quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Qual a agenda da esquerda hoje?

Qual a agenda da esquerda hoje?

Por Marco Aurélio Weissheimer

Em um artigo intitulado "Socialismo macroeconômico", o cientista político José Luís Fiori, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diagnosticou o que considera ser uma perda de rumo e de identidade da esquerda em nível mundial. Um possível resumo do ponto abordado no artigo é o seguinte:

"Surpreende muito que o aumento da desigualdade da riqueza entre as nações, as classes sociais e os indivíduos, nas últimas décadas do século XX, não tenha trazido de volta os temas da agenda clássica dos socialistas, centrada na questão da igualdade social. Trata-se de uma notável perda de rumo e de identidade".

O diagnóstico proposto por Fiori é uma ótima oportunidade para pensar sobre qual é mesmo a agenda da esquerda hoje, no início do século XXI. Para evitar um debate interminável sobre quem de fato seria de esquerda hoje, vamos reconhecer como tal todos aqueles que reivindicam a tradição socialista e pretendem estar agindo politicamente tendo ela como referência.

Se, de fato, estão ou não sendo coerentes com essa tradição é algo que pode começar a ser respondido a partir de um exame dos temas que compõem sua agenda hoje. No artigo citado, após fazer uma rápida retrospectiva sobre algumas das lutas históricas da esquerda - contra a distribuição desigual da riqueza, contra o trabalho desumano nas fábricas, contra a guerra, apenas para citar algumas -, Fiori observa como, nos últimos anos, as minúcias internas da política macroeconômica passaram a ocupar "um lugar crescente e obsessivo nas discussões da esquerda". "Mais do que isto", acrescenta, "ocorreu algo inimaginável do ponto de vista histórico: além de definir seus inimigos externos, a esquerda passou a se diferenciar internamente, e a medir as distâncias entre suas tendências reformistas ou revolucionárias, segundo suas posições e divergências macroeconômicas". Esse é um cenário reconhecível também no ambiente da esquerda brasileira.

Ela passou, como observa Fiori, "a travar verdadeiras guerras teológicas sobre alguns conceitos inéditos e totalmente a-históricos, como por exemplo: qual seja o tamanho ideal do déficit fiscal ou da relação dívida externa/ PIB; ou qual deva ser o crescimento possível dentro do modelo de metas de inflação, e a distância ideal entre as suas bandas superior e inferior; ou ainda, de um ponto de vista mais propositivo, o que fazer para flexibilizar a forma pela qual o Banco Central maneja sua política de juros, para combater a inflação, sem tocar na própria política".

A chegada de Lula à presidência da República, em 2002, é parte da explicação, mas está longe de ser toda ela. Fenômenos similares ocorreram com partidos de esquerda de outros países também, mas o tamanho do problema não se limita à chegada ao poder. Mesmo fora dele, essa agenda macroeconômica segue subordinando temas que são constitutivos da história de lutas da esquerda.

A experiência onipresente do mercado
Essa subordinação costuma ser comemorada (à direita) e explicada (à esquerda) como uma conseqüência inevitável dos fracassos da esquerda no século XX. Fracassos esses exemplificados de modo paradigmático pelo fim da União Soviética e pela derrubada do Muro de Berlim. A vitória do mercado passou a ditar todas as regras, com conseqüências para o pensamento político de esquerda que ainda não foram adequadamente analisadas. As idéias fortes do mercado passaram a ser amplamente hegemônicas.

O jamaicano Stuart Hall, um dos fundadores do centro que se tornou o berço dos Estudos Culturais na Universidade de Birmingham (Inglaterra), descreveu assim uma dessas conseqüências: "Em um mundo saturado pela troca monetária e completamente mediado pelo dinheiro, a experiência do mercado é a experiência mais imediata, diária e universal do sistema econômico para todos". Esse fenômeno cobra seu preço, pago também pela esquerda.

Stuart Hall fala um pouco sobre o tamanho dessa conta:

"Não é de surpreender que o mercado seja algo gratuito para nós, que não questionemos aquilo que o viabiliza, funda ou pressupõe. Não é de surpreender tampouco que as massas trabalhadoras não possuam os conceitos que lhes possibilitem intervir no processo, estruturar um novo conjunto de questionamentos, trazer à luz ou revelar aquilo que a esmagadora realidade do mercado constantemente torna invisível (...) Dessa forma, percebemos na 'livre-escolha' do mercado o símbolo material de liberdades mais abstratas; ou na competitividade egocêntrica e intrínseca do lucro de mercado a representação de algo natural, normal e universal na própria natureza humana" ("O problema da ideologia. Marxismo sem garantias", p. 265, in. "Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais", Editora UFMG, 2006). A idéia de "fim da história" é um corolário deformado dessa percepção (também deformada).

Nos últimos anos, importantes setores da esquerda costumam atribuir a uma "correlação de forças desfavorável" seu recuo ideológico e programático. Mas se as reflexões de Fiori e de Stuart Hall são pertinentes, o problema pode ser mais grave. O referido recuo não seria resultado de uma correlação de forças desfavorável, mas sim da perda de nitidez em relação ao campo de luta. Quais são, afinal de contas, as lutas da esquerda, hoje? É pela redução da taxa de juros e do superávit primário? É o debate sobre se a taxa de crescimento deve ser de 3% ou 4,5% ao ano? Ou pela afirmação da necessidade da ética na política?

Todas essas questões são temas atuais e ocupam boa parte do discurso e da prática das maiores forças políticas da esquerda brasileira hoje. A priorização dessa agenda seria resultado fundamentalmente, não custa perguntar mais uma vez, de uma correlação de forças desfavorável em nível mundial? Mas qual é mesmo o estado de coisas no mundo hoje?

Como anda o mundo
Hora de lembrar alguns números e fatos que são de conhecimento público, mas que costumam ser sacrificados no altar do pragmatismo rebaixado. A ordem econômica mundial mata 100 mil pessoas de fome por dia, apesar de o mundo ter hoje a capacidade de alimentar 12 bilhões de seres humanos, o dobro de sua população atual, denunciou, no dia 21 de junho de 2006, o relator da ONU para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler.

Segundo dados da ONU, a cada sete segundos uma criança menor de 10 anos morre por problemas ligados à desnutrição, e a cada quatro minutos uma criança fica cega por falta de vitamina A. "A ordem mundial econômica e capitalista não é só assassina, mas absurda, porque mata sem necessidade. Há riquezas para alimentar 12 bilhões de pessoas, o dobro da humanidade", protestou o relator das Nações Unidas. A situação geral da fome é especialmente dramática na África, um continente onde 36% da população é subnutrida, 186 milhões de africanos sofrem de fome grave e, em 20 anos, o número de famintos passou de 91 para 186 milhões."

Para Jean Ziegler, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio são organizações mercenárias das grandes oligarquias e do capital financeiro, que anulam os progressos obtidos pelas 22 agências humanitárias e de desenvolvimento da ONU. Enquanto isso, os gastos dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão ajudaram a aumentar as despesas militares no mundo em 3,5 por cento, alcançando 1,12 trilhão de dólares em 2005, segundo levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional de Estocolmo, em seu último anuário. Os EUA são responsáveis por 48% dos gastos mundiais em armamentos, seguidos por Inglaterra, França, Japão e China, que investem de 4 a 5% cada um. Esses cinco países totalizam 68% dos gastos mundiais com armas. Os gastos com armas representaram, em 2005, cerca de 2,5% do Produto Interno Bruto Mundial, uma média de despesas de 173 dólares per capita.

No plano ambiental, o cenário não é menos dramático. Nos últimos meses, diversos estudos científicos afirmaram que o agravamento do problema do aquecimento global está levando o planeta a um ponto de não-retorno. A destruição não se dá apenas pelo atual padrão de atividade industrial e de consumo. No campo, o estrago não é menor.

A diversidade das culturas está se reduzindo nos terrenos agrícolas de todo o mundo a um ritmo galopante, conforme advertência feita este ano pela FAO. Segundo a organização, ao longo dos últimos cem anos, perderam-se 75% das variedades agrícolas. A agricultura mecanizada e as exigências do mercado estão na raiz da redução da biodiversidade. Historicamente o ser humano utilizou entre 7 mil e 10 mil espécies, ao passo que hoje só se cultivam tão somente 150 espécies, doze das quais representam 75% do consumo alimentar humano. E desses, só quatro espécies são responsáveis pela metade dos nossos alimentos.

Estamos, portanto, diante de um cenário de alta instabilidade social, política, econômica e ambiental. E esses grandes temas globais estão relacionados diretamente a temas nacionais e regionais. Não se trata de elevar o pensamento à estratosfera e esquecer os problemas práticos do dia-a-dia. O debate sobre qual desenvolvimento queremos, qual matriz energética, que tipo de agricultura, que tipo de Estado, depende de um posicionamento claro sobre essas grandes tendências que estão mudando a face do planeta para pior.

Assim, a resposta para a pergunta apresentada no início desse artigo passa, necessariamente, pelo reconhecimento da urgência de subordinar o menor ao maior. E há algo maior, hoje, do que enfrentar esses problemas e expressar essa escolha na ação política?. Há um mundo querendo ser pensado e modificado. E essa é uma tarefa muito maior do que simplesmente pensar e priorizar a próxima eleição ou a disputa por cargos neste ou naquele governo.

Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
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A tentativa de Golpe da Globo nas eleições de 2006

OBs. de Alexandra: Tive o trabalho de transcrever essa imensa reportagem por acreditar que o máximo de pessoas precisam saber alguns fatos que não estão sendo colocados à mostra, ocultados pela grande imprensa para manipular nosso processo eleitoral.
PARA QUE O QUE ACONTECEU EM 1989, NO DEBATE DA GLOBO ENTRE LULA E COLLOR NÃO SE REPITA NUNCA MAIS!
Vamos cobrar dessa mídia podre uma cobertura mais honesta do que isso que estamos vendo.
Repassem, por favor.

Matéria da Carta Capital, número 415.
OS FATOS OCULTOS
A mídia, em especial a Globo, omitiu informações cruciais na divulgação do dossiê e contribuiu para levar a disputa ao 2º turno
Por Raimundo Rodrigues Pereira
1.Pode-se começar a contar a história do famoso dossiê que os petistas teriam tentado comprar para incriminar os candidatos do PSDB José Serra e Geraldo Alckmin pela sexta-feira 15 de setembro, diante do prédio da Polícia Federal, em São Paulo. É uma construção pesada, com cerca de dez pavimentos, de cor cinza-escuro e como que decorada com uma espécie de coluna falsa, um revestimento de ladrilho azul brilhante, que vai do pé ao alto do edifício, à direita da grande porta de entrada. Dentro do prédio estão presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos, ligados ao Partido dos Trabalhadores e com os quais foi encontrado cerca de 1,7 milhão de reais, em notas de real e dólar, para comprar o tal dossiê. Mas essa notícia é ainda praticamente desconhecida do grande público.


Preocupação:
“Tem de sair no Jornal Nacional”, exigiu o delegado Bruno ao entregar as fotos do dinheiro
É por volta das 5 da tarde. A essa altura, mais ou menos à frente do prédio, que fica na rua Hugo Dantola, perto da Ponte do Piqueri, na Marginal do rio Tietê, na altura da Lapa de Baixo, estaciona uma perua da Rede Globo. Ela pára entre duas outras equipes de tevê: uma da propaganda eleitoral de Geraldo Alckmin e outra da de José Serra.

Com o tempo vão chegando jornalistas de outras empresas: da CBN, da Folha, da TV Bandeirantes. E a presença das equipes de Serra e Alckmin provoca comentários. Que a Rede Globo fosse a primeira a chegar, tudo bem: ela tem uma enorme estrutura com esse objetivo. Mas como o pessoal do marketing político chegou antes? Cada uma das duas equipes tem meia dúzia de pessoas. A de Serra é chefiada por um homem e a de Alckmin, por uma mulher. As duas pertencem à GW, produtora de marketing político. Seus donos foram jornalistas: o G é de Luiz Gonzales, ex-TV Globo, e o W vem de Woile Guimarães, secretário de redação da famosa revista Realidade, do fim dos anos 1960. Entre os jornalistas, logo se sabe que foi Gonzales quem ligou para a Globo, avisando do que se passava na PF.

E quem avisou Gonzales? Foi alguém da Polícia Federal? Foi alguém do Ministério Público, de Cuiabá, de onde veio o pedido para a ação da PF? Uma fonte no Ministério da Justiça disse a CartaCapital que as equipes da GW chegaram à PF antes dos presos, que foram detidos no Hotel Ibis Congonhas por volta da 6 da manhã do dia 15 e demoraram a chegar à sede da polícia. Gente da equipe da GW diz que a empresa soube da história através de Cláudio Humberto, o ex-secretário de imprensa do ex-presidente Collor, que tem uma coluna de fofocas e escândalos na internet e que teria sido o primeiro a anunciar a prisão dos petistas.

Pode ser que sim, o que apenas leva à pergunta mais para a frente: quem avisou Cláudio Humberto? Mesmo sem ter a resposta, continuemos a pesquisar nessa mesma direção: a de procurar saber a quem interessava a divulgação da história do dossiê e como essa divulgação foi feita. Para isso, voltemos à região do prédio da PF duas semanas depois.

2.É 29 de setembro, vésperas da eleição presidencial, por volta das 10h30 da manhã. Sai do prédio da PF na Lapa de Baixo o delegado Edmilson Pereira Bruno, 43 anos, que estava de plantão no dia 15 e foi o autor da prisão de Valdebran e Gedimar. Ele convida quatro jornalistas para uma conversa: Lilian Christofoletti, da Folha de São Paulo, Paulo Baraldi, de O Estado de São Paulo, de Tatiana Farah, do jornal O Globo, e André Guilherme, da rádio Jovem Pan. Bruno quer uma conversa reservada e propõe que ela seja feita a cerca de um quarteirão dali, na Bovinu's, uma churrascaria. Um dos jornalistas argumenta que ali "só tem policial". O grupo acaba conversando perto da Faculdade Rio Branco, que não se avista da frente da PF, mas é também ali por perto. Ficam na rua mesmo. O delegado não sabe que a conversa está sendo gravada.
Bruno diz que quer passar para os jornalistas cópia das fotos do dinheiro apreendido com os petistas, que estavam sendo porcuradas há muito, por muita gente. Leva um CD com as imagens, 23 fotos; e três CDs em branco para que eles copiem as imagens de modo que cada um tenha uma cópia. Fala que eles devem dizer "alguém roubou e deu pra vocês", para explicar o aparecimento das fotos. Diz que ele próprio vai dizer coisa parecida a seus chefes na PF, que os jornalistas é que o roubaram: "Doutro, me furtaram. Sabe como é que é, não dá para confiar em repórter". Recomenda que as fotos sejam editadas em computador com o programa Photoshop para tirar detalhes, como o nome da empresa na qual as cédulas foram fotografadas, a fim de despistar a origem do material.
Algumas pessoas têm a fita de áudio com a conversa do delegado Bruno com os quatro repórteres. Mais pessoas ainda a ouviram. Uma delas é o repórter Luiz Carlos Azenha, que tornou públicos váirios trechos no seu site pessoal na internet "Vi o Mundo, o que voc?ê nunca pode ver na tevê"(http://viomundo.globo.com/). Azenha, que é repórter da TV Globo, não quis dar entrevista a Carta Capital. Pediu que se procurasse a emissora. Para o que mais interessa ao desenrolar da nossa história, dos trechos da fita, deve-se destacar a preocupação de Bruno em fazer com que as fotos chegassem no dia ao Jornal Nacional. "Tem alguém da Globo aí?", pergunta ele. Um dos quatro responde: "Tem o Bocardi". "Não é o Tralli? O Tralli está muito visado", Bruno diz, referindo-se a César Tralli e ao incidente, conhecido de muitos, de esse repórter da TV Globo ter podido acompanhar, praticamente disfarçado de Polícia Federal, a prisão de Flávio Maluf, filho de Paulo Maluf.
Mas a preocupação principal de Bruno é a que ele reitera nesse treho: "Tem que sair no Jornal Nacional".

3. As fotos são divulgadas, como veremos no capítulo seguinte, com imenso destaque, no dia 29, véspera das eleições, repita-se, no JN. Mas não apenas no JN. Veja-se a Folha de São Paulo, por exemplo. Lá também a divulgação foi, pelo menos na opinião de alguns, espetacular:"Que primeira página mais linda, a de 30/09. É por isso que eu não consigo me separar da Folha", escreveu o leitor Euclídes Araujo, no dia seguinte. "a glosa, a irreverência, a fina ironia falaram mais alto, mostrando aquela montanha de dinheiro em cima e, embaixo, Lula, sendo abraçado por uma mão morena e cobrindo o rosto, como se fosse um meliante conduzido ao distrito, tentando esconder a identidade. O que eles querem ,o Pravda ou o Granma? Valeu, Folha!".
A Folha publicou, com grande destaque na primeira página, a foto na qual o dinheiro está empilhado de forma que as notas apareçam com a frente voltada para o leitor e que foi feita de baixo para cima, que é a que mais dá a impressão da "montanha de dinheiro" citada pelo admirador do jornal. E não divulgou que as fotos lhe tinham sido passadas por um policial visivelmente empenhado em façer com que elas tivessem um uso político claro, de interferir no pleito de 1º de outubro.
A Folha também tinha a fita de áudio, que foi levada por sua repórter, Lilian Christofoletti. A editora-executiva do jornal, Eleonora de Lucena, não quis responder por que omitiu as informações dessa fita, a nosso ver tão relevantes. Alguns dos quatro repórteres que receberam as fotos do delegado Bruno, ouvidos para esta matéria, disseram em defesa da tese de que o áudio não deveria ser divulgado, com o argumento de que o jornalista deve preservar o sigilo da fonte, com o que concordamos. Mas perguntamos a Eleonora: por que ela não deu a informação de que se tratava de uma intervenção política no processo eleitoral, publicando trechos da fita de áudio, que tornam isso explícito, mas sem citar o nome da fonte?
O mais curioso, para dizer o mínimo, é que a Folha publica, junto com as fotos do dinheiro, uma matéria("Imagens foram passadas em sigilo à imprensa") na qual conta o que o delegado Bruno disse depois, na mesma tarde do mesmo dia 29, ao conjunto de jornalistas, na frente da PF. No texto, assinado pela repórter do jornal que recebeu as fotos de Bruno pela manhã, se diz: "O delegado Bruno disse, ontem, em coletiva à imprensa, que o CD com as fotos havia sido furtado de sua sala, na PF - e que ele estava sendo injustamente acusado de ter repassado o material aos jornalistas". Pergunta-se: qual é o sentido de publicar uma informação que a jornalista sabia que é evidentemente mentirosa e , no caso, ainda ajudava o policial a tentar enganar a própia imprensa?
O Estado de São Paulo do dia 30 publica a mesma foto, das notas em posição de sentido. E com um texto, assinado por Fausto Macedo e Paulo Baraldi, ainda mais incrível, também para dizer o mínimo. O texto é praticamente uma diatribe contra o PT e em defesa de José Serra. Diz que a publicação das fotos é a abertura "de um segredo que o governo Lula mantinha a sete chaves". Diz que o dinheiro veio de quem "pretendia jogar Serra na lama dos sanguessugas". É também uma espécie de defesa do delegado Bruno, em favor fo qual são ditas algumas mentiras. O texto diz que as fotos foram feitas por "um policial da Delegacia de Crimes Financeiros (Delefin)" na sexta-feira dia 15 de setembro. E que o delegado Bruno comandou uma perícia nas notas, a serviço da Polícia Federal, na sala de conferências da Protege S.A Proteção e Transporte de Valores, em São Paulo. De fato, como se saberia no mesmo dia 30 em que o texto de Macedo e Baraldi sai publicado, as fotos foram feitas pelo próprio delegado Bruno, depois de enganar os peritos que analisavam as notas, dizendo-se autorizado pelo comando da PF. Pela infração, o delegado está sendo investigado por seus pares.

4.Tanto o Estado como a Folha dividem a primeira página do dia 30 entre a notícia das fotos do dinheiro e uma outra informação espetacular: a queda do Boeing de passageiros da Gol, com 154 pessoas, depois de um choque com o Legacy da Embraer, o jatinho executivo a serviço de empresários americanos. No dia 29, no Jornal Nacional, da Globo, no entanto, não há espaço para mais nada: a tragédia do avião da Gol não entra; o noticiário eleitoral, com destaque para as fotos do dinheiro dos petistas, é praticamente o único assunto.
É uma omissão incrível. O Boeing partiu de Manaus às 15h35, hora de Brasília. Deveria ter chegado em Brasília às 18h12. Quando o JN começou, a notícia já corria mundo. No site Terra, por exemplo, às 20h10 uma extensa matéria já noticiava que o avião da Gol havia desaparecido nas imediações de São Felix do Araguaia, na floresta Amazônica; e a causa apontada era o choque com o avião da Embraer.
Qual a razão da omissão do JN? A emissora levou um furo, como se diz no jargão jornalístico, ou decidiu concentrar seus esforços no que lhe pareceu mais importante?
Qualquer que seja o motivo, o certo é que a questão da divulgação das fotos mobilizou a cúpula do jornalismo da tevê dos Marinho. Como vimos, Bruno fora informado pelos jornalistas que Bocardi, da TV Globo, estava entre os jornalistas diante da PF no dia 29. Bocardi é Rodrigo Bocardi, repórter da TV globo, que atendeu Carta Capital com muita má vontade. Disse que a matéria acabara sendo apresentada por César Tralli e não por ele; e não quis dar mais informações. De alguma forma, no entanto, tanto a fita de áudio com a conversa de Bruno com os jornalistas quanto o CD com as imagens do dinheiro foram passados à chefia de jornalismo do JN em São Paulo e de lá foram levadas a Ali Kamel, no Rio. Kamel é uma espécie de guardião da doutrina da fé, o Ratzinger da Globo, como dizem ironicamente pessoas da organização dos Marinho, que criticam o excesso de zelo deste que é um editor em última instância de todo o noticiário político da emissora carioca. A crítica relembra o papel do cardeal Joseph Ratzinger, atualmente papa Bento XVI, no papado de João Paulo II.

Compreende-se por que a decisão sobre o que fazer com o áudio e com as fotos tivesse de ser tomada pelas altas autoridades da emissora. Se divulgasse o conteúdo exato das duas informações, a Globo estaria mostrando que o delegado queria usar a emissora para os claros fins políticos que manifestava e que a emissora tinha feito sua parte nesse projeto. A saída de Kamel - aparentemente, segundo relato de terceiros, ouvidos por Carta Capital, já que ele mesmo não quis se manifestar - foi a de omitir qualquer referência à existência do áudio: "Não nos interessa ter essa fita. Para todos os efeitos, não a temos", teria dito Kamel A informação complicava a Globo. A informação sumiu.

5. O comportamento da Globo na cobertura do caso do dossiê provocou reclamações de vários funcionários da emissora, desde o início. Já na segunda-feira após o estouro do caso, dia 18 de setembro, houve conversas de alguns deles com Luiz Claudio Latgé, diretor de jornalismo da TV Globo em São Paulo. A reclamação básica àquela altura era a de que não havia um tratamento igual para as duas pontas da história. A ponta que envolvia a "podridão dessa banda sindical petista", como dizia um desses funcionários revoltados, referindo-se aos chefes da operação do dossiê no comitê eleitoral do presidente Lula, era amplamente noticiada. Já a outra, que envolvia articulações de Abel Pereira, empresário de Piracicaba, com interesses no Ministério da Saúde na época dos governos tucanos, era praticamente omitida.
Esse viés anti-PT e pró-tucano, que não foi apenas a Globo, mas dos principais jornais e revistas da imprensa, fez com que ficasse quase omitida do noticiário maior a informação de que a história do dossiê petista começa com a investigação, pelo grupo de inteligência comandado por Jorge Lorenzetti, da ida de Abel Pereira a Cuiabá, supostamente para tentar comprar dos Vedoin um outro dossiê, de informações que poderiam incriminar os tucanos José Serra e Barjas Negri, ministros da Saúde no governo Fernando Henrique Cardoso. No seu depoimento à Polícia Federal, após a prisão de Valdebran e Gedimar, Lorenzetti disse que, tanto Gedimar como Expedito Veloso e Osvaldo Bargas, outros dois petistas depois acusados de envolvimento no caso, foram enviados a Cuiabá numa operação de contra-espionagem.
Há provas desse trabalho. Nos dias 23 e 24 de agosto, Abel Pereira esteve em Cuiabá e foi espionado por um fotógrafo, contratado por Gedimar e Veloso, que flagrou o empresário na saída do Hotel Taiamã. Segundo Lorenzetti disse à PF, Abel Pereira tentava comprar, por 10 milhões de reais, as informações de que os Vedoin tinham contra os tucanos. A Polícia Federal tinha também três telefonemas de Abel para um parente dos Vedoin no dia 14 de setembro, data em que parece ter sido feito o acerto entre os petistas e os empresários da venda das ambulâncias superfaturadas conhecida como "operação sanguessuga". Os telefonemas de Abel são outra indicação de que os dossiês - e não apenas um - estavam sendo disputados. O dia 14 de setembro é também a data em que Bargas e Veloso acompanharam a entrevista da IstoÉ com os Vedoin e que resultou na reportagem de capa da revista naquela semana. A matéria mostrava o que é de conhecimento de todos os jornalistas que pesquisaram minimamente o assunto: que 70% das 891 ambulâncias comercializadas pela Planan, a empresa dos Vedoin, entre 2000 e 2004, tiveram suas verbas liberadas nas gestões Serra e Negri.
É absolutamente razoável supor que Serra e Negri sejam pessoas acima de qualquer suspeita. É também razoável supor que as negociações de Abel com os Vedoin sejam lícitas, mesmo porque não é crime comprar informações. É também justo ficar indignado com o baixo nível da política que se fundamento no esforço de provar que o candidato adversário ou é ladrão ou está ligado a ladrões. Mas pergunta-se: por que achar que os petistas são os piores de todos os políticos, a priori, sem investigar o outro lado? Essa era a pergunta que faziam à direção da Globo alguns dos seus funcionários de São Paulo.

6. Outra omissão relevante na cobertura, que mostra o partido que a imprensa conservadora assumiu no caso, é o pouco destaque dado ao comportamento do procurador da República Mário Lúcio Avelar, que comandou o desencadeamento da operação que levou à denúncia da compra do dossiê pelos petistas. Avelar é o mesmo procurador cujo trabalho resultou na divulgação, no começo de 2002, das fotos de dinheiro apreendido na firma Lunus, do marido da atual candidata ao governo do Maranhão, Roseana Sarney. Na época, ela era pretendente ao cargo de candidata da coligação PSDB-PFL para disputar a Presidência da República contra Lula. E as pesquisas de opinião pública mostravam àquela altura uma ascensão espetacular de seu nomem como um dos favoritos a desempenhar o papel do anti-Lula. As preferências pelo nome dela nas pesquisas de opinião pública aproximaram-se dos índices que Lula tinha na ocasião e superaram as marcas de outro, que, afinal, acabou sendo o candidato da coligação conservadora, José Serra. Com a divulgação das imagens do dinheiro apreendido, também numa operação da Polícia Federal, como agora, também com o vazamento das fotos para a imprensa e, especialmente, para o Jornal Nacional, Roseana despencou nas pesquisas e acabou fora do pleito. Mais tarde, ao fim das investigações, o dinheiro foi devolvido à Lunus e se concluiu que nada tinha ocorrido de ilegal.
Avelar era, na época, procurador da República em Tocantins. De lá foi afastado no fim de 2002 pelo então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, por ter indiciado políticos com mandato, sem ter competência para legal para fazê-lo (só o procurador-geral pode decidir por esse tipo de ação). Em Mato Grosso, para onde seguiu depois, Avelar foi o comandante jurídico da Operação Curupira, conduzida pela Polícia Federal contra funcionários do Ibama e madeireiros, na qual foram presas 93 pessoas, entre elas Antônio Carlos Hummel, o diretor de florestas do Ibama. Hummel foi para Cuiabá algemado; pegou quatro noites de cadeia; foi liberado; e depois , completamente inocentado. Avelar acabou confessando ao delegado que chefiou a investigação, depois de acompanhar o depoimento oficial de Hummel, que nem sequer devia tê-lo indiciado.
No caso do atual dossiê, logo no início da denúncia contra os petistasm Avelar insinuou que o dinheiro para pagamento aos Vedoin era público. Disse, em tom de ironia:"Veja bem, estamos falando de um partido político(o PT) que tem o comando do País. Não tem mais nada... Só o País. Pode sair de onde o dinheiro?" Nodia 19 de setembro, Avelar pediu a prisão preventiva de Freud Godoy, uma espécie de segurança pessoal do Presidente Lula, que de início passou vários dias em grande destaque nos jornais como o homem que teria comandado a operação de compra do dossiê. O juiz Marcos Alves Tavares, da Segunda Vara Federal, rejeitou o pedido de prisão feito por Avelar, e, além da argumentação contra o pedido, escreveu: é "no mínimo, contraproducente que um pedido de prisão temporária seja divulgado na imprensa antes de sua análise pelo juízo". Desde a manhã circulava a informação da prisão de Freud pela internet.
Avelar voltou à carga e pediu a prisão preventiva de Bargas, Lorenzetti, Freud, Veloso, Gedimar e Valdebran, no dia 25 de setembro, às 21 horas, três horas antes, portanto, do horário a partir do qual não são mais permitidas as prisões de qualquer cidadão, a não ser em caso de flagrante delito, em virtude da realização de eleições. A juíza Adverci de Abreu autorizou as prisões e enviou a ordem para a PF, onde o mandado chegou à 1h30 da madrugada; já, portanto, fora do prazo. Alguns jornais, na linha de ataque ao PT, noticiaram a história com manchetes do tipo "salvos pela Justiça Eleitoral". Avelar comentou, reclamando de não poder continuar as investigações: "Houve um pedido de prisão. A juíza concedeu, mas não pode prender por causa do período eleitoral. Tem uma investigação. Ela vai ter de parar por causa do processo eleitoral?"

7. A investigação do procedimento de Avelar é importante por um motivo que o jornalista Walter Rodrigues, que ajudou Carta Capital na preparação dessa matéria, chama de " o modus operandi" do tipo de infração no qual o promotor pode estar se especializando. Ela pode ser definida assim:
Vive-se um período eleitoral. Procuradores e policiais estão ativos, investigando diversos tipos de delito. E começam a misturar os trabalhos que estão fazendo com suas preocupações partidárias. E aí se desviam do mandado que receberam, passando a investigar pessoas e entidades adversárias.
Isso é uma grave violação de princípios de Justiça. Como se sabe, na Idade Média, não havia mandado para investigação: não se investigavam delitos; investigavam-se pessoas. Para exemplificar o caso em tela: o mandado para a investigação de Cuiabá não era contra os Vedoin, pessoalmente. Era uma investigação de superfaturamento de ambulâncias e de suborno de parlamentares. No meio da investigação surgem os telefonemas dos arapongas do PT.

Mas do que os petistas do caso do dossiê são acusados? De comprar informações? Não, porque este não é um crime tipificado em lei. Porém, como não é a um crime, mas ao PT que se persegue, é preciso achar outro crime que os petistas tenham cometido. Depois de ouvir o presidente do PT, RicardoBerzoini, dizer que comprar dossiê não é crime, o jornal O Globo, dessa quinta, saiu exatamente à cata desses crimes. Encontrou advogados que lhe permitiram dizer: "Há duas hipóteses de o episódio vir a configurar crime. A primeira , se for comprovada a origem ilícita do dinheiro apreendido com os petistas Gedimar Passos e Valdebran Padilha. Nesse caso, os envolvidos poderiam ser processados por crime de ocultação de valor proveniente do ilícito(...) A segunda possibilidade é a de o dossiê conter falsas provas, configurando crime eleitoral de obtenção de documento material ou ideologicamente falso, para fins eleitorais".
Os petistas já foram presos, agora trata-se de achar os crimes que possam ter cometido.

Por Raimundo Rodrigues Pereira - Colaborou Antônio Carlos Queiroz
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A nova direita - Emir Sader

A nova direita (e como derrotá-la)

Órgãos de imprensa que pregaram as ditaduras militares no continente, foram seus instrumentos de divulgação, se calaram diante dos crimes com que esses regimes se afirmaram no poder, se crêem no direito de julgar que governo é democrático ou não na América Latina. Eles são o centro da nova direita.

Existe uma nova esquerda na América Latina, de
que o processo bolivariano de Hugo Chávez na Venezuela, o MAS e o governo de Evo Morales na Bolívia, o governo de Rafael Correa, a ALBA, são algumas das suas expressões mais desenvolvidas e significativas. O movimento que se agrupa em torno da candidatura de Fernando Lugo, no Paraguai, se candidata a incorporar-se a esse grupo. Há governos progressistas, que são igualmente vítimas dessa nova direita.

Sua fisionomia passa pela assunção dos valores liberais e neoliberais: livre comércio, modelo estadunidense de sociedade, elogio da empresa privada e do mercado, crítica do Estado como regulador, das políticas redistributivas, apologia da midia oligopólica como critério de liberdade e de democracia. Ataques furibundos, desqualificadores da esquerda, do socialismo, a qualquer papel regulador ao Estado, do igualitarismo, a políticas de afirmação de direitos, do Sul do mundo à América Latina em particular, dos partidos aos movimentos sociais.

Uma das catacterísticas dessa nova direita é que se apóia fortemente no monopólio privado dos meios de comunicação, que dá as pautas e a orientação ideológica. No Brasil, a Folha de São Paulo, O Globo, o Estado de São Paulo e a Veja são seus representantes mais evidentes. Todas empresas oligopólicas, de propriedade familiar, em que os filhos sucedem automaticamente aos pais na direção dos jornais, como se fossem fazendas ou heranças de casas. Todas comprometidas com o golpe militar de 1964, que destruiu a democracia e cometeu os maiores crimes contra o povo brasileiro.

Desqualificar ao que consideram governos ou candidatos que não se submeteriam a seus interesses –que podem ser um índio, um militar, uma mulher, um operário – é uma forma de defesa do seu lema fundamental: “civilização ou barbárie”, em que eles se apropriam do que consideram ser civilizado e rejeitam todos os outros como representantes da barbárie.

O instrumento mais reiterado na sua luta por impor seus interesses está na desqualificaçáo dos governos, da política, do Estado, dos partidos, de todas as formas de ação coletiva e organizada de caráter popular. Por isso apoiaram tão generalizadamente governos como os de Menem, Fujimori, FHC, entre outros, que faziam justamente isso: privatizavam para debilitar ao Estado, atacavam os movimentos sociais, desqualificavam os partidos, promoviam a dominação direta da economia sobre a política.

Comum à imprensa escrita, radial e televisiva dessa nova internacional da direita é o ataque desqualificador a governos como os de Evo Morales, de Hugo Chavez, de Rafael Correa, mas também aos de Lula, de Kirchner, com uma intolerância que beira ao golpismo. Tentam promover uma irritação, explorando expressões do tipo “basta”, “cansei” ou outras afins, que levam ao pedido de soluções autoritárias ao que seria uma crise moral, uma ferida, que deveria ser extirpada por intervenção cirúrgica – numa atualização da Doutrina de Segurança Nacional, que orientou as ditaduras do terror no continente -, que dispensaria vitória eleitoral, porque se apoiaria num sentimento de indignação supostamente majoritária da população.

Precisam de governos e parlamentos fracos, do enfraquecimento do sistema político, dos partidos, para impor os grandes interesses econômicos privados sobre o Estado.

Quando atacam aos governos, aos parlamentos eleitos pelo povo, desqualificam ao povo. Se dispõem do monopólio da mídia, tem que entender que a opinão média da população é fortemente influenciada pela mídia. Ou são incompetentes ou o povo não aceita a influência de seus programas informativos totalmente partidarizados, de seus comentaristas e programas de entrevistas que refletem suas visões elitistas do país, da sua programação – esta sim – populista, de baixissimo nível cultural e e educativo.

São minoritários, como eram – segundo as pesquisas de opinião só reveladas recentemente – no clima prévio ao golpe de 1964, em que estiverem envolvidos todos esses meios de comunicação. São minoritários, segundo a maior pesquisa nacional e a mais direta, que envolve não uma amostra, mas a totalidade dos cidadãos – a eleição presidencial feita há 8 meses.

No entanto, dá a impressão que nada disso aconteceu, nem que o povo se pronunciou contra a oposição, nem que o governo venceu. Que lições o governo tirou do longo processo de campanha opositora, que o desestabilizou profundamente, que quase levou a seu final, mas que terminou com uma recuperação eleitoral e com a reeleição de Lula?

A primeira lição deveria ser a de que, quando Lula assumiu uma atitude concreta de denunciar a direita e suas políticas – em que as privatizações estiveram no centro -, conseguiu o apoio popular que lhe delegou este segundo mandato. Ele soube reconhecer – ainda que contraditoriamente – ao dizer no discurso da vitória de que o seu é um governo para os pobres.

Contraditoriamente porque reconheceu que, paradoxalmente, nunca os ricos ganharam tanto. Se a economia cresceu pouco – e segue assim -, setores médios perderam para que os pobres ganhassem, ao invés da penalização dos mais ricos.

A segunda é a de que a nova direita, o centro da oposição, está no monopólio privado da mídia, cuja persistência impede a possibilidade de formação democrática da opinião pública. Que, sem democratização da mídia, não haverá democracia.

Em terceiro lugar, que foram principalmente as políticas de democratização social as que responderam pela vitória do governo e pela derrota da oposição. Mas essas imensas camadas populares estão submetidas a influência ideológica da maciça campanha da oposição atraves da mídia. Além de que esses setores populares majoritários não estão organizados, não tem condições de expressar politicamente sua opinião, nem de defender suas conquistas, caso atentem contra elas. A organização destes setores é responsabilidade fundamental do PT e do governo, se a esquerda quer evitar retrocessos e, ao contrário, consolidar os avanços e construir um Brasil pós-neoliberal.

Para isso é indispensável dar continuidade à vitória de novembro de 2006 e, ao contrário do que tem sido a atitude principal do governo até aqui, apontar os adversários fundamentais da democratização econômica, social, política e cultural, lutar contra eles e construir a força popular, política e ideológica para derrotar a direita e afirmar a hegemonia da esquerda.


Postado por Emir Sader às 09:16
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Tropa de Elite

DEBATE ABERTO

A Tropa Púrpura do Rio

Quando, fascinado pela trama de "Tropa de Elite", o governador fluminense Sérgio Cabral Filho (PMDB), entra na tela e dela sai de braços dados com o capitão Nascimento, ficção e vida real se fundem na lógica fria de uma visão belicista de segurança pública.

(Se torturo um inimigo, seja em nome do que for, perco a razão que me faz guerreá-lo, uma vez que qualquer razão para poder subsistir, tem que se erigir sobre um fundamento ético que a precede- e a sustenta- Hélio Pellegrino)

Quando o astro principal de "A Rosa Púrpura do Cairo", a maravilhosa fábula de Woody Allen, sai da tela para conhecer a garçonete Cecília, vivida por Mia Farrow, fantasia e realidade são magistralmente capturadas pela magia do cinema.

Quando, fascinado pela trama de "Tropa de Elite", o governador fluminense Sérgio Cabral Filho (PMDB), entra na tela e dela sai de braços dados com o capitão Nascimento, ficção e vida real se fundem na lógica fria de uma visão belicista de segurança pública. Uma opção que muito revela sobre as condições que presidem o funcionamento de uma sociedade desde sempre fracionada.

Se o filme americano evoca vida, ilusão e esperança, a produção brasileira amplifica o apoio que ações mais violentas de combate ao crime têm na classe média brasileira. A garçonete faz parte de um roteiro de lirismo. O governador incorpora as subtramas do fascismo nativo. Ambos têm algo em comum: são intensos em suas escolhas. Delas não sairão incólumes. Não importa se enredo e técnicas sejam totalmente distintos.

O confronto como tentativa de erradicação da criminalidade, descontextualizada das graves causas sociais que a produzem, é procedimento ideológico destinado a encobrir o privilégio delinqüente e a culpa das classes dominantes. É a reiteração de que barbárie se combate com barbárie e que eficiência repressiva só é possível desrespeitando a lei e ignorando direitos humanos.

Não há nada de novo na terra em transe, salvo a glamourização da política do extermínio. As cenas de policiais em um helicóptero matando dois supostos traficantes que fugiam de uma operação na Favela da Coréia, realizada em 17/10, representam muito mais que um flagrante assustador: é o registro, como espetáculo, da execução sumária. O uso do Poder Público como simulacro de videogame. Uma ação "tolerável" por ter acontecido em um "não-lugar". A versão oficial, não pirateada, da continuação do filme em Senador Câmara, subúrbio do Rio de Janeiro. A morte imita a arte para deleite do governador e seu novo lugar-tenente.

Como já destacamos em artigo publicado em Carta Maior (O terror dos inocentes), “a tragédia da segurança pública é a tragédia de um Estado que, por nunca ter sido plenamente democrático e de direito, falhou no combate ao crime na mesma medida em que foi incapaz de implementar políticas públicas de inclusão".

A política adotada na gestão de Sérgio Cabral, tal como a de governos anteriores, tem tanto impacto na mídia quanto pouca eficácia. A visibilidade é inversamente proporcional ao alto custo humano.Só se combaterá o tráfico quando o acesso à justiça for garantido pelo Estado. Enquanto questões centrais tais como regulamentação do uso do solo; urbanização ; saúde; lazer e cultura não forem sequer tangenciadas, o enfrentamento armado só aguçará a violência e o protesto perverso.

Mas a "bopização" de Cabral não parou por aí. Para o governador, seguindo a tese do livro "Freakonomics ,"o aborto de mulheres pobres pode ser um excelente remédio contra a violência" Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal" Nunca foi tão explícito o local de combate ao tráfico: no útero. A invasão tem mais chance de êxito. Pouco importa se as estatísticas oficiais não lhe dêem amparo. O imaginário da classe média endossa suas afirmações.

Se o levantamento da Fundação Getúlio Vargas indica que a maioria de usuários no Brasil tem renda superior a R$9,5 mil, o que fazer com a "Suécia" cheiradora? Reproduzir o “não procriem" dos cartazes de protesto de universitários que marcaram o casamento dos filhos de políticos influentes do Rio,? Ou dispensar tratamento diferenciado?

Como pouco, ou nada, se sabe da filmografia da Zâmbia, talvez o governador deva assistir a um belo filme sueco: Em "O Sétimo Selo", Antonius Block se nega a morrer enquanto não entender o sentido da vida. Consegue um trato. Enquanto conseguir contê-la em um jogo de xadrez, a morte o poupará. Como adaptar o jogo aos moradores da "Zâmbia" se no tabuleiro repressivo o Rei é o caveirão? Bergman cede o lugar a Padilha.

Mas não há motivos para Cabral rever posições. Quando um personagem de filme, assassino e torturador,ascende ao panteão de heróis populares, não há por que mudar de rota. Os moradores da Suécia aprovam a tortura e execução dos zambianos. Só lhe pedem um favor: que poupe os serviçais. Sem problemas, para o governador do Rio de Janeiro missão dada é missão cumprida.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.


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Sobre o Irã

E o Irã?*

Uri Avnery

UM RESPEITADO jornal norte-americano publicou um furo de reportagem, esta semana: o vice-presidente Dick Cheney, o Rei dos Falcões, arquitetou um esquema maquiavélico para atacar o Irã. Ponto principal do esquema: Israel bombardeará uma instalação nuclear iraniana; o Irã responderá com mísseis contra Israel, e aí estará o pretexto para que os americanos ataquem o Irã.

Fantasioso? Nada disto. É muito parecido com o que aconteceu em 1956. Então, França, Israel e a Grã-Bretanha planejaram secretamente atacar o Egito, para derrubar Gamal Abd-al-Nasser ("troca de regime" no jargão de hoje.) Combinaram que pára-quedistas israelenses saltariam perto do Canal de Suez, e que o conflito gerado por esse ato seria o pretexto para que franceses e britânicos ocupassem a área do canal, para “garantir a segurança” do tráfego de navios. Esse plano foi executado (e fracassou miseravelmente) .

O que nos aconteceria, se concordássemos com o plano de Cheney? Nossos pilotos arriscariam a vida para bombardear as instalações iranianas, fortemente defendidas. Depois, choveriam mísseis iranianos sobre nossas cidades. Haveria centenas, talvez milhares de mortos. Tudo isso, para criar um pretexto para que os americanos entrassem em guerra.

Esse pretexto faria algum sentido? Em outras palavras, os EUA são obrigados a entrar em guerra, ao nosso lado, numa guerra causada por nós? Na teoria, a resposta é sim. Os acordos atualmente vigentes entre EUA e Israel obrigam os EUA a socorrer Israel em caso de guerra – seja quem for que comece a guerra.

A notícia que vazou terá algum fundamento? Difícil saber. Mas o vazamento reforça a suspeita de que um ataque ao Irã está mais próximo do que se supõe.

BUSH, Cheney & Co. planejam atacar o Irã?

Não sei, mas a minha suspeita de que sim, eles podem estar pensando nisso, está aumentando.

Por quê? Porque o mandato de George Bush está chegando ao fim. Se as coisas não mudarem muito, Bush será lembrado como péssimo presidente – talvez o pior nos anais da República. O governo Bush começou com a catástrofe das Torres Gêmeas, que nada acrescentou ao prestígio das agências de inteligência; e terminaria com o fiasco no Iraque.

Resta-lhe apenas um ano para fazer alguma coisa que impressione e que salve seu nome para os livros de História. Em situações semelhantes, os líderes tendem a procurar aventuras militares. Se se consideram alguns comprovados traços humanos, de caráter, a opção pela guerra torna-se realmente assustadora.

É verdade, sim, que o exército norte-americano está encalacrado no Iraque e no Afeganistão. Nem Bush e Cheney sequer sonhariam, hoje, com invadir um país quatro vezes maior que o Iraque, com o triplo da população.

Mas é muito provável que os arautos da guerra estejam soprando nos ouvidos de Bush: Por que se preocupar? Não é preciso invadir. Basta bombardear o Irã, como bombardeamos a Sérvia e o Afeganistão. Usaremos bombas inteligentes e os mísseis mais sofisticados, contra dois mil alvos, mais ou menos, para destruir não apenas as instalações nucleares do Irã, mas também instalações militares e a administração do Estado. "Vamos devolvê-los à idade da pedra”, como disse um general norte-americano sobre o Vietnã. Ou “atrasaremos 20 anos os relógios deles”, como disse o general Dan Halutz, da Força Aérea israelense, sobre o Líbano.

A idéia é tentadora. Os EUA só teriam de usar sua poderosa Air Force, mísseis de todos os tipos e os gigantescos porta-aviões, que já foram deslocados para o Golfo Persa/Árabe. Toda essa força pode ser rapidamente posta em ação, a qualquer momento. Para um presidente fracassado, cujo mandato aproxima-se do fim, a idéia de uma guerra fácil, curta, pode ser imensamente atraente. E o mesmo presidente já mostrou o quanto lhe é difícil resistir a tentações deste tipo.

SERÁ MESMO uma operação tão fácil, "piece of cake", na gíria norte-americana?

Duvido.

Por mais ‘inteligentes’ que sejam, bombas matam. Os iranianos são orgulhosos, resolutos e estão altamente motivados. Já disseram que, em dois mil anos, jamais atacaram qualquer país, mas que, nos oito anos da guerra Irã-Iraque, comprovaram amplamente a determinação de defenderem-se quando atacados.

A primeira reação dos iranianos contra um ataque norte-americano será fechar o Estreito de Hormuz, porta de entrada para o Golfo. Com isso, será cortado o suprimento de petróleo para grande parte do mundo – o que causará crise econômica sem precedentes. Para reabrir o Estreito (supondo que seja possível), o exército dos EUA terá de conquistar e manter sob seu domínio grandes áreas do território iraniano.

A guerra curta e fácil transformar- se-á em longa e duríssima. O que significa isto para nós, em Israel?

Ninguém duvida de que, se for atacado, o Irã responderá, como já avisou: bombardeará Israel com foguetes que já estão em preparação para esse específico alvo. Não chegam a ameaçar a existência de Israel, mas não será agradável.

Se os ataques norte-americanos transformarem- se em longa guerra de atrito (ou “guerra de desgaste”), e se o público norte-americano passar a vê-la como um desastre (como está acontecendo hoje, na aventura do Iraque), não faltará quem culpe Israel. Não é segredo que o lobby pró-Israel e aliados – neoconservadores (a maioria dos quais são judeus) e os Cristãos Sionistas – tentam empurrar os EUA para esta guerra, como já empurraram para a guerra ao Iraque. Na política israelense, os ganhos esperados dessa guerra podem converter-se em perdas enormes – não só para Israel, mas também para a comunidade dos judeus norte-americanos.

Se o presidente Mahmoud Ahmadinejad não existisse, seria inventado pelo governo de Israel.

Ahmadinejad é tudo que se pode desejar, como inimigo. Fala demais. Vangloria-se. Gosta de provocar escândalo. Nega o Holocausto. Profetiza que Israel “será varrido do mapa” (embora jamais tenha dito, como noticiou-se, que ele varreria Israel do mapa.)

Esta semana, o lobby pró-Israel organizou grandes manifestações contra a visita de Ahmadinejad a Nova Iorque. As manifestações foram enorme sucesso – para ele, que realizou o sonho de ser o centro das atenções em todo o mundo. Deram-lhe oportunidade para repetir seus argumentos contra Israel – alguns ofensivos, alguns válidos – para audiências planetárias.

Mas Ahmadinejad não é o Irã. É verdade, sim, que foi eleito em eleições populares, mas o Irã é como os partidos ortodoxos em Israel: os políticos não contam; o que conta são os rabinos. Os líderes religiosos xiitas tomam as decisões e comandam as forças armadas, não são de falar demais, não se vangloriam nem gostam de escândalo. Sabem ser cautelosos.

Se o Irã estivesse tão empenhado em construir uma bomba nuclear, estaria trabalhando em total segredo, sob total sigilo (como Israel fez). Ahmadinejad e sua fala de falastrão prejudicariam esse projeto, mais do que qualquer inimigo do Irã.

Não é confortável pensar em uma bomba atômica em mãos iranianas (nem em quaisquer outras mãos). Deve-se impedir que isso chegue a acontecer, por negociação e/ou por sanções. Mas ainda que aconteça, não será o fim do mundo nem será o fim de Israel. Nessa área, mais do que em todas as outras, Israel tem imenso poder de defesa e retaliação. Nem Ahmadinejad arriscará uma troca de rainhas – a destruição do Irã em troca da destruição de Israel.

NAPOLEÃO DISSE que, para entender a política de um país, basta examinar o mapa.

Se examinamos o mapa, vemos que não há razão objetiva para guerra entre Israel e Irã. Ao contrário: por muito tempo acreditou-se, em Jerusalém, que os dois países fossem aliados naturais.

David Ben-Gurion pregou uma "aliança da periferia". Estava convencido de que todo o mundo árabe era inimigo natural de Israel, e que, portanto, devia-se buscar aliados nas franjas do mundo árabe – Turquia, Irã, Etiópia, Chad etc. (Também buscou aliados no mundo árabe – comunidades não sunitas-árabes, como os maronitas, os coptas, os curdos, os xiitas e outros.)

No tempo do Xá, houve estreitas conexões entre Irã e Israel, umas positivas, outras negativas, outras muito sinistras. O Xá ajudou a construir um oleoduto de Eilat até Askelon, para transportar o petróleo iraniano até o Mediterrâneo, ultrapassando o Canal de Suez. O serviço secreto de Israel (Shabak) treinou os agentes iranianos (Savak). Israelenses e iranianos atuaram juntos no Curdistão iraquiano, auxiliando os curdos contra os opressores sunitas-árabes.

A revolução de Khomeini, no início, não desfez essa aliança, que se tornou clandestina. Durante a guerra Irã-Iraque, Israel forneceu armas ao Irã, baseado na idéia de qualquer um que combata árabes seria nosso amigo. Ao mesmo tempo, os norte-americanos forneceram armas a Saddam Hussein – um dos raros momentos de clara divergência entre Washington e Jerusalém. A divergência foi superada no caso dos Contras, no Irã, quando os norte-americanos ajudaram Israel a vender armas aos aiatolás.

Hoje, os dois países estão separados por uma guerra ideológica, mas que é lutada principalmente no plano retórico e demagógico. Arrisco-me a dizer que Ahmadinejad não dá um figo pelo conflito Israel-Palestina, que usa apenas para conquistar simpatias no mundo árabe. Se eu fosse palestino, não confiaria nele. Mais dia menos dia, a geografia falará mais alto, e as relações Israel-Irã voltarão ao que foram – esperemos que sobre bases muito mais positivas.

UMA COISA posso prever com certeza: quem pregar a guerra contra o Irã, logo lamentará o que fez.

Há aventuras nas quais se entra com facilidade e das quais não se sai facilmente. O último a descobrir isso foi Saddam Hussein.

Saddam pensou que atacar o Irã seria um passeio – afinal, Khomeini havia matado quase todos os oficiais e, sobretudo, os pilotos do exército do Xá. Supôs que bastaria um ataque rápido, para que o Irã entrasse em colapso. Depois, lamentou oito anos de guerra.

Ambos, nós e os norte-americanos, corremos o risco de descobrir, mais depressa do que supomos, que a lama do Iraque é creme Chantilly, comparada ao concreto armado iraniano.


* COPYLEFT. So What About Iran? (Em http://zope. gush-shalom. org/home/ en/channels/ avnery/119103441 5/, tradução de Caia Fittipaldi
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DOIS CAVALEIROS E UM DRAGÃO

DOIS CAVALEIROS E UM DRAGÃO*

Uri Avnery


HÁ LIVROS que mudam a consciência das pessoas e mudam a história. Alguns, como “A Cabana do Pai Tomás”, de Harriet Beech Stowe, de 1851, deram ímpeto à campanha pelo fim da escravidão. Outros são tratados políticos, como “O Estado Judeu”, 1896, de Theodor Herzl, que deu origem ao movimento sionista. Ou são livros científicos, como “A origem das espécies”, de Charles Darwin, que mudou o modo como vemos a humanidade. E há até sátiras políticas, como "1984", de George Orwell, que também sacudiram o mundo.

O impacto desses livros foi ampliado pelo momento em que surgiram. Surgiram na hora certa, quando grandes públicos estavam prontos para absorver-lhes a mensagem.

É bem possível que "The Israel Lobby and US Foreign Policy" ["O lobby de Israel e a política externa dos EUA”, março de 2006], dos professores John Mearsheimer e Stephen Walt, seja mais um desses livros. São 355 páginas de um frio relatório científico de pesquisa, mais 106 páginas de bibliografia e fontes.

Não é livro de combate. Ao contrário, o estilo é contido e factual. Os autores evitam cuidadosamente qualquer comentário negativo sobre a legitimidade do lobby e, de fato, voltam ao passado para acentuar o apoio que o mesmo lobby deu à criação e à segurança de Israel. Os fatos são apresentados e falam por eles mesmos. Como pedreiros experientes, os autores vão assentando tijolo sobre tijolo, sistematicamente, passo a passo, sem deixar brechas na argumentação.

A parede assim construída não pode ser demolida por argumentos. Ninguém tentou demoli-la e ninguém tentará. Em vez disso, os autores estão sendo atacados, acusados de se deixarem levar por motivos sinistros. Se fosse possível ignorar o livro, ele teria sido ignorado – como tantos outros livros que foram enterrados vivos.

(Há alguns anos, surgiu na Rússia um livro enorme, de Aleksandr Solzhenitsyn, autor mundialmente conhecido, Prêmio Nobel de literatura, sobre a Rússia e os judeus russos. Esse livro – "200 Years Together" [200 anos juntos] – foi completamente ignorado. Que eu saiba, jamais foi traduzido para língua alguma e com certeza não foi traduzido para o hebraico. Consultei vários intelectuais israelenses e nenhum jamais ouvira falar desse livro; não está à venda pela Amazon.com, que oferece todos os demais trabalhos do mesmo autor.)

OS DOIS professores, John Mearsheimer e Stephen Walt, pegaram o touro pelos chifres. Tratam de um tema que é tabu absoluto nos EUA, que ninguém em seu perfeito juízo jamais mencionará: a enorme influência do lobby pró-Israel na política externa norte-americana.

Sistematicamente, sem culpas ou remorsos, o livro disseca o lobby, mostra como opera, expõe as fontes financeiras e desnuda as relações que o ligam à Casa Branca, às duas casas do Congresso, aos líderes dos dois principais partidos e aos capitães da mídia.

Os autores não questionam a legitimidade do lobby. Ao contrário, mostram que centenas de outros lobbies desempenham papel essencial na democracia norte-americana. O lobby da indústria de armas ou da indústria farmacêutica, por exemplo, são forças políticas poderosíssimas. Mas o lobby pró-Israel cresceu desproporcionalmente, e hoje tem incomparável poder político. É suficientemente poderoso para silenciar qualquer crítica a Israel no Congresso e na imprensa, o que implica 'demissão' política de quem se atreva a quebrar o tabu, e impede que prospere qualquer ação que não coincida com o desejo do governo de Israel.

Na segunda parte, o livro mostra como o lobby usa todo esse imenso poder: como tem evitado qualquer pressão sobre Israel para que faça a paz com os palestinos, como empurrou os EUA para invadir o Iraque, como está empurrando os EUA, agora, para a guerra contra o Irã e a Síria, como apoiou os líderes israelenses na recente guerra no Líbano e fez calar todas as vozes que pediam o cessar-fogo, quando o cessar-fogo não interessava ao lobby.

Cada afirmativa aparece comprovada por evidências indiscutíveis, provas escritas (a maioria delas de fontes israelenses) que ninguém pode ignorar.

A MAIOR PARTE dessas informações nada têm de novidade para quem lida com esses temas em Israel.

Eu mesmo poderia acrescentar ao livro um capítulo inteiro, só com minha experiência pessoal.

No final dos anos 50, visitei os EUA pela primeira vez. Viajei a convite de uma grande estação de rádio, para ser entrevistado. Avisaram-me: “Você pode criticar o presidente (Dwight D. Eisenhower) e o secretário de Estado (John Foster Dulles) o quanto quiser, mas, por favor, não critique os líderes de Israel!" No último momento, a entrevista foi cancelada, e convidaram, em meu lugar, o embaixador do Iraque. Pelo visto, tolerariam críticas vindas de um árabe, mas nunca, de modo algum, vindas de um israelense.

Em 1970, o respeitado "Fellowship of Reconciliation" convidou-me para palestras em 30 universidades, patrocinadas pelos rabinos Hillel. Ao chegar a Nova Iorque, fui informado de que 29 palestras haviam sido canceladas. O único rabino que não cancelou o convite, Balfour Brickner, mostrou-me um comunicado secreto da “Liga anti-difamação” ["Anti-Defamation League"] que proibia minhas palestras. Dizia: "Embora Avnery, membro do Knesset, não possa ser considerado traidor, sua fala, nesse momento, dividiria gravemente as opiniões…" Afinal, fiz as 30 palestras, patrocinadas por bispos cristãos.

Lembro especialmente uma experiência triste em Baltimore. Um bom judeu, que se oferecera para me hospedar, ficou furioso por a palestra ter sido cancelada em sua cidade e insistia em mantê-la. Percorremos uma a uma as ruas dos bairros judeus – visitamos todos os estabelecimentos com placas com nomes judeus – e não encontramos uma única sala cujo gerente aceitasse oferecer o espaço para uma palestra de um membro do Knesset israelense. No final, a palestra aconteceu no subsolo do prédio onde eu estava hospedado – e apareceram funcionários da comunidade judaica, para protestar.

Naquele ano, durante o Setembro Negro, dei uma entrevista coletiva à imprensa, em Washington, sob os auspícios dos Quakers. Pareceu um sucesso. Os jornalistas saiam, naquele instante, de uma coletiva com a primeira ministra Golda Meir, e houve muitas perguntas. Estavam representados todos os principais jornais, redes de televisão e de rádio. A coletiva estava prevista para durar uma hora, mas as perguntam não paravam, e foi-se uma hora e meia. No dia seguinte, não publicaram coisa alguma, nem uma linha. 31 anos depois, em outubro de 2001, outra coletiva no Capitólio, em Washington, e a coisa repetiu-se: toda a mídia compareceu, encheram-me de perguntas por mais uma hora – e não publicaram coisa alguma.

Em 1968, uma muito respeitada empresa editora norte-americana (Macmillan) lançou um dos meus livros, "Israel Without Zionists", depois traduzido para oito línguas. O livro mostrava o conflito árabe-israelense de outro ângulo muito diferente e propunha que se estabelecesse um Estado palestino junto a Israel – idéia revolucionária àquela época. Nenhuma resenha apareceu na mídia norte-americana. Numa das principais livrarias de Nova Iorque, não vi o livro. Perguntei a um vendedor e ele encontrou-o soterrado sob uma pilha de outros títulos e o pôs à vista. Meia hora mais tarde, o livro fora novamente escondido.

Nesse livro, discutia-se a solução “Dois Estados para Dois Povos” muito antes de ela ser consensual em todo o mundo, e apresentava-se minha proposta de integrar-se Israel na “Região Semita”. É verdade, sou patriota israelense e fui eleito para o Knesset por eleitores israelenses. Mas critiquei o governo de Israel – e foi o suficiente.

O LIVRO dos dois professores, que critica o governo de Israel de outro ponto de vista, não pode continuar soterrado. Só o soterramento do livro, nesse caso, equivale a vários volumes de informação e argumentos.

O livro nasceu de um ensaio assinado pelos professores Mearsheimer e Walt, publicado ano passado num jornal britânico, depois de rejeitado por vários periódicos norte-americanos que não se atreveram a tocar no assunto. Agora, uma respeitada editora norte-americana põe o livro à venda – sinal de que alguma coisa está mudando. A situação está inalterada, mas parece que, afinal, se começa a poder falar sobre ela.

Tudo depende da oportunidade, do timing; parece que os tempos estão maduros para esse livro, que chocará muitos bons norte-americanos. No momento, o livro provoca muito alarido.

Claro que os dois professores têm sido acusados de anti-semitismo, racismo e ódio a Israel. Que Israel? Quem odeia grande parte de Israel é o lobby. Em tempos recentes, o lobby caminha cada vez mais para a direita. Alguns dos grupos que o compõem – como os neoconservadores que arrastaram os EUA para a guerra do Iraque – estão abertamente associados à direita do Likud e especialmente a Binyamin Netanyahu. Os bilionários que financiam o lobby são os mesmos que financiam a extrema direita em Israel e quase todos os colonos.

Os grupos de judeus nos EUA que apóiam os movimentos israelenses pela paz, grupos pequenos e determinados, são incansavelmente perseguidos. Poucos mantêm-se ativos por muito tempo. Militantes dos grupos israelenses pela paz que visitam os EUA são boicotados e estigmatizados como “judeus que se auto-odeiam”.

As idéias políticas dos dois professores, brevemente explicitadas no final do livro, são idênticas às idéias das forças que lutam pela paz em Israel: pela solução dos Dois Estados; pelo fim da ocupação; pela volta das fronteiras à Linha Verde; e busca de apoio internacional para que se faça a paz.

Se isso é anti-semitismo, então somos todos anti-semitas. E só os Cristãos Sionistas – que abertamente pregam a volta dos judeus ao seu país, mas secretamente profetizam que todos os não convertidos serão aniquilados na Segunda Vinda do Messias – são os verdadeiros Amantes de Sião.

AINDA que não se possa publicar nos EUA sequer uma linha contra o lobby pró-Israel, o lobby não é uma sociedade secreta, sempre conspirando, como nos “Protocolos dos Sábios de Sião”. Ao contrário: o Comitê de Assuntos Públicos Norte-americanos-Israelenses” (American Israel Public Affairs Committee, AIPAC), a Liga Anti-difamação, a Federação Sionista e outras organizações semelhantes vociferam muito e muito autopropagandeiam seus inacreditáveis sucessos.

Como é normal, os vários grupos que formam o lobby pró-Israel competem uns contra os outros – quem tem mais influência na Casa Branca?, quem intimida mais senadores?, quem controla maior número de jornalistas e colunistas?. Essa competição provoca escalada constante no tom da discussão e nos atos, porque cada sucesso de um grupo obriga os demais a redobrarem os próprios esforços.

Tudo isso pode ser muito perigoso. Um balão que está sendo inflado, que atinge proporções assustadoras e que pode, a qualquer momento, explodir no rosto dos judeus norte-americanos (os quais, aliás, conforme pesquisas recentes, discordam de muitas das idéias disseminadas pelo lobby que diz falar em nome deles).

A maioria do público norte-americano opõe-se à guerra no Iraque a qual, para muitos, é um desastre. Essa maioria ainda não associou essa guerra e a ação do lobby pró-Israel. Nenhum jornal e nenhum político atreve-se a falar sobre essa conexão – pelo menos, até o presente. Mas, se se quebrar esse tabu, o resultado pode ser muito perigoso para os judeus e para Israel.

Sob a superfície, acumula-se muito ódio ao lobby. Os candidatos à presidência, forçados a ajoelhar-se aos pés do AIPAC, os senadores e deputados que o lobby já escravizou, a imprensa impedida de escrever sobre o que ela conhece bem – todos esses grupos detestam secretamente o lobby pró-Israel. Se esse ódio explodir, poderá também nos ferir.

O lobby tornou-se um Golem. Como o Golem da lenda, trará desastre, ao final, para quem o criou.

PERMITAM-ME apresentar também a minha crítica:

Quando da publicação do artigo original dos professores John Mearsheimer e Stephen Walt, comentei que “a cauda está balançando o cachorro e o cachorro está balançando a cauda”. A cauda, é claro, é Israel.

Os dois professores confirmam a primeira parte da equação, mas negam enfaticamente a segunda. A tese central do livro é que, por pressão do lobby, os EUA agem contra seus próprios interesses (e, no longo prazo, também contra os verdadeiros interesses de Israel.) Os autores não aceitam meu argumento, citado no livro, de que Israel atua no Líbano como "Rottweiler dos EUA" (contra o Hizbullah, que é o "Doberman do Irã").

Concordo que os EUA estejam agindo contra seus reais interesses (e contra os reais interesses de Israel) – mas os líderes norte-americanos não pensam assim. Bush e seu pessoal crêem – mesmo sem o reforço do lobby – que é vantajoso para os EUA estabelecer presença militar constante no centro dessa região de imensas reservas de petróleo. Em minha opinião, esse ato contra-produtivo foi um dos principais objetivos da guerra, além do desejo de eliminar um dos mais ameaçadores inimigos de Israel. Infelizmente, o livro discute apenas superficialmente essa questão.

Essa observação em nada diminui minha profunda admiração pelas qualidades intelectuais, pela integridade e pela coragem de Mearsheimer e Walt, dois cavaleiros que, como São Jorge, avançam para enfrentar um dragão assustador.

* COPYLEFT. Original em inglês em http://zope.gush-shalom.org/index_en.html

Tradução de Caia Fittipaldi.
Publicação autorizada pelo autor e pela tradutora. posted by bourdoukan at 05:40:00
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Mundos Perdidos” - Dos ‘Think Tanks’ aos Tanques de Guerra

>“Mundos Perdidos” - Dos ‘Think Tanks’ aos Tanques de Guerra, por Naomi Klein

Por Naomi Klein
Fonte: DemocracyNow 15 de agosto de 2007
Mais informações no site: NaomiKlein.org
Tradução: Agência Imediata
Amy Goodman:
“Um Outro Mundo É Possível?” Esse foi o tema da Reunião Anual da American Sociological Association que ocorreu em Nova York no último fim de semana. “Não perdemos as batalhas das idéias. Não fomos superados em inteligência e nossos argumentos não se tornaram obsoletos”, afirmou a jornalista e escritora Naomi Klein. “Perdemos porque fomos esmagados. Às vezes fomos esmagados por tanques do exército, e às vezes fomos esmagados pelos think tanks (N.doT.: centros de produção de idéias). E com a expressão think tanks eu quero dizer as pessoas que são pagas para pensar por aqueles que produzem os tanques ou carros blindados”.
Klein é a autora do livro que sairá em breve: “The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism” (A Doutrina de Choque: o Avanço do Capitalismo de Desastre”)
O Departamento de Estado está sendo criticado nesta semana por ter recusado a permissão de entrada aos EUA de um famoso cientista social sul-africano. Adam Habib devia falar na reunião anual da American Sociological Association em Nova York no último fim se semana, mas o governo lhe recusou o visto.
Ironicamente, o tema da conferência deste ano era “Um Outro Mundo É Possível?” Na conferência, a ASA planejou uma série de sessões para avaliar o potencial de mudaça social progressista tanto nos EUA quanto no mundo, e convidar para uma discussão séria sobre a “globalização econômica” e suas conseqüências.
Uma das sessões mais aguardadas era a que apresentaria Jeffrey Sachs, economista de fama internacional e ex-conselheiro especial junto à ONU, sob o secretário-geral da ONU Kofi Annan, juntamente com Naomi Klein, a jornalista e autora canadense. Logo depois da abertura da conferência, Sachs se retirou. Não ficou claro se o motivo de sua retirada estava relacionado ao fato de que Naomi Klein o questiona em seu livro prestes a sair: “A Doutrina de Choque: o Avanço do Capitalismo do Desastre”. O tema da palestra dela foi “Lost Worlds” (“Mundos Perdidos”).
Naomi Klein , autora e jornalista. Seu novo livro, prestes a ser lançado: “A Doutrina de Choque: o Avanço do Capitalismo do Desastre”. Mais informações no site NaomiKlein.org .
NAOMI KLEIN: Enquanto pensamos em como alcançar esse outro mundo possível, quero deixar bem claro que eu não acredito que o problema seja a falta de idéias. Acho que estamos nadando em idéias: saúde universal; salários decentes; cooperativas; democracia participativa, serviços responsáveis para com as pessoas que os utilizam; alimentos, remédios e habitação como um direito humano. Essas não são idéias novas. Estão conservadas como relíquias na Carta da ONU. E acho que a maioria de nós ainda acredita nelas.
Não creio que nossos problemas sejam dinheiro ou falta de recursos para agir no que toca a essas idéias básicas. Agora, sob o risco de ser acusada de populismo econômico, gostaria de salientar que aqui em Nova York, os funcionários da Goldman Sachs receberam mais de US$ 16 bilhões de bônus de Natal, no ano passado, e que a ExxonMobil ganhou US$ 40 bilhões em lucros anuais, um recorde mundial. Parece-me que há, claramente, dinheiro suficiente espirrando por todos os lados para pagar pelos nossos modestos sonhos. Podemos taxar os poluidores e os capitalistas de cassino para pagar pelo desenvolvimento de energias alternativas e por uma rede de segurança social global. Não são as idéias que nos faltam. Nem o dinheiro.
E, ao contrário de Jeffrey Sachs, eu, na realidade, não acredito que o que esteja faltando seja a vontade política nos níveis mais altos, uma cooperação entre os líderes mundiais. Não acho que se pudéssemos mostrar às nossas elites os gráficos certos e as apresentações em PowerPoint – sem ofensa – então, finalmente, acabaríamos podendo convencê-las de tornar a pobreza uma coisa do passado. Não acredito nisso. Não acredito que poderíamos fazê-lo, mesmo que nossa apresentação em PowerPoint fosse feita pela Angelina Jolie usando um (produto) camiseta Red TM da Gap e que ela estivesse carregando um (produto) telefone celular Red. Mesmo que ela tivesse um (produto) iPhone Red, acho que mesmo com tudo isso as elites não escutariam. Isso porque as elites não fazem justiça só porque lhes pedimos para fazer justiça, com bons modos e de maneira agradável. Elas só fazem justiça quando a alternativa à justiça é pior. E é isso que aconteceu naqueles anos do passado, quando o abismo de renda tinha começado a fechar. Essa era a motivação por trás do New Deal e do Plano Marshall. O comunismo se espalhando pelo mundo. Esse era o medo. O capitalismo precisava se embelezar. Precisava aparar suas arestas. Estava competindo. Assim, as idéias não são o problema, o dinheiro não é o problema, e não acho que a determinação política seja nunca o problema.
O problema real, sobre o qual gostaria de falar hoje, é a confiança, a nosssa confiança, a confiança das pessoas que se reúnem em eventos como esse, sob o lema de construir um outro mundo, um mundo mais gentil e sustentável. Acho que nos falta a força de nossas convicções, a coragem de apoiar nossas idéias com músculo suficiente para assustar nossas elites. Está nos faltando poder de movimento. Isso é o que nos está faltando. “Aos melhores faltavam todas as convicções”, escreveu Yeats, “enquanto os piores estão cheios de intensidade em suas paixões”. Pensem nisso. Vocês querem enfrentar a mudança climática com a mesma intensidade que Dick Cheney quer o petróleo do Cazaquistão? Querem? Vocês querem a cobertura de saúde universal tanto quanto a Paris Hilton quer ser a nova cara da Estee Lauder? Se não, por que não? O que há de errado na gente? Onde está nossa intensidade de paixão?
O que está na raiz de nossa crise de confiança? O que nos drena nossa convicção em momentos cruciais nos quais somos testados? Na raiz, acho que está a noção de que nós aceitamos o que nos dizem, que nossas idéias já foram tentadas e não deram certo. Parte do que nos impede de construir as alternativas que merecemos e aguardamos e que o mundo está precisando tão desesperadamente, como um sistema de saúde que não nos deixe doentes quando o vemos retratado em filme, como a habilidade de reconstruir Nova Orleans sem tratar a imensa tragédia humana como uma oportunidade de lucros rápidos para empreendedores politicamente conectados, ou o direito de ter pontes que não desabem e metrôs que não se alaguem quando chove. Acho que o que está na raiz dessa falta de confiança é que nos dizem incansavelmente que as idéias progressistas já foram tentadas e que falharam. Ouvimos isso tanto que acabamos aceitando. Assim, nossas alternativas são colocadas de um modo tentativo, quase pedindo desculpas por qualquer coisa. “Um outro mundo é possível?” perguntamos.
Essa idéia de nosso fracasso intelectual e ideológico é a narrativa dominante de nosso tempo. Está incrustrada em todas as frases de efeito às quais estamos nos referindo. “Não há alternativa”, disse Thatcher. “A História acabou”, disse Fukuyama. O Consenso de Washington: tudo já foi pensado, o consenso está aí. Agora, a premissa de todas essas proclamações era que o capitalismo, o capitalismo extremo, estava conquistando cada parte do globo porque todas as outras idéias tinham sido confirmadas desastrosas. A única coisa pior que o capitalismo, nos disseram, era a alternativa a ele.
Agora, vale a pena lembrar que quando esses pronunciamentos estavam sendo feitos, o que estava desmoronando não era a democracia social escandinava, que estava prosperando, ou o estado de bem-estar social ao estilo canadense, que produziu o mais elevado padrão de vida do mundo, segundo os parâmetros da ONU, ou pelo menos até o passado recente, antes que o meu goveno adotasse algumas dessas idéias do Consenso. Não foi o chamado milagre asiático que foi descreditado, o qual construíu nos anos 80 e 90 os “tigres” da economia asiática, na Coréia do Sul e na Malásia, usando uma combinação de proteção ao comércio para nutrir e desenvolver a indústria nacional, mesmo quando isso significou impedir a entrada dos produtos estadunidenses e impedir o direito de propriedade aos estrangeiros, assim como manter o controle governamental sobre os bens fundamentais, como a água e a eletricidade. Essas políticas não criaram um crescimento explosivo no topo, como vemos hoje. Mas níveis recorde de lucro e uma rápida expansão da classe média; é isso o que foi atacado nos últimos trinta anos.
O que estava caindo e ruindo quando a história foi declarada acabada foi algo muito específico, em 1989, quando Francis Fukyama fez aquela famosa declaração, e quando foi declarado o Consenso de Washington, também em 1989. O que estava ruindo era o comunismo de estado centralizado, autoritário, anti-democrático e repressivo. Algo muito específico estava ruindo, e foi um momento de tremendo fluxo.
E foi naquele momento de fluxo e desorientação que vários espertalhões, muitos deles aqui nos EUA, colheram o momento para declarar vitória não somente contra o comunismo, mas contra todas as idéias que não fossem as idéias deles. Agora, essa foi a “audácia” petulante de Fukuyama, quando ele realmente disse – e parece tão estranho ler isso agora – em seu famoso discurso de 1989, que a significância daquele momento não estava no fato de que estávamos chegando ao fim da ideologia, como alguns sugeriram, ou a uma convergência entre o capitalismo e o socialismo, como Gorbachev argumentava, não é que a ideologia tinha terminado, mas que a própria história, como tal, tinha chegado ao fim. Ele argumentou que os mercados desregulamentados na esfera econômica, combinados com a democracia liberal na esfera política, representavam o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a forma final de governo humano.
O que era interessante e nunca realmente afirmado nesta formulação foi o fato de que havia basicamente duas correntes: havia a democracia, que podia ser utilizada para votar nos respectivos líderes, e havia um único modelo econômico. A pegadinha era que você não podia usar o voto, não podia usar a democracia com o objetivo de reconfigurar a economia, porque todas as decisões econômicas já tinham sido decididas. Era somente – era apenas o ponto final da evolução ideológica. Assim, você podia ter democracia, mas você não podia usá-la para mudar os princípios básicos da vida, você não podia usá-la para mudar a economia. Esse momento foi considerado como uma vitória para a democracia, mas aquela idéia de que a democracia não podia afetar a economia, é e permanece a idéia mais anti-democrática de nossa época.
Eu me senti atraída pelo slogan escolhido para a reunião da ASA deste ano porque acho que ela, como muitos de vocês sabem e conforme li no programa, deriva do Fórum Social Mundial. Eu estive no primeiro Fórum Social Mundial há seis anos e meio – mais de seis anos e meio, em janeiro de 2001, em Porto Alegre, Brasil. Eu era um dos poucos norte-americanos que participaram. E nos reunimos sob o mesmo slogan, mas acho significativo e interessante que na época a frase não era formulada com um ponto de interrogação no fim. Havia um orgulhoso ponto de exclamação no final da frase: “Um outro mundo é possível!”
Assim que voltei do Brasil, escrevi um artigo para a The Nation, tentando explicar aos leitores dos EUA – o evento não recebeu nenhum tipo de cobertura neste país, embora tivesse tido grande cobertura por parte da imprensa internacional – o que sentia pelo fato de estar lá com mais 10.000 pessoas. E muitas pessoas estavam dizendo sentirem que estávamos fazendo história. Escrevi na ocasião que o que senti de verdade foi que se tratava do fim do ‘fim da história’. Foi isso que senti naquela sala. Era essa poderosa rajada de vento que fazia com que a gente pudesse respirar mais profundamente. Estávamos livres para imaginar. Nossas mentes foram desatreladas.
E não foi só Porto Alegre, porque Porto Alegre foi o ponto culminante desses tipos de rebeliões espontâneas – com freqüência, rebeliões espontâneas que estavam acontecendo em todo o mundo, onde quer que os líderes mundiais se encontrassem, para fazer avançar o chamado Consenso de Washington, tanto em Seattle, na reunião da OMC em 1999, quanto nas reuniões do FMI/Banco Mundial alguns anos depois, em Washington, ou em Gênova, por ocasião do G8. E, naturalmente, os zapatistas e o MST do Brasil estavam na linha de frente.
O tema em Porto Alegre foi a democracia. Tratava-se de redefinir a democracia para incluir a economia: democracia profunda, democracia participativa. E foi um desafio confrontado com essa idéia de que essas duas correntes não podiam cruzar. O direito à terra como uma forma de democracia, o direito à biodiversidade, à mídia independente. Mas o mais extraordinário a respeito de Porto Alegre foi que – como vocês devem saber, havia alguns políticos lá, havia algumas ONGs de grande porte lá, mas as pessoas que estavam nos pódios, que estavam moldando as discussões, eram as próprias vítimas deste modelo econômico, elas mesmas descartadas, tornadas sem terra, forçadas a ocupar pedaços de terra, a destruir cercas e a plantar alimentos e tomar decisões democraticamente.
Bem, Jeffery Sachs fala desses vilarejos-modelo que ele está construindo na África. E muitos deles, como vocês sabem, estão fazendo um tremendo progresso. Mas não posso deixar de pensar nessas viagens de campo que fizemos em Porto Alegre, visitando os assentamentos do MST, onde foram as próprias pessoas, os próprios sem-terra, que nos estavam mostrando seus próprios modelos de vilarejo e que solicitavam a nossa solidariedade. E acho que como sociólogos, vocês comprendem essa distinção fundamental de que eram os atores os próprios protagonistas de sua própria história, e que isso em si já era histórico. Rompendo com o modelo caritativo de uma forma muito real.
Vejo onde estamos agora, seis anos e meio depois, e sinto que andamos para trás em muitas áreas. O debate a respeito de como consertar o mundo se tornou, assustadoramente, um negócio de elite. Davos — bem, Porto Alegre se colocava sempre em revolta contra a Reunião de Davos, no mês de janeiro de cada ano. Era o anti-Davos. Davos foi relegitimado, e agora resolver os problemas do mundo parece que é uma coisa a ser resolvida apenas entre CEOs (N.doT.: ‘presidentes de corporações’) e super-celebridades. E a idéia de que não precisamos desafiar esse grande número de disparidades, a idéia de que o que precisamos é de um tipo de ‘noblesse oblige’ em grande escala, bem, isso é muito diferente do que estávamos discutindo em Porto Alegre nos anos passados.
Sabemos o que fechou aquela janela de possibilidade, aquela liberdade que tinha sido aberta em 2001, e foi o 11 de Setembro aqui nos EUA. A janela não foi fechada em todos os lugares, mas fechou, pelo menos temporariamente, na América do Norte, aquele senso de possibilidade, o fato de se colocar no centro do debate político aquelas questões e as próprias pessoas afetadas por essas políticas. O choque produzido por aqueles ataques, e acho que podemos ver isso com alguma clareza, foi aproveitado pelos líderes deste país e de seus aliados em todo o mundo, para abruptamente encerrar a discussão sobre a justiça global que estava explodindo no mundo todo. A porta que tinha sido aberta foi batida e trancada com estrondo. Ouvimos essa frase sem parar: o 11/9 muda tudo. E uma das primeiras coisas que nos foram ditas foi de que o comércio, a privatização, a remuneração do trabalho, todas essas coisas pelas quais lutávamos até então já não importavam mais. Era o Ano Zero. Devia-se passar uma esponja e esquecer o passado. E foi ainda outro desses momentos de reinicialização da história. A História estava, aparentemente, começando de novo do zero, e nada que sabíamos até então contava mais. Foi tudo relegado ao modo de pensar anterior ao 11/9.
O governo Bush justificou isso dizendo que tudo o que importava era a segurança e a guerra contra o terror. E no Canadá, nos disseram que – pelo embaixador dos EUA – a segurança teria primazia sobre o comércio. Esse se tornou o novo slogan, que antes do 11/9 eram as políticas econômicas que dirigiam o governo dos EUA, e depois do 11/9 a única coisa que passou a importar era a segurança. Assim, as questões de justiça econômica, avidez corporativa, perda da esfera pública, todas as questões de Porto Alegre se tornavam, de repente, retrô… tão 2001.
A ironia que podemos ver agora é que, enquanto se negava a importância desse projeto econômico, o governo Bush usou a deslocação do 11/9 para perseguir exatamente o mesmo projeto radical capitalista, agora com uma furiosa vingança, sob o disfarce da guerra e dos desastres naturais. De modo que… esqueçam as negociações dos acordos de comércio da OMC. Quando os EUA invadiram o Iraque, Bush enviou Paul Bremer para se apossar de novos mercados nos campos de batalha de sua guerra preventiva. Não precisou negociar com ninguém. Apenas reescreveu a inteira arquitetura econômica do país de uma só vez. Mas, naturalmente, se alguém dissesse que a guerra tinha qualquer coisa a ver com economia, o sujeito seria tratado de ingênuo. Tratava-se, é claro, de liberar os iraquianos do Saddam…
Enquanto isso, no âmbito doméstico dos EUA, o governo se articulou rapidamente para explorar o choque que tinha tomado a nação e impor uma visão radical de governo oco, na qual tudo – de declarar guerras a reconstruir depois das guerras e a como responder aos desastres –e se tornou um empreendimento de risco inteiramente lucrativo. Isso foi uma evolução ousada da lógica de mercado. Ao invés da abordagem dos anos 90 de liqüidar as companhias públicas existentes, como as de água e eletricidade, a equipe Bush estava criando toda uma moldura diferente para suas ações. Aquela moldura era e é a guerra contra o terror, a qual foi construída para ser privada, gerenciada privadamente desde o começo. O governo Bush desempenhou o papel de um tipo de empreendedor capitalista de risco para o acionamento de companhias de segurança, e foi criado um boom econômico semelhante ao boom das companhias pontocom dos anos 90. Mas não falamos sobre isso, porque estávamos muito ocupados falando de segurança.
Acontece que esse feito requereu um tipo de processo em duas etapas, que usou o 11/9, naturalmente, para aumentar radicalmente os poderes de vigilância e segurança do estado, concentrados no poder executivo, mas ao mesmo tempo distribuir esses poderes e terceirizá-los para uma rede de companhias privadas, como: Blackwater, Boeing, AT&T, Halliburton, Bechtel, e o Carlyle Group. Nos anos 80, o objetivo da privatização – e nos 90 também – era devorar os apêndices do estado. Mas o que estava acontecendo agora era a própria essência do estado que estava sendo devorada, porque o que é mais central à própria definição de um estado, de um governo, que sua resposta à segurança e ao desastre? Esta é uma das grandes ironias da guerra contra o terror, o fato de que ela foi uma arma tão eficaz para fazer avançar ulteriormente a agenda corporativa, justamente porque ela negou que teve, e continua negando que tem uma agenda corporativa.
Mas ela proporcionou a eles um outro benefício, também, que foi a habilidade de desqualificar qualquer pessoa que se opusesse a esse sistema, e tratá-la de aliada aos potenciais terroristas, etc… Assim, nosso movimento, que já enfrentava uma férrea repressão antes do 11/9, passou a ser acusado de traidor. Olhando para trás, é claro que o choque, a desorientação causados pelos ataques foram usados para reafirmar a agenda econômica, para reafirmar aquele consenso que, na realidade, nunca o foi. A janela que tinha sido aberta no fim dos anos 90 pelo movimento conhecido como movimento anti-globalização, mas que sempre foi um movimento pró-democracia, foi trancada com um golpe seco, pelo menos na América do Norte. E foi o terror que bateu com força e trancou essa porta. As alternativas começaram a desaparecer.
Agora, gostaria de usar o resto do meu tempo para dizer apenas que essa não foi a primeira vez que isso aconteceu – se olharmos para os últimos trinta e cinco anos, veremos esta mesma batida de porta para com outras alternativas, assim que elas emergem, vez após outra. Muitos de vocês estavam aqui por ocasião do pronunciamento de Ricardo Lagos, ex-presidente do Chile, que falou sobre o outro 11 de Setembro, que foi um outro desses momentos, muito mais significativo, quando uma alternativa democrática extremamente importante, a verdadeira terceira via, e não a terceira via de Blair, mas a verdadeira terceira via entre comunismo totalitário e capitalismo extremo foi forjada no Chile. E essa era a grande ameaça.
Sabemos disso através de todos os documentos que foram desclasssificados. Um deles é realmente revelador: a correspondência entre Henry Kissinger e Nixon, na qual Kissinger diz muito abertamente que o problema com a eleição do Allende não é o que eles diziam publicamente, de que ele estava alinhado com os soviéticos, de que ele estava somente fingindo ser democrático, de que ele realmente iria impor um sistema totalitário no Chile. Esse era o pretexto na época. O que ele escreveu, na realidade, é que: “O exemplo de um governo marxista eleito e bem sucedido no Chile teria seguramente um impacto – e até mesmo um valor de precedente – para outras partes do mundo … A difusão imitativa desse tipo de propaganda afetaria significativamente o equilíbrio do mundo e a nossa [dos EUA] própria posição dentro dele”. De modo que aquela alternativa, aquele outro mundo, tinha que ser abortado do caminho, e uma violência extrema tinha que ser usada para poder terminá-lo.
Esse tipo de ataque preventivo contra nossas alternativas democráticas, o sonho persistente de uma terceira via, de uma terceira via verdadeira, surgiu muitíssimas vezes. E é sobre isso que vou discutir no livro, mas gostaria de mencionar alguns exemplos – a menos que o meu tempo aqui se tenha esgotado. (OK) — exemplos de momentos em que havia um senso similar de possibilidade efervescente de sermos capazes de respirar mais e de sonhar mais plenamente.
Um deles ocorreu na Polônia, em 1989. 4 de junho foi o dia das eleições históricas na Polônia, que elegeram o Solidariedade como o novo governo. Os poloneses não tinham tido eleições há décadas. E esse foi o evento que desencadeou o dominó – o que agora se chama de efeito dominó nos países do Bloco Leste Europeu – e que resultou, no fim, no desmoronamento da União Soviética. Mas vale a pena lembrar o que junho de 1989 realmente parecia. Na Polônia, o povo não achava que a história tinha acabado, porque tinham acabado de eleger o Solidariedade como o próprio governo. Eles achavam que a história estava apenas começando e que eles poderiam, finalmente, implementar o que o movimento, que era um movimento trabalhista, tinha sempre visto como uma terceira via, um terceiro caminho ainda não empreendido. Agora, a visão do Solidariedade não era uma rejeição ao socialismo. Eles reivindicavam um “socialismo real”, como os socialistas freqüentemente fazem, e tratava-se de uma rejeição ao Partido Comunista. Eles eram tudo aquilo que o partido não era: dispersos, ao invés de centralizados, democráticos, ao invés de autoritários, participativos, ao invés de burocráticos. E o Solidariedade tinha dez milhões de membros, o que lhe deu poder para fechar completamente o estado.
De modo que quando as pessoas foram às urnas e elegeram o governo do Solidariedade, no que elas estavam votando? Para que elas achavam que estavam votando? Será que pensavam estar votando para se tornarem uma economia de livre mercado segundo o modelo descrito por Francis Fukuyama? Não, não estavam. Elas pensavam estar votando pelo partido trabalhador que elas ajudaram a construir.
E gostaria de ler aqui uma breve passagem do programa econômico do Solidariedade, que foi aprovado democraticamente em 1981. Eles diziam: “A empresa socializada deve ser a unidade organizacional básica da economia. Ela deve ser controlada pelo conselho dos trabalhadores representando o interesse coletivo e deve ser operada – gerenciada, cooperativamente, por um diretor nomeado por meio de uma competição convocada pelo conselho das cooperativas dos trabalhadores. De modo que a idéia era tirar o partido do controle da economia, descentralizá-la e fazer com que as pessoas que estivessem executando o trabalho tivessem, na realidade, controle sobre seus locais de trabalho. E acreditavam que poderiam tornar esses locais mais sustentáveis.
Agora, será que eles tiveram a chance de tentar isso, de agir com base naquela visão de uma economia cooperativa de trabalhadores como elemento fundamental da economia, de ter eleições democráticas, mas manter ainda o socialismo? Não, não tiveram. O que tiveram foi um débito herdado, e lhes foi dito que o único modo que teriam para obter qualquer alívio da dívida e qualquer ajuda seria seguir um programa de terapia de choque muito radical. Eu estaria pecando por omissão se eu não salientasse aqui que a pessoa que prescreveu aquela terapia de choque foi Jeffrey Sachs. E eu – não, digo isso porque realmente estava esperando poder debater aqui esses mundos diferentes, porque há diferenças, há diferenças reais que não podemos deixar de confrontar.
Agora, em 2006, no ano passado, 40% dos jovens trabalhadores da Polônia estavam desempregados. Isso é o dobro da média européia. E a Polônia é apontada, com freqüência, como um grande sucesso dessa transição. Em 1989, 15% da população da Polônia vivia abaixo da linha de probeza. Em 2003, 59% dos poloneses se encontravam abaixo da linha de pobreza. Esse foi o rombo do abismo. É isso que fazem as políticas econômicas. E então, podemos dizer que estamos muito, muito preocupados com as pessoas na base, vamos puxá-las para cima, mas sejamos bem claros sobre o que queremos dizer com isso. Esses incríveis níveis de desiguldade e exclusão econômica estão alimentando, agora, o chauvinismo, o racismo, o anti-semitismo, a misoginia, e a difundida homofobia na Polônia. E acho que podemos observar, na realidade, que isso era inevitável, porque eles tentaram ter o comunismo, daí tentaram ter o capitalismo, e daí o socialismo democrático, mas o que obtiveram, ao contrário, foi uma terapia de choque. Depois que se tenta tudo isso, não sobra muito mais que o fascismo. É perigoso suprimir as alternativas democráticas quando as pessoas investem nelas seus sonhos. É um negócio muito arriscado.
Outro desses sonhos poderosos foi Tiananmen Square, e é um desses tipos de golpes de azar muito tristes da História que, no mesmo dia em que o Solidariedade ganhou suas eleições históricas e que aquele sonho foi trapaceado… aquilo para que votaram foi traído, tanques militares rolaram em Tiananmen Square, e esse foi o dia do massacre: 4 de junho de 1989. Foi outro final sangrento para um momento de possibilidade efervescente.
O modo como esses protestos foram veiculados no Ocidente foi de que os estudantes de Beijing só queriam viver como nos Estados Unidos. E eles, como vocês sabem, botaram uma deusa da democracia que parecia muito com a Estátua da Libedade. Assim, o evento foi reportado pela CNN como um protesto em prol de uma democracia de estilo pró-americano.
Mas, em anos recentes, emergiu uma análise alternativa desses eventos. E o que estamos começando a ouvir do que é chamado de a Nova Esquerda da China, e de pessoas como Wang Hui, que é um maravilhoso acadêmico, é que essa foi uma super-simplificação do que estava impulsionando o movimento pró-democrático na China, em 1989. A motivação do movimento era que o governo de Deng Xiaoping estava reestruturando radicalmente a economia, segundo as linhas que tinham sido prescritas por Milton Friedman – uma terapia econômica de choque – e que as pessoas estavam vendo sua qualidade de vida cair. Os trabalhadores estavam perdendo direitos. E estavam tomando as ruas e exigindo um controle democrático da transição econômica.
De modo que a democracia não era uma idéia abstrata. Não se tratava só do “Eu quero votar”. Era: “Queremos controlar esta transição. Queremos ter uma participação nela”. Era uma desafio direto à formulação de Fukuyama, a qual, por sinal, tinha sido feita naquele mesmo ano: a idéia de que havia essas duas correntes, mas que elas não se cruzariam”.
Queria ler uma outra coisa, sobre um desses outros caminhos que não foram tomados, porque sabemos como aquele terminou, em Tiananmen Square: foi esmagado. Outro momento histórico de possibilidade quando olhamos para a nossa História recente foi 1994, quando o governo ANC ganhou estrondosamente as eleições na África do Sul. Era uma vitória para o poder do povo. Foi um dos dias mais esperançosos de que me posso recordar.
Acho que deveríamos lembrar para que os sul-africanos achavam que estavam votando, nessas eleições históricas. Elas foram reportadas como algo muito simples: o fim do apartheid. Mas o que significava o fim do apartheid para os sul-africanos? Na realidade, podemos obter uma resposta de Nelson Mandela, que escreveu uma pequena nota duas semanas antes de ser liberado do cárcere. Ele escreveu essa nota porque havia uma preocupação crescente de que ele tinha estado por muito tempo na prisão, e que ele poderia ter se esquecido da promessa de liberação, que não era simplesmente ter eleições, mas sim mudar a economia do país e redistribuir a riqueza. E Mandela se encontrava sob uma tal pressão que precisou soltar esse breve depoimento para esclarecer esse problema. O que ele disse foi: “A nacionalização das minas, dos bancos e da indústria monopolística é a política do ANC e uma mudança ou modificação de nossos pontos de vista relativamente a essas questões é inconcebível, em nossa situação. O controle por parte do estado de certos setores da economia é inevitável”. E essa era uma reiteração da Carta da Liberdade da África do Sul, que é a plataforma da ANC, e que demanda que a riqueza nacional da África do Sul, a herança do país, sejam devolvidas ao povo, assim como a riqueza mineral, etc…
Digo isso porque esse era um daqueles mundos que não foi escolhido, uma daquelas vias que não foram eleitas. E eu passei os últimos quatro anos tentando resgatar essas alternativas, que foram roubadas e traídas da lata de lixo de nossa história recente, porque acho que isso é importante. É importante termos tido idéias o tempo todo, e sempre houve alternativas ao mercado livre. E precisamos recontar nossa própria história e compreendê-la, precisamos ter presentes todos os choque e todas as perdas, a perda de vidas, nessa história, pois a história não acabou. Havia alternativas. Elas foram escolhidas, mas daí foram roubadas. Foram roubadas através de golpes militares. Foram roubadas através de massacres. Foram roubadas através de traições, através de mentiras. Foram roubadas através do terror.
Nós que dizemos acreditar num outro mundo precisamos saber que não somos perdedores. Não perdemos a batalha das idéias. Fomos trapaceados, mas nossas idéias não foram superadas. Perdemos porque fomos esmagados. Às vezes fomos esmagados por tanques do exército, e às vezes fomos esmagados por “think
tanks”, e com “think tanks” me refiro às pessoas que são pagas para pensar pelos produtores dos tanques de guerra. O mais eficaz é quando os dois se unem em parceria. A busca para impor um mercado mundial único registra, agora, vítimas aos milhões, do Chile de então ao Iraque de hoje. Os planos para um outro mundo foram esmagados e desapareceram porque eles eram populares e porque, quando postos em prática, funcionam. São populares porque têm o poder de dar a milhões de pessoas uma vida com dignidade, com as necessidades básicas garantidas. São perigosos porque colocam limites reais aos ricos, que reagem de acordo. Compreender essa história, compreender que nunca perdemos a batalha das idéias, que somente perdemos uma séria de guerras sujas, é fundamental para construir a confiança que nos falta e acender a intensidade de paixão de que precisamos.
AMY GOODMAN: Naomi Klein, autora do livro que sairá em breve: “The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism” (A Doutrina de Choque: o Avanço do Capitalismo de Desastre”)

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