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Analisar e discutir o que aconteceu, ao invés de vaticinar o que vai acontecer, é o primeiro papel das esquerdas. Ver além do tabuleiro superficial do jogo político. O que acontece por debaixo? Essa é a pergunta. O que fazer diante dos milhões de insatisfeitos que optaram por uma nova aposta na cena norte-americana?
por Flávio Aguiar
O ressentimento é mau conselheiro. É um sentimento legítimo, como qualquer outro. Mas se ficar à solta, nos faz perder a dimensão do futuro, pensado como uma mera dimensão do passado. Esta é a chave do pensamento positivista. Tão positivo, que pensava poder pensar integralmente o futuro. Afinal, como dizia seu mestre, Auguste Comte, que tinha uma alma generosa, os vivos eram cada vez mais governados pelos mortos.
O pior que pode acontecer agora com as esquerdas é se deixarem dominar pelo ressentimento, diante da vitória de Barack Obama nas eleições norte-americanas. Digamos o que digamos sobre o comunismo soviético (nem falar do chinês!), que era real, irreal, capitalismo de estado, falcatrua, falência, etc., a sua queda caiu sobre todos nós. Ficamos órfãos de futuro. Nada pior. O imigrante cuja terra de origem foi devastada tem o futuro pela frente. O imigrante cujo futuro foi devastado, só tem o passado por detrás. Os índios da América que o digam.
A vitória de Obama veio num contexto em que o capitalismo vencedor da Guerra Fria amargou o pó da derrota. Assim como o comunismo soviético, ele perdeu para si mesmo. Explico. O capitalismo não venceu o comunismo. Este perdeu, mas o outro não levou. O comunismo perdeu porque não conseguiu absorver o problema da democracia. Construiu-se em sociedades violentamente antidemocráticas, que acabaram dominadas por burocracias que em nome de supostas vantagens sociais oprimiam o pensamento político alternativo tanto quanto os representantes do hegemon capitalista na mídia dos triunfantes o fazem quotidianamente em relação aos que deles discordam.
Como disse, o capitalismo venceu, mas não levou. A prova veio agora. Entregue a seu desenfreio, sem imagem palpável de adversário, porque só reconhece a força pela força e não a força dos argumentos, perdeu-se na volúpia do sufoco financeiro. Foi à crise. E dessa crise nasceu a candidatura de Obama. Mas não sua vitória.
A crise abriu espaço para que nas frinchas do Partido Democrata se infiltrasse uma candidatura improvável. Isso sim é a imponderabilidade da história. Obama, o improvável, venceu as prévias do Partido Democrata, que deveriam ter sido vencidas por Hillary, a apoiada pela imagem de um feminismo de fachada, mais a burocracia do sindicalismo e dos políticos de alma administradora da política que passaram a dominar completamente as suas entranhas.
Obama venceu porque algo mudou na cena dos Estados Unidos, não porque ele necessariamente vá muda-la. Pode ser que mude, pode ser que não. Na verdade ninguém sabe, porque ninguém sabe, provavelmente nem ele, o que ele mesmo vai fazer. O que mudou nos Estados Unidos? A quantidade de pobreza, a quantidade de miséria, o papel dos jovens, o papel da internete. E também a vontade de apostar em algo diferente.
Analisar e discutir o que aconteceu, ao invés de vaticinar o que vai acontecer, é o primeiro papel das esquerdas. Ver além do tabuleiro superficial do jogo político. O que acontece por debaixo? Essa é a pergunta. O que fazer diante dos milhões de insatisfeitos que optaram por uma nova aposta na cena norte-americana? Ou seja, o papel das esquerdas agora é, sobretudo, analítico, menos profético. É preciso produzir análise, ao invés de profecias. Deixemos as profecias para a direita. O que está acontecendo nos EUA? Dizer que é a crise que explica tudo, embora ela explique a moldura da crise política que permitiu a um negro ganhar a presidência dos EUA, é pensar que qualquer crise explica qualquer coisa, quando os resultados delas são tão diferentes.
O ressentimento diante da vitória dos EUA sobre a URSS só pode levar a esse sentimento difuso que nos leva a construir a retórica da revanche. Queremos os Estados Unidos de joelhos, a pedir perdão. É isso, é esse tudo ou nada. Não, não é bem isso o que podemos querer. Podemos querer o fim da lógica da Guerra Fria. Não queremos os Estados Unidos de joelhos. Não queremos ninguém de joelhos. Queremos que a lógica seja outra. Podemos querer o fim da lógica que a vitória dos EUA na Guerra Fria impôs ao mundo, e que abriu o caminho para a hegemonia do neoliberalismo, ao invés do contrário.
Quando muitos analistas falam da vitória de Obama, o tom cético de como falam do candidato democrata e de sua possível performance contrasta com o tom entusiasta, ainda que moderado, com que falam do espírito de seus partidários. Veja-se o excelente artigo de Paul Harris, do The Guardian, na página da Carta Maior. O analista do jornal britânico põe o dedo na ferida, ou melhor, na cicatriz: o que fará Obama, não se sabe. Mas se sabe que será mitigado. Agora, o que faremos nós, da esquerda, diante da magnitude das forças sociais cujo estremecimento demiúrgico explodiram as expectativas em torno das eleições que, em tese, seriam as mais previsíveis do mundo, e não foram?
No momento, a principal estrada para as esquerdas é pensar. Pensar e perguntar, ao invés de invocar o fichário das nossas respostas prontas.
Leia também:
O dia seguinte (I): As raízes da vitória de Obama
O dia seguinte (II): Os rescaldos da direita
Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.
Fonte: Agência Carta Maior
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