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terça-feira, 6 de maio de 2008

Fora de rumo



O sociólogo e ensaísta alemão Robert Kurz fala sobre a atual crise financeira e diz que o trem da humanidade pode descarrilar

por Luiz Antonio Cintra


Quando O Colapso da Modernização foi publicado, no início dos anos 90, o sociólogo e ensaísta alemão Robert Kurz foi chamado de catastrofista por seus críticos. Não era para menos. Sua tese central, ainda hoje presente em artigos e livros, afirma que o capitalismo mundial encontra-se em rota de colisão desde o surgimento da microeletrônica. As novas tecnologias aumentaram de forma exponencial a capacidade produtiva das empresas, argumenta Kurz, na mesma medida em que passaram a demandar cada vez menos mão-de-obra. Um movimento inverso, portanto, ao do fordismo, quando a produção crescente puxava o número de empregos e garantia renda para o consumo, em um ciclo virtuoso do capital.

Os tempos são outros, garante Kurz, e hoje o resultado dessa equação não leva a nada de bom: avançando contra seus limites econômicos e ambientais, o capitalismo evolui rumo a um ‘acidente fatal’, cujos indícios são as sucessivas crises financeiras que têm colocado em alerta as economias centrais. “Se a humanidade não encontrar o freio de emergência, este trem poderá descarrilar”, afirma na entrevista a seguir.

CartaCapital: Os prejuízos dos bancos norte-americanos têm aumentado de modo exponencial. Em semanas, as estimativas saltaram das dezenas de bilhões de dólares para quase um trilhão de dólares. Como o sr. avalia esse cenário?
Robert Kurz:
A atual crise financeira supera de longe todas as que a antecederam desde os anos 80. Antes de tudo, ela não mais se resume a apenas um país ou a uma região do mundo. Como os EUA formam o centro da arquitetura financeira global, entra em ação um efeito dominó que atinge todo o capital mundial. O efeito sobre a economia real é previsível. Há muito tempo os salários reais diminuíram nos EUA. O “milagre do consumo” se alimentava de financiamentos que foram angariados através de ações e hipotecas. Com o estouro da bolha no mercado de imóveis, as conseqüências da recessão não se farão sentir somente por 6 meses ou 9. Caso a economia americana entre em uma estagnação duradoura ou até mesmo numa depressão, não poderá mais absorver o excesso de produção. Com isso ficará também obstruída a via exportadora de mão única pelo Pacífico e a conjuntura mundial será ainda mais prejudicada do que a maioria dos comentaristas hoje em dia acredita.

CC: O sr. usa a expressão ‘capitalismo-cassino’ para qualificar o atual estágio da economia mundial. O sr. acredita que a crise atual abre margem para o fim da era da bolhas financeiras?
RK:
Os bancos centrais têm compensado as crises financeiras até hoje por meio de uma corrida pela redução das taxas de juros. Os mercados foram inundados com liquidez recentemente, como na quebra da “new economy” em 2001. Ben Bernanke, o chefe do Banco Central Americano, também tenta usar a receita simples de seu antecessor Alan Greenspan. Dessa maneira apenas se renovou as bolhas financeiras. Mas ao longo desses anos esse dinheiro “sem substância” levou a um aumento dramático na inflação ao redor do mundo. Depois que o Banco Central norte-americano, em pânico, baixou os juros, a inflação nos EUA subiu para mais do que o dobro da taxa básica de juros; o juro real tornou-se, portanto, negativo. Como o Banco Central Europeu não tem até agora acompanhado a política de redução de juros, há a ameaça de o déficit externo americano deixar de ser financiável e do dólar cair de modo abissal. A velha receita não surte mais efeito. Deste modo inflacionam a economia mundial, o que resultará obrigatoriamente em um colapso.

CC: Os críticos o consideram um catastrofista, por afirmar que o capitalismo encontra-se em uma espécie de beco sem saída que levará inexoravelmente à sua superação, como escreveu Marx. Em sua opinião, o que esses críticos ignoram?
RK:
A terceira Revolução Industrial da Microeletrônica marca uma barreira absoluta intrínseca ao capitalismo. Pela primeira vez na história moderna, o potencial de racionalização é maior do que a expansão de novos mercados. O capital perde assim sua substância de trabalho, o uso de energia humana e abstrata. Essa situação pôde ser disfarçada por um tempo por meio da reciclagem do dinheiro proveniente das bolhas financeiras na economia produtiva. Deste modo simulava-se a acumulação de capital, além de se criar falsos postos de trabalho – como, por exemplo, através da bolha imobiliária nas indústrias de construção ou da conjuntura deficitária nas indústrias exportadoras. Essa substância de trabalho, já na sua origem um simulacro, é no final das contas improdutiva e acaba dissolvida rapidamente quando a economia baseada em bolhas financeiras entre em colapso.

CC: As economias emergentes, principalmente China e Índia e, em menor medida, também o Brasil, são apontadas como uma tábua de salvação para a crise. O sr. concorda com essa avaliação?
RK:
Os chamados países de industrialização recente não podem substituir os EUA como locomotiva na conjuntura mundial. O valor nominal de suas taxas de crescimento parte de um ponto inicial muito baixo. Tanto o PIB quanto o renda per capita desses países são absolutamente muito pequenos para livrar o mundo da crise. Assim, o crescimento chinês é em grande parte dependente da exportação unilateral para os EUA, enquanto o mercado interno fica bem atrás. O poder de compra chinês se fortaleceu apenas parcialmente, sobretudo pela ação de uma bolha imobiliária secundária e o decorrente boom na indústria civil. Não se desenvolveu uma verdadeira classe média. Assim que o deficitário “milagre do consumo” nos EUA se apagar, a China e todo o sudeste asiático enfrentarão uma crise ainda mais profunda que a dos tigres asiáticos na década de 90. O mesmo se aplica aos demais países de industrialização recente.

CC: A sua crítica radical do capitalismo considera que essas economias ditas emergentes correm atrás de uma miragem, quando buscam um padrão de desenvolvimento econômico equivalente ao dos países desenvolvidos. Qual seria a opção para esses países gerarem os milhões de empregos de que necessitam?
RK:
Há muito que o velho modelo de desenvolvimento econômico dos países periféricos ao capitalismo entrou em colapso e acabou sendo abandonado. Em seu lugar criaram-se, ao longo do processo de globalização, zonas de economia exportadora que se inserem em cadeias internacionais de agregação de valor. A profundidade produtiva nestas economias exportadoras pode ser considerada baixa; os componentes mais importantes na produção precisam ser importados na forma de investimentos de grandes empresas ocidentais. Este não é mais um desenvolvimento autônomo, mas sim uma nova forma de dependência. A maioria das pessoas nestes países fica de fora dessa industrialização unilateral voltada para a exportação – que perderá, além do mais, qualquer durabilidade com uma interrupção na deficitária conjuntura global. O moderno modelo mundial de “postos de trabalho” se tornou totalmente obsoleto. O que está a disposição é uma forma de produção e de vida que se funda no “trabalho abstrato” (Marx).

CC: Nos últimos anos, o governo brasileiro tem investido em programas sociais de renda mínima, desvinculados do mundo do trabalho. Para Michael Hardt e Antonio Negri, autores do livro Império, essa seria uma saída razoável. O sr. concorda?
RK:
Com o desaparecimento do capitalismo estatal de inspiração soviética, a esquerda busca por substitutos baratos – todos eles incapazes de alcançar as formas sociais do moderno sistema produtivo. Hardt e Negri dizem-se comunistas, mas a visão deles de uma república burguesa mundial de “multidões” com a garantia de um salário mínimo em forma de dinheiro é precária. Sob as atuais circunstâncias do mercado mundial, cimenta-se e legitima-se, no melhor dos casos, uma miséria generalizada. Já que todas as transferências dependem, no fim das contas, do uso real de capitais, acaba-se rompendo por isso mesmo a capacidade de financiá-lo. A velha ilusão de um “primado da política” ante uma economia capitalista ainda não-superada só pode se desmanchar.

CC: O sr. cunhou a expressão “sujeitos monetários sem dinheiro” para qualificar as massas de desempregados dos países em desenvolvimento. O que podemos esperar do impasse histórico em que essas massas, pela sua avaliação, se encontram?
RK:
A fórmula “sujeitos monetários sem dinheiro” se refere ao dilema das pessoas terem, nos últimos 200 anos, interiorizado as formas capitalistas a ponto de considerá-las como condições de existência quase naturais e ahistóricas. Isto vale também para os pobres e para os desempregados. Por isso ninguém está preparado para o fim de um modo de vida fundado na “santíssima trindade”: a venda da força de trabalho, a produção de mercadorias e a renda monetária. A capacidade de produção de fato é gigante e os estoques estão abarrotados, mas o poder de compra decai. Mesmo nos centros capitalistas há cada vez mais “sujeitos monetários sem dinheiro”, os quais foram sumariamente esquecidos nos últimos anos pelos impulsos simulados da conjuntura deficitária. As reações às evidências regionais de colapso não têm sido até hoje emancipatórias, mas sim bárbaras. A propagação de ideologias irracionais não nos faz esperar por nada de bom.

CC: A precarização do trabalho para as classes médias é inevitável? As novas tecnologias não permitirão ganhos de produtividade e a criação de novas formas de ocupação?
RK:
As novas tecnologias aumentam a capacidade produtiva, mas elas não criam novas formas duradouras de trabalho em larga escala. Era ilusória a esperança de uma sociedade de serviços em uma era de capitalismo da informação e do conhecimento com grande potencial de criação de empregos. A infra-estrutura pública de educação e de saúde se deterioram ou, piorando a situação, acabam privatizadas, transformadas em mercadoria. Há muito que a racionalização e a precarização do trabalho atingiu também os setores mais qualificados do setor administrativo da economia. O “capital humano” da classe média se desvaloriza. Substituindo uma burguesia acadêmica, surge um empresariado miserável e uma nova inteligência barata. Nos EUA e Europa, está em curso um debate intenso e sem saída a respeito do fim da classe média.

CC: De que modo a crise mundial de energia poderá afetar a soberania dos países menos desenvolvidos?
RK:
A explosão dos preços de energia tem duas causas. Por um lado, trata-se de uma conseqüência da alta demanda na conjuntura deficitária global. Por outro, declinam também as reservas e a capacidade de exploração a média prazo. Por causa dos custos crescentes de investimento, o preço da energia não voltará mais, mesmo com um colapso na conjuntura deficitária, aos níveis mais baixos de antigamente. Apesar disso, chega ao fim o boom especulativo para os países produtores de gás e de petróleo, como Rússia, Irã e Venezuela. A dependência unilateral de exportação de energia não pode ser visto como um modelo autônomo de desenvolvimento. Para tanto, falta a base industrial, mesmo para a Rússia, após o fim do capitalismo de estado. Por outro lado, a importação de energia continua a ser um peso constante para a maioria dos países sem reservas significativas. A disputa pela partilha das reservas declinantes de energia fóssil forma uma dimensão “natural” da crise capitalista. Como todos os outros, tampouco este problema pode ser abordado em termos de soberania nacional. Uma nova forma de produção e de vida só pode ser pensada em escala mundial, para além dos conceitos de nação e de estado.

CC: O filósofo francês Paul Virilio considera que vivemos sob o signo da aceleração. Podemos esperar uma ‘era da lentidão’, depois de atingirmos a “aceleração total”?
RK:
Virilio criou uma metáfora precisa para a dinâmica capitalista com a fórmula de uma “estagnação acelerada”. A reflexão crítica do passado entra em “ponto-morto”, a mudança cega e descontrolada das estruturas se acelera. Indivíduos, empresas e instituições se tornam cada vez mais agitados nas suas atividades autistas, com laptops e telefones celulares. Não percebem mais que todos eles estão juntos em um trem de grande velocidade, desgovernado, que acelera cada vez mais. Se a humanidade não encontrar o freio de emergência, este trem poderá descarrilar.

Fonte: Carta Capital
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quarta-feira, 30 de abril de 2008

A revolta dos pobres



Márcia Pinheiro e Phydia de Athayde

A disparada dos preços dos alimentos detonou um clima de guerra global. Na América Latina e no Caribe, manifestações pipocam desde o início do ano. Uma passeata no México contra a escalada do custo da popular tortilla, feita do milho americano, reuniu mais de 75 mil pessoas na capital, em janeiro. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, responsabiliza os atravessadores pela falta de leite e pão no país e tenta aplacar o descontentamento da população, afetada pelo desabastecimento. Como tantos, atribui a culpa da falta de comida à expansão dos biocombustíveis, que supostamente ocupariam áreas antes destinadas aos alimentos. Para discutir a situação, Chávez convocou, na quarta-feira 23, uma reunião extraordinária da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), da qual fazem parte Cuba, Bolívia, Nicarágua e Venezuela.

Preocupado com uma onda de violência no Haiti, o Brasil enviou neste mês à ilha caribenha 14 toneladas de feijão, açúcar e óleo de cozinha. Ao sul do continente, a presidente Cristina Kirchner deparou-se com uma Argentina em greve de associações ruralistas, quando taxou as exportações de soja e de semente de girassol em março. Além disso, as exportações de trigo do país vizinho para o mercado brasileiro continuam suspensas. O Brasil importa da Argentina 70% do trigo que consome e tem contornado a situação com compras dos Estados Unidos e do Canadá.

Em medida emergencial, para garantir o abastecimento interno e conter a inflação, o Ministério da Agricultura brasileiro anunciou a suspensão da exportação do arroz dos estoques do governo, na quarta 23, e pode estender a medida ao milho. No mesmo dia, a rede de atacado americana Sam’s Club informou que vai limitar a venda de arroz ao consumidor. Cada cliente terá um teto de quatro sacos de 9 quilos do produto por mês. A questão deixou de ser estatística, com impacto nos índices inflacionários mundiais, para adentrar à seara política. São recorrentes as revoltas, os saques e as manifestações em Moçambique, Iêmen, Uzbequistão, Peru, Indonésia, Mauritânia, Camarões, Egito e Senegal.

Como por encanto, o tema segurança alimentar substituiu o petróleo como a maior preocupação do planeta. Isso apesar de o barril ter se aproximado da marca dos 120 dólares e contribuir, de forma significativa, para a alta dos preços dos alimentos, pois muitos derivados são fundamentais na lavoura e no transporte. Ainda que de maneira equivocada e tardia, o assunto chegou à agenda dos organismos internacionais. Os biocombustíveis foram repentinamente retirados da lista de salvadores do meio ambiente e passaram a figurar na coluna dos principais vilões da inflação mundial. De fato, a produção de etanol do milho tem avançado, nos Estados Unidos, sobre lavouras antes dedicadas ao abastecimento de comida. Mas está longe de ser o caso do etanol brasileiro, produzido a partir da cana-de-açúcar (leia o quadro).

A afobação para se achar um culpado obnubilou a boa análise. O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, disse que a produção de combustíveis, em detrimento de alimentos, era uma questão “moral”. O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, também resumiu a questão em encher ou não os tanques dos automóveis. Coube ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, o papel de mediador do debate, com uma dose de equilíbrio. Segundo ele, são muitas as razões para a alta de alimentos, que não se esgotam na competição entre biocombustíveis e agricultura.

Há, no horizonte, um motivo para a crescente crítica dos países industrializados aos biocombustíveis e ele não está baseado em repentinas preocupações humanitárias. Tem a ver com negócios e interesses geopolíticos. Está previsto para 19 de maio um encontro ministerial que visa encerrar a Rodada de Doha, iniciada em 2001, da Organização Mundial do Comércio (OMC). O embate se concentra na questão dos subsídios dos países ricos (Estados Unidos, Japão e nações européias) aos produtores agrícolas. Tanto que o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, alertou para a intransigência do Primeiro Mundo, cujos bilhões de dólares e euros destinados ao campo estariam desestimulando o aumento da oferta de alimentos por parte dos países em desenvolvimento.

Amorim acenou, no entanto, a bandeira branca, na terça-feira 22, e disse que o Itamaraty está disposto a aceitar uma abertura negociada do mercado brasileiro às manufaturas estrangeiras, em troca de uma “redução substancial” dos subsídios. O que se teme é o fracasso da rodada, se não ocorrer neste primeiro semestre, em razão da mudança do governo nos EUA, com a eleição presidencial. Os democratas, com boas chances de vitória, são tidos como mais protecionistas do que os republicanos. A questão de fundo não é o etanol, cuja importância foi fortemente defendida pelo presidente Lula, em revide aos ataques do FMI e do Banco Mundial. Há muito mais em jogo.

De acordo com o professor José Maria da Silveira, do Núcleo de Economia Agrícola da Unicamp, quatro fatores explicam a atual crise. Primeiro, e inegável, é a inclusão dos cidadãos chineses e indianos no mercado mundial. São 450 milhões de consumidores que deixaram a linha de pobreza, desequilibraram as leis de oferta e demanda e surpreenderam a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que foi “desleixada” em relação à pesquisa agrícola e assistiu passivamente à produtividade do setor desabar, segundo o economista.

No mundo desenvolvido, os Estados Unidos e a Europa não abrem mão dos subsídios aos agricultores. O resultado foi a falência das chamadas fazendas familiares americanas, que perderam o trem do avanço tecnológico, fato aguçado pela desvalorização do dólar, que ajudou a bombar os preços das commodities agrícolas. De seu lado, os países europeus sentaram em cima do protecionismo, com o estabelecimento de cotas regionais e produção de alimentos de origem controlada e grife, “que não enche a barriga do mundo”, como foie gras, azeites, vinhos e embutidos. “Tudo cercado de um modelo empresarial ultrapassado”, diz Silveira.

E qual é a saída? Lucilio Rogério Aparecido Alves, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/Universidade de São Paulo), acredita que os mercados vão se definir por si só. “Há um aumento forte na demanda de alimentos, desde 2006, e o Brasil tem um papel importante diante desse cenário, por ter um bom volume de produção disponível e por ser o único país, no mundo, com áreas disponíveis para aumentar a produção”, diz Alves, também pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP.

Ele ressalta que as novas lavouras não precisam avançar sobre a Amazônia. “Temos áreas de pecuária não competitiva que podem ceder espaço para grãos, como soja e milho. Se isso vai acontecer ou não, dependerá da relação de preços.” Mas o professor destaca que o Brasil tem uma enorme lista de deveres de casa a cumprir, desde desenvolver pesquisas para aumentar a produtividade até realizar melhoras na infra-estrutura. “Isso depende de muito investimento, e não é necessariamente um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que vai resolver”, alerta.

Não há, é óbvio, solução mágica de curto prazo nem o Brasil será capaz, sozinho, de desempenhar o papel de celeiro do mundo. O tema é candente e merece atenção imediata, daí o desespero que tomou conta das autoridades mundiais. Segundo levantamento da organização americana Council on Foreign Relations, além do Brasil e da Argentina, a escassez de alimentos levou vários países a suspender as exportações, para abastecer o mercado interno. É o caso do Cazaquistão, importante supridor de trigo para a Ásia Central, do Vietnã, o segundo maior exportador mundial de arroz e da Índia.

Na reunião de primavera do FMI, em meados de abril, Zoellick, do Banco Mundial, propôs um tipo de New Deal para a Política Global de Alimentos, que incluiria a doação de 500 milhões de dólares dos países ricos para transferências em dinheiro vivo às populações com fome, além da elaboração de programas que resultem em maior produção mundial. Tal iniciativa seria emergencial e não toca no problema central. Falta comida e sobra especulação dos mercados financeiros. Para o semanário britânico The Economist, a crise dos alimentos deveria ser levada tão a sério como a do subprime. Seria urgente a criação de um fundo de ao menos 700 milhões de dólares para ajuda humanitária aos países mais pobres.

Na esteira da carência mundial, entraram em cena os especuladores. A publicação dedicada a finanças Barron’s, do grupo The Wall Street Journal, informou em 31 de março deste ano que ao menos 40% das apostas em mercados futuros de commodities estão em mãos de fundos altamente especulativos. Em razão da crise americana do subprime, os investidores em busca de alto retorno migraram para os contratos futuros de alimentos e metais. Para ter uma idéia da força das finanças, entre 31 de dezembro de 2004 e 31 de março de 2008, os preços futuros dos grãos e sementes deram um salto de 163%, de acordo com o conceituado índice CRB da Reuters.

A especulação não surgiu do nada. Tem como base a percepção de que está em curso uma mudança estrutural da economia mundial. Segundo Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs) e antigo observador das rodadas mundiais de comércio, há uma somatória de fatores que fez o mundo acordar para a questão alimentar. O programa de etanol do milho nos Estados Unidos “enxugou” muito da oferta global. Antes mesmo disso, afirma, houve o crescimento acelerado da China, que passou a demandar toneladas de soja e fertilizantes. Assim como a Rússia, grande importadora de carne do Brasil.

Ele cita também a Austrália, que passa por seguidas secas há anos, e desabasteceu o mundo, principalmente, de leite e derivados. Por fim, a desconfiança dos ativos financeiros americanos e europeus com a crise hipotecária do subprime gerou a busca por ativos reais, como grãos e metais preciosos. “Para atender ao aumento da demanda, é preciso o mundo todo produzir mais”, diz. Camargo Neto é cético em relação aos resultados da Rodada de Doha, pelas iniciativas protecionistas que se multiplicam mundo afora.

Para o empresário, os arcabouços de organização global, representados pelo FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio, por exemplo, enfrentam uma crise por ter sido criados para atender às iniciativas das nações ricas. Como o eixo do poder está se movendo em direção aos emergentes, cujas demandas ganharam fôlego, as negociações emperram.

A hora e a vez, segundo especialistas, é do Brasil e dos países africanos. Apostar em inovação tecnológica é a chave para o abastecimento global, com o horizonte de preços em ascensão, diz Silveira, da Unicamp. Trancar os mercados é ato impensado, fruto da inoperância dos acordos multilaterais. O desafio é expandir uma produção agrícola menos intensiva em energia, com respeito ao meio ambiente, e arranjos produtivos que combinem tecnologia e inovação, além de incentivar esquemas de cooperativas para que o crédito chegue ao produtor rural. Não há alternativa.
O mundo precisa mudar, antes que a próxima crise se una à atual. Seria um disparate se, ao mesmo tempo que enfrenta a escassez de comida, o planeta começasse a ter problemas no fornecimento de água potável, a desencadear uma nova disputa global.

Fonte: Carta Capital
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