sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Cloaca News: Ali Kamel não é Ali Kamel, mas Ali Kamel

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Suposto jornalista tenta suposta censura a Blog que enfrenta suposta advogada

Suposto jornalista tenta suposta censura a Blog que enfrenta suposta advogada


O Conversa Afiada reproduz abaixo e-mail enviado pelo amigo navegante Geraldo S. Chaves:

Enviado em 26/08/2009 às 10:33

PHA.
Imperdível esse post do CLOACA:

QUARTA-FEIRA, 26 DE AGOSTO DE 2009
SUPOSTA ADVOGADA DE SUPOSTO JORNALISTA ALI KAMEL TENTA, SUPOSTAMENTE, CENSURAR CLOACA NEWS
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No lusco-fusco desta terça-feira, quando retornávamos da faina diária de revolver o lixão de nossa imprensa escrita, falada e televisada, eis que encontramos em nossa caixa postal esta ameaçadora correspondência, intitulada…
NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL.
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Prezados,
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Na qualidade de procuradora do jornalista ALI KAMEL, diretor da Central Globo de Jornalismo, venho pela presente NOTIFICAR os senhores a respeito do que segue:
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Foi constatado que nesse blog há postagem datada de 16/08/2009, com o título “As taras proibidas de Ali Kamel”, disponível no endereço http://cloacanews.blogspot.com/2009/08/as-taras-proibidas-de-ali-kamel.html. Tal postagem faz alusão ao jornalista Ali Kamel como ator em um filme pornô, nos anos 80, disponibilizando trecho da obra retirada do site Youtube.
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Não restam dúvidas de que o notificante nunca exerceu atividade profissional diversa da carreira jornalística, razão pela qual o conteúdo da postagem é inverídico.
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Pelo exposto, sem prejuízo de quaisquer outras providências que possam ser levadas a efeito, venho pela presente notificá-los para que sejam tomadas as seguintes providências:
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a) que seja removido IMEDIATAMENTE o conteúdo acima citado desse site;
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b) que se abstenham de repetir o erro em quaisquer meios hoje disponíveis (impressos ou eletrônicos).
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Atenciosamente,
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Jxxxxxx Mxxxxxx
OAB/RJ nº 100.xxx
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Orientados pela nossa douta banca de jurisconsultos, respondemos à suposta causídica – com cópia para Deus e todo o mundo – o que segue.
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Prezada Jxxxxxx, suposta “procuradora do jornalista Ali Kamel”,
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Na qualidade de autor e editor responsável pelo blog denominado “Cloaca News”, doravante apenas “Cloaca”, valho-me da presente para, igualmente, NOTIFICAR a senhora – e seu cliente – a respeito da equivocidade abrigada em sua mensagem eletrônica enviada nesta terça-feira, 25 de agosto de 2009, às 19:04h, sob o espampanante título “Notificação extrajudicial”.
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Data venia, se é inegável que o Cloaca postou um artigo em 16/08/2009, com o título “As taras proibidas de Ali Kamel” (http://cloacanews.blogspot.com/2009/08/as-taras-proibidas-de-ali-kamel.html), há um clamoroso equívoco fático em sua afirmação peremptória de que “Tal postagem faz alusão ao jornalista Ali Kamel como ator em um filme pornô…etc”.
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Reproduzo abaixo, ipsis verbis, o texto publicado na referida postagem:
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Um tia ninfomaníaca e suas sobrinhas estão de luto por causa da morte de um cachorro. Diretor de famosa rede de TV e seu amigo pilantra fingem que são primos e vão consolá-las.
Entre os pontos altos da película, a magistral interpretação do galã no take “isso, gostosa!” e o momento em que ele, no afã de arrastar a moça pro matinho, discorre sobre a moralidade – “Sabe o que é imoral? Imoral é a fome, são nossos irmãos do nordeste morrendo de fome. Imoral são tantos cada vez mais pobres e uns poucos cada vez mais ricos. Fazer amor não é imoral. É o pouco a que temos direito”.Produção de 1984, de Roberto Mauro, o mesmo diretor de “Eu compro essa Virgem” (1979) e “As Cangaceiras Eróticas” (1974).
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Como vê, trata-se da sinopse da obra cinematográfica “Solar das Taras Proibidas”, da lavra de conhecido diretor, prolífero em décadas passadas. Sua asserção de que aludimos a um “jornalista”, portanto, carece de lastro veraz. Tampouco procede que tenha sido utilizada a expressão “filme pornô” nesta ou em qualquer outra postagem do Cloaca, mesmo porque consideramos tal linguagem absolutamente inadequada.
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Da mesma forma, causa-nos estupefação seu argumento de que “Não restam dúvidas de que o notificante nunca exerceu atividade profissional diversa da carreira jornalística, razão pela qual o conteúdo da postagem é inverídico”. Não conheço o “notificante” que a senhora diz representar, portanto nada sei de sua vida atual ou pregressa. No caso de nossa postagem, objeto de sua extravagante interpelação, prestamos uma singela homenagem ao cinema brasileiro de tempos remotos, e o trecho exibido diretamente do website Youtube destaca a atuação de alguns jovens e talentosos atores, todos devidamente apresentados nos créditos iniciais da película “Solar das Taras Proibidas”. Não há, pois, qualquer conteúdo “inverídico” postado pelo Cloaca.
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Pelo exposto, e sem prejuízo de quaisquer outras providências que possam ser levadas a efeito, NOTIFICO-A, prezada Jxxxxxx, para que tome as seguintes providências:
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a) que se retrate, IMEDIATAMENTE, por este mesmo meio, por ter me imputado conduta que, efetivamente, não tive;
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b) que se abstenha de repetir o erro de tentar intimidar quem quer que seja, inda mais utilizando meio eletrônico, com o expediente da “notificação extrajudicial”.
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Atenciosamente,
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Cloaca News
http://cloacanews.blogspot.com/

Em tempo: não sei não, mas esse Ali Kamel deu para aparecer demais. Os filhos do Roberto Marinho (eles não tem nome próprio) não gostam que empregado que se faça de mais importante do que eles. Foi assim que o Walter Clark e o Alberico de Souza Cruz começaram a cair… (Paulo Henrique Amorim)

Fonte: Conversa Afiada

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Há quinze anos Roger Abdelmassih estupra mulheres com a ajuda dos médicos

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Não fosse a omissão dos colegas, ele poderia estar na cadeia há muito tempo

Não fosse a omissão dos colegas, ele poderia estar na cadeia há muito tempo


Há quinze anos Roger Abdelmassih estupra mulheres com a ajuda dos médicos


por Paulo Henrique Amorim

. Para uma reportagem no Domingo Espetacular, da Record, entrevistei mulheres estupradas por Roger Abdelmassih.

. Todas elas bateram na porta do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, o Cremesp, para denunciá-lo.

. Eram recebidas não como vítimas, mas como quase-criminosas.

. Uma delas mereceu a seguinte pergunta de uma médica a serviço do Cremesp: ele (o Dr Roger, o estuprador) ligou para a senhora no fixo ou no celular ?

. Na comunidade dos médicos de São Paulo, muitos sabiam que o Dr Roger estuprava pacientes.

. Uma entrevistada me contou que foi a outro médico e ao narrar os crimes do Dr Roger, foi recebida com uma reação de naturalidade e frieza.

. Ora, todo mundo sabe disso, disse o novo médico.

. Quer dizer, os médicos de São Paulo são responsáveis, pela omissão, por crimes que o Dr Roger cometeu, pelo menos, ao longo dos últimos quinze anos.

. Há quinze anos, uma das vítimas, Vanuzia Leite Lopes, contou tudo ao Cremesp.

. Outra paciente, que a Folha (*) – clique aqui para ir à pagina C1 – chama de Cristina, foi ao Cremesp em 1998.

. E o Dr Roger, impune, a estuprar mulheres dopadas e a atacar mulheres não dopadas.

. Agora, com a casa arrombada, quando a opinião pública já sabia dos estupros, o Cremesp se sentiu na obrigação de suspender o direito de o Dr Roger continuar a estuprar.

. O Ministério Público arrolou como testemunha – o crime está prescrito – uma jovem que, em Campinas, no início da carreira dele, em 1970, chegou com dores nos rins.

. Ele era residente de Urologia.

. Ele enfiou um tubo na vagina da jovem. Por que ?

. Percebeu que ela era virgem.

. E perguntou quanto ela queria para que ele pudesse deflorá-la.

. O Ministério Público bem que poderia ter uma conversinha com o Cremesp.

. O Cremesp está ali para ajudar os pacientes, ou acobertar crimes ? – pergunta elementar.

. O Dr Roger fazia o que fazia porque contava com a impunidade.

. Ele era o médico das estrelas, o médico “Caras”.

. Segundo vítimas que entrevistei, não tinha nada de louco ou tarado.

. Era um homem normal, dos nossos tempos (*): que gosta de dinheiro e mulheres.

. Às mulheres constrangidas, ele dizia: você deve se sentir honrada por eu me interessar por você.

. E se dizia enviado por Deus.

. Assim que recebeu ordem de prisão, o Dr Roger correu para o banheiro: teve um desarranjo intestinal.

. Foi preso no banheiro de seu gabinete, com as calças na mão.

. A primeira reação que teve, ao entrar no carro da Polícia, foi dizer: “perdi a minha clínica”.

. Era um empresário.

. Bem sucedido.

. Que contava com a omissão da sociedade.

. Do Cremesp, por exemplo.

Paulo Henrique Amorim

(*)Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele acha da investigação, da “ditabranda”, do câncer do Fidel, da ficha falsa da Dilma, de Aécio vice de Serra, e que nos anos militares emprestava os carros de reportagem aos torturadores.

(**) Clique aqui para ler a entrevista que fiz com Dany-Robert Dufour, sobre seu livro “Divino Mercado”

Fonte: Conversa Afiada

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Da série "ai que sono": O cartão vermelho do Suplicy

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Suplicy e o cartão vermelho

O PT é um partido sem mídia.
O PSDB é uma mídia com partido.


por Mauro Carrara

Em À Sombra das Chuteiras Imortais, Nelson Rodrigues, bem descreve o juiz ladrão, figura folclórica e indefectível no universo do ludopédio.

O cronista e dramaturgo, entretanto, lamenta o desaparecimento do vigarista declarado, do canalha que não tem vergonha de sua falta de escrúpulos.

Ele conta dos gatunos autênticos da segunda década do Século XX. Cita um, em específico, que cedia gentilmente a todas as tentativas de suborno.

“O canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável”, escreve.

Em certo match, lá por 1.917, o sujeito resolve levar propina dos dois lados e rouba de maneira desenfreada e imparcial os dois quadros.

Ao findar o jogo, todos os 22 correm para cima do democrático ladrão, que escapa pulando muros e galinheiros.

Rodrigues lamenta que esse transparente safado tenha sido substituído por outros contidos e frustrados.

De fato, falta-nos a impagável cara-de-pau do juiz ladrão declarado, como aquele vivido por Otávio Augusto, no filme Boleiros, do inspirado palestrino Ugo Giorgetti.

A roubalheira no futebol de hoje é muito mais técnica e sutil. Há, pois, verdadeira ciência de prestidigitação para conceder à vigarice um ar de inevitável e inocente casualidade.

O futebol, assim como a política, define vencedores e perdedores na escala dos detalhes. Um esbarrão pode virar pênalti, de acordo com a conveniência do árbitro, e o empate heróico logo se converte em derrota.

O ladrão profissional de hoje apita tudo direitinho, mas em algum momento premia o comprador.

Age com rigor ao expulsar o jogador do Arranca-Toco, o que não escandaliza nenhum comentarista. Pois, de fato, o zagueirão mandou ver na canela do adversário.

Dizem todos: “o juiz está corretíssimo em coibir a violência”.

O mesmo severo árbitro, entretanto, não bota na rua os bárbaros do Bicudo FC, que fazem igual ou pior. Rigor ali, condescendência aqui.

E lá na cabine de rádio ninguém se assombra dos não-expulsos. O “deixa-passar” é logo esquecido e raramente se transforma em polêmica nos periódicos do dia seguinte.

Logicamente, o moderno juiz ladrão tem outras artimanhas. Pode assinalar os impedimentos do jogo, mas deixar passar um, justamente aquele que define a classificação. Elegância e cara feia completam a encenação.

O Partido Mudo e a punição por símbolos


Na Copa do Mundo da Inglaterra, houve enorme confusão na partida entre os donos da casa e os argentinos, pelas quartas de final.

Ao término da partida, as pessoas não sabiam ao certo o que o árbitro alemão Rudolf Kreitlein tinha marcado num lance em que admoestou vários jogadores.

Havia a barreira da língua. Atletas e árbitros não conseguiam se comunicar.

Foi assim que o inglês Ken Aston, do Comitê de Árbitros da FIFA, resolveu instituir os cartões amarelo e vermelho para clarificar as decisões da autoridade em campo.

O sistema passou a vigorar já na Copa do Mundo seguinte, em 1.970, no México.

Não por acaso, pois, os cartões começaram a ser utilizados para remediar os problemas causados por quem não sabia se comunicar. Foi um alívio para mudos, gagos e toda sorte de atrapalhados com as palavras.

Dias atrás, vimos o Senador Suplicy subir à tribuna e posar de árbitro informal da crise parlamentar.

Depois do palavrório enrolado, o arauto da moralidade resolveu sacar um enorme cartão rubro para o presidente da casa, José Sarney.

O episódio é revelador do comportamento recente do Partido Mudo. Distante do bom discurso e da argumentação, perdido nas malhas grossas do twitter de Mercadante, a agremiação reduziu sua comunicação a um pedaço de papel colorido.

Estranhamente, o parlamentar paulista usou seu cartão para copiar os árbitros de conveniência do moderno futebol.

Exigiu a saída de José Sarney (sim, autor de faltas graves e antigas), mas fechou hipocritamente os olhos às botinadas, puxões de camisa e cusparadas que marcam a conduta de Virgílios (o Almir Pernambuquinho do Senado), Tassos, Álvaros, Demóstenes, Agripinos e outros boleiros de caráter enlameado.

No dia seguinte, o senador do Partido Mudo deu sequência a sua arbitragem parcial, afirmando que seu cartão devia servir de alerta para o presidente Lula.

Não é à toa que Suplicy se transformou em motivo de chacota na Casa Alta, de um lado e de outro. É tratado como maluco pela base governista e como bobo pela oposição. Todos os dias, por exemplo, é humilhado pelo boca-mole Heráclito Fortes.

Ninguém pode acusar Suplicy de receber “por fora”. Afinal, sua biografia não o aproxima daquela de Edílson Pereira de Carvalho, o líder da mais recente máfia do apito.

Não seria leviandade, entretanto, ver no grisalho parlamentar uma mistura de sede de vingança e vaidade.

Suplicy é um calado ressentido. Por não ter conseguido candidatar-se à presidência, por não ter virado ministro e por outros fracassos políticos.

Paralelamente, ao tentar assumir a arbitragem da crise, o senador quis jogar para a torcida, amealhar aplausos, elogio cada vez mais raro na fase atual de sua carreira política.

Cabe à agremiação de Lula avaliar a necessidade de manter em seus quadros um levantador seletivo de papéis coloridos.

Caso não se assuma como protagonista neste momento histórico do embate político, o Partido Mudo, que já recebeu o amarelinho da sociedade, corre o risco de tomar um cartão vermelho do tamanho do Brasil.

Fonte: Vi o Mundo

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Os midiotas

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por Luiz Carlos Azenha

Ler os jornais brasileiros, hoje em dia, equivale a se expor a uma exibição despudorada de preconceitos vindos daqueles que, por ilustração, deveriam ser os primeiros a reconhecê-los. Mas o ódio de classe cega. Cega a ponto de fazer com que gente "bem" se exponha de maneira abertamente pornográfica. Há, subjacente ao preconceito, um motivo comercial a incentivar esse strip-tease ideológico: em um ambiente cada vez mais competitivo, marca quem chamar mais a atenção.

Não importa que o striper nos ofereça um corpo surrado, barrigudo, salpicado de celulites e estrias. Importa é que prestemos atenção nele, ainda que fortuitamente. Semana que vem, ele promete, tem mais. Dispensa-se o convencimento embasado em conhecimento e na razão. Importa é causar debate, atrair tráfego e leitores, "brilhar". Na sociedade midiatizada, inauguramos a era dos "midiotas". Assim como temos os famosos que são famosos por serem famosos, temos os comentaristas que são lidos pela capacidade de chocar. São as "moscas" da Folha de S. Paulo, jornal marqueteiro que quer nos vender o supra sumo do elitismo e do preconceito como algo revolucionário, "in your face", ousado. Que o espírito de Raul Seixas tenha piedade deles.

Um caso em particular me chamou a atenção recentemente. A coluna "O Petróleo é Dela", de um dos editores do jornal. Ele inicia sua argumentação desqualificando a maior parte do eleitorado brasileiro, que descreve como "semi-analfabeta". Depois de opinar sobre a tática eleitoral de uma das candidatas ao Planalto, Dilma Rousseff, diz que em nome da campanha dela os projetos de exploração do pré-sal "serão enviados em regime de urgência para o cada vez mais combalido Congresso Nacional, por onde, do jeito certo, tudo passa". Ou seja, além de desqualificar o eleitorado, desqualifica todos os que foram eleitos.

Caminha, em seguida, para a grande conclusão:

Ao enterrar o pré-sal na acirrada eleição de 2010 o governo encerra a possibilidade de um debate isento, técnico e racional sobre a futura exploração de uma grande reserva de riqueza transformadora do país.

Ora, se somos uma Nação de semi-analfabetos, que elegeu um Congresso corrupto, como é possível que tenhamos um "debate isento, técnico e racional" com esse Congresso? Qual é a alternativa, fechar o Congresso? Ou esperar que se eleja um Congresso com o qual o comentarista concorda antes de debater o pré-sal?

O que é exatamente um debate isento? Isento de povo? Isento de eleitores semi-analfabetos?

O que é um debate técnico? É um debate elitista, que afaste do pré-sal os interesses daquela maioria de semi-analfabetos? Quais serão os critérios para escolher quem pode e quem não pode opinar?

O que é um debate "racional", se os próprios argumentos de quem pede por ele não param em pé 30 segundos?

Não faria mais sentido um debate acalorado, inflamado e que envolva 190 milhões de brasileiros, seguido por uma coisa conhecida como eleição?

Ah, argumentará o editor da Folha, mas aí o que vamos fazer com aqueles milhões de semi-analfabetos?

Quando eu digo que o sonho da elite brasileira é a volta do voto censitário, não estou tentando ser pornográfico.

Não gostei do strip-tease do Sérgio Malbergier. O corpinho é horrível e a conversa é chata. O próximo, por favor.

*****

27/08/2009
O petróleo é dela

A exploração comercial em larga escala do petróleo do pré-sal só deve começar em 2015. Mas o governo tem pressa em formatá-la, pensando quase exclusivamente na candidatura Dilma. Escrevo quase porque tem uma parte que é do ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, da cota do PMDB de José Sarney.

A tática é tão óbvia quanto o fato de as eleições brasileiras serem decididas por uma maioria semi-analfabeta: o pré-sal acabará com a miséria e as carências sociais do Brasil, mas para isso é preciso eleger Dilma, mãe dos projetos, gestora do milagre parido por Lula.

A festa de lançamento dos projetos na segunda-feira promete ser o primeiro grande evento da campanha Dilma 2010. Arma-se palanque para 3.000 convidados em Brasília, com sindicalistas, esportistas, políticos, empresários, artistas e cantoras de palanque.

Nem se tenta disfarçar a essência eleitoreira do dilmício. Como já não se tenta esconder quase nada nesse novo-velho Brasil: Lula abraça Collor que abraça Renan que abraça Sarney que atrasa o país e toma cartão vermelho atrasado de Suplicy.

No raciocínio governista, o abraço a Sarney é mais do que recompensado pelo tempo de TV e pela, digamos, capilaridade do PMDB. Vão os votos de eleitores mais qualificados, vem o acesso às massas semi-analfabetas, grande esperança eleitoral do lulismo dilmista.

O maior mal da pressa do pré-sal é que ela segue essa lógica exclusivamente eleitoral. Os projetos serão enviados em regime de urgência para o cada vez mais combalido Congresso Nacional, por onde, do jeito certo, tudo passa.

O enquadramento do enorme potencial petrolífero brasileiro ao pequeno projeto eleitoreiro da vez é um sinal, grande demais, de como o governo atual transforma o que é público em projeto privado de poder e de como nosso sistema político é incapaz de gerar os debates e, mais do que isso, os consensos necessários para decisões importantes.

Ao enterrar o pré-sal na acirrada eleição de 2010 o governo encerra a possibilidade de um debate isento, técnico e racional sobre a futura exploração de uma grande reserva de riqueza transformadora do país.

A história prova que a grande maioria dos países que descobriram enormes reservas de petróleo e gás desperdiçou a chance de transformá-las em desenvolvimento sólido e sustentável.

A existência do pré-sal não garante nada. Seu modelo de exploração é que é fundamental. Ele merece um debate melhor e mais inclusivo.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.

Fonte: Vi o Mundo

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Oposição fica com Dra Lina e Lula com aposentados. Bye-bye Serra 2010

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Vovô na fila se prepara para votar no candidato que o Lula escolher (a Dilma)

Vovô na fila se prepara para votar no candidato que o Lula escolher (a Dilma)


Saiu na capa do Agora (único jornal que vale a pena ler em São Paulo porque trata de assuntos relevantes)

“Mudança na aposentadoria.

Teto do INSS em 2010 será de R$ 3418.

Novo cálculo vai aumentar o beneficio.

Em 2010 (ano que Zé Pedágio seria derrotado, se candidato fosse, clique aqui para ler “Por causa de Alckmin, Serra não será candidato” – PHA ), o aumento deverá ser de 6,2%.

Agora, o aumento acima do mínimo (que atinge 10 milhões de famílias de aposentados – PHA) será determinado pela soma da inflação do ano anterior com metade do crescimento do PIB registrado dois anos antes.

Trabalhador deve adiar a aposentadoria … (porque) a principal alteração é a adoção do fator 85/95, que garantirá aposentadoria integral ao segurado cuja soma de idade com tempo de contribuição atingir 85 (mulheres) e 95 (homens).

Na prática, o índice dará aumento de 29% a esses trabalhadores.



Essa é uma reforma importante do sistema de seguridade social do Brasil.

Os aposentados que ganham um salário mínimo (16 milhões de famílias) já tem o reajuste da inflação.

Agora, também os que ganham acima do salário mínimo terão reajuste acima da inflação, ou seja, aumento real.

Enquanto o PiG (*) ignora a matéria, vamos ver se a oposição derruba isso no Congresso.

Vamos ver se o Arthur Virgílio Cardoso, que já tirou o leite das crianças (com o fim da CPMF) tira agora o mingau dos velhinhos.O Sérgio Guerra, o Tasso “tenho jatinho porque posso” Jereissati, o Heráclito Fortes, líder da Bancada Dantas no Senado, o Eduardo Azeredo, o do mensalão tucano, Agripino Maia, Espírito Santo de orelha da Dra Lina – essa turma feroz, que vai se candidatar à reeleição ano que vem, vamos ver se eles votam contra os aposentados.

As crianças que tomaram menos remédio por causa do fim da CPMF não votam.

Os velhinhos votam.

Paulo Henrique Amorim

Leia também:
Eleitor não quer saber da Dra Lina. Renovação no Senado será de 70%

Fonte: Conversa Afiada

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Depois da gripe suína, a hecatombe do Leão

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por Luiz Carlos Azenha, no Vi o Mundo

A nota de abertura do programa Entre Aspas, da Globonews, resume tudo o que há de errado com o jornalismo. É desconexa, antecipa conclusões de um debate que ainda vai acontecer, algumas delas não amparadas por fatos. Ah, os fatos. Como eles atrapalham o Novo Jornalismo brasileiro:

"Quando foi que o inferno astral na Receita começou? Quando detectou e cobrou a mudança contábil que proporcionou a economia de bilhões de reais em impostos da Petrobras? Ou quando veio a público, narrado pela ex-secretária Lina Vieira, o encontro entre ela e Dilma Rousseff? Seja o que for, Petrobras ou Sarney, melhor não trombar com um obstáculo desse tamanho no caminho. Seja o que for, Lina não agilizou o processo contra empresas do filho de Sarney, nem absolveu publicamente a Petrobras pela manobra contábil. Pagou caro. Depôs no Senado sob intenso ataque dos governistas, viu sua ex-chefe de gabinete ser demitida, junto com outro assessor. O troco da corporação veio em forma de uma nota dura. Nela, o anúncio da saída de outros doze detentores de altos cargos na Receita. Politizar a máquina de arrecadação federal, detentora do sigilo das riquezas dos brasileiros e do poder de fiscalização sobre eles, é manobra de alto risco. Não importa se quem aparelha a máquina é o governo de plantão ou representantes da própria corporação. Como disse a própria Lina Vieira, em nota divulgada agora à noite, abre aspas, os governos passam, o estado fica e, com ele, os servidores públicos".

1. A pergunta poderia ser: Há um inferno astral na Receita? Se sim, começou com a posse de Lina Vieira, anteriormente acusada de indicar pessoas despreparadas para exercer cargos de confiança? Quem indicou Lina?

2. O texto dá como líquido e certo um encontro que simplesmente é negado pela ministra da Casa Civil. Como desconhecer isso?

3. O texto dá como certo o pedido feito a Lina para agilizar processos relativos ao filho de Sarney, quando nem mesmo o encontro é fato comprovado.

4. A "manobra contábil" da Petrobras, geradora do "escândalo" patrocinado pelo jornal O Globo, que resultou na abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, é dada como legítima pela empresa, com apoio de tributaristas. Por que omitir isso?

5. Lina, a vítima: depôs sob ataques e viu, sem poder fazer nada, a demissão de assessores. Mas se o próprio texto abre a possibilidade de que o "aparelhamento da máquina", se de fato existe, parta de "representantes da própria corporação", por que absolve Lina antecipadamente? Ela não era a chefe da Receita Federal? Ah, entendi, é porque não casa com o papel de vítima.

6. O texto parte do pressuposto de que a máquina da Receita foi, de fato, politizada, e sugere uma hecatombe para os contribuintes indefesos, pior que a da gripe suína, ao mencionar "o sigilo das riquezas dos brasileiros", que correria risco.

Decidam com urgência, em nome da verrosimilhança da trama: Lina é a heroína que resiste a tudo e a todos em nome do interesse público ou é aquela que tentou aparelhar a Receita com sindicalistas?

Por favor, da próxima vez chamem um diretor de novela para dirigir a trama. Vai fazer mais sentido.

Faltou combinar com os entrevistados

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Eleitor não quer saber da Dra Lina. Renovação no Senado será de 70%

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Essa é a turma que o Arthur Virgílio deveria levar para o palanque

Essa é a turma que o Arthur Virgílio deveria levar para o palanque


Saiu no Valor, pág. A8

“Crise ameaça o Senado com renovação recorde.”

“Estimativas indicam mais de 70% de novatos entre os futuros senadores”.

“Ao contrário de outras crises recentes na Casa, desta vez o Senado não ofereceu nenhum cadáver político à opinião pública. “

“O temor de que a fatura da sucessão de escândalo seja cobrada nas urnas encontra respaldo nos altos índices de renovação da Casa nas ultimas duas eleições. “

As eleições de 2010 colocarão em disputa dois terços das 81 cadeiras do Senado.

‘… a renovação será recorde, maior do que os 70% das últimas eleições’, afirma Antonio Queiroz, assessor parlamentar do Diap, Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.”

Na pág. A9, o Valor mostra: “Eleitor de Paim (Paulo, do PT, RS) ignora crise na Casa”. Em campanha à reeleição, senador de bandeiras como a Previdência – clique aqui para ler “Oposição fica com a dra Lina e o Lula com os aposentados” – Paim só é cobrado por emendas e projetos”.



Ou seja, a Oposição comprou o bonde do PiG (*).

O PiG(*) precisa da Dra Lina para adular o leitores conservadores.

O PiG(*) prega aos convertidos na esperança de que eles contenham a queda vertiginosa da circulação e da publicidade.

E a Oposição foi atrás.

Arthur Virgílio Cardoso, Tasso “tenho jatinho porque posso” Jereissati, Cristóvam Buarque, o Traíra-I, Demóstenes Torres, o do grampo sem áudio, Eduardo Azeredo, o líder do mensalão tucano, Efraim Moraes, Sergio Guerra, Heráclito Fortes, o líder da Bancada Dantas no Senado, Mão Santa, Agripino Maia …

O Conversa Afiada tem uma seção dedicada ao Zé Pedágio, que se chama “Só tô querendo ajudar”.

Aos senadores acima citados, o Conversa Afiada recomenda levar para o palanque:

A Dra Lina.

O Farol de Alexandria.

A Miriam Leitão.

Só tô querendo ajudar…

Paulo Henrique Amorim

Leia também:
Oposição fica com Dra Lina e Lula com aposentados. Bye-bye Serra 2010

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

Fonte: Conversa Afiada

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Suplicy é um Suplício - Não dê uma tartaruga para ele tomar conta

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Se o Suplicy for ao zoológico ...

Se o Suplicy for ao zoológico ...


Extraído da coluna do excelente Ciro Botelho do site www.eramosseis.com.br

Suplício é ouvir um discurso do Suplicy!

O Suplicy mostrou um cartão vermelho pro Sarney. Agooooora? Depois que todas as denúncias foram arquivadas? Efeito Retardado! É o “Fora Sarney” com trezentos dias de atraso! O senador Suplicy é tão devagar que se der uma tartaruga pra ele tomar conta, a tartaruga escapa.

E vocês viram que cena ridícula? Totalmente fora de contexto! Só faltou o Suplicy pedir o impeachment do Collor. Sinceramente, eu acho que o Suplicy não existe, ele é um PERSONAGEM DE FICÇÃO! Ou como disse o meu vizinho: “O Suplicy tá confundindo caçarola de assar leitão com Carolina de Sá Leitão”. Aliás, o Suplicy é tão goiaba que quando vai ao zoológico, os macacos é que jogam amendoim pra ele.

Leia também:

Suplicy não ensandeceu: ele mudou de lado

Fonte: Conversa Afiada

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Rio de Janeiro - Porto da discórdia

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A obra de 6 bilhões de dólares de Eike Batista esbarra em problemas como falta de licitação e danos ambientais. O Ministério Público quer impedi-la.


Por Gilberto Nascimento


empresário Eike Batista passou por alguns percalços recentemente. Alvo da Operação Toque de Midas, da Polícia Federal, por causa de indícios de fraude em licitação para a concessão de uma ferrovia no Amapá, em julho do ano passado, viu as três empresas de seu grupo listadas na Bovespa – a MMX Mineração, a MPX Energia e a OGX Petróleo – perderem 10 bilhões de reais, em valor de mercado, num prazo de duas semanas.

Ainda assim, tornou-se o homem mais rico do Brasil nesse período, pulando do terceiro para o primeiro lugar. É o 61º no ranking mundial dos bilionários e acumula uma fortuna de 7,5 bilhões de dólares, segundo a lista da revista Forbes, divulgada em maio. Superou gente graúda no Brasil como os banqueiros Joseph Safra e Aloysio Faria; Jorge Paulo Lemann, um dos sócios da AmBev; e Antonio Ermirio de Moraes, o dono da Votorantim. Já em 2008, Eike fazia questão de dizer que, segundo suas contas, seria detentor de 17 bilhões de dólares.

O empresário tem mostrado apetite semelhante para se meter em negócios polêmicos. O mais recente é a criação da “Cidade X”, em São João da Barra, no litoral norte fluminense. O nome se explica pelo fato de o empresário ter o hábito de acrescentar essa letra ao nome das empresas que adquire. É um símbolo da multiplicação, afirma. Ali, numa área de 7,5 mil hectares, Eike ergue hoje o superporto do Açu, para receber navios de grande porte. Terá capacidade para movimentar 25 milhões de toneladas em mercadorias ao ano. O Açu deve se tornar o maior porto da América Latina, desbancando o de Santos.

É um megaempreendimento, misto de terminal marítimo e complexo industrial, a um custo de 6 bilhões de reais. A LLX acredita que o porto poderá atrair 36 bilhões de dólares de investimentos. Exigirá 1,6 bilhão de reais na construção do complexo portuário e outros 4,1 bilhões de reais em uma usina termoelétrica, com capacidade para gerar 2.100 megawatts. As obras no Açu, um bairro rural de São João da Barra, começaram em dezembro de 2007 e a previsão é de que o porto comece a funcionar em 2012.

A área deve abrigar ainda uma siderúrgica, um estaleiro e um polo metal-mecânico. Pretende receber empresas como Votorantim, Bunge, Iveco, Techint (argentina) e Posco (sul-coreana). Eike pensa, por exemplo, numa parceria com o indiano Ratan Tata, o inventor do Nano, para fabricar carros no complexo. Com apoio do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), viajou à China, em julho, para conversar com as montadoras Build Your Dreams (BYD), Jac e Chery, a fim de instalar unidades em sua nova “cidade”.

Todos esses planos audaciosos e polêmicos correm o risco de naufragar. O Ministério Público Federal (MPF) em Campos (RJ) entrou, na segunda-feira 17, com uma ação civil pública na Justiça Federal solicitando uma liminar para que sejam paralisadas as obras do Porto do Açu. O pedido foi encaminhado ao juiz Fabrício Antonio, da 1ª Vara Federal de Campos. Segundo o MPF, a construção do empreendimento é irregular por ter sido feita sem licitação. A medida seria obrigatória se o projeto tivesse sido corretamente enquadrado como porto público, o que não ocorreu.

Os procuradores Eduardo Santos e Carmem Sant’anna pedem na ação que seja declarada a inconstitucionalidade da Lei dos Portos, pois ela permite a privatização dos próprios sem a fiscalização pública. O que é vedado pela Constituição. Apenas a União pode explorar portos marítimos, diretamente ou por delegação, entendem os procuradores. Desde 1993, tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra essa lei, movida, inclusive, pela Associação Nacional dos Estivadores.

“Em um dos seus artigos, a lei acaba permitindo, com algumas artimanhas, que um particular explore diretamente um porto sem a concessão da União, por meio do conceito do chamado porto organizado”, reclama o procurador Santos. “E o que seria o porto desorganizado? Há um ardil semântico, como se houvesse outro tipo de porto”, comenta o representante do MPF. Em outro artigo, a lei fala de “instalação portuária de uso privativo”, o que burla a Constituição e abre brechas para a existência de terminal privado. “É uma construção verbal para camuflar o fato de que se trata de um porto como o da cidade de Santos, por exemplo”, observa o procurador.

No mínimo, no porto do Açu haverá dificuldade para as ações fiscalizatórias por parte do Estado. “Eles (os empresários) preveem para o porto o que chamam de alfandegamento. É um neologismo. Como se dará o controle efetivo na entrada e saída de mercadorias? E na questão do contrabando e do tráfico? Como ficará?”, questiona o procurador. “Essa missão de fiscalizar e coibir o tráfico cabe à Polícia Federal, à Receita Federal e ao MPF. Embora na condição de titular desse serviço, o Estado está fora desse empreendimento. Navios imensos de várias partes do mundo ficarão ancorados na costa, sem que o Estado tenha qualquer ação pública sobre a atuação deles.”

O MP também investiga possíveis irregularidades na cessão da área para a construção. O governo do Rio e a prefeitura de São João da Barra desapropriaram áreas que serão ocupadas pelo complexo portuário. Elas pertencem hoje à LLX. Em 2007, o governo do Rio havia declarado de utilidade pública a região próxima ao empreendimento. “Está obscura essa desapropriação”, afirma Santos. “Não faz sentido a desapropriação de terras por parte do Estado para fins privados. Só teria justificativa se fosse para um porto público”, analisa. A LLX informou, em nota, ter comprado a Fazenda Saco Dantas (onde está localizada a maior parte do projeto) de um único proprietário, em 2005. Declarou ainda que sobre desapropriações quem deveria falar é o governo do Rio.

A licença ambiental para a construção do empreendimento também foi dada sem um estudo prévio dos impactos na região. Por essa razão, o MPF tornou réus na ação a Agência Nacional dos Transportes Aquáticos (Antaq), que regula o setor, e o Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (Inea).

O Ministério Público tem cruzado o caminho de Eike Batista seguidas vezes. Em Peruíbe, no litoral sul de São Paulo, a LLX começou a construir o complexo portuário Porto Brasil, um terminal marítimo privado com ilha artificial e 11 berços de atracação numa área de 19,5 milhões de metros quadrados.

Índios que vivem na área estavam ameaçados de despejo e teriam sido aliciados por representantes da LLX, segundo a Procuradoria da República em Santos. Os procuradores Luiz Marrocos de Araújo e Luiz Palácio Filho denunciaram “violações, ameaças e investidas ilícitas”. A LLX teria persuadido os índios a assinar um documento em que desistiriam da posse das terras. Agora, Eike diz ter desistido do projeto Porto Brasil para priorizar o Açu.

No Amapá, no ano passado, o MPF apontou indícios de fraude na licitação para a concessão à MMX de uma estrada de ferro entre os municípios de Serra do Navio e Santana. No início de agosto, a procuradora federal Zani Cajueiro de Souza constatou irregularidades na concessão de licenças ambientais a um mineroduto construído pelo grupo de Eike, para cortar os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. O mineroduto será o maior do mundo, com 525 quilômetros de extensão. Ele parte de uma mina chamada Sapo-Ferrugem, na cidade mineira de Alvorada, para chegar a São João da Barra, integrando o Complexo do Açu. Ferros serão transportados em pelotas (pedaços) pelos tubos com água sob forte pressão, até o seu destino.

Na região de Campos, os políticos e os empresários defendem o superporto do Açu. Todos estão de olho nos recursos que podem mudar a cara da região. Principalmente de São João da Barra, modesta cidade de 27 mil habitantes. A LLX garante que serão criados 50 mil postos de trabalho e 200 mil empregos diretos.

Além de um crescimento no PIB de São João da Barra de 498%, entre 2008 e 2025, a prefeitura local afirma que a arrecadação de ISS no município cresceu 624% no ano passado. Saltou de 66,4 mil reais para 7,4 milhões de reais. As empresas que prestam serviços ao porto foram, segundo a prefeitura, responsáveis por 71% da arrecadação total: 5,3 milhões de reais. Segundo o projeto de Eike, as metas anuais de exportação por meio do porto do Açu deverão chegar a 63,3 milhões de toneladas de minério de ferro, 10 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos, 15 milhões de toneladas de carvão, 5 milhões de toneladas de granéis sólidos e 7,5 milhões de toneladas de carga geral.

Se há comemoração, também proliferam os protestos. Cerca de 2 mil famílias vivem sob a ameaça de desapropriação na área. A maioria sobrevive do plantio de abóbora, coco, pimentão, abacaxi e aipim, além da criação de peixes em cativeiro. Com faixas e cartazes de protesto, os moradores realizaram uma manifestação no início de agosto na Estrada do Cajueiro, no caminho do porto. “Não temos interesse em sair daqui para lugar nenhum”, protestou o produtor rural José Carlos de Almeida.

“A natureza é para servir o homem, não o homem se servir da natureza”, dizia a professora Noêmia Magalhães, 63 anos, moradora do Sítio do Birica. “Fizeram uma proposta de desapropriação sem levar em conta o estudo socioeconômico dessa região. Muita gente tem mais de 60 anos e não tem para onde ir”, reclamava Noêmia. Os moradores foram conversar pessoalmente com o secretário de Desenvolvimento do Estado do Rio, Julio Bueno. Na quinta-feira 20, Bueno esteve na área. “Tenho certeza de que o secretário cumprirá sua promessa de não permitir que tantas famílias sejam desapropriadas”, confiava a professora.

Doutor em História Ambiental, o professor da Universidade Federal Fluminense Aristides Arthur Soffiati vê riscos para a região. Entre outros prejuízos ecológicos, a área do Complexo do Açu ficará sem a Lagoa Salgada, hoje em vias de ser considerada monumento geológico e paleontológico pela Unesco. Na região há vegetação de restinga e manguezais, espécies raras de bromélias e também de um lagarto raríssimo, chamado popularmente de lagartinho-verde. “Eles deverão sumir. Mas sei que vão dizer que é apenas um lagarto”, lamenta. Pescadores também seriam prejudicados em razão de a LLX retirar areia de uma parte do mar para colocar em outra, a fim de criar condições para ancorar os navios na costa. “Também estão tirando pedra de um morro, o Itaoca, uma unidade de conservação, para criar uma ilha artificial no mar”, denuncia o ambientalista.

Procurada, a LLX informou que ainda não foi citada sobre a ação proposta pelo MPF e não poderia se manifestar por não ter tido acesso ao processo. Sobre as autorizações e licenças concedidas pela Antaq e pelo Inea, a empresa garante que “estão em conformidade com a Constituição Federal e a legislação ordinária”. De acordo com a LLX, a Feema, órgão estadual responsável pelo licenciamento ambiental, “expediu a licença prévia, que atesta que o projeto é viável e determina requisitos básicos que devem ser cumpridos em todas as fases de instalação”.

Depois de afastar o então prefeito de Campos, Alexandre Mocaiber (ex-PSB), no ano passado, e mandar prender dezoito acusados de corrupção e desvio de verba pública, entre eles empresários e servidores públicos, o procurador Eduardo Santos se prepara para se tornar uma pedra no caminho das ambições do bilionário Eike Batista.

Fonte: Carta Capital

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Os delírios da direita norte-americana

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Desde a posse de Obama, a direita nos EUA tem saltado freneticamente de uma fantasia para outra, como alguém que se debate nos tormentos de um colapso mental. Começou com a conversa de que Obama seria cripto-muçulmano e – ao mesmo tempo – de que seria também membro de uma igreja nacionalista negra que odeia brancos. Um traço sempre presente na visão de mundo da direita norte-americana – negar a realidade e argumentar contra um fantasma demoníaco que a própria direita cria – inchou e cresceu. Hoje, a direita só vê o que só ela vê. O artigo é de Johann Hari.


Os delírios da direita norte-americana

Como conseguem ser tão impermeáveis à realidade?

Algo estranho aconteceu nos EUA nos nove meses decorridos desde que Barack Obama foi eleito, bem resumido pelo comediante Bill Maher: "Os Democratas deram um passo em direção à direita; os Republicanos deram vários em direção ao hospício".

A eleição de Obama – negro e com mensagem progressista – para suceder George W. Bush, detonou o âmago do modo como a direita norte-americana vê seu país. Aí, nesse âmago, eles vêem os EUA como nação de pele branca, de direita, modelada para sempre à moda de Sarah Palin.

Quando essa imagem foi repudiada por maioria maciça de norte-americanos, a direita simplesmente não computou. Não podia acontecer; logo, não aconteceu. Como o grito "Perfure, gatinha, perfure" [“Drill, baby, drill”, uma forma de incentivar Palin a buscar petróleo no Alasca] poderia ter sido derrotado por um mulato supostamente qualificado para a presidência? E, assim, um traço sempre presente na visão de mundo da direita norte-americana – negar a realidade e argumentar contra um fantasma demoníaco que a própria direita cria – inchou e cresceu. Hoje, a direita norte-americana só vê o que só ela vê.

Desde a posse de Obama, a direita nos EUA tem saltado freneticamente de uma fantasia para outra, como alguém que se debate nos tormentos de um colapso mental. Começou com a conversa de que Obama seria cripto-muçulmano e – ao mesmo tempo – de que seria também membro de uma igreja nacionalista negra que odeia brancos.

Quando essas idéias foram rejeitadas e Obama venceu as eleições, puseram-se a dizer que Obama teria nascido no Quênia e que teria sido contrabandeado (sic) para os EUA ainda bebê, e as autoridades do Havaí, cúmplices desse projeto, teriam falsificado a certidão de nascimento do bebê contrabandeado (sic). Nesses termos e pelas razões acima expostas, Obama ‘é’ inelegível, ‘não foi’ eleito e, pois, a presidência ‘tem de ser’ imediatamente entregue ao candidato Republicano, John McCain.

Não são fenômenos marginais: pesquisa da Research 200 descobriu que a maioria dos Republicanos e dos habitantes do Sul afirmam que Obama não nasceu nos EUA ou que não sabem com certeza onde nasceu. Vários senadores Republicanos têm repetido que Obama teria “perguntas a responder”. Não há comprovação, por mais incontestável – a certidão de nascimento, a foto de sua mãe grávida, no Havaí, a participação do nascimento no jornal do Havaí – que abale a convicção dos Republicanos.

Essa tendência alcançou o clímax no verão passado, com o Partido Republicano a clamar, em uníssono, que Obama deseja ver instalados "comitês da morte" para eutanásia dos velhos e portadores de deficiências. Sim, sim: Sarah Palin realmente declarou – sem piscar e sem corar –, que Barack Obama planeja assassinar o bebê dela.

É preciso admirar a audácia da direita. Vejam, pois, o que está realmente acontecendo.

Os EUA são o único grande país industrializado que não oferece assistência pública regular de saúde a toda a população. Não havendo assistência pública de saúde, os cidadãos têm de pagar por planos de seguro-saúde – e 50 milhões de pessoas, nos EUA, não têm meios para isso.

Resultado, 18 mil cidadãos norte-americanos morrem por ano, exclusivamente por não terem acesso ao atendimento médico de que necessitam. Equivale a seis 11 de setembro ao ano, todos os anos, ano após ano. E os Republicanos acusaram de “matadores” os Democratas que tentam deter esses milhares de mortes –, e já conseguiram pô-los na defensiva.

Os Republicanos defendem o sistema existente, dentre outros motivos porque recebem gigantescas somas de dinheiro das empresas médicas privadas que se beneficiam do sistema que gera muitas mortes e muitos lucros. Mas não podem defender diretamente o sistema mortal, porque 70% dos norte-americanos consideram “imoral” defender um sistema de assistência médica que não oferece cobertura a todos os cidadãos. Então, os Republicanos são obrigados a inventar mentiras que operem o prodígio de fazer soar como depravação qualquer plano para estender a cobertura médica.

Há alguns meses, como membro recém incorporada à diretoria de um conglomerado de empresas de saúde privada, Betsy McCaughey noticiou a inclusão de uma cláusula no projeto de lei sobre saúde pública, que pagaria as despesas dos mais velhos para fazerem uma visita ao médico e uma visita ao tabelião para fazer uma declaração de vontade. Poderiam assim declarar quando (se, é claro) desejam que o tratamento seja suspenso. Seria ato totalmente voluntário.

Muita gente deseja ter esse direito: eu mesmo não me interessaria por ser mantido vivo por alguns meses extra, em agonia e sem poder falar. Mas McCaughey lançou o boato de que aí estaria uma forma de eutanásia, pelo qual os velhos seriam forçados a concordar com a própria morte. Depois, a ‘cláusula’ passou a incluir também os incapazes, como o filho mais novo de Palin, o qual , nas palavras dela, teria de “justificar” a própria existência. Tudo isso sempre foi deslavada mentira – mas a direita já encontrara o ponto de apoio de que precisava; Palin declara que propostas (inexistentes) são “expressão do mal absoluto” – e propostas (existentes) são varridas do mundo.

A estratégia tem sido surpreendentemente bem-sucedida. Agora, todas as conversas sobre assistência pública de saúde têm de começar por os Democratas explicarem detalhadamente que não, não são favoráveis ao assassinato de velhinhos – enquanto os Republicanos insistem em defender um status quo que mata 18 mil norte-americanos por ano.

A hipocrisia é de assustar: Sarah Palin, quando governadora do Alasca, encorajava os cidadãos a assinar aqueles documentos-testamentos, sobre suspensão de tratamento médico. Praticamente todos os Republicanos que hoje fazem campanha contra os “comitês da morte” votaram no passado a favor dos documentos-testamentos sobre suspensão dos tratamentos. E a mentira já fazia germinar sua semente maléfica: lançara-se para o alto uma mão de confetes envenenados, para confundir e distrair; em seguida, começaram a sumir os votos de apoio ao plano para salvar vidas.

Essas manifestações frenéticas separaram-se da realidade, de tal modo que soam hoje como comédias de humor negro. A revista US Investors' Daily, manifestamente de direita, publicou que, se Stephen Hawking fosse britânico, o sistema britânico “socialista” de saúde tê-lo-ia deixado morrer sem assistência. Hawking respondeu, depois de tossezinha polida, que é britânico e que “não estaria aqui, se o Serviço Nacional de Saúde britânico não existisse”.

Essa tendência de simplesmente negar fatos inconvenientes e inventar um mundo de fantasia não é novidade – apenas se está tornando cada vez mais espantosa. Percorreu os anos Bush com o entusiasmo de um jorro de bourbon em água. Quando se tornou claro que Saddam Hussein não tinha armas de destruição em massa, os EUA simplesmente ‘declararam’ que as armas haviam sido mandadas para a Síria.

Quando as provas científicas de que o homem está fazendo subir a temperatura média do planeta tornaram-se tão abundantes que já não podiam ser desmentidas, ‘declarou-se’ – nas palavras de um senador Republicano – que o aquecimento global seria “a maior dessas ‘lendas urbanas’ que se inventam por aí.”

E que todos os climatologistas do planeta seriam “mentirosos’. A imprensa nos EUA então apresentou-se como ‘árbitro’ entre “os lados rivais”, como se os dois lados tivessem provas igualmente fidedignas, cada um a seu favor, e como se se tratasse de opiniões divergentes..

É uma vergonha, porque há algumas áreas nas quais uma filosofia conservadora – que fizesse lembrar os limites dos maiores projetos e potências humanas e recomendasse cautela – poderia ser corretivo útil. Mas não é o que se vê, vindo dos chamados “conservadores” que conhecemos: hoje, não fazem senão alimentar fantasias histéricas que sequer conseguem esconder completamente os mais brutais interesses financeiros e preconceitos.

Para muitas das principais figuras do Partido, trata-se de simples manipulação cínica. Um dos ex-conselheiros de Bush, David Kuo, disse que o presidente e Karl Rove por-se-iam a zombar dos evangélicos no instante em que saíssem da Casa Branca. Mas a base dos Republicanos acredita, mesmo, nas bobagens que o Partido tem ‘declarado’.

Estão sendo arrastados contra seus próprios interesses, por ação de falsos medos de demônios inventados. Semana passada, um dos Republicanos mandados a uma prefeitura para demolir um centro de atendimento médico começou uma briga e foi ferido – e depois reclamou que não tem seguro-saúde. Não é engraçado. Por pouco não chorei ao ouvir a história.

Como conseguem ser tão impermeáveis à realidade? Tudo começa, me parece, pela religião. São ensinados desde a mais tenra idade que é bom ter “fé” – e a fé, por definição implica crer em algo sem qualquer comprovação empírica. Ninguém depende de “fé” para acreditar que a Austrália existe; ou de que o fogo queima: há provas de tudo isso.

Mas é preciso ter “fé” para acreditar em mentiras ou em eventos absolutamente improváveis. De fato, os Republicanos são ensinados que a fé é aspiração muito digna, a mais alta das aspirações e a mais nobre das causas. Não surpreende que essa lição invada todos os espaços mentais e contamine as ideais políticas? O pensamento baseado na fé espalha-se e contamina o pensamento racional.

Até agora, Obama não respondeu a esse massacre pela des-razão. Tem implementado uma estratégia dupla: conciliar os interesses da elite econômica, e fazer piada sobre a marola de fanatismo que estão criando.

Assegurou (vergonhosamente) às empresas farmacêuticas que um sistema expandido de saúde não usará o poder do governo como fator de barganha para fazer baixar os preços dos remédios –, ao mesmo tempo em que dizia, ao grande público, que “não estou planejando matar vovó”. Em vez de enfrentar declaradamente tanto os interesses mais agressivos quanto as fantasias mais bizarras, Obama optou por bajular uns e diminuir a importância das outras.

Esse tipo de loucura não pode ser vencida por sedução nem conquistada por cooptação: tem de ser derrotada. Muitas vezes, em política, o inimigo é inevitável e tem de ser derrotado democraticamente. O sistema político não pode ser atropelado pela necessidade de satisfazer os deputados mais doidos ou mais doentiamente ambiciosos.

Não há como expandir o atendimento público de saúde sem enfurecer os laboratórios da ‘Big Pharma’ e os Republicanos mais pirados. Então, que seja! Como escreveu Arianna Huffington: “É tão sem sentido quanto seria, no auge do movimento pelos Direitos Civis, supor que seria preciso esperar que Martin Luther King e George Wallace concordassem. Esse não é o caminho para qualquer mudança.”

Por estranho que pareça, o Partido Republicano está realmente mergulhando num estranho culto bizarro, segundo o qual Barack Obama é matador de criancinhas e inventor ardiloso de sangrentos “comitês da morte” para matar os velhinhos norte-americanos. O novo slogan dessa gente poderia ser “bebês, encolham! Vovó, desapareça!”

O artigo original, em ingles, pode ser lido aqui.


Traduzido pelo site Vi o Mundo de Luiz Carlos Azenha.

Fonte: Vi o Mundo / Carta Maior

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Estado, governo, partidos, democracia

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O Estado brasileiro é mais forte porque mais democrático.


por Emir Sader

A campanha eleitoral da oposição - tendo sua comissão de frente nas empresas privadas da mídia - concentra seu foco de supostas denúncias em um tema central: o governo confundiria o Estado com o governo, apropriando-se do Estado em função dos partidos que o apóiam. O jornal da família Frias chegou a colocar como manchete na sua primeira página que “O governo se reserva tal porcentagem do pré-sal”, como se se tratasse de uma apropriação por parte de governo de receitas de um projeto de enorme transcendência, que mobiliza grande quantidade de recursos, para seu proveito, em lugar de fazê-lo para o Estado brasileiro.

Confusão faz essa imprensa despreparada teoóricamente e mesquinha politicamente, ao não se dar conta de como os destinos do Estado brasileiro estão em jogo na repartição dos recursos do pré-sal, não se tratando apenas de um problema de um governo de turno. Mas quando se trata de manter de pé campanha sistemática de acusações a um governo que, apesar disso ou talvez até mesmo também por isso, goza de mais de 80% de apoio da população, vale de tudo, pelo próprio desespero de não ver refletir nas pesquisas de opinião, o tempo, os espaços e o papel gasto na até aqui inglória luta contra o governo.

Para começar: o Estado brasileiro, no governo Lula, é muito mais democrático do que antes, em qualquer outro governo. Em primeiro lugar, porque atende as reivindicações de um numero incomparavelmente maior de pessoas do que qualquer outro governo. Atende seus direitos a emprego formal, a acesso a bens fundamentais, a escola, a habitação, a saneamento básico, a créditos, a energia elétrica, entre outros direitos elementares, mas que foram sempre negados à maioria da população.

Como conseqüência, o Estado integra a setores majoritários do povo, que nunca antes tinham se sentido participantes do Estado, do que é expressão o fato de mais de 80% da população apoiar o governo, não ocasionalmente, no momento de um plano econômico qualquer – como em momentos do Plano Cruzado do governo Sarney ou do Plano Real do governo FHC – mas estavelmente, no sétimo ano do governo, quando FHC tinha apenas 18% de apoio e Sarney algo similar.

O Estado dispõe de mais pessoal e mais qualificado, melhor remunerado, depois de ter passado pela sua demonização, pela desqualificação do servidor público e diminuição pelas políticas de Estado mínimo do governo da tucanalhada-demoníaca.

As empresas estatais são mais fortes e mais eficientes hoje. Tome-se o exemplo da Petrobrás no governo atual, em comparação com ao que tinha sido reduzida – “Petrobrax” – no governo FHC. Os levantamentos do IPEA revelam como o serviço publico é mais eficiente que as empresas privadas, como mostra da melhoria do Estado no governo atual.

A diminuição significativa do superávit fiscal, o freio nos processos de privatização – que previam a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, da Eletrobras, nos acordos assinados com o FMI na última das três crises com que o governo FHC vitimizou o Brasil fortaleceram o Estado.

Ao contrário dos governos tucanos, como o de Serra, que seguiu adiante as privatizações e, não fosse o Banco do Brasil ter comprado a Nossa Caixa, a teria vendido ao capital privado, como os tucanos tinham feito com o Banespa vendido a um banco estrangeiro, o Santander.

O Estado brasileiro é muito mais forte, porque muito mais respeitado no exterior, tanto na América Latina, como no conjunto do mundo, como se vê pelo prestígio de Lula, em comparação com a penosa imagem projetada por FHC e seus tristes ministros de Relações Exteriores.

O Estado é mais forte porque recuperou sua capacidade de indução do crescimento econômico, como se viu muito claramente na capacidade do governo e dos bancos públicos de promover a recuperação econômica do país na atual crise, muito maior do que qualquer uma que o governo FHC tenha vivido e, no entanto, o Brasil sai dela mais forte, ao contrário das anteriores, em que – como no caso da crise de 1999 – o país saiu enfraquecido – com as taxas de juros próximas de 50%, com o desemprego em níveis altíssimos, com um descontrole inflacionário, com um aumento exponencial da divida pública, com uma recessão de que somente o governo Lula pôde fazer com que saíssemos da crise.

O Estado é mais forte justamente porque o governo não confundiu governo e Estado. O governo é um instrumento de fortalecimento do Estado, mediante políticas de interesse nacional – como as políticas sociais, educativas, culturais, econômicas, a política externa independente, entre tantas outras – e não para atender interesses privados – como as escandalosas privatizações de FHC, que dilapidaram o patrimônio público ou como a privataria educacional que promoveu as faculdades e universidades privadas em detrimento da educação publica, universal e gratuita.

O Estado é mais forte, porque arrecada mais e melhor, canalizando recursos para o crescimento econômico e as políticas sociais. Porque diminuiu as taxas de juros, diminuindo a remuneração ao capital especulativo e a transferência de renda ao capital financeiro.

Assim, o Estado brasileiro é mais forte, não porque menos democrático, mas porque muito mais democrático, mais integrador, mais provedor de direitos, mais reconhecido no exterior e dentro do Brasil.

O Estado governa com os partidos que apóiam o governo Lula, um governo submetido pelos dois maiores plebiscitos públicos – as eleições de 2002 e 2006 -, em que, mesmo tendo a ditadura das empresas privadas da mídia contra, contou com o imenso apoio popular, que só cresceu desde então. Governa, portanto, com a delegação da grande maioria do povo. A oposição queria que ele governasse, como no governo FHC, com representantes diretos do grande capital, dos bancos, das corporações privadas, da mídia oligárquica, do capital estrangeiro.

Os governos estaduais dos outros partidos – como o de Olívio Dutra no Rio Grande do Sul – foram sistematicamente sabotados pelo governo FHC, ao contrário do governo Lula, que compartilha os recursos federais com governos da oposição, como os governos tucanos de São Paulo e de Minas Gerais, com governadores pré-candidatos à presidência pela oposição ao governo.

O Estado é mais forte no Brasil no governo Lula, a democracia é mais forte, porque o governo as promove como seus objetivos centrais. Passado o circo midiático, fica claro que foram os tucanalhas-demoníacos, que debilitaram o papel de controle tributário, favorecendo a sonegação fiscal como nunca no Brasil.

Um Estado forte é um Estado democrático, reconhecido e apoiado pela grande maioria da população. É um Estado que implementa políticas de caráter nacional, de interesse público, promovendo a prioridade das questões sociais e não a ditadura econômico-financeira de Malan-FHC-Serra.

O Brasil precisa ser mais democrático e não menos, como quer a oposição, adepta do Estado mínimo e dos cortes dos direitos sociais. O Brasil precisa reformar profundamente o Estado, não como quer a oposição, para deixar mais espaços para o mercado, mas para torná-lo efetivamente um Estado de todos e para todos.

Fonte: blog do Emir Sader - Carta Maior

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O papelão de Waldvogel e a desmontagem do factóide Lina

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A jornalista Monica Waldvogel reuniu no programa "Entre Aspas", da Globonews, o ex-secretário da Receita Federal (no governo FHC), Everardo Maciel, o presidente do SindiReceita, Paulo Antenor, e um advogado tributarista para discutir a "crise da Receita". Após uma introdução onde denunciou o "aparelhamento" da Receita e apresentou Lina Vieira como "vítima" deste processo, ouviu dos convidados que o aparelhamento foi feito, na verdade, por Lina Vieira. Para jornalista Luis Nassif, comentário inicial de Waldvogel foi "vergonhoso, antijornalístico e desonesto".

O programa foi ao ar nesta terça-feira (25). A apresentadora Monica Waldvogel iniciou o "Entre Aspas" com uma leitura apocalíptica sobre o "aparelhamento da Receita" pelo governo Lula, mostrando Lina Vieira como uma "vítima" de interesses poderosos (Sarney, Petrobras, etc.). Todas as teses da introdução de Waldvogel foram rejeitadas e rebatidas pelos participantes do programa. Ao final do mesmo, constrangida, a jornalista pergunta:

- Mas então houve uma manipulação da opinião pública?

Assista ao programa e tire suas conclusões:



O jornalista Luis Nassif resumiu assim, em seu blog, o papel constrangedor de Waldvogel e a desmontagem do factóide Lina Vieira:


O comentário inicial lido por Mônica Waldvogel é vergonhoso, antijornalístico, desonesto, porque desmentido ao longo de todo o programa pelos três entrevistados convidados. A Globonews perdeu o rumo.

Os três convidados são unânimes em afirmar que politização ocorreu na fase de Lina Vieira, não agora. Mônica atropela as conclusões da mesa redonda, desrespeita os telespectadores ao antecipar conclusões falsas. Principalmente sabendo-se que a abertura sempre é feita após o programa, com base nas conclusões levantadas.

Paulo Antenor, presidente do SindiReceita, sindicato dos Analistas-Tributários da Receita Federal, denuncia o aparelhamento da Receita… por Lina. Mostra que o pedido de demissão coletiva dos antigos superintendentes foi apenas uma antecipação para demissões que ocorreriam. O advogado tributarista nega crise na Receita. Disse que está mais preocupado com as taxas de juros dos bancos e temas mais relevantes.

Mônica tenta se socorrer do ex-Secretário da Receita Everardo Maciel, da gestão FHC, pedindo que confirme a politização. Everardo diz que a politização ocorreu com Lina e que agora não há ingerência política, porque é atribuição do Ministro definir o Secretário.

Depois disso tudo, Mônica volta ao papo de que Mantega estaria pressionando para não apertar os grandes contribuintes. Os entrevistados negam. Everardo mostra que esse foco nos grandes contribuintes começou em sua gestão. Mônica diz que houve aumento na arrecadação dos grandes contribuintes na gestão Lina. Everardo desmonta com números.

Mônica vem com a história da opção do regime de caixa pela Petrobras foi manipulação. Everardo é incisivo: a Petrobras está certa. O factóide criado foi para justificar a queda da arrecadação na gestão Lina - embora admita que a queda tem muitos outros fatores deflagradores, entre os quais a crise.

Mônica: se fosse tão clara a possibilidade de mudar o regime no meio do ano, não haveria essa controvérsia.

Everardo: a regra é clara e foi feita em 1999 justamente para enfrentar o problema da desvalorização cambial.

Mônica: mas até agora a Receita está para soltar um parecer.

Everardo e os demais: já foi feito, concordando com a Petrobras. Essa prática existe há muito tempo, não existe qualquer ilegalidade ou manobra contábil.

Mônica, balbuciando: a lei foi feita. Houve então uma manipulação da opinião pública?

Todos concordam com a cabeça.

Aí ela deriva a entrevista para o caso Sarney, perguntando se é legítimo pressionar a Receita para abrandar a fiscalização.

O presidente do Sindicato disse que é impossível essa pressão, que nunca essa informação correu na Receita. Disse que sempre trabalhou próximo à chefia da Receita, tanto no governo FHC e Lula, e nunca viu esse procedimento. O chefe da Receita conversa com políticos todos os dias. Mas esse tipo de ingerência é novidade para a gente.

Everardo disse que se ocorreu, o momento certo seria na época em que foi feita. Se não fez, cometeu prevaricação.

Conclusão final dos três entrevistados: Lina foi um desastre para a imagem da Receita e caberá a todos os funcionários trabalharem para o resgate de sua imagem.

Assista o programa e depois volte à abertura.

PS - O programa é ao vivo. Então na abertura Mônica definiu conclusões que não foram avalizadas, posteriormente, pelos entrevistados.

Fonte: Carta Maior



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Privatização de aeroportos levará ao desmantelamento da malha aérea

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Privatização de aeroportos levará ao desmantelamento da malha aérea


por Gabriel Brito e Valéria Nader*

Matéria do Correio veiculada em 15 de setembro de 2008 chamava a atenção para que o ‘Teatro da privatização terá aeroportos como próximo ato . Dito e feito. A bola da vez é o setor dos aeroportos. Com propostas de privatização da administração do Galeão e de Viracopos (além do novo aeroporto de São Paulo), a presidente da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) Solange Vieira, com o endosso do ministro da Defesa Nelson Jobim, pretende apresentar um plano de entrega desses locais à administração privada. No que conta com o apoio de gente do quilate de José Serra.

Em entrevista ao Correio da Cidadania, o presidente do Sindicato Nacional dos Aeroportuários (SINA) Francisco Lemos alerta que o projeto pode iniciar um processo de desmantelamento da malha aérea do país, a exemplo do ocorrido com a ferroviária na metade do século passado, destacando que a Infraero foi considerada no início deste ano a segunda melhor empresa gestora de aeroportos no mundo – além de ser lucrativa.

Dessa forma, Lemos trata a idéia como mais uma tentativa, sem base, de imposição do ideário neoliberal, atento aos setores (super)rentáveis de países desacostumados a posturas soberanas. O presidente do SINA ainda alerta para a questão da segurança: "A primeira medida adotada pelo governo americano após o 11 de setembro foi colocar pessoas ligadas ao Estado no controle dos acessos aos seus aeroportos".

Correio da Cidadania: Quais os reais objetivos de se concederem à iniciativa privada somente aeroportos rentáveis?

Francisco Lemos: Essa tentativa já vem se arrastando há anos. O setor aéreo é um dos que mais cresce no mundo. Mesmo diante da crise, apresentou uma queda muito menor que outros setores, o que desperta cobiça. Porém, o empresariado não esconde seu descompromisso com a integração de um país de dimensões continentais como o Brasil. O que quer mesmo é aplicar dinheiro e obter retorno.

E o modelo Infraero de infra-estrutura aeroportuária no país é muito parecido com a relação de alguns estados da federação, onde os mais rentáveis subsidiam aqueles que são deficitários. Se pegarmos a federação brasileira, há uma arrecadação centralizada no governo federal, que a redistribui aos estados que não conseguiriam se manter, algo semelhante ao que ocorre na Infraero.

Dando um exemplo, se privatizássemos São Paulo, o que seria do Piauí? Eis a falta de comprometimento com a rede integrada de infra-estrutura de aeroportos por parte da iniciativa privada, do ministro Jobim, que comunga com tal pensamento, e principalmente de José Serra, Sergio Cabral e Solange Vieira, que sabem exatamente o que acontece. Mas são pessoas que se alinharam ao pensamento neoliberal do empresariado.

Desperta cobiça ganhar dinheiro nesses locais, deixando no esquecimento aqueles aeroportos deficitários mais longínquos. Ou seja, para manter a Infraero, teria de se tirar dinheiro do Tesouro. E, se começam a tirar os aeroportos rentáveis dessa integração, o dinheiro do Tesouro que poderia ser canalizado para moradia, saúde etc. passa a ser colocado nos aeroportos. E vale destacar que a Infraero é uma empresa lucrativa, que se financia.

Se o Tesouro não agir assim, podem-se abandonar os aeroportos, deixá-los ociosos, como ocorreu na Argentina. Lá, privatizaram os aeroportos, as empresas não investiram um tostão e as companhias pararam de pousar no país, vindo só a São Paulo. E assim a Argentina começa inclusive a perder negócios por falta de investimentos em infra-estrutura aeroportuária.

A Infraero é a segunda maior empresa administradora de aeroportos do mundo, elogiadíssima internacionalmente. Passou por uma avaliação no começo do ano e teve nota de 80% de conformidade com seus serviços. Quer dizer, ela é muito eficiente em seu produto final. E mais: ela é cobiçada por países como Moçambique, Iraque (em sua reconstrução), Angola e outros, que tentam firmar acordo com o Brasil para que a Infraero administre seus aeroportos também.

Logicamente, esse conceito todo desperta a cobiça do empresariado e pessoas ligadas ao governo federal, como o ministro Jobim, a presidente da ANAC e governadores que não têm compromisso com o social. Para eles, privatizar os aeroportos rentáveis é bom negócio e ponto final.

CC: Não é temerário que grupos estrangeiros possam ter até 100% de participação na gestão terceirizada?

FL: Isso retrata a irresponsabilidade e falta de compromisso social e também com o país da presidente da ANAC Solange Vieira, que, diga-se de passagem, é uma burocrata do setor financeiro, não entende absolutamente nada de aviação e, mesmo assim, preside uma agência absolutamente estratégica.

Ao incluir tal item, ela propõe que a gente entregue a chave da nossa casa para um estranho, passando a não ter controle algum sobre quem entra e sai dessa casa. É absurdo e reflete o descompromisso e a irresponsabilidade de uma autoridade brasileira com o próprio país.

As agências têm uma legislação específica e isso que pretendemos não é permitido, mas nós do SINA, juntamente com os sindicatos dos aeronautas e aeroviários, nos reuniremos no Hotel Íbis, ao lado do aeroporto de Congonhas, no dia 25, para que juntos encaminhemos um documento através da CUT e outros aliados ao governo Lula no sentido de tomar providências em relação às mazelas de resoluções que a presidente da ANAC vem tomando.

E estamos falando da questão de infra-estrutura aeroportuária, mas existem muitas resoluções tomadas pela ANAC sem consulta a ninguém e sem avaliação de pessoas do setor aéreo, assinadas por Vieira e que têm causado enormes prejuízos às companhias aéreas e ao setor da aviação civil como todo.

É hora de enquadrar essa mulher ou de o governo declarar abertamente que errou em escolhê-la para ocupar tal posto.

CC: Só para registrar, você saberia dizer se países que detêm soberania aérea permitem isso?

FL: De forma alguma. Todos os grandes aeroportos do mundo, sem exceção, são administrados pelo Estado. Em aeroportos menores ou de administração mista ocorrem participações privadas, mas não há administração inteiramente nas mãos deste setor.

Vejo o seguinte: o país está crescendo, está ficando rico e alguém, fazendo uma analogia, quer a chave da mina.

CC: Como conseqüência de se privatizarem os aeroportos rentáveis, haveria concentração ainda maior da oferta de vôos e tráfego nesses aeroportos, não?

FL: Não tenha dúvida. Eles estão até utilizando a Copa de 2014 como desculpa. Mas veja bem: se a segunda maior administradora de aeroportos do mundo não pode preparar os aeroportos para o evento, só a primeira pode. Mas a primeira, uma francesa, não está interessada.

Portanto, acredito que estamos nas mãos de pessoas de fora do ramo, que não sabem avaliar o setor aéreo, tomando decisões extremamente importantes, ou ganhando-as do presidente Lula, o que é uma prática muito perigosa, pois ele vem sendo orientado por quem não conhece do assunto.

Se ele tomar uma decisão errada pode se repetir o que ocorreu com o setor ferroviário no passado. O Brasil era todo interligado por essa malha, mais barata e que ainda integrava socialmente, encurtando distâncias e permitindo o escoamento da produção do país por trilhos, algo extremamente importante nos anos 50 e 60. Mas, em função de uma política errada do governo de ocasião, foi se desintegrando, e hoje ocorre que o Brasil sente falta dos trilhos.

Tivesse prosperado naquela ocasião o sistema ferroviário, como prosperou em outros países, que integra muito, não estaríamos ameaçados de ver acontecer o mesmo com o sistema aeroportuário, ou seja, que a infra-estrutura aeroportuária passe a ser desmantelada no Brasil inteiro, chegando ao ponto, no futuro, de só uma parte do país ter condições de fazer o escoamento de passageiros e receber vôos internacionais.

Porque uma grande verdade de hoje é que, por mais deficitário que seja o aeroporto neste país, ele mantém o padrão de operacionalidade.

CC: Com uma demanda sendo, ademais, obrigada a se direcionar a poucos aeroportos mais rentáveis, os concessionários tenderão a fixar tarifas abusivas. Não resultará daí uma tendência ao aumento do preço de todo tipo de serviço aeroportuário?

FL: Como te falei, além de a tarifa ser praticada como eles quiserem, isso traria uma desintegração total da malha aérea brasileira. Por exemplo: você se decolaria de um aeroporto daqui de São Paulo para um aeroporto deficitário, vamos supor, em Juazeiro. Não se sabe em que condições pousaria lá, como estaria a pista, o atendimento, enfim, as companhias não vão mais querer fazer determinadas rotas. E quem sentiria realmente o prejuízo seria o usuário, o passageiro brasileiro em geral.

Portanto, acredito que esse pensamento é neoliberal, entreguista, privatista e se baseia em desculpas. Esperamos que o governo Lula seja firme e não embarque nesse vôo, porque vai cair.

No entanto, surpreende-me e me deixa preocupado que o governador Serra, candidato a presidente da República, tenha declarado recentemente em público que a estratégia dele é levar esse projeto adiante.

CC: Já disse inclusive que a Infraero não tem capacidade de gerir Viracopos.

FL: Pois é. Eu acho que ele é um demagogo, pois, a exemplo do que faz com as estradas, vem fazendo o mesmo com o aeroporto de Ribeirão Preto, no qual ele investe dinheiro público para depois entregar à iniciativa privada.

Eu acredito que o caminho não seja esse, pois aeroporto é coisa muito séria, uma das portas de entrada do país. Volto a dizer que o país está crescendo, ficando rico, e a chave desse cofre tem de ficar na nossa mão. O controle tem de ficar na mão do Estado, para que este responda diretamente ao povo. A iniciativa privada não responde ao povo.

CC: Como vai ficar a regulamentação do setor? O que podemos, nesse sentido, esperar do funcionamento e fiscalização em locais eventualmente privatizados?

FL: Seria o caos. Porque, pela proposta da presidente da ANAC, nem o Ministério Público poderia fiscalizar. As coisas aconteceriam inclusive sem licitação.

Como venho falando, acredito que a imprensa tem que tratar dessa parte com o ministro Jobim, a Solange Vieira, e ir direto na Casa Civil perguntá-los diretamente.

Do ponto de vista do movimento sindical seria o caos total. O sindicato está reagindo, tentando conversar. Já fizemos uma grande manifestação em Brasília no dia 9 de julho, que teve visibilidade. O governo sabe da posição dos sindicatos, dos trabalhadores e também de uma frente parlamentar dentro do congresso.

No entanto, cabe ao presidente da República começar a falar deste tema, pois a imprensa parece ter medo de perguntar ao Lula.

CC: E você acha que poderia haver também uma perigosa deterioração na segurança e fiscalização de passageiros e bagagens nos aeroportos?

FL: Não tenho a menor dúvida. A corrupção aumentaria muito, as ações ilícitas também, pois não se teria o controle. Eu tenho certeza absoluta.

Para dar um exemplo, alguns grandes aeroportos americanos não eram privatizados, mas tinham o serviço de segurança terceirizado. A primeira medida - a primeira - adotada pelo governo americano após o 11 de setembro foi colocar pessoas ligadas à administração pública, ao Estado, no controle dos acessos aos aeroportos americanos.

Esse já é um ponto que fica muito vulnerável na terceirização. Imagine na privatização. O que ocorreu nos EUA já é um bom exemplo.

CC: Como ficaria a situação dos funcionários de aeroportos atingidos?

FL: Seriam demitidos, né? Pelo menos os da Infraero, com todo seu know-how, experiência, seriam descartados. Até porque, quando se vê o perfil do funcionário da Infraero, nota-se que é um profissional mais antigo, com idade acima de 30 anos. Nas empresas privadas, atuando dentro do setor aéreo, vê-se uma garotada de 20 anos trabalhando.

CC: O que sugere, então, uma futura precarização das condições de trabalho.

FL: Não tenho dúvida. E seria ofertado um serviço por pessoas com menos experiência. Conseqüentemente, veríamos uma baixa na qualidade dos serviços que hoje encontramos nos aeroportos.

Diga-se de passagem: que existe uma crise aérea, eu admito; mas não existiu, e nem existe neste momento, uma crise de infra-estrutura aérea. Não há.

Nossos aeroportos eram elogiadíssimos. Pode-se pousar em aeroportos de localidades distantes em que a infra-estrutura é muito boa, especialmente se comparada à de alguns outros países.

Há três anos estivemos na África do sul, na Cidade do Cabo. A cidade possui um turismo altíssimo, será sede da próxima Copa do Mundo e estava nessa época muito abaixo do nível de estrutura dos aeroportos brasileiros.

CC: De todo modo, a Infraero já vem sendo vítima de uma privatização silenciosa, já que os funcionários terceirizados superam aqueles contratados pela CLT - 14 mil a 11 mil -, não?

FL: Sim, sim. Esse é um fato que precisamos combater o tempo todo. Mas entenda uma coisa: mesmo com o fato de a Infraero ter hoje uma grande quantidade de funcionários terceirizados (já foi pior), uma prática combatida insistentemente pelos sindicatos, ainda consegue manter seu padrão. Imagine com os funcionários terceirizados e o administrador privado? Aí que não haveria controle algum.

Um exemplo disso e que, posso te garantir, causa um grande transtorno ao Brasil é encontrado em nosso sistema de telecomunicações. Há um alto índice de terceirizados e você não consegue conversar com ninguém da empresa. Aliás, conversamos com máquinas. E há uma enorme quantidade de reclamações. É só pensar o mesmo no setor aéreo.

CC: Qual seria a alternativa a esta nova proposta que está em pauta? Não haveria como tornar mais eficiente a própria Infraero, a partir de um novo foco para a gestão do orçamento público, chamando a iniciativa privada, por exemplo, a construir e gerir aeroportos em áreas menos atendidas?

FL: Primeiramente, a Infraero e seus funcionários não têm medo da concorrência. Até mesmo por acreditarem no serviço que prestam, sabendo ser de excelente qualidade. Mas como está em voga a prática neoliberal no mundo, querem pegar a coisa andando, funcionando, para entregar à iniciativa privada.

Portanto, quem quiser construir e administrar aeroporto para concorrer, que faça isso e venha concorrer. Isso é saudável. Mas querem privatizar o que já está pronto, como se vê nas estradas de São Paulo. Eu não vejo construtora alguma pavimentar uma estrada sequer por conta própria. É o Estado que constrói e depois entrega à administração privada.

*Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania

Fonte: Correio da Cidadania

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Um convite ao PCB, PSOL e PSTU: uma jogada ousada

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Um convite ao PCB, PSOL e PSTU: uma jogada ousada

por Wladimir Pomar*

(dica da Alê: no site do Correio da Cidadania, no link deste texto, vale a pena ler também os comentários!)

Esperava, nesta edição, iniciar um depoimento sobre a luta armada dos anos 1960-1970. Porém, apareceu um convite interessante ao PCB, PSOL e PSTU, para examinarem "uma aliança eleitoral, em torno da senadora Marina Silva", já que todos compartilham "uma posição de independência e de crítica diante do governo Lula".

Segundo o convite, uma frente eleitoral que tenha por base uma plataforma de "reformas democratizadoras" poderia contemplar objetivos comuns "dos partidos de centro e de esquerda" e "ganhar o apoio do MST e de setores de base das igrejas cristãs".

Acreditam que tal frente seria uma "iniciativa política ousada", que mexeria na "disposição atual das forças políticas e sociais", ventilaria "as propostas econômicas e sociais das forças populares", e aproximaria "a oposição de esquerda ao governo Lula de setores de centro".

Alertam que, sem tal iniciativa, a "oposição popular e de esquerda" não aglutinará "forças majoritárias" capazes de "arrebatar vitórias". E concluem que, para constituir uma "alternativa política real nas atuais condições", a "oposição popular e de esquerda" terá que combinar "o programa socialista com uma tática democratizadora".

O convite não explicita em que consiste essa combinação entre o programa socialista e a tática democratizadora. Mas não deixa de fazer uma crítica ao PCB, PSOL e PSTU, por seu emparedamento "entre o economicismo corporativista e o doutrinarismo socialista". Com razão, reclama que eles não podem "atacar mais as forças de centro do que as forças de direita". E lembra, também com razão, que "aliança implica diferença", "unidade de ação em torno de objetivos imediatos e comuns". Desde que, é lógico, subordinem "seu discurso e sua atuação à convergência tática".

A proposta, porém, esquece que o conteúdo principal da "posição de crítica" do PCB, PSOL e PSTU ao governo Lula reside justamente no fato de o PT ter adotado a tática democratizadora de aliança com o centro. Esses partidos podem, então, se perguntar: se é para unir-se ao centro, formar uma frente de centro-esquerda e aplicar reformas democratizadoras, por que não se unirem em torno de Lula e de Dilma? Qual a diferença entre a frente eleitoral, que o PT chama de "centro-esquerda", e a frente de "centro-esquerda" da proposta de unificação em torno da senadora Marina Silva?

Talvez prevendo isso, o convite tenha tido o cuidado de colocar o PT e o PSDB como principais "líderes dos blocos de centro-direita". Com isso, tentou responder, de antemão, àquela inevitável pergunta. No entanto, como não são ignorantes, os militantes e dirigentes daqueles partidos também poderão perguntar: quem são os partidos de "centro"?

Ora, se os partidos de centro forem o PMDB, PDT, PSB etc. etc., a questão retorna. Qual a diferença entre a frente eleitoral que está sendo montada pelo PT, contra a qual PCB, PSOL e PSTU se batem há tempos, e a frente eleitoral proposta pelos que pretendem "aglutinar as forças majoritárias"? A não ser, podem concluir, que esta proposta de apoio à senadora Marina Silva esconda uma jogada mais "ousada".

Isto é, embora o convite parta do pressuposto de que o PT e o PSDB são líderes da centro-direita, a mexida na "disposição atual das forças políticas e sociais" na prática só faria uma vítima: a candidatura Dilma. Isto ficando claro, talvez PCB, PSOL e PSTU se animem a participar da frente proposta, mesmo sabendo que PSDB e DEM levarão vantagem.

O convite, porém, não pode ser claro a esse respeito. Deixaria boa parte das "forças majoritárias", que pretende conquistar, numa situação desconfortável. Por isso, do mesmo modo que Sun Zi teria feito há 2500 anos atrás, finge atacar o amigo Serra, para destruir a inimiga Dilma.

Seu problema, com o qual Sun Zi também se confrontou várias vezes: nem todos foram ignorantes, a ponto de deixarem que a disposição das forças fosse mexida e permitisse a vitória a seu verdadeiro inimigo.

*Wladimir Pomar é analista político e escritor

Fonte: Correio da Cidadania

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Deputado diz que trabalhador é bêbado e sugere tutela

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Deputado diz que trabalhador é bêbado e sugere tutela


por Leonardo Sakamoto

Este blog criou o Troféu Frango para premiar bizarrices em geral. Hoje, ele vai para o deputado federal Nelson Marquezelli (PTB-SP) por sua pouca fé nos trabalhadores do país.

Centenas de trabalhadores e patrões lotaram, nesta terça, a Câmara dos Deputados para acompanhar os acalorados debates sobre o projeto que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com aumento do valor da hora extra e sem redução salarial.

Em entrevista à rádio CBN, Marquezelli defendeu que os deputados devem manter a jornada do jeito em que está para evitar que os empregados aproveitem as horas a mais de lazer para encher a cara:

“Se você reduzir a carga horária, o que vai fazer o trabalhador? Eles [os defensores da mudança na lei] dizem: vai para casa para ter lazer. Eu digo: vai para o boteco, beber álcool, vai para o jogo. Não vai para casa. Então, você veja bem, aí é que tá o mal: ele gastar o tempo onde ele quiser, se nós podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira.”

Preste atenção neste trecho “ele gastar o tempo onde ele quiser, se nós podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira”. Ou seja, nós, os iluminados, temos o dever de manter esses indolentes perdidos acorrentados ao trabalho. E mesmo que assim fosse, ou seja, que todos quisessem ficar bêbados nas horas vagas, que direito tem ele de interferir com a vida pessoal de cada um?

A última redução ocorreu há quase 21 anos, na Constituição de 1988, quando caiu de 48 para 44 horas semanais. Aos catastrofistas de plantão: saibam que o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) calculou que uma jornada de 40 horas com manutenção de salário aumentaria os custos de produção em apenas 1,99%.

O aumento na qualidade de vida do trabalhador, por outro lado, seria muito maior: mais tempo com a família, mais tempo para o lazer e o descanso, mais tempo para formação pessoal. Mas isso parece irritar Marquezelli.

Vale sempre lembrar que ele já criticou o grupo móvel de fiscalização do governo federal, responsável por libertar trabalhadores da escravidão no país. Segundo Marquezelli, essa atuação prejudica a imagem do Brasil no exterior: “Escravos nos já tivemos, não temos mais”. Ignora, com isso, os mais de 35 mil resgatados da escravidão contemporânea desde 1995.

E como o brasileiro é um desmemoriado, o deputado deve se reeleger nas eleições do ano que vem, com o apoio dos trabalhadores que insultou.

Fonte: Blog do Leonardo Sakamoto


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