terça-feira, 18 de novembro de 2008

Daniel Dantas no banco dos réus

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Editorial do portal Vermelho

Os cidadãos que ainda se dão ao trabalho de acompanhar as peripécias do Caso Satiagraha vão se convencendo de que há ali algo de cada vez mais podre e malcheiroso. A julgar pela opinião publicada, o delegado Protógenes Queiroz, que deflagrou aquela operação da Polícia Federal, tornou-se agora o vilão. Enquanto o banqueiro Daniel Dantas passou de acusado a vítima.

O caso volta à baila na semana em que Dantas será julgado por um crime – tentativa de suborno – em que foi pilhado em flagrante: o episódio foi gravado pela PF. E será julgado pelo juiz Fausto Martin De Sanctis, da 6ª Vara Federal de São Paulo. Uma tentativa de afastar o juiz naufragou nesta segunda-feira no Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

De Sanctis tornou-se conhecido em julho, por decretar, por duas vezes, a prisão do dono do banco Opportunity. Primeiro por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal e formação de quadrilha. E em seguida pela tentativa de suborno, que será julgada nesta quarta-feira (19).

O banqueiro chegou a passar algumas horas preso, em 8 de julho, antes de beneficiar-se com dois fulminantes habeas corpus concedidos pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Este mês o Supremo respaldou a decisão de Mendes, por nove votos a um. Os ministros acusaram De Sanctis de autoritário, insubordinado, desequilibrado e insolente.

Do Supremo à mídia dominante e à bancada tucano-demista na CPI dos Grampos, sobem os gritos de ''pega ladrão!'', imitando a fábula. O caso se inflama e infecciona, carregado de toxinas.

Conceda-se ao dono do Opportunity o tratamento-padrão democrático de que todos são inocentes até o devido julgamento em contrário. Admita-se que a condenação de Dantas pela opinião popular vem menos de um conhecimento circunstanciado das acusações que pesam sobre ele (em grande medida escamoteadas ao público) e mais da impopularíssima condição de banqueiro. Aceite-se que agentes da PF possam ter exorbitado das funções que deles se espera na nova condição republicana atribuida ao órgão após 2003.

Ainda assim o odor pestilento invade as narinas e impregna a suspeita alimentada por incontáveis antecedentes: Dantas pode se safar. Ainda que De Sanctis não vergue; ainda que tenha a solidariedade explícita de centenas de outros juizes; ainda que conte a patente simpatia dos brasileiros (que, curiosamente, nenhum instituto de pesquisa se interessou em medir). Pode se safar porque o sistema é assim, feito para punir ladrões de galinha, jamais banqueiros. Crime de rico a lei encobre.

Vistas as coisas pela ótica da esperança, já será inusitado que Daniel Dantas, com tantos e tão poderosos padrinhos, esteja quarta-feira no banco dos réus. A esperança é assim teimosa: graças a ela o ceticismo mil vezes confirmado não se desnatura em cinismo estéril e embrutecedor.

Fonte: Vermelho

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