segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

ENTREVISTA – FERNANDO ANITELLI, idealizador do projeto O Teatro Mágico - por Bruno Terribas e Enio Lourenço - fonte: http://carosamigos.terra.com.br/

ENTREVISTA – FERNANDO ANITELLI, idealizador do projeto O Teatro Mágico


Música, circo, teatro e poesia. Há três anos, O Teatro Mágico, trupe de mais de 10 artistas de Osasco, (SP) tem ousado mesclar diversas expressões artísticas em suas apresentações, transformando o palco em um grande sarau. Desta forma, o grupo já vendeu mais de 35 mil unidades de seu primeiro CD: “Entrada Para Raros” – todos produzidos de forma artesanal e vendidos a R$ 5 a unidade. Mas não somente isso é o Teatro Mágico. Para além das experimentações estéticas, o artista performático Fernando Anitelli, idealizador do projeto, explica que O Teatro Mágico também aposta em uma proposta de arte independente, o sonho de “fazer do Brasil um sarau gigante”, procurando formar uma rede que aproxime grupos de diversos pontos do país que produzem manifestações artísticas de forma autônoma. Nesta entrevista, Anitelli também expõe a profunda divergência que o Teatro Mágico tem em relação à indústria fonográfica: “A gente diz: ‘não tem dinheiro para comprar meu CD? Pirateia’! Isto nada mais é do que compartilhar informação, compartilhar cultura”.

por Bruno Terribas e Enio Lourenço
Fotos: Daniel Arantes

Como garantir a sobrevivência financeira fazendo uma opção pela arte independente?
A questão d’O Teatro Mágico trabalhar de maneira independente foi uma bandeira que a gente levantou desde o início. Quando eu gravei o primeiro CD eu não tinha uma banda, não tinha uma trupe. Eu gravei um CD sozinho, tinha acabado de sair de uma banda chamada Madalena 19, estava gravando meu primeiro CD solo: “Fernando Anitelli apresenta O Teatro Mágico” e convidei 30 amigos para participar. Participaram o Cordel [do Fogo Encantado], a Simone Soul, o Pavilhão 9, o pessoal do sarau, amigos da comunidade e tal. A segunda parte do projeto era como realizar isso ao vivo. O pessoal pirou, entendeu qual era a proposta, a galera entendeu que não é um espetáculo, que O Teatro Mágico, como digo, é “uma desculpa esfarrapada para uma porção de gente rara se encontrar”, e poder debater, dialogar e criticar com sensibilidade. A questão da independência existe justamente porque a mídia não dá espaço para o artista, a televisão vive de anunciantes, a rádio vive de anunciantes. Se você quiser colocar uma música sua no rádio tem que pagar 4 minutos de anunciantes para poder tocar. A TV é a mesma coisa, ela vai pedir um jabá, uma grana para te divulgar dentro da programação deles.A independência a gente conseguiu através da internet, uma ferramenta nova, que infelizmente só 20% do país tem acesso, e 10% usam de fato. É um meio ainda hoje livre, que a gente pode divulgar o que a gente quer, da maneira que quiser, nossos textos, nossas fotos, nossos encontros, nossas opiniões. As músicas estão todas ali disponíveis para você baixar em mp3. Então o que acontece hoje? Na arte independente o artista corta todos esses caras que engorduram o meio cultural do nosso país. Hoje em dia o artista é obrigado a ter um empresário, que conhece um produtor, que conhece o cara de uma rádio. Quando você chega lá você já está com um preço over, super inflacionado e você não sabe de nada que está acontecendo porque já passou na mão de muita gente. Com a tecnologia as gravadoras estão perdendo muito campo por não divulgar música do artista, só consegue ganhar vendendo CD. É por isso que eu falo nas nossas apresentações: “Pessoal, isso aqui nada mais é do que a idéia de um sarau amplificado”. As coisas no sarau sempre ocorreram de modo livre, independente. Você declama uma poesia, nisso todo mundo começa a cantar uma música junto, alguém entra com uma cena de dança que tem a ver com aquela música, aquela poesia. O sarau tem a ver com como você compartilha, debate, dialoga, consegue criticar, aprende a ouvir. Essa experiência que eu tive de sarau, de teatro de rua, oficina de palhaço, tudo isso aí eu trouxe para O Teatro Mágico. Reuni toda essa galera, a gente se reúne de quando em quando e conversa sobre a mídia, sobre como a gente deve se relacionar com a arte. Temos uma relação muito interessante com a arte, de não fazer parte de maneira aleatória. Bancar uma arte independente é você bancar antes de mais nada um compromisso com a arte, bancar uma verdade em relação à sua arte. Você não pode jamais deixar de ser ousado naquilo que faz, acreditar na sua musicalidade, no seu teatro. Poxa, as pessoas que eu tenho referência como artistas são Ney Matogrosso, Os Secos e Molhados, Tom Zé, Antônio Nóbrega.

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"eles vêm com discurso: 'se você compra CD pirata está ajudando o narcotráfico, você é um cara mau'. Não é nada disso. Brasileiro não é mau, brasileiro é pobre”

Como romper com este monopólio da mídia e da indústria fonográfica?
A gente diz: “não tem dinheiro para comprar meu CD? Pirateia”! Vivemos num país onde 60% da população não tem dinheiro para comprar CD. Eles vêm com discurso: “se você compra CD pirata está ajudando o narcotráfico, você é um cara mau”. Não é nada disso. Brasileiro não é mau, brasileiro é pobre, não consegue terminar o ensino fundamental, apanha porque é preto, porque é pobre, porque não tem dente bom, vai pro final da fila, não vai ganhar emprego, este é o nosso Brasil. As gravadoras poderiam fazer um CD original por R$ 10, R$ 15, muita gente compraria. Lança o original por R$ 60 e um outro no saquinho pro cara ouvir por R$ 5. Mas não, as gravadoras fecham os olhos para toda essa massa e cria essa coisa: “se comprar pirata é crime, se não pagar R$ 60 no CD é crime”. Tem que entender que o país é miserável, esta é a grande questão. Eu como artista tenho uma relação com o social, todo o artista tem, porque ele influencia. Inclusive já foi até polícia na nossa apresentação porque a gente estava supostamente fazendo apologia à pirataria. É foi aí que eu pensei: “é agora que eu vou continuar a divulgar, a falar mesmo”. Porque crime para mim é uma multinacional entrar aqui, pegar um artista local, colocar ao lado de uma garrafa de cerveja e vender o CD a R$ 60 e nem um real vai para o artista. Isso é crime. Agora eu falar: “pirateiem o meu trabalho, divulguem!” Isto nada mais é do que compartilhar informação, compartilhar cultura. Nos EUA já estão fazendo leis para coibir a troca de música, o compartilhamento. Você não tem como impedir isso. Isso não é crime, isso é difundir informação. A informação é o quarto poder. Quem tem informação tem força, tem noção, tem poder, tem como reagir.

Como você havia dito boa parte da população não tem acesso à Internet. Quais as alternativas para atingir este público?
A alternativa é a gente conversar com outros artistas independentes. Por exemplo, em Osasco agente começou a fazer sarau no Grande Otelo. Então começou a reunir artistas, poetas. Tem que trocar informação com essa galera, procurar centros culturais, prefeituras, escolas, porque esses lugares dão abertura para um festival de música, para uma oficina, um debate. A gente tem que conseguir criar um ambiente de debate, discussão, cultura. Se o pessoal de Osasco conseguir se comunicar com o pessoal da Bahia, do Rio de Janeiro, a gente vai ter um pólo cultural gigante. Se a gente conseguir essa troca de informações a gente consegue chegar a uma porção de lugares. Nós d’O Teatro Mágico fomos até Curitiba, porque lá tem um rapaz envolvido com música independente, ouviu nosso CD, e chamou a gente para tocar num festival num galpão velho que tinha o pessoal do rap, o pessoal do punk, o pessoal do chorinho, e a gente lá apareceu lá vestido de palhaço. Foi muito bacana, trocamos informações, figurinhas com um monte de gente. Fomos agora para o Rio de Janeiro, tocamos no centro cultural da Finep, levamos nosso cdzinho, fizemos contato, trocamos idéia. Então você vai começar a descobrir que em todo lugar tem alguém pessoas pensando da mesma maneira, tem pessoas que buscam essa libertação da cultura, da música, que buscam essa freqüência comum. A gente tem que descobrir essas pessoas. A internet é um meio interessante porque já tem muita gente que mexe com isso. Temos contato com muita gente da Bahia, muita gente de Porto Alegre, mas tem que aprofundar, tem que ter políticas para isso. Nas prefeituras, escolas, comunidades, tem que criar saraus, organizar festivais com sarau com oficinas, debate, música ao vivo. Se a gente batalhar por rádios livres, TVs locais nas cidades. Eu não tenho resposta para isso, mas o fato de conseguir trocar informação gera um poder gigante. Se conseguirmos fazer do Brasil um sarau gigante isso vai ter um poder incrível.

E como reagir frente ao assédio da mídia comercial?
Eu sempre falo que não sou contra nenhuma mídia, sou contra o uso que se faz do espaço que a gente tem para jogar cultura na casa das pessoas. Já fomos em programas de baixíssima qualidade na TV para falar sobre O Teatro Mágico, sobre poesia, sobre cultura. Através desse pouco espaço em um canal aberto, desse lixo, que o pessoal do Espírito Santo, do Maranhão, conheceu nosso trabalho. Fomos a TV Cultura três vezes, achei um tesão. As rádios que a gente toca são a rádio USP, rádio Eldorado e rádio Brasil 2000. Houve também a polêmica em relação a nossa participação no Big Brother Brasil. O que acontece é que eu não estou me juntando, me rendendo, apoiando os conchavos que a Globo faz. Isso não existe! O cara que entrou lá no Big Brother é de Osasco, trabalha com nosso gaitista, se formou com meu irmão, e o grito de guerra que ele lançou quando entrou lá foi a nossa frase: “os opostos se distraem e os dispostos se atraem”. Eles perguntaram: “pô, vocês são de Osasco, não querem aparecer?”, e a gente: “vamos lá, sem problemas”. Durante 9 segundos o Brasil ouviu uns palhaços cantando e pensou: “o que é isso aí”? Ouvi de um monte de gente: “pô, mas porque você apareceu na Globo”? Entendo sua questão, mas eu não estou me vendendo, eu consegui entrar numa máquina que leva informação para 99% da população, eu consegui fazer isso sem pagar nada, foi esquema de pirata mesmo, de pular de um navio para o outro. Saímos na Folha de São Paulo, na Revista Capricho, que é uma revista de adolescente. O pessoal falou “poxa, olha isso”. Mas a gente não escolhe revista, e você pode ver que não mudou o discurso, pode ver que nas nossas apresentações a essência é a mesma, o discurso é o mesmo. No ano passado no show do nosso aniversário de 3 anos no Sesc Ipiranga teve mais de 2.700 pessoas, teve roda de ciranda, falamos sobre mídia, educação, cultura, arte independente. Acabou o show e fomos pintados falar com todo mundo lá na calçada, trocando figurinhas. Até quando vamos ter fôlego para fazer isso? Espero que eternamente.

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"se eu posso aparecer cinco minutos na TV cantando uma música minha, falando sobre o meu trabalho, eu vou".

No caso da participação em programas de massificados, é possível fazer conseguir fazer um discurso, não apenas executar a performance artística e tocar as músicas de uma forma descontextualizada?
Veja o caso do Domingo Legal e do programa do Leão. Beleza, vamos lá. Vou chegar lá e falar: “Leão, é bacana estar aqui, mas seu programa e o dos outros são muito iguais, exploram o corpo da mulher, eu vou falar isso. Mas vou falar: “viva a arte independente”! O tempo que tiver para falar sobre nossos saraus, eu vou falar. Agora, eu não vou deixar de ter esse espaço, se eu posso aparecer cinco minutos na TV cantando uma música minha, falando sobre o meu trabalho, eu vou. Não pense que eu vou fazer conchavo, não é nada disso. Mas num país onde a mídia é tão pasteurizada, onde a população fica fixada num canal só, que a novela daquele canal dita a moda, dita a vida, dita a postura – inclusive a mídia cria um estereótipo que diz o que é certo, o que é errado, o que é belo. Você pensa: “putz, estou no programa do Ratinho”! Neste momento, que ninguém conhece O Teatro Mágico, sinceramente eu gostaria de aproveitar o espaço mínimo que fosse para falar do projeto, aparecer nosso site, mostrar minha cara. Isto não quer dizer que estou compactuando com isso, que eu estou me vendendo, que eu estou deixando mudar as coisas que eu escrevo. Quer dizer é a maneira que eu tenho que ir dizer: “viva a arte livre”! E a única forma de eu dizer isso é entrando na mídia comercial. Se a gente ficar só na internet, pouca gente vai ter acesso. A Globo hoje em dia pega não só no país inteiro como pega lá fora, na América do Sul, nos EUA, TV a cabo e satélite. Como eu não vou me dispor a mostrar meu trabalho, no espaço mínimo que tenha?

E quanto a fazer comerciais?
Comercial eu já sou contra, acho que não faz sentido. Ver Marcelo D2 e O Rappa dizendo que “democracia se faz batendo na latinha”, aí não né? Aí é sacanagem. A gente não critica o artista, a gente fala que cada um tem um preço para rebolar. Então o que a gente critica é o que nós aqui filtramos tudo que a mídia joga. O Marcelo D2 e o Rappa fizeram coisas legais pra caramba. Mas se eu não puder questionar meu professor, se eu não puder questionar os meus mestres... Jamais vou deixar de ter letras politizadas, de ter uma postura politizada, de debater, de ouvir crítica.


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"não fiquei seis meses trancado em casa, saí e disse “sou um artista”

O Teatro Mágico é uma referência para muitos jovens. Como conciliar as músicas que falam sobre sentimentos com uma mensagem de mudança?
Dentro do Teatro Mágico a gente procura mesclar. Algumas músicas até que são bem breguinhas. “Ana e o Mar” é bem brega, eu até falo isso na apresentação. Não é que é brega, mas fala de um amor, dessa brincadeira, do jogo de palavras. A idéia é que de toda maneira, seja através do forró, de um reggae, de uma tecnera, de um samba, a gente não deixa de ser ousado em nossas experimentações de música. Por exemplo, você vê o Tom Zé com a mesma estranheza sempre. Seja ousado nas suas experimentações. O Ney Matogrosso está sempre diferente, o cara choca, está com 60 anos, com uma puta estrutura física. O Antônio Nóbrega é um senhor, com mais de 50 anos ele pula, dança capoeira. Lenine, Zeca Baleiro, Nação Zumbi, a galera chama pra briga. No trabalho d’O Teatro Mágico eu quero justamente brincar de experimentar sempre, poder conjugar os diversos timbres de musicalidade, convidar outros músicos, misturar poesia. Tudo é inspiração. Eu busco levar para O Teatro Mágico as minhas experiências, de outras pessoas, sou muito aberto a ouvir. A idéia é jamais se tornar um cover de si mesmo. Tem uma coisa que o Herman Hesse diz no livro O Lobo da Estepe: “ser é ousar ser”. A gente tem que debater, eu vejo isso como uma missão. Nosso próximo CD, que está saindo, “O Teatro Mágico – Segundo Ato”, é muito mais politizado nas letras porque eu amadureci muito como ser humano, e espero ser uma pessoa diferente sempre. Se daqui a dois anos vocês me entrevistarem de novo e eu disser a mesma coisa, vocês vão pensar “esse cara parou no tempo”. É a metamorfose ambulante do Raul. Falar para essa galera, o jovem tem essa coisa de “vamos mudar, vamos lá!” Porque quando chega com uns 27 ele já está pensando “mano, cadê meu trampo?”. Com 29 eu larguei tudo que eu tinha, fui para os Estados Unidos trabalhar de garçom, de músico em shopping, juntar uma grana. Vendi tudo que eu tinha para investir n’O Teatro Mágico, fiquei dois anos sem ganhar nada. Os músicos ganhavam pouco, mas ganhavam, eram amigos meus. Como eu convidei-os e cada um tinha um grupo paralelo, e batalhamos. Saía na mídia, não saia na mídia, ia de sala em sala em Osasco com um violão, falando para a galera, os amigos panfletando, fazíamos cortejo, falávamos sobre arte independente, dávamos o CD. É uma história que tem chão, não é do nada. Não fiquei seis meses trancado em casa, saí e disse “sou um artista”. A idéia é: “você que é jovem, comece a ler, debata”. Comece a conversar com os seus pais, seus professores, seus amigos, promovam saraus, tragam idéias novas, saibam criticar, tomem uma postura. E isso tudo é o que eu tento jogar na arte misturando circo, música, teatro, poesia, dança, fotografia, videoarte, artes plásticas. O Teatro Mágico é um baú infinito de possibilidades.


Bruno Terribas e Enio Lourenço são estudantes de jornalismo. brunoterribas@carosamigos.com.br

fonte: http://carosamigos.terra.com.br/


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Um Sabotador (ou assassino) Econômico - por Natália Viana - fonte: http://carosamigos.terra.com.br/


Não é ficção. Mas daria um filme: em 1968, o americano John Perkins saiu da faculdade de economia com os mesmos sonhos de qualquer americano típico – casar, ter família, vencer na vida. Uma única coisa o diferenciava, a vontade de conhecer o mundo e, talvez mais importante, a oportunidade de recrutamento oferecida por um amigo de seu sogro, o “Tio Frank”, figurão da Agência Nacional de Segurança dos EUA. Para isso, o jovem Perkins submeteu- se a uma bateria de entrevistas extenuantes que incluíam testes psicológicos e detectores de mentira, antes de ser aconselhado pelo próprio Tio Frank a ser voluntário no Corpo de Paz do Exército americano no Equador. No Equador, ele foi procurado pelo vice-presidente da Chas. T. Main, uma empresa de consultoria internacional, que lhe ofereceu uma vaga – dando a entender que a mando da Agência Nacional de Segurança. Assim, Perkins começou a trabalhar para a Main, que fazia avaliações do potencial de crescimento de países subdesenvolvidos caso organismos como o Banco Mundial concedessem empréstimos vultosos para esses países investirem em obras de infra-estrutura, a ser realizadas por empresas americanas.

Na verdade, o que Perkins fazia era escrever relatórios exageradamente otimistas para balizar empréstimos, prevendo que com isso os países iam fl orescer maravilhosamente. Como lhe explicou sua “professora” Claudine, consultora especial da Main, Perkins se tornava um “sabotador econômico”: “Somos muito bem pagos para enganar países ao redor do mundo e subtrair-lhes bilhões de dólares. Uma grande parte do trabalho é encorajar os líderes mundiais a fazer parte de uma extensa rede de conexões operacionais que promovem os interesses comerciais americanos. No fi nal das contas, tais líderes acabam enredados nessa teia de dívidas que assegura a lealdade deles”. Como sabotador econômico durante toda a década de 70, Perkins conheceu líderes mundiais, freqüentou rodas de ricos empresários, ajudou a selar empréstimos e fechar acordos comerciais na Indonésia, no Panamá, na Arábia Saudita, no Irã e na Colômbia. Foi bem-sucedido em quase todos os países, embora começasse a descobrir também as conseqüências do seu trabalho – a consolidação de um império mundial que empobrece a maioria ao mesmo tempo em que concentra riqueza nas mãos de poucos. Pesou na consciência. Desistiu, andou por outros negócios, até que resolveu escrever um livro, Consciousness of an Economic Hit Man (Consciência de um Sabotador Econômico), no qual contaria, principalmente, que o endividamento de países em desenvolvimento era deliberadamente arquitetado pela Casa Branca para obter o controle desses países. Era 1987, mas o livro não sairia até 2003. Foi interrompido por uma irrecusável “oferta”. Perkins foi convidado para se tornar conselheiro da Stone & Webster Engeneering Company, então uma das maiores empresas de construção do mundo. Seu trabalho: não fazer nada, a não ser deixar de lado qualquer plano de publicar o livro. Passaram-se ainda quinze anos até ruírem as torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, fato que levou Perkins a rever o seu passado e chegar a um forte sentimento de culpa por ter contribuído para a construção do império que tantos danos causara ao mundo a ponto de provocar reações tão violentas. Retomou então o livro, agora com outro título: Confessions of an Economic Hit Man (Confi ssões de um Sabotador Econômico), lançado no Brasil pela editora Cultrix com o título Confi ssões de um Assassino Econômico (outra tradução possível). Nesta conversa com Caros Amigos, Perkins relembra a sua história e alerta: há hoje muito mais sabotadores (ou assassinos) econômicos do que na sua época.


por Natália Viana


Qual é a história dos sabotadores econômicos? Por que essa “carreira” foi criada?
Foi o trabalho dos sabotadores econômicos que criou o primeiro império verdadeiramente global – e sem ter que usar as forças militares. Os sabotadores econômicos nasceram em 1951, quando Kermit Roosevelt, neto de Theodore Roosevelt, foi enviado para o Irã para derrubar do poder o xá Mossadegh. O governo americano estava com medo de que, se mandasse os militares para o Irã, isso causaria uma guerra contra a Rússia, e a Rússia era uma potência nuclear. Então, a CIA fez uma experiência, enviando Kermit Roosevelt, e ele foi muito bem-sucedido, conseguiu derrubar o presidente eleito democraticamente, que estava se opondo às companhias petrolíferas americanas. Foi substituído pelo xá Mohammad Reza, que era um grande camarada das empresas de petróleo.


Como ele fez isso?
Ele contratou gente para organizar protestos e passeatas, boicotes, marchas pelas ruas, e assim fez o Mossadegh parecer impopular. Esse padrão se mostrou muito mais seguro e menos caro para obter o controle de outros países do que os meios militares. O problema é que o Roosevelt era um agente da CIA, e isso poderia ser um problema para os Estados Unidos. Em vez disso, a nova política era que esse tipo de trabalho seria contratado por empresas privadas. Quando eu entrei em cena, no final dos anos 60, o trabalho era feito somente por empresas privadas. Mas como esse trabalho – uma missão estratégica – passou para a mão de empresas? Como as empresas se tornaram tão cúmplices do governo? Nos Estados Unidos acontece o que chamamos de “porta giratória”: quem está no comando das grandes corporações sempre recebe cargos no alto escalão do governo por alguns anos, e depois volta para o mundo corporativo. Agora, na administração Bush, todo mundo do alto escalão, incluindo o próprio Bush, a Condoleezza Rice, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, veio dos grandes negócios: petróleo, laboratórios farmacêuticos etc. As grandes corporações e os governos trabalham muito proximamente, o que torna fácil o governo contratar empresas privadas para fazer o tipo de trabalho dos sabotadores econômicos.


Quando você começou na Main, havia muitas empresas fazendo esse trabalho?
Havia outras empresas fazendo isso, tenho certeza de que a Bechtel, a Halliburton, a Stone & Webster, Brown & Root, mas só posso falar seguramente sobre o que aconteceu comigo. Não tínhamos muito contato uns com os outros, era um esquema muito inteligente. E, quando jantava no Rio de Janeiro, em Jacarta ou Caracas, eu sabia que a pessoa com quem estava trabalhando era um sabotador econômico, mas na verdade o cargo ofi cial dele era, por exemplo, economista-chefe, como eu, ou consultor econômico, ou especialista financeiro.


Como você se tornou um sabotador econômico?
Quando fui convidado para trabalhar para a Chas. T. Main, e conheci Claudine. O cartão dela dizia que era consultora especial para a Main. Mas eu acho que ela era especializada em treinar sabotadores econômicos, e provavelmente contratada por uma outra empresa particular.


No livro, você conta que, durante seus encontros, que sempre aconteciam no apartamento dela, ela ia contando exatamente qual seria o trabalho para o qual você tinha sido contratado. Você pode explicar qual era a sua função?
Meu trabalho era, na essência, identificar países que têm recursos que as corporações americanas desejam– como petróleo – e então conseguir enormes empréstimos de instituições como o Banco Mundial para esses países. Mas a maior parte do dinheiro nunca ia para o país, e sim para as corporações americanas, que construíam enormes projetos de infra-estrutura para aquele país, como usinas de energia, estradas, portos, coisas que ajudavam os ricos daqueles países, mas geralmente não ajudavam a maioria da população. E os países acabavam com uma dívida enorme, tão grande a ponto de não poder ser paga. Então, em algum momento, um sabotador econômico voltava ao país e dizia: olha, vocês nos devem muito dinheiro, não podem pagar a dívida, então vendam petróleo muito barato para nossas empresas, ou votem conosco na ONU, ou enviem tropas para ajudar nossas guerras.


Mas você chegou a fazer isso?
Sim, fi z. Isso quase sempre era feito pelos altos escalões do Departamento de Estado americano, mas algumas vezes eu estava envolvido.


Como era garantido que esses países obteriam um empréstimo das instituições internacionais como o Banco Mundial? E como era garantido que as corporações americanas ganhariam os contratos?
Tínhamos que produzir relatórios, e assim convencer as pessoas de que esse dinheiro iria benefi ciar a economia desses países. Então é por isso que tínhamos que falsificar previsões, fazer previsões bem mais altas do que elas deveriam ser na realidade, para mostrar que, se o dinheiro fosse investido em alguma grande represa, nos próximos vinte anos a eletricidade gerada, por exemplo, resultaria num grande crescimento econômico. Se boa parte do dinheiro viesse de organismos americanos, como Usaid, ou o Banco de Exportação e Importação, então por lei esse dinheiro tinha que ir para as corporações americanas. Se vinha do Banco Mundial ou do Banco Interamericano de Desenvolvimento, então outras empresas poderiam ganhar os contratos, mas sempre havia uma enorme pressão para que contratassem corporações americanas.


No livro, você fala muito em corporatocracia. O que é?
Gosto dessa palavra, porque ela explica como é o primeiro império realmente global. Não tem um imperador, ou um rei, mas um grupo muito pequeno de homens que controlam as grandes corporações multinacionais. Essas corporações têm o controle do governo americano e de muitos outros governos pelo mundo afora. Eles governam o sistema. Das cem maiores economias do mundo, 51 são corporações, não países; e 47 delas são americanas. E os Estados Unidos são como o capitão, ou o treinador do time. As mesmas pessoas estão nos altos escalões dos organismos multilaterais, pelo mesmo mecanismo de “porta giratória”. Hoje, o presidente do Banco Mundial é Paul Wolfowitz, que tinha um alto posto no nosso Departamento de Estado, e também trabalhou em grandes instituições fi nanceiras internacionais.


Para o leitor ter uma idéia mais real, gostaria que você explicasse como foi o seu primeiro trabalho como sabotador econômico, em Java, na Indonésia.
No começo dos anos 70, o governo americano percebeu que ia perder o Vietnã. E havia um medo do efeito dominó – se o Vietnã caísse, então o resto da Ásia também ia cair. A crença era de que a Indonésia era um bom lugar para frear o efeito dominó, porque tinha uma grande população, tinha mais muçulmanos que em qualquer país do mundo, e tinha petróleo. Então fui enviado para a Indonésia junto com um monte de pessoas que fizeram um grande empréstimo para a construção de um sistema de energia – usando nossas corporações para construir esse sistema. No processo, tínhamos que deixar a Indonésia com uma enorme dívida. E fomos muito bem-sucedidos. Por causa desse trabalho, a Indonésia caiu nas nossas garras. E não virou comunista. Nunca tivemos que mandar os militares.


Sim, mas como você conseguiu convencer os governantes da Indonésia?
Foi fácil convencer o governo porque pessoas que fazem parte do governo fi cariam muito ricas, já que elas e suas famílias eram donas das grandes indústrias que iriam se beneficiar com a eletricidade. E a mesma coisa vale para todos os países em que trabalhei, é por isso que os líderes de todos esses países cooperam conosco. Quando construímos o projeto, muito trabalho vai para seus parentes. Eles são donos de pequenas empresas que vão ganhar subcontratos para construção.


Mas isso é combinado, falado?
Algumas vezes é tão óbvio porque apenas os parentes deles são donos das empresas. Mas algumas vezes isso é dito: “Se pegarmos esse contrato, a sua família vai fi car muito rica”. Além disso, eles detêm as grandes indústrias, os shopping centers e os empreedimentos comerciais que vão se beneficiar com a eletricidade, os portos, as estradas, o que for. Claro que aqueles que moram em caixas de papelão ou nos pequenos povoados nunca vão receber eletricidade nenhuma.

E como eram as suas previsões de uso de energia?
Muito altas, nos relatórios eu previa um crescimento de 15 a 20 por cento por ano no uso de eletricidade, o que criaria também um crescimento enorme na economia.


Como você chegava a essas estimativas?
Eu sabia que esses eram os números que esperavam de mim, então desenvolvi modelos matemáticos, que chamamos de modelos econométricos, para justificar essas estimativas. Você pode usar estatísticas para provar quase tudo, qualquer bom economista pode provar qualquer coisa através de estatística, se ele quiser. Então, em cada um desses países, produzimos relatórios muito extensos usando modelos matemáticos que justifi cavam aquilo que era determinado politicamente.


Então era uma fraude completa?
Normalmente era.


De que maneira a Main se beneficiava com isso?
Uma vez aprovados, a Main não construía os projetos, mas geria a construção. Isso nos colocava em uma posição muito boa, podíamos dizer que éramos imparciais, mas sabíamos que íamos ganhar mais e mais trabalhos semelhantes se apresentássemos as “previsões certas”. Além disso, éramos aliados muito próximos das empresas que ganhavam os contratos, como Bechtel, Stone & Webster, a Brown & Root.


Qual foi a diferença do trabalho na Arábia Saudita?
A Arábia Saudita não precisava pegar empréstimos porque tinha muito petróleo, muito dinheiro entrando. O que tivemos que fazer foi convencer a Arábia Saudita a investir os petrodólares em títulos do governo americano, e então o Departamento do Tesouro americano usaria esse dinheiro para contratar empresas americanas que pudessem construir grandes indústrias, complexos petroquímicos, sistemas de energia elétrica, portos, estradas, toda a infraestrutura na Arábia Saudita. E dissemos: se vocês toparem o acordo, e mantiverem o preço do petróleo acessível, faremos tudo para manter a família real no poder. Como fizemos com o Kuwait, onde havia um acordo semelhante... Quando o Saddam Hussein atacou o Kuwait, em 1990, enviamos as tropas para proteger a família real do Kuwait.


Isso foi dito assim, tão claramente?
Sim. Eu fui uma das pessoas que falaram isso. Claro que você tem que ser meio cuidadoso com as palavras que usa, caso alguém esteja gravando, mas basicamente era isso que dizíamos.


Mas quem te deu essas ordens?
Nesse caso, o Departamento do Tesouro enviou pessoas para falar conosco. Eu costumava enviar documentos em envelopes de comunicação interna no escritório, e não tinha certeza de quem os estava recebendo ou para onde estavam indo. Na Arábia Saudita não era apenas sobre poder ou dinheiro, mas a proposta era mesmo ocidentalizar para que o país fosse um modelo para o Oriente Médio... A interferência foi muito profunda, deixou árabes e muçulmanos do mundo todo muito bravos porque os lugares mais sagrados do Islã, Medina e Meca, estão agora cercados por cidades ocidentalizadas, complexos petroquímicos, McDonald’s... E eu acho que podemos ver isso acontecendo em muitos países. Sempre que há um império em extensão, isso acontece. Quando os portugueses foram para o Brasil para explorar os recursos do Brasil, a cultura portuguesa se tornou dominante no Brasil, e as culturas nativas chegaram a quase desaparecer. O próximo passo, uma vez endividados os países, seriam medidas que são impostas pelo Banco Mundial e pelo FMI para “sanear” as economias. E um passo principal seria a privatização dos recursos.


Na sua época já se falava nisso?
Estávamos nos primeiros estágios. Naquela época, as empresas de petróleo estavam insistindo que todas as empresas de petróleo desses países deveriam ser privatizadas. Então, esse processo havia começado, mas hoje está muito maior.


Os sabotadores econômicos ainda existem?
Claro que sim. Acho que há muito mais hoje. Tem o mesmo tipo de sabotador que eu era, chamamos de “genéricos” porque não trabalhávamos para que uma empresa específi ca pegasse os contratos, mas apenas que as empresas americanas fizessem o trabalho. Mas hoje há sabotadores que trabalham diretamente para certas companhias, como a General Electric, ou a Monsanto, ou a Nike, Halliburton, Bechtel.


Mas isso não seria um lobby?
É mais que um lobby, porque essas pessoas também trabalham em parceria com bancos e conseguem empréstimos para construir grandes fábricas, empreendimentos. Essas empresas se tornam muito próximas de autoridades do governo, elas conseguem vagas nas universidades americanas para os filhos deles, ou contratam os jovens como estagiários, pagando muito dinheiro. Ou então contratam pessoas do alto escalão dos governos de outros países por alguns anos, e depois essas pessoas voltam a trabalhar para o governo. Isso é na verdade uma forma de suborno.


No seu livro, você descreve que havia uma seqüência na intervenção externa americana. Primeiro, eram enviados os sabotadores econômicos; se eles falhassem, então era a vez de os “chacais” entrarem em ação, para derrubarem o governo ou até assassinar presidentes. Ainda funciona assim?
Ainda é assim. Os chacais foram enviados à Venezuela em 2002 para organizar o golpe de Estado contra Hugo Chávez. Eu conheço os sabotadores que fi zeram isso. E conheço o sabotador que conseguiu convencer o presidente Gutiérrez, do Equador. Durante a campanha, Gutiérrez prometeu taxar mais as empresas de petróleo, ou nacionalizá-las, e ele venceu, mas aí esse sabotador econômico foi falar com ele, Gutiérrez voou para Washington e encontrou o presidente Bush, e quando voltou ele só praticou políticas a favor das empresas petrolíferas. O Hugo Chávez fala abertamente disso, ele soube do meu livro e disse que foi exatamente o que aconteceu com ele: os sabotadores foram visitá-lo.


Você perguntou ao sabotador que tratou com Gutiérrez como ele fez isso?
Não especifi camente. Mas eu sei como funciona. Você vai até o gabinete do presidente e o relembra do que aconteceu com Allende, e Jaime Roldós, e Torrijos, e Noriega. Todos esses eram presidentes que se opuseram à corporatocracia e foram derrubados ou assassinados. E diz que a opção é fazermos grandes contratos no seu país, podemos implantar usinas de energia, sistemas de água, e que ele e sua família vão ganhar muito dinheiro quando fizermos isso. Foi o que eu fiz com Omar Torrijos no Panamá. Ele não topou, e foi por isso que ele morreu. E tudo está se repetindo agora, está acontecendo com Evo Morales, na Bolívia, tenho certeza.

"Hoje há sabotadores que trabalham diretamente para certas companhias, como a General Electric, Monsanto, Nike, Halliburton, Bechtel."

Quem são os chacais?
A maioria deles é empregada de empresas privadas, trabalha para empresas como a Global Management Solution e outras empresas de segurança. Muitos deles foram treinados por forças especiais nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na África do Sul, mas geralmente quando eles se tornam chacais vão trabalhar para corporações privadas. Eu conheço alguns chacais, sei como funciona. Para os chacais entrarem em ação, hoje em dia, nem precisa de uma decisão centralizada, as coisas funcionam de maneira muito indireta. Porque os chacais, quando são enviados a campo, sabem o que devem fazer. Assim como quando me tornei um sabotador econômico, quando fui enviado para encontrar Omar Torrijos, ou fui para a Indonésia, ou qualquer outro país, não precisava que alguém me ligasse e falasse: “Olha, você precisa trazer Torrijos para o nosso lado”. Eu sabia que, se fosse enviado para o Panamá, esse seria o meu trabalho. Agora, a conjuntura na América Latina mudou bastante, na América do Sul temos muitos presidentes de esquerda...


Onde estão os sabotadores econômicos?
Acredito que todos esse presidentes foram visitados pelos sabotadores econômicos. A pergunta é: onde estão os chacais?


Você não está com medo, depois que seu livro foi publicado? Não recebeu nenhuma ameaça?
Decidi escrever esse livro por causa dos atentados de 11 de setembro, e dessa vez não contei a ninguém. Uma vez publicado o livro, essa é a melhor proteção que eu tenho. Eles sabem que, se alguma coisa acontecer comigo, o livro vai vender milhões de cópias, e é a última coisa que eles querem.


O livro vendeu muito bem, certo?
Sim, a versão em papel-jornal está há cinco semanas, desde que foi lançada, na lista de mais vendidos do New York Times. Semana que vem (a última de fevereiro), ela vai para o quinto lugar na lista. E o livro já foi publicado em vinte línguas até agora.


Como foi a repercussão nos Estados Unidos?
É interessante, porque a imprensa grande não fala sobre o livro. O livro está na lista de mais vendidos do New York Times, mas eles nunca mencionaram isso, nunca fi zeram resenha do livro, nunca falaram dele. A mesma coisa com o Los Angeles Times, todos os grandes jornais. Fui convidado para dar uma entrevista na NBC, um grande canal de televisão, e voei da Califórnia para Nova York para participar do programa. Eles ficaram de me mandar uma limusine para me levar ao estúdio e, enquanto eu estava esperando a limusine, eles ligaram e cancelaram. Sem nenhuma explicação.


Seu livro tem um tom bastante confessional, e fala diretamente ao coração dos americanos, porque fala muito dos ideais dos fundadores dos Estados Unidos. O que ele provocou nas pessoas?
Primeiro, eu queria dizer uma coisa: me considero um cidadão americano muito leal. Meus ancestrais lutaram em todas as guerras neste país, e eu acredito muito fortemente nos princípios que este país defende. Acho os ideais que estão na nossa declaração de independência muito bonitos. Todo mundo no mundo todo tem direito à liberdade, à vida, e a buscar a felicidade, o que não quer dizer que eles querem o mesmo sistema que temos. Uma das razões de eu ter escrito o livro é porque acredito que, se os americanos realmente souberem o que está acontecendo, eles vão exigir mudanças. Agora, com meu livro, outros sabotadores econômicos estão aparecendo, saindo do “gelo”, como diz a CIA. Vamos publicar um outro livro com muitas histórias diferentes, cada uma escrita por um sabotador. E eles toparam assinar seus nomes.


Há mais alguma coisa que o senhor gostaria de dizer aos leitores brasileiros?
Acho que vale a pena para os brasileiros pensar um pouco sobre a minha história. Tenho certeza de que Lula tem sofrido muitas pressões dos sabotadores econômicos e talvez dos chacais. Não sei se ele cedeu, mas acho que os brasileiros deveriam dar uma olhada nessa história. Pensem nisso.

Natalia Viana é jornalista.
fonte: http://carosamigos.terra.com.br/
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QUEM AMA A TELEFÔNICA? - por João de Barros - fonte: http://carosamigos.terra.com.br/

QUEM AMA A TELEFÔNICA?
Narrativas cômicas e dramáticas de usuários do sistema de telefonia fixa de São Paulo.


por João de Barros
ilustrações Aliedo

Em outubro passado, uma pessoa que trabalha na Engine Logística, da Vila Prudente, zona leste de São Paulo, ligou para a Telefônica a fim de pedir uma linha para a empresa. Como o nome da empresa é incomum, a pessoa resolveu soletrar Engine usando um recurso muito comum nesses casos, de forma a que a operadora de telefonia fixa da cidade registrasse o nome correto. Ela foi falando: E de escola, N de navio, ..., até completar a palavra. Para seu espanto, no entanto, ao receber a primeira correspondência da Telefônica o nome da empresa veio grafado assim: “Engine Escola Navio Gato Igreja Navio Escola”.
A lambança caiu como uma luva na comunidade Eu Odeio a Telefônica, com mais de 15.000 pessoas, o maior grupo antitelefônica do mundo, no Orkut.

Dedicada a “causar prejuízo ao grupo Telefônica” e “denunciar todo tipo de irregularidade, atentados à livre concorrência, exploração de funcionários e demonstrar essa verdadeira babel de incompetência”, internautas dessa comunidade se deliciaram com a mancada da Telefônica. “Huuuuaaaa, que burra”, alardeou um. “Manada de antas”, disparou outro. “Só tem burro nessa porra”, mandou ver um terceiro. Até um certo Randal, que diz trabalhar na Atento – a empresa de atendimento terceirizada da Telefônica – escreveu: “Caramba..., igual a isso nunca tinha visto, não. Vou divulgar também. Huahuahua”.

No Orkut há mais 2.314 pessoas espalhadas por outras dezessete comunidades que reclamam da Telefônica. Elas tratam desde o relacionamento dispensado ao cliente, como A Telefônica Me Dá nos Nervos – “se você odeia ligar na central de relacionamento da Telefônica e ser transferido zilhões de vezes até que alguém desligue sem dar solução ao seu problema, você está no lugar certo” – até centrais exclusivas de repúdio aos serviços prestados pela Atento, como Eu odeio a Atento, com 1.170 pessoas, que se dedica a combater “as empresas multinacionais estrangeiras que vêm para o nosso país a fim de escravizar e explorar a mão-de-obra do nosso povo”.
Desde o dia 29 de julho de 1998, quando o setor de telefonia foi privatizado pela Telebrás no governo Fernando Henrique Cardoso, esse serviço público se notabiliza como líder de reclamações dos consumidores brasileiros. Arrematada em leilão por 5,7 bilhões de reais – equivalentes na época a 4,9 bilhões de dólares–, a estatal paulista Telesp S/A, considerada “a jóia da coroa”, com 6,1 milhões de clientes, foi parar nas mãos do grupo multinacional espanhol Telefônica S/A, que atua em 37 países de quatro continentes – Europa, América, África e Oceania – e se mostra ao mundo com o nome estampado no carro do bicampeão mundial de Fórmula 1, Fernando Alonso.

FAZENDO A MALA
Quase sem concorrentes na área da telefonia fixa e baseada numa política agressiva de vendas, o Brasil se tornou o principal mercado da Telefônica, superando até a matriz espanhola: em 2004, o conglomerado faturou 37,8 bilhões de dólares, dos quais 10 bilhões de dólares recebidos dos bolsos de brasileiros. Em 2005, a Telefônica encerrou o ano com receita de 28 bilhões de reais e ostentava o orgulhoso número de 12,4 milhões de telefones instalados – apenas com a taxa de assinatura, ela embolsa algo como 450 milhões de reais por mês, cerca de 5,5 bilhões de reais por ano, quase o valor que ela pagou pela Telesp.
Muitas ações judiciais pleiteiam a proibição dessa cobrança de assinatura mensal e a restituição dos valores pagos. O Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – tem uma ação civil pública na 6a Vara Federal de São Paulo pedindo o cancelamento da imposição da assinatura mensal de telefonia fixa, na qual se inclui uma franquia de 100 pulsos. Utilizando ou não os pulsos, o usuário tem de pagar por eles. O Idec considera a taxa “ilegal, já que o consumidor deverá pagar somente pelo serviço que efetivamente consumiu”. As liminares para a suspensão do pagamento foram negadas pela Justiça.
Na Câmara Federal, um projeto de lei do deputado federal Marcelo Teixeira (PSDBCE), que propõe tornar ilegal essa mesma cobrança, está na fila para votação no plenário desde 2001.
Em 2005, a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou um projeto do deputado Jorge Caruso (PMDB) que punha fim à assinatura, mas o então governador Geraldo Alckmin vetou a lei justificando que cabe à União legislar sobre as telecomunicações.
Os consumidores não têm também como conferir o número de pulsos cobrados pela Telefônica. A questão fere o Código de Defesa do Consumidor, a Lei de Concessões e a Lei Geral de Telecomunicações, que prevêem o direito do consumidor à informação: data, horário, duração da ligação, número do telefone chamado e valor devido por ligação deveriam vir discriminados na conta telefônica. “A alegada dificuldade técnica não existe. As ligações feitas a celulares e as interurbanas já são informadas e, quando a Justiça solicita, a prestadora fornece a listagem de todas as ligações feitas por qualquer usuário”, diz o Idec.
Além dos valores arrecadados com assinatura mensal e demais chamadas, a Telefônica engorda o seu patrimônio com a “popularização” dos serviços digitais, como transferências de chamadas, atendimento simultâneo, bloqueador de interurbanos, caixa postal, secretária digital, discagem abreviada, detecta (cuja função é a de o usuário ver o número de quem está ligando e optar por atendê-lo ou não) e o Speedy, o serviço de banda larga. Segundo o siteda empresa, “hoje, são 17 milhões desses itens instalados”. O problema, porém, é que muitas vezes um serviço é disponibilizado gratuitamente por dois meses na conta, sem o consentimento do cliente. Desativá-los é que são elas.
O professor de história Homero Mattos Júnior, 53 anos, residente no Planalto Paulista, comprou há três meses o serviço de banda larga da Speedy. Porém, não conseguiu se conectar na Internet: as páginas que acessava não abriam. Homero ligou para o 103 15, comunicou o problema e foi informado de que a causa estava no seu computador. Homero acreditou. Trocou os cabos da conexão, instalou antivírus no equipamento e, finalmente, mandou-o para uma assistência técnica que considerou normal o funcionamento da máquina. O problema persistiu. Homero, por fim, descobriu que seu computador funcionava normalmente em outro serviço de banda larga concorrente do Speedy. No dia 15 do mês passado, ele passou o dia ligando para a Central de Relacionamento do Cliente da Telefônica, seguindo os passos que uma secretária eletrônica dizia que o levariam ao serviço de cancelamento do Speedy, que culminava assim: “No momento, todos os nossos operadores estão ocupados. Por favor, aguarde, que logo daremos continuidade ao seu atendimento”. “Sou vítima da própria tolerância”, diz Homero. “Paguei dois meses por um serviço que nunca usei e, agora, sou brindado com uma mensagem eletrônica como essa. Ou eles fazem da espera um recurso para o cliente desistir ou a bronca é tão grande que o Speedy é uma droga mesmo.”

EMBROMAÇÃO
Quem faz o atendimento de todos esses serviços de relacionamento e reclamações dos clientes é a Atento S/A, uma subsidiária espanhola da Telefônica que está no Brasil desde abril de 1999. Apenas seis anos depois, a empresa já lidera o setor de contact center (atendimento ao público) no país, gabando-se de ter fechado 2005 com uma equipe de mais de 50.000 profissionais. Da maioria deles se exige segundo grau completo, fluência verbal, boa dicção, dinamismo, bom relacionamento interpessoal, maioridade, além de conhecimentos de informática e digitação. Em troca, o funcionário ganhará pouco mais de um salário mínimo por mês – 380 reais, para seis horas de trabalho ininterrupto. Só os muito jovens, em busca do primeiro emprego, topam a oferta. Como Jonas Pereira Taschoalick, que trabalhou na Atento por um ano, logo que a empresa chegou ao Brasil.


“O treinamento do pessoal era de três dias. Depois disso, a gente tinha de aprender na marra. Se alguém ligasse reclamando do valor da conta, a ordem era dar um tempo e dizer que não havia nada de errado. Se o camarada insistisse, entrava em campo a enrolação, que nada mais era do que deixá-lo na pausa por cinco, dez, quinze minutos. Aí, de duas uma: ou o cliente se enchia e desligava o telefone ou a gente mesmo tratava de derrubar a linha”, lembra Jonas. Ele conta mais:
“Quando a ligação era de uma pessoa bem simples, a gente percebia e dizia que a conta dela havia subido porque tinha alguém – uma criança, por exemplo – tirando o telefone do gancho e aumentando o número de pulsos. Era uma inverdade, claro, mas tinha gente que contava vantagem da lábia que tinha para embromar as pessoas. Esses eram os melhores atendentes, que, geralmente, acabavam sendo promovidos.”

Aos 24 anos, Adriano Mendes Aguiar, estudante da Faculdade de Processamento de Dados da Uniban, viveu a dupla experiência. Foi funcionário da Atento em 2003, antes de ser um cliente insatisfeito da Telefônica. Ele diz que caiu num conto, que seria aplicado em centenas de usuários da empresa: adquiriu o serviço de Speedy e, de brinde, poderia escolher como prêmio um MP3 ou uma câmara digital. Este mês faz um ano que espera pela câmara. Ele resume:
“Primeiro, demorei três meses para preencher um cadastro da empresa. Depois, liguei para 0800-121520, a central de vendas do Speedy. Passei por muitos atendentes, assistentes de supervisor, supervisores. Todos me deixavam na linha ouvindo música. Alguns supervisores diziam que em dez dias receberia o brinde. Hoje, não tenho mais esperança de nada. Caí no conto do vigário da Telefônica. Fazer o quê?”

Reclamações aparentemente simples como o valor das contas, ligações interurbanas e internacionais contestadas, desvios e transferência irregular de chamadas, telefones mudos ou desligados sem motivo, contas com serviços não contratados, acordos não respeitados, ligações encaminhadas para caixas postais desconhecidas, cobrança indevida de juros, parcelamento de débitos ou o encaminhamento de nomes para o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) entulham os diversos serviços de proteção ao consumidor de São Paulo. A todos, contudo, a Telefônica estaria dando o mesmo tratamento: ouvidos moucos.
Curiosamente, o comando da Telefônica no Brasil é ocupado por nomes de peso nas telecomunicações do país. O ex-executivo Fernando Xavier Ferreira foi presidente da Telebrás no período em que o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, aplainava o terreno para a privatização, que acabou levando o próprio Fernando Xavier para a presidência da Telesp, cargo que em seguida ocupou na Telefônica até o final de dezembro passado. Foi sucedido por Antônio Carlos Valente, ex-vice-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, o órgão do governo federal ao qual compete regular o setor de telefonia.
Como é dever da Anatel reprimir as infrações aos direitos dos usuários, o consumidor deve denunciar à agência – telefone 0800-332001 – a ocorrência de ilegalidades e exigir providências. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, “o denunciante deve ter o número do protocolo da reclamação da Telefônica para que a agência possa atuar”.Mensalmente, a Anatel intermedeia cerca de 6.000 reclamações de usuários da telefonia fi xa da Telefônica, das quais mais de 90 por cento são resolvidas, segundo a Assessoria de Relações com os Usuários da agência. Há casos, contudo, em que a denúncia pode levar à instauração de processo administrativo e à punição com multas.

PILHA DE DENÚNCIAS
A hilariante confusão da Engine poderia fazer parte do folclore do Serviço de Atendimento ao Cliente da Telefônica não fosse a empresa por anos seguidos campeoníssima nas reclamações quanto à forma de tratar os usuários dos diversos serviços que se dispõe a prestar. Em São Paulo, a companhia lidera o ranking de ações na Justiça comum e no Juizado Especial Cível, antigo Juizado Especial de Pequenas Causas: contam-se mais de 80.000 processos contra ela.
A mesma coisa na Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor de São Paulo (Procon-SP), órgão vinculado à Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania – a empresa é recordista de queixas: 26.223, em 2004; 31.146, em 2005; e 39.275, até o final de outubro de 2006. Segundo o histórico no cadastro do Procon, a Telefônica liderou o “campeonato” de reclamações fundamentadas desde que assumiu a Telesp, em 1998, mantendo-se no posto nos três anos seguintes (1999-2000-2001). Em 2002 ficou em quarto lugar e quase foi “rebaixada” em 2003, quando ocupou a 28ª posição (o critério usado no ano foi o de empresas que menos atenderam as solicitações do consumidor), mas voltou a ser campeã em 2004 e quarta colocada em 2005. Em 2006 – os números atestam – também promete estar nos primeiros lugares.

As reclamações da telefonia fixa são sempre de ineficiência, precariedade ou descaso. As queixas vão desde a contestação do número de chamadas – os pulsos – até o desligamento irregular das linhas. Para a diretora-executiva do Procon, Marli Aparecida Sampaio, o órgão se transformou “num apêndice da companhia, num balcão de atendimento da Telefônica, onde o interesse público serve ao interesse privado”. Ela conta: “Como a Telefônica só trata dos direitos do consumidor quando é instada a isso pelo Procon, é como se fôssemos um departamento da empresa. O reclamante denuncia e a reclamada quase sempre atende a insatisfação do consumidor sem contestação”.

Diante da imensa pilha de denúncias de abusos feitas pelos usuários – e dessa postura “impávida” da Telefônica –, o Procon procurou a empresa em meados deste ano para tentar chegar a um acordo que não inviabilizasse as demais atividades do órgão estatal. “Era preciso encontrar uma fórmula para não truncar os demais serviços do Procon”, diz Marli. A reunião, à qual compareceram advogados da Telefônica, mostrou-se promissora. “Eles entenderam a nossa posição e prometeram voltar com soluções.” Porém, durante a nova rodada de negociações, a Telefônica mostrou-se prepotente. “Eles vieram, passaram um vídeo institucional da empresa e foram embora”, conta a perplexa Marli.


Por conta disso, restou ao Procon abrir um processo administrativo coletivo – assinado por mais de cem pessoas – contra a Telefônica, por infringir o artigo 57 do Código de Defesa do Consumidor. Entre as irregularidades apontadas constam alteração unilateral de contrato, cobrança irregular de chamadas, fornecimento de serviço sem solicitação do consumidor, cobrança em duplicidade de conta telefônica e de minutos de acesso à Internet e descumprimento de oferta. Caso seja condenada, a Telefônica poderá ter de pagar uma multa de mais de 3 milhões de reais por práticas abusivas.
Também no Instituto de Defesa do Consumidor, o Idec, a Telefônica é figurinha carimbada como uma das empresas que mais desrespeitam o Código de Direitos do Consumidor. “A telefonia está sempre entre os três primeiros segmentos que mais causam dor de cabeça à população”, diz a advogada Maíra Feltrim, coordenadora do Serviço de Orientação do Idec. “Quem vem ao instituto recebe sempre a orientação de procurar o fornecedor dos serviços na esperança de uma resposta. Quando não há manifestação, a determinação é procurar a ouvidoria da empresa, a Anatel e, finalmente, a Justiça. As queixas mais freqüentes dizem respeito ao preço e à qualidade do atendimento, e aumentaram bastante com a privatização”, constata Maíra.
Para ela, a falta de capacitação dos atendentes e a predisposição de não dar razão ao reclamante colocam a Telefônica como uma das empresas mais predadoras do mercado. “Não sei se os espanhóis recebem o mesmo tratamento que os brasileiros”, diz Maíra, resumindo o estado de espírito das pessoas que têm de enfrentar a companhia. “A Telefônica no Brasil não aparenta, mas ainda está na era do capitalismo selvagem. Porque atender bem o consumidor deve ser a responsabilidade social número um de qualquer empresa. E o pessoal da Telefônica mistura responsabilidade social com filantropia e despreza a maior fortuna que possui: os seus clientes”.
Diante do grande número de pessoas que punha a boca no mundo contra a Telefônica, a direção do Idec decidiu elaborar uma cartilha chamada Defenda-se On Line – Telefonia, para esclarecer os consumidores sobre seus direitos e alertá-los a respeito de qualquer abuso praticado pelas operadoras de telefonia fixa e celular no país.

ALÔ? PI, PI, PI...
0 consultor de informática Ivan Elias Moslavacz Nassif, de 33 anos, talvez seja um caso extremo de luta do consumidor pelos seus direitos. Ele acabou na 16ª Delegacia de Polícia, onde registrou uma queixa de estelionato contra a Telefônica. Seu imbróglio é um caso recorrente entre os que se queixam dos serviços da companhia. “Os atendentes não saem de um scriptpredeterminado, são mal treinados, não conhecem as soluções dos problemas gerados pela empresa para a qual trabalham e, pior, são hábeis em derrubar as ligações ou deixar uma pessoa por horas na linha até que desista de fazer a reclamação”, diz ele.
No dia 24 de novembro último, o telefone fixo de Ivan emudeceu e ele passou a usar um celular para realizar suas ligações, “desembolsando uma grana considerável por causa da incompetência da Telefônica”. Escolado no assunto, Ivan passou a anotar o histórico de suas chamadas para o 103 15, o serviço de atendimento ao cliente da empresa. Assim, no dia 24 ele ficou sabendo que dois dias antes uma tal Magali fornecera à Telefônica os dados do titular da conta, o irmão dele, Marcus, solicitando a transferência da linha para outro lugar.
Ivan não conhece nem uma Magali. Pediu o imediato religamento, sem ônus, do telefone e o ressarcimento dos prejuízos, gerando o protocolo 103.912.257. Quando quis falar com o supervisor, a linha caiu. Ivan tentou de novo. Pediu, sem sucesso, ao atendente Vinicius informações sobre Magali. Quando novamente tentou dialogar com o supervisor, a linha voltou a cair. No dia seguinte, o atendente Éverton lhe disse que a área responsável da Telefônica ainda não havia se manifestado e a data prevista de sua linha voltar a operar era o dia 29.
No dia 27 Ivan contatou novamente o 103 15. Falou com a atendente Elaine, que solicitou todos os seus dados e disse que sua linha fora instalada num outro endereço. Percebendo que só obtinha as informações de que já dispunha, Ivan pediu o número da ouvidoria da Telefônica e teve a chamada transferida para Gracimara, da Supervisão do Atendimento. Ivan explicou toda a confusão novamente e, depois de sete minutos de espera, obteve o número da ouvidoria, 0800-775-1212, que funciona de segunda a sexta, das 8 às 17 horas. Depois, ao questionar Guacimara sobre a situação de sua linha, foi encaminhado para a atendente Marcela, da área de cadastro, que, nada podendo fazer, o transferiu para a funcionária Talita, responsável por todas as áreas, exceto a que ele desejava, razão pela qual foi repassado ao supervisor da área, Vagner, que, como os demais... nada podia fazer. Cansado, Ivan disse que faria um Boletim de Ocorrência Policial por perdas e danos. Mas acabou se queixando à Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel.

No dia 28, inconformado com tanto descaso, Ivan ligou para a ouvidoria. Esperou 26 minutos para ser atendido por Fabiana, que, cientificada de sua reclamação, alegou que nada poderia fazer até que expirasse o prazo dado pela área de atendimento. Ivan solicitou então o e-mailda ouvidoria. Queria encaminhar o histórico de seu relacionamento com a Telefônica. Fabiana respondeu-lhe que a informação constava no siteda empresa.
No dia 29, Ivan esperou que sua pendenga afinal fosse resolvida. Porém, a única informação que obteve do atendente José Ricardo foi o nome da rua onde seu telefone fora instalado – rua Cangambá, 120, em Itaquera. No dia seguinte, 30, a atendente Letícia garantiu-lhe que até as 18 horas sua linha seria restabelecida, mesma informação repassada por Graça, da ouvidoria.

No mesmo dia, Denise, também da ouvidoria, informou-o que a Telefônica indenizaria apenas o período em que seu telefone ficou inoperante. Bravo, Ivan esperneou e conseguiu obter o compromisso da gratuidade mensal da assinatura.
Em 1° de dezembro, Ivan estava à beira de um “colapso nervoso”. Nesse dia, falou quatro vezes com a Telefônica. Primeiro foi informado de que sua linha estava sendo desligada do local para onde fora transferida. Depois, falou na ouvidoria com Alícia, que informou: “Após contato com a área técnica, garanto que sua linha será religada hoje”. À tarde, recebeu um prestador de serviço da Telefônica, que verificou as condições para a instalação da linha em sua casa e assegurou-lhe: “Em meia hora a linha estará funcionando”. Porém, a noite chegou e o telefone permanecia mudo. Obstinado, Ivan voltou a falar na central de relacionamento, onde foi informado que “a área técnica não havia lançado a informação da linha no sistema”.

“A maldição era interminável e a esperança de algum êxito dissipava-se diante dos implacáveis operadores de telemarketingda Telefônica”, relata Ivan. No dia 4 de dezembro, o atendente Wellington disse-lhe que havia algum problema técnico na linha e que tudo estaria solucionado em nada menos que... 24 horas! Ivan, atônito, tentou de novo a ouvidoria. Esperou treze minutos até falar com Gláucia, que garantiu: até o final da tarde ele receberia uma posição da Telefônica. Permaneceu outro dia na espera.
Finalmente, no dia 5, Márcia, da área técnica, disse-lhe que enviaria um técnico em até 24 horas porque havia a reclamação dele na Anatel, mostrando desconhecimento da luta que Ivan travava com a própria Telefônica. A linha, enfim, foi restabelecida no mesmo dia, o que prova, segundo Ivan – e a diretora do Procon – que a empresa só age corretamente com os clientes quando é provocada. Ivan espera agora a conta de dezembro para saber qual será “a nova astúcia” da Telefônica. “Quero ver se haverá cobrança da transferência da linha e dos pulsos telefônicos gerados pela pessoa que utilizou o meu número”, diz ele.
O caso Ivan veio a público no site www.reclameaqui.net, onde a companhia do Super 15 ocupa a 15° posição entre as empresas com o maior número de protestos, colaborando para o segmento de telefonia liderar com folga a pesquisa. Seu nome nem consta da lista de empresas que atenderam as reclamações. A economista Lolita Sala, de 45 anos, viveu na pele a “tortura” de passar oito horas para desconectar uma linha telefônica, falando com “máquinas tediosas ou com robôs que enunciam as mesmas palavras e idéias que já tinham enunciado antes”. Ela propôs a elaboração de um abecedário de queixas contra a Telefônica, entre as quais “abarrotar caixas postais do Procon, Idec, Anatel, cada um descrevendo a infeliz experiência no tratamento indevido dispensado pela empresa; boicotar por um dia as ligações telefônicas; colocar a boca no mundo, imprimindo e xerocando panfletos contra o monopólio na telefonia; divulgar por e-maila bronca de cada um contra a operadora; estampar camisetas com dizeres ‘Fora, Telefônica’, etc.”.
Com a imprensa, a Telefônica mostra-se sempre ocupada quando o assunto diz respeito à defesa do consumidor. No dia 1° de dezembro, a assessoria da empresa foi comunicada pela Caros Amigos, via correio eletrônico, que a revista estava preparando uma reportagem sobre a relação institucional da empresa com seus clientes. O repórter gostaria, portanto, de passar um dia na Atento S/A com o intuito de constatar como eram recebidas e encaminhadas as reclamações.
O assessor de imprensa, Milton Abrucio, respondeu que o pleito era impraticável. “O serviço é confidencial. Trata-se de dados dos clientes que requerem sigilo, como o número do CPF etc. Em cinco anos que estou aqui jamais tivemos um pedido como esse. A imprensa – até onde eu sei – jamais entrou lá”, argumentou. Diante disso, a revista pediu para conversar com o diretor responsável pela área. “Ah, isso tudo bem. Só que ele está na Espanha e volta na semana que vem.” A revista mostrou-se disposta a esperá-lo e, a pedido de Milton, enviou os tópicos gerais da entrevista.
Na semana seguinte houve um novo telefonema para a companhia a fim de saber como estavam as tratativas. Milton pediu um tempo. Não, ele não tinha esquecido da entrevista. Estava atarefado naquela semana com um almoço de fim de ano que a Telefônica ofereceria a colegas jornalistas. Mas entraria em contato com a Caros Amigos assim que tivesse uma resposta. Em vez disso, enviou, na final da tarde de 15 de dezembro, informações à revista”, com respostas aos tópicos enviados na semana anterior.

"EU ODEIO"

Em dezembro de 2005 solicitei à Telefônica S/A que instalasse uma linha em minha nova residência, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Um rapaz, muito simpático, depois de fazer inúmeras perguntas para habilitá-la – quis saber até o nome da minha mãe–, falou-me dos serviços prestados pela operadora e ofereceu-me “outros pacotes”. Entre eles estariam à minha disposição “os serviços digitais de transferência de chamada, atendimento simultâneo, secretária digital, bloqueador de celular e o detecta”. Declinei de todos. Precisava apenas de um telefone comum. Nada mais. Bastava ele me informar o preço da habilitação (R$ 88,01) e a quantidade de pulsos incluídos (100 pulsos, de quatro minutos cada um) no valor da mensalidade (R$ 38,13). “Ainda assim”, ele insistiu, “vou disponibilizar uma secretária eletrônica para o senhor, totalmente gratuita.” Agradeci novamente, mas ressaltei não precisar do mimo. Dois dias depois, alguns homens uniformizados estacionaram um carro no poste em frente de casa.



O telefone seria instalado. Em 9 de dezembro de 2005 recebi uma carta que me parabenizava por ter “escolhido a Telefônica como sua prestadora de serviços de telecomunicações” e a conta da taxa de habilitação.
No rodapé do demonstrativo de despesas havia algo impresso que me remetia à conversa que tivera com o atendente. Dizia: “Conforme sua solicitação, estamos confirmando seu pedido e informando que sua linha digital já possui o Kit To Aqui, com o Atendimento Simultâneo + Transferência de Chamadas”. Informava também que, após sessenta dias, o “Kit To Aqui vai custar apenas R$ 5,29”. No entanto, se eu não quisesse o Kit, bastava ligar para a “Central de Relacionamento 103 15 (ligação gratuita), 24 horas por dia, nos 7 dias da semana”.
Temendo o pior, liguei para a Central e disse não desejar o serviço batizado de “Kit To Aqui”. Porém, para avisar a Telefônica de que ela instalara um serviço que eu não solicitara, passei longos minutos de atendente para atendente até que a linha caísse. Eventualmente, um deles me pedia que eu aguardasse “um instante”. E o instante se transformava num silêncio duradouro, como se não houvesse mais vida do outro lado da linha. Todos se portavam como se tivessem feito um grande pacto à revelia do cliente, deixando-me um tempão no aparelho para, em seguida, engolfar-me no ralo do esquecimento até que... pluft, a ligação caía. E, a cada vez que a ligação caía, subia mais a temperatura e a pressão dos meus nervos.

Resolvi dar férias para a minha irritação. Era problema menor, quem sabe meu estresse não estava pontos acima de uma questão irrelevante. Deixei pra lá. Até receber a conta da empresa, com vencimento no dia 12 de abril de 2006. Perdido no meio da fatura, entre o valor da assinatura, dos pulsos e das chamadas interurbanas, lá estava ele, pequenino, sob a alcunha de “outros serviços”, o valor do Kit, que eu jamais usara, pelo módico preço de R$ 5,29.
Pronto para uma nova rodada de embates, armei-me de paciência antes de discar o 103 15. Era início da noite quando liguei e – macacos me mordam – uma moça anotou o pedido de corte do serviço do tal “Kit To Aqui”, e prometeu que o valor cobrado na fatura de abril seria incorporado como crédito no mês seguinte. “Algo mais”?, perguntou-me. “A Telefônica 15 agradece”, completou diante da minha perplexidade com a eficiência.
Em maio, contudo, em vez de creditar os R$ 5,29 do mês anterior, lá estava de novo a cobrança do Kit. Os meses foram passando, minhas reclamações se avolumavam, e nada. No início de agosto decidi cortar relações definitivamente com a Telefônica. Para minha surpresa, fui obrigado a enviar uma carta relatando o motivo da separação. Escrevi: “Eu odeio a Telefônica”. No dia 12 de agosto veio a última fatura. Nela, além da assinatura, pulsos etcetera e tal, estava discriminado: “Outros serviços, valor R$ 1,29”. Era o Kit To Aqui me dando adeus. (J.B).

INFORMAÇÕES À REVISTA CAROS AMIGOS
Sob esse título a assessoria de imprensa da Telefônica S/A enviou à redação da revista Caros Amigos um e-mail em resposta aos pedidos de entrevista e visita não atendidos. A própria assessoria redigiu as perguntas e respostas. Quatro questões. A primeira é quase um prospecto de venda dos serviços oferecidos pela empresa – telefonia fixa, telefonia pública, Internet banda larga, provedor da Internet etc. A terceira – como são registrados os pulsos de um telefonema fixo? – não esclareceu como é feito esse registro. Restaram dois esclarecimentos oficiais da empresa. Ei-los na íntegra.

1. Quais as principais dúvidas, reclamações e solicitações recebidas pela Central de Relacionamento?
A Central de Relacionamento 103 15 da Telefônica recebe, em média, 10 milhões de ligações todos os meses. 60% são solicitações que podem ser resolvidas diretamente no atendimento eletrônico. São pedidos de segunda via de conta telefônica, religação de linha ou perguntas sobre a previsão de retorno de funcionamento de terminais com problemas em função de alguma falha técnica em uma determinada região.
Das ligações que precisam ser atendidas por um operador, 82% correspondem a solicitações comerciais, como alterações cadastrais, alteração de data de vencimento da conta, instalação de serviços. As demais ligações estão relacionadas ao funcionamento da linha (chiado, defeito, paralisação) ou também a serviços contratados e cobranças em contas telefônicas. Aqui entram também pedidos de parcelamento.
Esses contatos todos convertem-se em excelente oportunidade de esclarecer o cliente sobre as tarifas praticadas e, assim, oferecer melhor utilização dos serviços que colocamos à disposição dos usuários. É importante ressaltar que, como resultado dos esforços de capacitação dos operadores e dos serviços de atenção ao cliente, hoje 75% das solicitações feitas ao 103 15 são resolvidas na primeira ligação – segundo avaliação dos próprios clientes – e o índice de satisfação com o atendimento prestado pelos operadores chegou ao patamar de 90%. Algumas vezes há Necessidade de verificação técnica na linha ou mesmo de análise detalhada de algum processo de venda – 100% das vendas de produtos e serviços da empresa são gravadas e por isso é possível checar com exatidão os questionamentos dos usuários.
Nesses casos, o cliente é informado que vamos analisar a solicitação e dar um retorno num prazo previamente informado e definido pelo órgão regulador.

2. Qual a política institucional da empresa em relação a seus clientes?
A Telefônica tem como prioridade a busca pela satisfação absoluta de seus clientes porque entende que as empresas que melhor atenderem às expectativas dos usuários serão as mais credenciadas a conquistar os melhores resultados. Na Telefônica, a gestão de clientes passa necessariamente por respeitar o consumidor e ter humildade e sensibilidade para ouvir e entender o que ele tem a dizer. A empresa realiza pesquisas periódicas de satisfação e é com base nos resultados deste trabalho que são implantadas a maior parte das mudanças para garantir a excelência dos serviços prestados e a melhoria contínua do atendimento. Um exemplo: as pesquisas identificaram que a Central de Relacionamento 103 15 é um espaço privilegiado para exercitar a busca pela excelência em nosso atendimento. Assim, o esforço para resolver a solicitação do cliente no primeiro contato passou a ser prioridade máxima para a empresa, com o programa Atento ao Cliente. Entre outras iniciativas, o programa estabeleceu um treinamento intensivo para os operadores, gravação de quase 100% das chamadas e redução drástica nas transferências das ligações. Como resultado disso, 75% das solicitações passaram a ser resolvidas no primeiro atendimento e o índice de satisfação com o atendimento prestado pelos operadores chegou a 90%. Outro passo importante foi alcançado neste mês, com a indicação para Certificação Global ISO 9001:2000. Será a primeira vez no Brasil que uma operadora consegue a certificação para um escopo tão abrangente de seus processos – 95% de todos os procedimentos executados na empresa, envolvendo quase a totalidade dos funcionários, com resultados que atingem 100% da base de clientes da empresa. Reconhecemos que ainda há muito a fazer, mas não se pode desconsiderar alguns avanços importantes já conquistados graças ao conjunto de ações em andamento na empresa.

João de Barros é jornalista.
joaodebarros@carosamigos.com.br
fonte: http://carosamigos.terra.com.br/


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Sobre ética, política e “educação caça-níqueis” - por Leopoldo Gabriel Thiesen - fonte: http://carosamigos.terra.com.br/

Sobre ética, política e “educação caça-níqueis”

por Leopoldo Gabriel Thiesen

... fato é que, como cidadãos brasileiros, perdemos o direito à inocência presumida. Aqui somos todos “picaretas”, corruptos, subornáveis, desonestos, corruptores, estelionatários, sonegadores, ou no mínimo interesseiros e safados, antes mesmo de qualquer oportunidade para provar o contrário. E, além do que, jamais provamos o bastante. Nos vemos como 190 milhões de “espertos” aplicando trambiques e golpes uns nos outros o tempo todo. E por aceitarmos isto como normal, talvez, façamos por merecer tal condição.

Boa vontade, gentileza, inocência presumida e confiança mútua são conquistas morais. Talvez as únicas possíveis e que façam sentido ainda. Visto que parece já não fazer sentido acreditar que quem não teme a Deus e seus tribunais metafísicos estaria liberado para qualquer tipo de sacanagem. E, com efeito, tal temor foi a base da moral popular por milênios. Pois bem, se já superamos tal fundamento de temor, resta-nos a racionalidade e a arte de construir a cooperação social como base para uma convivência civilizada e respeitosa. Restaria! Pois tal construção pressupõe um longo e por vezes árduo aprendizado coletivo. E quem disse que sequer já iniciamos tal tarefa?

A civilização humana desenvolveu alguns caminhos alternativos à violência do conflito social aberto, onde acaba prevalecendo a lei do mais violento, do mais forte ou do mais esperto. Para a construção da civilização dois caminhos são essenciais: a educação e a política. O aperfeiçoamento humano por vias morais esbarra em limites óbvios, apontados por Espinosa e Nietzsche. Pois, acaba configurando, conforme este último, uma moral de rebanho que nivela por baixo toda construção ética. Valores como honestidade, transparência, responsabilidade compartilhada, cooperação, confiança mútua, etc. não são invenções de moralistas ociosos. Mas resultam de árduos e por vezes trágicos aprendizados coletivos, exaustivamente repetidos.

Referíamos, no entanto, a dois caminhos: a política e a educação. Estas duas funções sociais estão geralmente entrelaçadas de forma intensa e complexa. Sobretudo no sentido de política como “cuidado da polis” e educação como formação do sujeito responsável pela co-gestão da polis. De forma tal que não se faz educação sem um projeto político e não se faz política sem repercussões educativas. E isto se torna evidente, por exemplo, quando vemos expostas diariamente na mídia, todas as mazelas da luta pelo poder. Tal exposição é necessária pelo fato de que na política já não se sobrevive sem ela, pois que a representatividade política, cada vez mais, se constrói em termos de imagem midiática. E a coisa é truculenta e ardilosa. Um campo de batalha para os mais fortes nas astúcias e baixarias. O que, em termos pedagógicos, não é nada construtivo, apesar dos esforços cosméticos da mídia.

Neste contexto se destacam, sobretudo, as famigeradas “Comissões de Ética” das instituições parlamentares, cuja função acabou se restringindo a zelar por uma fachada de moralidade, cada vez mais esgarçada e ruinosa. Esta fachada já não consegue esconder a ruína de um moralismo meramente decorativo, visto que parece se preocupar apenas (e por sinal dá conta muito mal dessa tarefa) com questões de “decoro”. Verificamos, no caso, um grave equívoco teórico com uma total deturpação da verdadeira função ética. Por um lado, ao confundirmos a função ética com a mera manutenção de uma fachada de moralidade. Moralidade esta, completamente insustentável porque absolutamente ruinosa e decadente. E aqui, nunca é demais ressaltar, não se trata de um fenômeno que afeta apenas a dita “classe política”, mas a sociedade como um todo, visto que a crise dos valores tradicionais se tornou inevitável. Tais valores se tornam questionáveis na medida em que constituem os fundamentos de uma sociedade patriarcal, desigualitária, injusta e cínica, insustentável como projeto histórico. Por outro lado, porque nos falta uma verdadeira função ética, capaz de dar conta de uma perene criação e re-significação dos valores. Os moralismos de fachada, aos quais preguiçosamente nos acomodamos, apenas reproduzem as mesmas mazelas e, assim, adiam e emperram a verdadeira criação ética.

Desponta aí também a grave deficiência educacional que negligencia cada vez mais a formação cultural e espiritual, com sua ênfase unilateral na formação técnica, visando apenas tornear peças humanas para a máquina universal do mercado. É importante, sem dúvida, promover a formação técnica e pensar na inclusão no mercado de trabalho e no desenvolvimento tecnológico. Mas negligenciar, com isso, a formação humana e cidadã pode ser eticamente e, por conseqüência, socialmente desastroso, na medida em que nos condena à mera reprodução de valores alheios. A criação de novos valores éticos e a permanente re-significação dos valores tradicionais exige um vivo enraizamento cultural. Mas exige, também, coragem e ousadia para criar, experimentar e transformar. Daí decorre uma saudável crise de crescimento e transformação. Muito diferente da crise de estagnação e reprodução automática da mesmice, com a qual nos debatemos hoje.

A cultura brasileira poderá se afirmar como uma nova perspectiva ética para a humanidade. Mas para isso é imprescindível pensar a sério a educação. E, sobretudo a sua dimensão cultural e espiritual (dimensão esta ainda confundida e reduzida, mesmo em muitos meios pretensamente cultos, à função religiosa). Os esforços locais mais autênticos nesta direção continuam sendo substituídos por fórmulas milagrosas de espertas consultorias internacionais, das quais nós os espertospelapróprianatureza somos ainda incapazes de abrir mão. Seria apenas mais um jeito de desviar “algum”? Ou, pior que isso, seria nosso incurável complexo de inferioridade ou o mesquinho auto-boicote de nossas simiescas elites? Seja como for, não podemos esquecer que o ônus da falta de criação é a repetição do mesmo e a submissão aos valores alheios.

Somos ainda um misto de culturas em estágios primários de caracterização própria. Mas, talvez também, prematuramente emperrada em vários aspectos. Nada nos assegura um futuro de autonomia, a não ser uma vigorosa vitalidade criadora de valores e sentidos próprios, mediante intensa criação cultural capaz de mobilizar toda nossa rica diversidade. Tal tarefa requer uma construção ética arrojada. Para isso, a ética deve ser lançada numa perspectiva artística de composição e expressão original daquilo que temos de mais vivo, rico e generoso. É importante ressaltar que nossa rica diversidade cultural está acima de qualquer valor, na medida em que ela, em si, constitui a própria fonte geradora de valor e sentido.

Peço licença e me desculpo por introduzir aqui meu caso pessoal que, na medida em que não constitui um fato isolado, se revela sintomático do que vínhamos analisando. Sou um professor de filosofia com doutorado e especialização em ética. Sou também um desempregado. Não posso deixar de observar que fosse, acaso, defensor de corruptos e estelionatários ou armador de negociatas, provavelmente não me faltaria trabalho, bem como, quem me pagasse regiamente por tais serviços. Encontro-me, no entanto, na constrangedora e desmoralizante situação de não ter a quem oferecer meus melhores préstimos, depois de ter usufruído privilegiados recursos públicos (bolsas CAPES e CNPq) para minha formação, quando sabemos que muitos concidadãos não têm acesso sequer a um curso de alfabetização. Não se trata, obviamente, de lamentar o quanto a vida é injusta o que, no caso particular, nem seria verdade, mas de analisar o que, como sociedade, estamos valorizando e reforçando.

Considero que esta situação pessoal tem muito a ver com o que está ocorrendo na educação. Também neste âmbito, nossa potência criadora está sendo mobilizada e canalizada, sobretudo, por interesses comerciais. E assim inventamos a “educação caça-níqueis”, através da qual, simplesmente, “formamos” “professores” que já nem sequer freqüentam salas de aula no seu processo de formação. Trata-se de cursos de licenciatura inteiramente ministrados à distância, com a mera assistência remota de “técnicos em educação”. Talvez seja adequado, visto que estes “professores” também já não terão alunos e provavelmente nem mesmo trabalho. Pois que alguns poucos técnicos darão conta de milhares de alunos, repassando automaticamente o conhecimento contido em cartilhas eletrônicas e respondendo às suas dúvidas com respostas prontas e decoradas, como atendentes de “telemarketing”.

Talvez assim, por um milagre comercial e técnico, alcancemos, enfim, a escolarização universal. Em vez de “caros” e “problemáticos” professores, computadores e técnicos bem treinados. Em vez de salas de aula, um computador em cada barraco e em cada grota do sertão mais remoto. Um só rebanho pacífico de ovelhas isoladas e devidamente nutridas de conhecimento eletrônico, remoto e inútil. Aliás, quanto mais remoto e inútil melhor. Toda informação acessível, com exceção, apenas, dos manuais de códigos e senhas secretas que permitirão manipular este rebanho. Estas informações estarão disponíveis apenas para os poucos privilegiados que freqüentarão “presencialmente” as escolas de elite. Para os demais, uma “educação de caça-níqueis caseiros” com doses mínimas de conhecimento para cidadãos também mínimos.

Ponderando: não sou contra o uso e a popularização de recursos tecnológicos em educação. Acho mesmo que tais recursos já deveriam ser empregados de forma ampla e maciça, promovendo, por exemplo, a necessária inclusão digital. Mas pretender formar cidadãos e professores sem o imprescindível espaço de interação, comunicação e diálogo que constitui a sala de aula é, sem dúvida, uma simplificação abusiva que vem no pacote da crescente mercantilização da educação brasileira. O uso de recursos tecnológicos, com a função de disponibilizar informação por meios informáticos, poderá contribuir significativamente para a melhoria da educação. Com isso, o professor poderia ser liberado para desempenhar outras funções de formação hoje negligenciadas e cada vez mais vitais, tais como: acompanhamento, orientação e motivação individualizada dos alunos. Além de fazer da sala de aula um momento e um espaço coletivo privilegiado de interação e exercício de diálogo cidadão, de cooperação e de responsabilidade compartilhada. No entanto, da forma como vem sendo implantado hoje em diversas instâncias educacionais, o ensino à distância não é apenas um atentado contra a educação, mas também contra o direito do consumidor, talvez um dos poucos que ainda nos restam, na medida, é claro, em que tivermos com o que pagar.

Constatamos, com isso, que a educação (ou seria um mero comércio de diplomas?) virou mercadoria e está sujeita às leis de mercado com barateamento de custos para incremento dos lucros.

Resta, no entanto, ainda a crescente legião de excluídos que freqüentam as escolas públicas de periferia, onde em espaços que mais parecem cadeiões com grades por todos os lados, se pratica uma socialização pela violência, com as gangues ditando as ordens. Mas, para o controle destes, já temos também as elites de exterminadores. É evidente que também a polícia tem sua função educadora com suas ações de caça humana sumária, cobertas pela mídia e transmitidas ao vivo em redes de televisão. Ou protagonizando obras ficcionais de cinema e televisão que se esmeram em cenas de crueldade e exemplaridade para nada ficar devendo à realidade. Provocamos, assim, um gozo de catarse vingativa de cidadãos cada vez mais acuados pela violência e encurralados em seu isolamento particular, afastados de qualquer participação política. Participação esta, que, para o cidadão acomodado em seu isolamento e moralmente justificado na omissão, deixou de ser uma atividade decente para gente honesta.

A educação tem vários meios. A política também! Mas o que estamos construindo através delas? Como estamos construindo os meios de participação efetiva, que constituem a base imprescindível de toda democracia? Os espaços nos quais cada cidadão possa exercitar diretamente sua sensibilidade e consciência ética e social, expressando sua opinião e visão das coisas? Não estamos, antes, aprofundando o abismo social, ao promover a apatia e o isolamento dos cidadãos, com uma educação meramente técnica e utilitária em seus fundamentos e em seus horizontes, e ao eliminar um dos mais importantes espaços de interação social e aprendizado democrático que é a sala de aula? Eliminamos, assim, um dos poucos espaços que nos restam e no qual era possível interagir em torno de idéias e práticas sociais. Fora isso, só monólogos e cartilhas prontas. É claro que a sala de aula é um lugar problemático e deve ser mesmo o espaço em que os problemas possam aflorar para serem trabalhados. Evidentemente, é um espaço obsoleto para o simples repasse de informações, mas deve ser privilegiado, mais do que nunca, como espaço de construção interativa e valoração de saberes e de exercício de diálogo cidadão, responsabilidade compartilhada e confiança mútua.

Os valores que afirmamos através da prática cotidiana é que conferem sentido e constituem as potências que mobilizam a construção da sociedade que teremos. É nesta perspectiva que é imprescindível perguntar: quais valores estamos efetivamente construindo através da política e da educação que praticamos? Não a forma como teorizamos ou idealizamos tais práticas, mas a maneira como efetivamente elas se dão entre nós? E aqui refiro explicitamente às escolas-cadeias com grades por todos os lados, com alunos e professores acuados; à repressão policial vingativa aos excluídos do mercado e da sociedade; à picaretagem comercial e ao isolamento social provocado pela “educação-caça-níqueis” via internet; e à falsa representação política construída por políticos-atores-midiáticos, completamente descartáveis. Aliás, menos descartáveis, apenas, do que a confiança e os votos que neles depositamos a cada nova eleição. Direito este, tão arduamente reconquistado e também tão rapidamente transformado em meio de legitimação dos “valores” da sociedade de consumo. Que, através do mercado capitalista globalizado, se estabelece, assim, como fonte única de valor e sentido para a existência humana. É imprescindível pensar a respeito. Pois são os valores que construímos no cotidiano das relações que definem o que realmente somos e seremos. O resto é apenas uma questão “decorativa”. Não nego a importância social, ética e política dessa função “decorativa”, mas isso é “pano para muitas outras mangas”.

Leopoldo Gabriel Thiesen é filósofo, educador e artesão. Autor da tese de doutorado: Por uma ética da transitoriedade na imanência: criação ético-estética para além da moral, defendida no Departamento de Filosofia da Unicamp. Pesquisador do Grupo de Pesquisa Opará (Unimontes/UFU/Fapemig/Nepam-Unicamp) com o projeto: O pensamento artesanal dos sábios do Sertão: uma etnografia filosófica da relação homem-natureza no Sertão de Guimarães Rosa.

fonte: http://carosamigos.terra.com.br/


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