segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Novo documento pode mudar rumo do caso Dorothy Stang

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Um documento recebido no final da tarde de sexta-feira (7) pelas freiras Rebeca Spires e Julia Depweg — que trabalharam durante três décadas com a missionária Dorothy Stang — pode mudar os rumos do processo do assassinato da freira. A cópia da ata de uma reunião, enviada via fax, complica a situação do fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, acusado de ser o principal mandante do crime.

A ata mostra que Galvão procurou o escritório do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Altamira (PA), no último dia 28, para doar parte do lote onde Dorothy foi morta. Durante a investigação do caso, porém, o fazendeiro havia declarado, em depoimento, que o lote não estava mais em seu nome — e pertenceria, sim, ao também fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida.

Em entrevista à Agência Brasil, as religiosas explicaram que a proposta de Galvão ao Incra consiste em doar parte do lote 55. Em troca, ele pediu autorização para colocar gado na outra porção da terra. O documento indicaria que Galvão, ao contrário do que vem afirmando desde 2004, mantém o controle do lote e, portanto, segundo as freiras, teria motivos para encomendar o assassinato da missionária.

Em Anapu, cidade do interior do Pará onde Dorothy vivia, cerca de mil pessoas participam neste sábado (8) de audiência pública que discute o caso. Uma cópia da ata da reunião no Incra e de comprovantes de compra e venda do lote 55 entre Galvão e Bida,serão apresentadas.na audiência. A idéia, de acordo com as religiosas, é mostrar que os documentos são contraditórios e que o lote nunca foi propriamente de Bida.

“Depois que ela (Dorothy) morreu, foi anunciado pelo Incra que o lote 55 estava seguro e não está. Muita coisa foi anunciada, muitas promessas foram feitas. O Incra trabalha com duas bocas — e o povo está continuando o que Dorothy começou”, disse Rebeca.

Para ela, a missionária estava “incomodando demais” porque queria desmanchar o esquema de falsificação de documentos e de impunidade dos fazendeiros no Pará. Ela reforçou que Bida não morava no lote 55 e que seu nome apareceu apenas após a denúncia contra Galvão. A religiosa lembrou que Bida é conhecido na região “por ter dado fim a muita gente” e que, por essa razão, teria sido contratado por Galvão para orquestrar o crime.

“Foi dito em Anapu: temos que liquidar esta irmã (Dorothy) para ter paz”, relatou Julia, sem citar nomes. As religiosas estão em Brasília, onde permanecem até amanhã (9), quando retornam ao município paraense. A expectativa é que, uma vez na capital federal — onde estão localizadas as sedes do Incra e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), além da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) —, elas consigam “dar um empurrão” no caso.

“Não podemos reduzir tudo isso a uma questão ambiental. Foi uma violação terrível dos direitos humanos e queremos acabar com a impunidade”, afirmou Rebeca. “Que as autoridades tomem as devidas providências para que o povo viva em paz. Regivaldo nunca deveria ter recebido o habeas corpus, deveria ter aguardado preso.”

“Trouxemos (nos documentos) 27 casos de morte no Pará. Todo mundo sabe quem fez isso. Impunidade gera mais impunidade, e eles (os fazendeiros da região) terão liberdade de matar pessoas. Não sei se a ata vai reverter o julgamento (de Bida), mas deve levantar muitas perguntas”, finaliza irmã Julia.

O caso

O fazendeiro Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, foi absolvido em maio, num segundo julgamento, da acusação de mandante da morte da missionária americana Dorothy Stang. O julgamento ocorreu na 2ª Vara do Juri de Belém (PA).

Na ocasião, os jurados mantiveram a condenação de Rayfran das Neves, apontado como o executor do assassinato. Ele foi condenado a 27 anos de prisão no primeiro julgamento e teve a pena aumentada para 28 anos, no segundo. No primeiro julgamento, Valdomiro Bastos havia sido condenado a 30 anos de prisão e, hoje, está em liberdade.

A missionária Dorothy Stang foi morta com seis tiros em Anapu, a 300 quilômetros da capital paraense, em fevereiro de 2005. Ela participava da Comissão Pastoral da Terra e trabalhava em constante diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas, na busca de soluções para conflitos relacionados à posse e à exploração da terra na região.

Da Redação Vermelho, com informações da Agência Brasil

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