José

Costumo dizer que nenhuma nação passa impunemente por quase quatro séculos de escravidão. E se o modo de produção escravista perdurou no Brasil até o final do século XIX, não há possibilidade de as marcas se apagarem com facilidade. As marcas materiais e as simbólicas. As duas imbricadas. A cultura da Casa Grande sobrevive solidamente na sociedade brasileira, por menos que o queiramos. O preconceito e a discriminação contra os negros são heranças presentes da escravidão. Claro que temos avançado. Há hoje um forte movimento negro no País. Há mais consciência da sociedade brasileira contra o racismo. Mas, ainda temos uma longa estrada pela frente.

Justo na Bahia, uma terra negra, uma polêmica se instalou por conta de um racismo explícito do professor Antônio Natalino Dantas, coordenador do colegiado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Contemos do início. A bicentenária Faculdade de Medicina obteve nota 2 no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). E isso deixou muita gente perplexa. A escola era considerada de qualidade. E agora desabava. O professor não contou conversa: atribuiu a péssima nota “ao QI dos baianos”. É, com aspas, declaração do professor. Mas, Natalino, como é mais conhecido, solidamente fincado na Casa Grande, foi além. Enfiou o pé na jaca.

Atribuiu a culpa pela nota baixa aos negros. Ou, se quisermos amenizar – e ameniza? – ao sistema de cotas vigente na UFBA. “A prova foi feita com alunos do primeiro semestre e do último semestre. Pode estar havendo uma contaminação das cotas e influência da transformação curricular nesse resultado”. As palavras têm peso e lugar: contaminação. Sabe, negros contaminam. Cotas contaminam. Por que essa mistura? Por que abrir as portas a essa gente? A Universidade brasileira não devia se deixar contaminar. Devia continuar branca.

E ele vai adiante, enfia os dois pés na jaca. Desqualifica a música dos negros. “O berimbau é um instrumento para quem tem poucos neurônios”. É, ele disse isso, sem tirar nem pôr. Com aspas, outra vez. São os negros que tocam berimbau, sabe-se. São eles que têm poucos neurônios. E caminhava daqui pra lá e de lá pra cá, mãos às costas como convém ao senhor que transita pelo amplo salão da Casa Grande, e completava, enfático: “A música da Bahia é batuque, não tem qualidade”. Ele não gosta de percussão. E a desqualifica.
Houve reações de toda parte. O governador Jaques Wagner (PT) foi duro: “A declaração (sobre o QI dos baianos) é de uma imbecilidade ímpar. É condenável sob todos os aspectos. Utiliza um conceito ultrapassado e traduz um preconceito profundo contra o povo baiano”.

Até senadores da direita, como César Borges e Antônio Carlos Magalhães Júnior, embarcaram na onda e condenaram as declarações. O grupo cultural Olodum, hoje com renome internacional, foi definido pelo professor Natalino como “uma escola de barulho”. Como se vê, o repertório de Natalino é vasto porque vasta é a herança da Casa Grande. Olodum, ora, é casa do batuque, do barulho pelo barulho, sem talento, coisa de negro. O Olodum vai ingressar com ação no Ministério Público Estadual contra o professor. O reitor da UFBA, Naomar de Almeida Filho, foi categórico:

“As afirmações do professor Natalino são racistas, discriminatórias, reacionárias e anacrônicas. Além de não terem substância, trazem problemas éticos sérios, são insensíveis em termos culturais e demonstram uma imensa ignorância antropológica. Essas opiniões o desqualificam como coordenador de um programa de formação acadêmica com mais de mil alunos sob sua responsabilidade”.

O reitor, no entanto, não tem atribuições legais para demitir o professor. Assim, requereu ao colegiado de Medicina que o afaste do cargo.

O professor Natalino ouviu as reações da varanda da Casa Grande e tentou se defender. Mas, não há jeito. O uso do cachimbo faz a boca torta. “Não sou racista. Se eu fosse, diria. Sou médico e boa parte das pessoas que atendo são gente de cor. Minha secretária também é de cor. Se fosse racista, não a escolheria”. Vejam o quanto ele concede. Apesar de tudo, atende gente negra, de cor. E até admite ter uma secretária negra, de cor. Música? “Não sou obrigado a gostar de berimbau”. E repisa, pisa: “O que eu disse é que é um instrumento primitivo, que só toca uma nota só”.

E agora sentado na cadeira de balanço da Casa Grande, ouvindo acordes vindos do gramofone, quem sabe Bach ou Beethoven, diz que gosta mesmo, ouvido sensível, sofisticado que é, de piano e violino. Indignou-se porque até de Hitler o chamaram, os que se indignaram. Mas não há um quê de arianismo em tudo aquilo que o professor disse? É provável que ele creia que não. Que se creia um bom rapaz por tolerar gente de cor.
Paulo Lima, professor-doutor em Música e Educação, explica que de simples o berimbau não tem nada, ao contrário do que acredita Natalino, admirador da música clássica. O mestre Bira Reis, 30 anos de pesquisa com a cultura popular, lembra que o som do berimbau já foi levado para todos os lugares do mundo por gente, por exemplo, como Naná Vasconcelos. Primitivo, assim, parece ser só o pensamento do professor Natalino.

Um dos poucos a se solidarizar com Natalino foi o diretor da Faculdade de Medicina, Tavares Neto, que classificou a reação geral como um “factóide”. E ele tem que reagir assim mesmo, para ser coerente com um parceiro. Afinal, Natalino teve todo o apoio dele para chegar à chefia do colegiado. Para isso, contou com os votos dos seus colegas professores. A Faculdade de Medicina tem, na realidade, uma situação privilegiada, pois exibe uma relação professor-aluno melhor que a de Harvard. Isso mesmo. São 277 docentes para 1052 alunos. Pouco mais de três alunos para cada professor. Um luxo!

Ocorre que os professores dedicam-se a seus consultórios e clínicas e aos excelentes programas de pós-graduação que existem na faculdade. Não dão aula na graduação, que fica entregue a alunos dos cursos de pós. Ou seja, há, na Faculdade de Medicina, um sério problema de gestão, onde deve ser encontrada a causa para a baixa nota no Enade.

Tavares Neto, ao invés de enfrentar o problema, em 2004, propôs fechar a escola para ver o que fazer. Não por acaso, era o primeiro ano das cotas. A direção da faculdade revela agora a sua mentalidade senhorial, preconceituosa e contra as políticas de inclusão social. Esse mérito tem o professor Natalino. O lixo saiu debaixo do tapete. Não dá mais para esconder.

Ainda estamos distantes, portanto, do respeito à política de cotas – que, para fazer justiça, tem sido seriamente defendida pelo reitor Naomar de Almeida Filho, um de seus ideólogos em plano nacional inclusive. As resistências não são pequenas. Até porque ainda são muito fortes as casamatas senhoriais.

Do alto da varanda da Casa Grande, há senhores que se julgam com poder para excomungar os negros. Já avançamos bastante, reitere-se. Mas, inegavelmente teremos que lutar muito para promover a revolução cultural que nos unifique, que sepulte as marcas do preconceito e da discriminação contra os negros, tão evidentes nesse episódio. Uma revolução cultural que nos faça não esquecer da escravidão, mas lembrar dela para que extirpemos suas odiosas, lamentáveis manifestações.

por Emiliano José

Direto de Salvador

Fonte: Carta Capital
Share/Save/Bookmark

terça-feira, 29 de abril de 2008

Uma montanha de abutres

Por Emiliano José

O que pretende a mídia com essa cobertura do caso da menina morta? Para quem não é refém desse tipo de espetáculo provoca náuseas. É o eterno retorno. É sempre assim: trata-se de pegar um caso, aquele que cai como uma luva para as pretensões midiáticas, e envolver, capturar o pacato cidadão, a pacata cidadã. E o País, como no final das novelas, pára: só discute aquele assunto. A vítima, em duplo significado, é a menina morta – Isabella Nardoni. Durante esses dias todos ela foi esquartejada pela imprensa – apareceu sob todos os ângulos, como sob todos os ângulos apareceu o casal assassino. Sim, porque a mídia já decidiu, para além de investigações, que o casal a matou.

E o casal pode até ter matado. Mas, que direito tem a mídia de pré-julgar, como o faz rotineiramente? Não teria. Mas se julga no direito de fazê-lo e nada acontece. Ela pode, pode tudo. Ou ao menos pensa e age dessa maneira. Poderíamos, quem sabe, recorrer a Theodor Adorno com sua densa análise sobre a indústria cultural – tudo transformado em mercadoria, inclusive as emoções, os sentimentos, que são construídos e reconstruídos permanentemente pela mídia. Nem o inconsciente, tão presente num tipo de cobertura como essa, pode ser pensado individualmente. Ele é suscitado constantemente, chamado a cada minuto pela mídia, e se manifesta das mais variadas maneiras – o chamado inconsciente coletivo. O que é raiva da multidão? É uma raiva natural? Ou, de alguma forma, essa raiva é chamada à cena?

Poderíamos, também, falar na sociedade do espetáculo, e aí recorreríamos a Guy Debord. Que é tudo isso senão um impressionante espetáculo, que busca no terreno do sórdido, dos sentimentos mais obscuros da alma humana, a sua matéria-prima, usada à saciedade? E a partir do acontecimento, parece que tudo agora coloca-se à disposição da cena, da montagem do espetáculo, da lógica da mídia, sempre pronta, preparada para o espetacular. Todos os atores são colocados em cena, para além de suas vontades, sem que consigam perceber que se preparam constantemente para a cena. A vítima, porque nada pode fazer para impedir a utilização. Os réus – é, a mídia já os decidiu nesse lugar – são atores privilegiados e ocupam espaço no fantástico show global da vida, sem que talvez sequer percebam estarem sendo utilizados para esse espetáculo.

A polícia e o Ministério Público entram no jogo. É visível como tudo muda quanto os microfones são colocados à frente da fonte, das autoridades. Todos se submetem, se orientam de acordo com lógica do espetáculo. Tudo está situado de acordo com as câmeras, com as luzes que ofuscam e condicionam. E a população também. Uma parte dela envolve-se diretamente: vai à porta da delegacia, apedreja, quer sangue, condena os que a mídia decretou como assassinos. Quer linchar. A mídia sabe que estimula esse procedimento. Não é inocente. Outra parte da população opina – para as câmeras, para os repórteres que aparecem daqui e dali, de todo lugar que se tem pra partir. Claro que essa opinião foi construída previamente, foi pacientemente tecida pelos conceitos embutidos na notícia, se é que se pode qualificar de notícia uma cobertura com essa característica. Ou a chamada notícia é isso mesmo? Há lágrimas na multidão, há rostos encolerizados, há desejo de violência. A mídia não pergunta sobre as conseqüências de sua atividade, reitere-se. Ela vende o que lhe interessa.

Foi, na história bíblica, Jesus quem clamou “Pai, eles não sabem o que fazem”, não foi? Creio que foi. Esse clamor não pode partir da mídia. Ela sabe o que faz. Sabe que está mexendo com sentimentos profundos, ancestrais. Está lidando com a vida e a morte. Com a violência que vem do íntimo de uma sociedade envolvida pela banalidade do mal – e agora visitamos Hannah Arendt. Com a violência contra as crianças. Que importa? O que interessa é aquela criança morta – branca, de classe média. “Que pauta!” – gritará logo o chefe de reportagem. “Vamos colocar todo o reportariado em cima da menina morta”. “Vamos fungar no cangote deles!” “E seguiremos até quando sobrar fôlego, e quanto mais demorar para chegar a conclusões mais definitivas, tanto melhor”.

Não, a mídia não tem perguntas sobre o entorno social. Parece, dada a natureza hiperbólica da cobertura sobre a menina morta, que não há outras meninas mortas, e há aos montes, infelizmente. Todo dia. Sem exceção. Meninas e meninos são maltratados, não são cuidados como deveriam pela sociedade, não são cuidados devidamente por suas famílias. Até porque as famílias assim descuidadas estão doentes – aqui no sentido mais amplo, social, psicológico.

É o pai que maltrata a filha, que bate. É o pai que estupra continuamente a filha ou o filho. É o pai que mata. É a mãe que abandona ou que bate ou que mata. Não há nenhum exagero no que digo, infelizmente. O que há é uma subestimação estatística de tudo isso. Uma tentativa da sociedade de considerar esse quadro de violência como algo confinado a quatro paredes, onde a lei não entra. A banalidade do mal. Ainda bem que temos o Estatuto da Criança e do Adolescente, que se constitui numa das legislações mais avançadas relativas à proteção integral à criança e ao adolescente. Lamentavelmente, no entanto, apesar dos avanços, ainda falta muito para que seja cumprido com o devido rigor.

Se os conceitos de indústria cultural ou de sociedade do espetáculo ou de banalidade do mal não nos bastam para entender a cobertura da menina morta, vamos ao cinema. Assistir, então, ao A Montanha dos Sete Abutres, fantástico filme de Billy Wilder. Ali se compreenderá o que é a mídia – não importa a morte de milhares de pessoas, importa o drama, a morte de uma. Charles Tatum, jornalista – o protagonista, vivido por Kirk Douglas, num impecável desempenho – leva essa compreensão às últimas conseqüências, praticamente deixando morrer, com suas táticas de postergação do salvamento, o sujeito preso no buraco de uma caverna. Quem assistir a esse filme, feito há quase 60 anos – exatamente em 1951 –, verá o quanto a imprensa continua a mesma.

Com algumas mudanças, que a roda gira. Afinal, nada será como antes. A mídia hoje está muito mais sofisticada, não só pelos meios, mas por suas mudanças conceituais. Não há mais lugar para crises de arrependimento, como aquela que acomete Tatum depois da morte do homem preso na caverna. Havia espaço para a reflexão ético-moral, nem que a posteriori. Havia, na culpa de Tatum, a idéia de um sentido de missão na mídia.

Hoje tudo se justifica em nome da absoluta mercantilização da notícia. A ética vale para referir-se a políticos, aos outros. O inferno são os outros, para a mídia. Ela é, sempre, o implacável justiceiro, não submetido a regras democráticas e, portanto, incapaz de aceitar que cometa erros. Hoje ela não deixa sequer que os mortos descansem em paz.


Por Emiliano José
Fonte: Revista Carta Capital
Share/Save/Bookmark